Paulo Portas é gay

A manchete do Correio da Manhã, acima exibida, não é um exemplo de sensacionalismo, porque a noção de sensacionalismo não chega para descrever o acto. Sensacionalismo seria ter feito um título como este: Grupo de jovens quer imitar PCC. Isto já seria exagerado e incorrecto o suficiente para despertar os instintos selvagens. Mas o que lemos é uma afirmação que junta os termos máfia, favelas e Portugal de forma assertiva. A notícia fala em centenas de brasileiros, estabelecidos na Margem Sul, organizados em bandos criminosos e apresentando perfis psicológicos de psicopatas sem recuperação. Estamos, então, perante um acto de terrorismo cívico, onde os responsáveis pelo jornal intencionalmente exploram as insuficiências educativas e disfunções cognitivas de largas faixas da sociedade. É triste, e jamais deixarei de me surpreender: constatar que há quem tire proveito da miséria.


O Pew Research Center divulgou há dias um relatório onde mostra que o anti-islamismo e o anti-semitismo estão a aumentar na Europa. Para o que aqui interessa, interessa citar este passo:


A notable parallel between anti-Muslim and anti-Jewish opinion in Western Europe is that both sentiments are most prevalent among the same groups of people. Older people and those with less education are more anti-Semitic and anti-Muslim than are younger people or those with more education. Looking at combined data from France, Germany and Spain – the three Western European countries where unfavorable opinions of Jews are most common – people ages 50 and older express more negative views of both Jews and Muslims than do those younger than 50. Similarly, Europeans who have not attended college are consistently more likely than those who have to hold unfavorable opinions of both groups.

Mutatis mutandis, o mesmo pode ser dito do racismo e da xenofobia em Portugal. Obviamente, os mais frágeis – psicológica, social e intelectualmente – são igualmente os mais fáceis de serem manipulados e virem a caír na irracionalidade instigada pelo ambiente político-mediático. A demografia de um PNR está aí circunscrita, sem surpresa nem alarme. Até mereceram a homenagem de serem gozados pelos Gatos Fedorentos. Mas quando partidos como o CDS, até o PSD!, alinham pela mesma irresponsabilidade, atingimos esta ironia trágica: há queixas contra o crime que mereciam queixas-crime.

Uma equipa de investigadores da University of Nebraska–Lincoln reforçou a hipótese de existir uma raiz biológica nas opções políticas. A sua investigação mostra que os indivíduos identificados com a direita tendem a ser os mais susceptíveis a ficarem assustados, por comparação com os que se identificam com a esquerda. Estes resultados são coerentes com os seus corolários políticos:

For the first time, political scientists show that people who are physiologically highly responsive to threat are likely to advocate policies that protect against threats to the social unit: favoring defense spending, capital punishment, patriotism and the Iraq War. In contrast, people who are less startled by sudden noises and threatening visual images are more likely to support foreign aid, liberal immigration policies, pacifism and gun control.

Não se pode fugir à conclusão: o pessoal da direita é mariquinhas. Também dá para concluir que o pessoal de esquerda é tonto, nem se apercebendo do perigo. Podemos ver aqui uma sempiterna tensão, e tenção, entre o conservadorismo e o progressismo, entre a pureza e a mistura, a mesmidade e a alteridade, rotina e aventura. E devemos estar constantemente alerta contra a fortíssima tentação de fazer simplismos e reducionismos, erro comum na transposição não científica dos dados biológicos para a dimensão mental e cultural.

Mas podemos cruzar estas notícias e voltar à máfia das favelas, vendo mais fundo: quando partidos e órgãos de comunicação social se permitem aumentar a insegurança através do incitamento ao preconceito e à paranóia, estão a atacar os próprios fundamentos do Estado de direito, pois transmitem a ideia de que as autoridades são incapazes da defesa dos cidadãos. É chocantemente grave o que PSD e CDS fazem, em total contradição com o seu historial, doutrina, missão e personalidades de referência na vida cívica em Portugal. Grassam a cobardia e a insânia na oposição, parecendo que a única atitude possível para estes patéticos e decadentes dirigentes partidários é a do ódio ao Governo. Mais uma razão para valorizar esta edição do Clube de Imprensa, de 17 do corrente, dedicada à criminalidade em Portugal; e onde Rui Marques está num registo de rigor, detalhe e idealismo que tem toda a vantagem em instituir como marca do seu partido. Será crime não ver.

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Ah, e já ouviste por aí o boato de que Paulo Portas é gay? Pois afinal é, vê lá tu. Ou seja, para mim é, sem qualquer dúvida. A palavra gay comporta vários significados, muitíssimos. Tem origem francesa, ou alemã, mas passou há séculos para a língua inglesa com atributos semânticos que a tornam sinónima de alegre, vivo, colorido, espalhafatoso, devasso, libertino, jovial, brilhante. E de tantas outras palavras, tantas. Recentemente, o termo gay passou a ser muito usado pelos adolescentes norte-americanos (portanto, por todos os adolescentes que tenham acesso à Internet) também como adjectivo sinónimo de estúpido, foleiro, infantil, inapropriado.

