Um livro por semana 62

«Diário da peste de Londres» de Daniel Defoe

Em 1665 terão morrido de peste mais de cem mil pessoas em Londres. Este livro reproduz o que Henry Foe, tio de Daniel Defoe, terá escrito durante esse tempo terrível. Regista-se o aparecimento de bruxos: «Todo este comércio se generalizou a tal ponto que era proverbial encontrarem-se dependuradas das portas tabuletas e letreiros assim concebidos: «Aqui mora um adivinho», «Aqui habita um astrólogo», «Aqui fazem-se horóscopos» e outras coisas do género.» O autor refere o que passou na sua casa: «Só tinha em casa uma velha governanta, uma criada, dois aprendizes e eu; e quando a peste principiou a crescer em volta de nós, sombrios eram os pensamentos que eu ruminava sobre a atitude que devia tomar e a maneira como agir». O medo dos habitantes de Londres levava-os ao desespero: «Havia mães que no delírio matavam os filhos e pessoas que morriam de dor ou muito simplesmente de medo ou de pânico sem qualquer infecção; e outras a quem o medo imbecilizava ou tornava insensíveis, quando as não lançava no desespero ou na demência ou ainda numa loucura atrabiliária». Um outro aspecto tem a ver com as actividades comerciais: «nenhum navio entrava ou saía do porto como antigamente e os marítimos, sem emprego, haviam caído na mais negra miséria. Com eles contavam-se os carpinteiros navais, calafates, cordoeiros, tanoeiros, veleiros, serralheiros de âncoras, poleeiros, escultores de madeira, armeiros e abastecedores de bordo.»

(Edição: Bonecos Rebeldes, Tradução: João Gaspar Simões, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Dica

Não sei se repararam, mas o acontecimento televisivo mais importante dos últimos (vá lá) dez anos está neste preciso momento a acontecer num horário que há muitos anos não dedicava a ver televisão. Não é apenas um acontecimento importante: é um autêntico milagre. Daqueles que emociona. Se o regresso à boa forma do Herman José era algo que já não fazia parte do meu universo de expectativas (para mais no reciclado formato de um saudoso concurso televisivo), que dizer ao facto (para mim, inegável) do maior génio do humor português estar a caminhar perigosamente para a sua mais leve, divertida, politicamente incorrecta, inteligente e paradoxalmente contida performance televisiva de sempre? A sério, vejam o programa. De 2.ª a 6.ª, por volta das 19h15. Na SIC.

Vinte Linhas 281

O centenário do Benfica passou quase despercebido

No passado dia 13 de Setembro aconteceu uma coisa só possível em Portugal. O Sport Lisboa e Benfica atingiu os cem anos de vida mas não houve quaisquer celebrações. Nem na TV nem nos jornais ditos desportivos que são três nem na rádio ouvi qualquer referência à efeméride. Só mesmo em Portugal é que é possível um clube festejar o centenário quatro anos antes da data. Sabemos todos, que o Sport Lisboa e Benfica festejou o centenário em Fevereiro de 2004 perante a silenciosa conivência dos jornais desportivos diários. Os mesmos jornais para quem é mais importante o joelho do jogador Mantorras do que a falência da SAD do Farense, o clube mais representativo do Algarve. A verdade em história só existe com documentos e o primeiro documento a referir-se ao Sport Lisboa e Benfica tem data de 13 de Setembro de 1908. Faz agora cem anos. Em 1904 foi fundado o Sport Lisboa cujo emblema tinha uma águia e uma bola; em 1906 foi fundado o Grupo Sport Benfica cujo emblema tinha a bola e a roda da bicicleta. O novo clube, nascido em 13 de Setembro de 1908, juntou no seu emblema a águia e a bola do Sport Lisboa e a roda da bicicleta do Grupo Sport Benfica. Esta monstruosa manipulação da história só não teve eco na página 9 do «Diário de Notícias» do passado dia 13 que, discretamente embora, chama a tenção para o facto ter sido em 1908 que surgiu o nome do Sport Lisboa e Benfica. Antes não havia nem esse nome nem esse emblema nem esses estatutos. Por isso não faz sentido festejar um centenário aos 96 anos. Mas num país com uma imprensa desportiva completamente narcotizada pelo medo das direcções de alguns clubes tudo é possível. Até o centenário do Benfica passar quase despercebido.

O segredo da longevidade

Sinto cansaço, apenas. De fazer a barba todos os dias, de levantar, vestir, tomar banho, pequeno-almoço, comer, mastigar, engolir. Tudo isso, essas coisinhas fáceis e corriqueiras, mas que são sempre as mesmas. É sempre a mesma coisa, a mesma ordem, ver a televisão. Tudo isso é uma chatice.


A única coisa que me consola e onde eu posso descansar, verdadeiramente descansar, é quando estou a realizar um filme. Nem quando estou a escrever fico animado. Se vem a ideia, tudo bem, mas se não vem, fico muito inquieto. Depois, quando vem a ideia, é-se feliz e escreve-se. Mas é enquanto realizo que sinto a paz e o sossego. Esqueço que tenho de me levantar cedo, esqueço-me de comer, esquece-me tudo. E estou ali.

Faço filmes, são as minhas verdadeiras férias.

__

Manoel de Oliveira, em entrevista.

Eis um homem que só descansa quando está a trabalhar. E que explodiu criativamente aos 70 anos, entrando num ritmo alucinante que já regista 35 projectos desde 1979, ano do Amor de Perdição. É um exemplo de como, e de quanto, a nossa relação com o trabalho e com a idade está completamente errada. O mais comum é tropeçarmos nos que se queixam por terem de trabalhar (no que são mentirosos ou burros, pois ninguém precisa de trabalhar), não sendo tampouco capazes de descansar nos períodos de descanso (no que são burros ou mentirosos, pois só não descansa quem tem mais o que fazer), mas este homem encontrou no ganha-pão o vinho da sabedoria. E foi aperfeiçoando a fórmula. Porque não há limite para a fruição e busca de sentido.

arrisca perder o medo — confia no infinito que te foi dado antes de nasceres — salta para cima da eternidade e brinca — viver muito tempo é viver muito o tempo

E ’tá feito, não mexe mais: é este o segredo da longevidade (ou quase). Só faltas tu para ficar completo.

Um livro por semana 63

«Pranto por Vila Viçosa» de Rui Caeiro

Vila Viçosa é a personagem deste livro: «Na minha terra, doce, amarga e viçosa, na minha terra, digo, sobre a minha terra foi escrito este livro. A duzentos quilómetros dela.»
Numa viagem ao passado («estou diante do puro passado, realidade primeira, esteio de todos os meus presentes») o autor começa por recordar as classes sociais: «Na minha terra havia os burgueses, os pobres e os pobrezinhos. Não se podiam ver uns aos outros.»
O mundo dos homens nem sempre coincidia com o das mulheres («as mulheres iam à igreja, os homens à taberna») embora fosse sobre as mulheres que recaíam as tarefas de prover à subsistência: «Se havia pão, faziam açorda de poejos; se não havia pão, mera sopa de poejos.» Vila Viçosa é paisagem («o vento, o sol, a chuva, o calor, o frio, eram mais amáveis») mas também povoamento: «Na minha terra há muita gente. Mas eu cá aconselhava-os a todos a, na medida do possível, passarem mais despercebidos.»
Tudo começa numa casa: «Na minha terra há uma casa que não me pertence, eu é que pertenço a ela. Foi vendida a casa dos meus avós e – ó Álvaro de Campos – o que eu sou hoje é também terem vendido aquela casa…»
A memória do autor envolve não apenas o seu mundo («Na minha terra nasceu gente ilustre. Públia Hortênsia de Castro, Florbela Espanca, Henrique Pousão, Bento de Jesus Caraça.») mas o mundo à sua volta: «Havia um homem que chorava, sabe-se lá por quê e havia um garoto que saudava despreocupado o ar fresco da manhã, a praça vazia, a dor de um homem. Ao mesmo tempo que ia passeando a sua meninice e, não tendo mais remédio nem alternativa, olhava e aprendia.»

(Posfácio: Vítor Silva Tavares, Depositária: Livraria Letra Livre)

Afinal, havia outro

Não sei o que se passa entre o Paulo Bento e o Vukcevic. Sei é que o montenegrino é um dos jogadores mais importantes de sempre a passar pelo Sporting. Pois ele é um Sá Pinto, e pensava-se que o molde já se tinha partido. Os adeptos amam este jogador, porque este jogador ama o futebol. Daí os golos que marca: improváveis, manhosos, repentinos, espectaculares, de ranço, à maluca. E o que faz em campo por fidelidade ao suor da camisola, as idiotices que quase lhe custaram a carreira: como aquela lesão no ombro nascida de um malabarismo despropositado, inútil, gratuito, circense, vaidoso, infantil. Mas teria de ser assim, pois é assim que ele é. É assim que ele nos dá lições de vida, ensinando que só vale a pena ir para o campo na disposição de voltar a inventar o futebol a cada jogada. Para ele, ser o melhor é libertar a intuição e querer muito, mas muito, marcar golo. Fácil demais, esta filosofia vukcevicaniana? Errado, demasiado difícil; tanto que são raros os que a praticam. O comum em Portugal é o jogador convencional, medroso, sem peito nem destino. Vukcevic exibe um desprezo pelo calculismo que devia ser a verdadeira marca dos jogadores formados no Sporting. Se depois se ganha ou se perde, isso já é com os deuses. Ao guerreiro, o coração de leão.

Paulo, resolve lá isso. E rápido.

A arte de ser nojento

Eduardo Cintra Torres assina um texto — publicado neste 13 de Setembro no P2, caderno do Público — com o título Achtung! Habituem-se! Gulag! Trata-se de um repto dirigido aos jornalistas, a toda a sua classe. Podemos lê-lo a partir de um ponto de vista clínico, e reconhecer nas palavras os sinais da paranóia em grau psicótico. Ou podemos lê-lo pelo lado da responsabilização, e concluir que o autor domina a arte de ser nojento. É esta última a minha opção, posto que não tenho autoridade psiquiátrica.

Comecemos com calma, pela moda mais popular entre publicistas com dificuldades na ligação à Internet:

Habituem-se a ler uns “anónimos” profissionais em blogues dizendo as “opiniões” da central de propaganda. Habituem-se a criticar a oposição e a não criticar o governo.

Estas duas frases constituem um parágrafo. Um parágrafo, convém lembrar, corresponde a alguma unidade de raciocínio. O mesmo acontece numa frase, onde diferentes elementos conceptuais são postos em relação, sendo essa operação que dá azo à substância do pensamento. Munidos destas noções básicas, podemos constatar, com infalível certeza, que ECT pensa e afirma publicamente o seguinte:

Há profissionais contratados para veicular como “anónimos”, em blogues, “opiniões” favoráveis aos interesses do Governo.
Os jornalistas não possuem os mecanismos para detectar esses profissionais “anónimos”, nem possuem os recursos para resistir a essas “opiniões” oriundas de uma central de propaganda. Ou, caso os possuam, por alguma razão não estarão a dar uso a essas capacidades.
Os jornalistas, ao conhecerem as “opiniões” dos “anónimos” contratados para emitirem em blogues as directivas da central de propaganda, passam a criticar em exclusivo a oposição, nunca mais criticando o [sic para a caixa baixa] governo.
A leitura de blogues é, assim, causa de falhas no profissionalismo, deontologia e ética dos jornalistas.

Repito que se trata apenas de um dos parágrafos do texto, e logo o mais curto. Todavia, consegue o notável feito de reduzir a classe dos jornalistas a um corpo lobotomizado ou escravizado ou cobarde ou vendido, ou tudo isto à vez e à molhada. E faz acusações genéricas, vagas e confusas — na verdade, primárias e grotescas — sem apresentar uma única prova ou pista, sequer local do suposto crime. Tudo indica que ECT ignora que os blogues políticos com mais audiência são os da direita, onde se inclui o do seu mentor Pacheco Pereira, o qual até já veio admitir que o Abrupto vale mais do que uma secretaria de Estado. E também parece altamente provável não ter ninguém avisado ECT da existência de blogues muito frequentados à esquerda do PS, onde a crítica ao Governo é ainda mais feroz e erosiva do que nos blogues de direita. Somando os blogues com mais audiência, ou audiência relevante, à direita e à esquerda, não fica nenhum — atente-se: nenhum — onde apareçam “anónimos” com “opiniões” a cheirar a central de propaganda. Ou será que ele se refere a eventuais comentários nas caixas dos ditos, sendo aí que actuariam os agentes a soldo do Governo? Enfim, de que estará este louco a falar?

Continuar a lerA arte de ser nojento

Um livro por semana 68

«Gramática Histórica» de Liberto Cruz

Trata-se de uma reedição revista e aumentada do livro original de 1971, uma edição semi-clandestina impressa no Funchal e assinada com o pseudónimo de Álvaro Neto. Dois aspectos tornam este livro exemplar: a publicação de «poemas concretos» como «Dolor Dollar», «Grelha Vocálica» ou «Homenagem a Winfredo Bonifácio» e de poemas dentro da nossa antiga linha do «escárnio e mal dizer». Como por exemplo este poema:
«governo permanente / povo doente / coragem ausente / ditadura vigente / castração evidente / nação indolente»
Ou então este: «Um gajo sem cunhas pediu uma Bolsa. / Nicles, claro! / Dizem que ficou com uma grande cachola. / Que artolas!»
Ou ainda este: «Em Portugal haver mocidade portuguesa / é um pleonasmo a evitar»
E ainda este: «A região é pobre. /O país não precisa de partidos. /O nosso povo é frugal.»
Sem esquecer este: «É um grande prazer estar entre esta gente calma, paciente, ordeira, resignada, crente, esta gente bem portuguesa.»
E por fim este poema síntese: «Um verdadeiro português contenta-se com um quarto de pão e uma sardinha assada.»
Vejamos também uma divertida incursão no tempo actual; no poema «S» português:
«Sertório / Sebastião / Saldanha /Sidónio / Salazar / Spínola / Sá-Carneiro / Soares / Sampaio / Santana / Sócrates». Para quem não conhece a edição de 1971 aqui está uma verdadeira descoberta; muito para além do título – está aqui um certo tempo português.

(Editora: Roma Editora, Prefácios: Haroldo de Campos e João Fernandes, Capa: J. Rogeiro)

A blogosfera vai de Arrastão

O Arrastão cresceu, sendo que a alteração mais dramática consiste no abandono do vermelho comuna por troca com o azul (ou será verde?) Aspirina B. Sinal dos tempos. Outra transformação digna de referência, embora menor na comparação, consiste na mudança de estatuto, passando a blogue colectivo com as entradas de Pedro Sales e Pedro Vieira. Também a merecer atenção é o anuncio da Santa Aliança, agregador de 17 blogues ditos de esquerda. Nisto tudo há a mão, e a boa cabeça, do Paulo Querido, infatigável no empreendedorismo e inovação com que vai moldando a paisagem da blogosfera portuguesa.

Aplauso para todos.

Um livro por semana 76

«Do tempo sitiado» de Paulo Ferreira Borges

Paulo Ferreira Borges pertence à família dos poetas (como Vitorino Nemésio) para quem a Geografia vale mais do que a História. Pataias, Caldas da Rainha, Nazaré, Óbidos, Foz do Arelho, Salir do Porto, S. Martinho do Porto, Paredes da Vitória, Peniche, Vale Furado, Ilha da Berlenga, Alcobaça, Praia da Consolação, Leiria, S. Pedro de Muel, Praia da Légua e Santa Catarina – são os lugares dos poemas deste pequeno/grande livro.
De um lado temos a terra, veja-se poema da página 27: «As mães trazem cerejas numa cesta de vime / Nas noites de vésperas, os seus dedos / cheiram a pão-de-ló, a erva-doce, a canela, / a raspa de limão, e nos seus olhos vertiginosos / derrama-se uma cor de fogo escuro, semelhante / à do licor de ginja que dorme na paciência de vidro / das garrafas depois de incorporar as últimas pétalas de sol.» Do outro lado temos o mar, como na página 44: «As traineiras escoavam dos olhos / os seus nomes marejados. Amor de Mãe. / Celacanto. Estrela da Tarde. Nossa Senhora da Nazaré. / Três Irmãos. Xixão. Refrega. / E no rosto penitente de uma / sobrevivente de fainas e virações / incandescia-se de sal um epigrama / ou um lampejo: Olhos de Deus. / Claríssimos tons / na avidez das águas.»
Só um poeta no completo domínio da sua escrita pode assinar este poema: «As mulheres tinham varandas, pequenas cercanias / que se prolongavam dos olhos, da boca, do ventre / onde penteavam os seus longos cabelos pretos / e se punham a pensar, a tecer os filhos, a estender a roupa branca / com uma mola de madeira apertada nos dentes. / Nas varandas mais recônditas / as mulheres labiavam preces, terçavam promessas / intercediam, mediavam, nutriam as lamparinas / de azeite, até ao dia em que os filhos / regressavam das guerras ou de outras tormentas. / As mulheres tinham varandas. E quando morriam / era numa toda envidraçada / que dava para dentro dos seus corações.»

(Editora: Textiverso, Capa: Aguarela de Mário Botas, Patrocínio: Junta de Freguesia de Pataias)

A boceta de Palin

As eleições presidenciais norte-americanas são demasiado importantes para serem deixadas apenas nas mãos dos eleitores norte-americanos. E estes precisam da nossa ajuda, de toda e qualquer ajuda — como se vê pelos resultados das duas eleições anteriores. Que ninguém se iluda quanto ao que está em causa: voltar a ter uma Administração responsável depois de 8 anos desgraçados. Aqueles que julguem não ter capacidade de influência por falarem ou escreverem em português para portugueses, ou em chinamarquês para chinamarqueses, que façam o favor de meter os cornos num alguidar com água e pedras de gelo. Acordem! O que o Mundo quer — ou seja, do que o Mundo carece — vai ser tido em conta por um decisivo grupo de eleitores: aqueles Republicanos que vão votar Obama por amor maior ao seu país do que ao seu partido.

Se McCain ganhar, Sarah Palin será aclamada como uma escolha genial, uma jogada de mestre ou um golpe de sorte só ao alcance dos eleitos. Mas Sarah Palin continuará a ser Sarah Palin, isso é certo. E isso é de loucos. Porque a opção por esta mulher é uma irresponsabilidade nascida do desespero e da megalomania. Não há absolutamente nada no seu currículo que a qualifique para a função, a não ser um voluntarismo néscio e narcísico. A menos que a sua vida se limite às leituras de discursos escritos por outros, quando tiver de expressar as suas ideias ninguém saberá o que vai sair, ou em que guerra ameaçará entrar. Não se vislumbra um único aspecto do seu ideário e prática politica que tenha a mais vaga relação positiva com os problemas contemporâneos e globais. É ao contrário: ela parece talhada para fazer política reaccionária e anacrónica num canto perdido dos Estados-Unidos — por exemplo, no Alasca.

Continuar a lerA boceta de Palin

Desafio ao Pacheco Pereira

É interessante ver a sanha com que Manuela Ferreira Leite é atacada pelos donos e empregados das agências de comunicação que pululam nos blogues, muitas vezes sem se identificarem como tal. Compreende-se bem: para eles seria insuportável que um político obtivesse resultados sem a ajuda dos “profissionais” de comunicação.

Quero saber quem são esses donos e empregados das agências de comunicação que não se identificam como tal. Quero saber o que justifica o uso do verbo pulular. Quero saber de que blogues falas. Quero saber se os requisitos para ser suspeito de ter emprego em agências de comunicação se resumem à publicação de opinião contrária aos interesses de Manuela Ferreira Leite ou de quem a apoia. Quero saber se vais denunciar os casos, presentes ou futuros, em que as agências de comunicação trabalham para políticos e empresários do PSD. Quero saber se és responsável pelas tuas palavras. Quero saber se estás a dizer a verdade ou a mentir.

Um livro por semana 79

«Lavagante» de José Cardoso Pires

No dia 1-5-1962 houve em Lisboa uma grande manifestação popular: muita pancadaria, tiros, mortos, feridos, correrias, cacetada brava, o carro da água e o da tinta azul que sujava tudo e marcava os manifestantes. É nesse tempo e nesse espaço que decorre a acção desta narrativa que tem o subtítulo de «encontro desabitado». Cecília («cabelo claro, busto pequeno, pernas e pés sólidos, uma fria altivez») encontra Daniel num café de estudantes e diz-lhe sem mais nem menos «Importa-se de me levar a casa?» acabando por «ficar uma hora dentro do carro a conversar». Os dois falam de si e do mundo: «Estamos em plena Idade Média com astronautas a voar por cima de nós». Nesse dia 1-5-1962 «enquanto Daniel tratava dos feridos e a cidade andava em guerra, Cecília, no seu quarto de mulher só, fumava cigarros atrás de cigarros». Daniel esteve preso 52 dias e foi libertado ao 53º dia com uma carta de Cecília que explica tudo: «Não me podes levar a mal. Perder-te! Vê tu ao que eu cheguei: perder-me para te salvar! Cheira a fado lamechas que tresanda mas que queres?». O PIDE a quem Cecília se entregou em troca da libertação de Daniel é o lavagante, o animal «de tenebrosa memória, paciente e obstinado que, depois de alimentar o safio e de o ver engordar vem, de garras afiadas, devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo».
Dez anos depois da morte (apenas civil) de José Cardoso Pires a publicação deste inédito surge num duplo registo: descoberta para o leitor actual e homenagem a um grande escritor português.

(Editora: Edições Nelson de Matos, Capa Paulo Condez, Ilustração: Sónia Oliveira, Fixação de texto: Ana Cardoso Pires)

O Insurgente tem boa pinga

Estava longe de imaginar a dimensão da bebedeira no Insurgente. Começou com esta coisa que não se percebe ao que vem, mas que se entende vir da iliteracia, passou pelo encadeamento das borboletas, e recebeu uma extraordinária confissão:

Quem citou fui eu, por achar piada às implicações das frases; e não falei em esquerda, muito menos extrema. Não conheço o citado nem as suas inclinações geométricas. O que não impediu o próprio de me etiquetar de iletrado e ultramontano...

Quem o afirma é Miguel Botelho Moniz, com inigualável candura. Temos, assim, que esta figura reconhece publicamente estar à vontade para fazer duas citações de alguém que não conhece; a que acrescenta — shame on you, Migas — igual desconhecimento das suas inclinações geométricas. Mas, lá está, como achou piada às implicações (??) das frases, tendo até ido buscar umas delas a um comentário feito fora do Aspirina — o que revela aturada investigação e interesse — toca de carimbar de preconceituosas e (ultra)relativistas as mesmas. Tem isto algum mal? Nenhum.

Nesse espírito, não se devia ter permitido o lance narcísico em que de um título simétrico deduz uma adjectivação fulanizada. Falar em “iliteracia” e “(ultra)montanismo” não implica atribuir a um sujeito essa condição, pode ser apenas uma referência contextualizadora da acção ou endosso circunscrito a um objecto (no caso, textual — fica a ajuda à interpretação). Seja como for, e deixando esta importantíssima questão de lado, constata-se que a embriaguez aumentou e deu nisto. E o que é isso? É a minha vez de fazer uma confissão: não sei, nem faço ideia. Mas deve ser fixe, pois o 1º comentário estipula estarmos perante um Grande post. :), com smiley e tudo de modo a não haver confusão. Vou acreditar neles, e fazer coro: Grande post, enorme. ;)

Mas, ó Miguel Botelho Moniz, já que aqui estás, deixa-me lembrar-te que afirmar-se de algo, ou de alguém, que é (ultra)montano não equivale a dizer-se de alguém, ou de algo, que é ultramontano. Estou certo de que irás acabar por aceitar este decisivo raciocínio, mesmo que não seja à primeira.