Tomemos estas frases:

O disparar da violência, por todo o lado e a qualquer hora, ameaça a liberdade pessoal e a integridade patrimonial e até física de cada um de nós.

Em ambos os casos, aumenta a frustração dos cidadãos com a política: os dados de economia são um rosário de promessas não cumpridas; os dados da criminalidade espelham a inoperância das instituições. Nós fazemos parte dos que pensam que é revoltante a agressividade com que o Estado trata quem trabalha – por exemplo, a nível fiscal – e a condescendência com que o mesmo Estado trata quem é delinquente – por exemplo, a nível penal.

Em nenhum momento do Estado Democrático a realidade do crime e da sua impunidade atingiu as proporções actuais.

A partir delas, posso dizer que Paulo Portas me aparece como um político vivaço, pomposo, ladino e supinamente estúpido. Ou seja, acho que ele é gay. E cá está o poder das palavras em acção na via pública, com a sua desvairada ambiguidade, evolução e consequências. Sensacional, não é?

20 thoughts on “Paulo Portas é gay”

  1. Brilhante exercício de ironia. Podia chamar-lhe «Escrever direito por linhas tortas». Ou então: «Rabo escondido com gato de fora». Ou então: foi na mouche! como diz um sonoplasta meu amigo quando lhe agradam as minhas crónicas.

  2. Vê lá o que arranjas, Val, o Portas ainda te dá “umas bengaladas”, como o gajo ameaçou fazer quando o Candal falou do lobby gay. Claro que não passou aos actos. Segundo o Carlos Candal, porque não tem onde apanhar uma bofetada.
    Eu não sei se o Portas é gay ou se tem lá em casa uma cabeleira à Catherine Deneuve. Dizem que sim, mas não tenho nada a ver com isso. Cada um usa a gaita e o pandeiro para tocar a música de que mais gosta. Sei, em contrapartida, que o Portas é um demagogo populista barato que se dá ares de gente fina, um trafulha político que está sempre na mó de cima, apesar de nunca ter explicado coisas feias que fez na vida, como aquele fotocopianço de 60.000 páginas de documentos confidenciais quando saíu do Ministério da Defesa. Como é que toleram à frente do partido “democrata cristão” um meliante destes, um aldrabão que durante um ano nem sequer informou os militantes do seu próprio partido da demissão do vice-presidente? Diga-se que o vice também não denunciou a marosca durante um ano…

  3. O Portas e o Correio da Manhã pertencem ao hemisfério da baixa demagogia, da aleivosia, da agitação tendenciosa. Rui Marques parece pertencer ao hemisfério da política séria, da fiabilidade, da razoabilidade. Só é pena é estar a liderar essa espécie de novo PRD, que é um engano.

  4. E o Caso Moderna, devidamente encerrado quando se descobriu que o money tinha ido parar a uma empresa familiar com a mamã? E o caso Casa Pia montado como revanche e encenação? E o caso dos submarinos de que já não se fala?

    somos todos cúmplices por omissão, parece,

    O psd era os fogos florestais e os negócios da pasta e dos meios aéreos para atiçar fogos, não era para apagar, com uma doutrina académica por detrás que metia erros científicos que chumbavam qualquer aluno, assinado por catedráticos claro está.

    Nojo!

    mas não tem nada a ver com opções sexuais, que nem são opções, são modos de ser

    entre os homo como entre os hetero há de tudo

  5. val,
    Bela trança, de artista o pentear. É esse ‘poder das palavras em acção na via pública, com a sua desvairada ambiguidade, evolução e consequências’ que se vai esboroando aos poucos, muitos. Vai-se sem volta, nesta urgência de dizer coisas que esta gente revela para assim carregar, sem mãos, nos botões que temos e somos todos nós. É sabido que o povo não prima pela iluminação espiritual na hora de dar ouvidos ao senso, sobretudo se a hora é de medo. Pois mesmo depois deste teu bordado, a minha dúvida persiste: será que esta gente nunca leu o ‘Pedro e o Lobo’, caramba??? Ou será que o problema é mesmo esta gente toda ter lido o ‘Pedro e o Lobo’?? Caramba!!!

    (Ao leres as três vezes que usei ‘esta gente’, tem presente que o fiz estando ‘alerta contra a fortíssima tentação de fazer simplismos e reducionismos’. Juro.)

  6. Plenamente de acordo!

    Repugnante o “Correio da Manhã” (mesmo sabendo nós a quem ele se dirige, porque afinal “essa gente” que o compra e lê também vota…), mas inaceitável, mesmo, foi a TSF, sim, que passou a manhã desse dia a propalar, sobre o assunto, dois comentários absolutamente incompatíveis e que urgia clarificar: de um lado um diplomata brasileiro, que jurava a pés juntos que o Artigo só podia ser uma “brindadeira”; do outro lado uma “fonte anónima” da P. J., que afiançava andar o mesmo Artigo “muito próximo” da realidade!

    Se estivéssemos a falar de Música, de Cinema, de Futebol, ou até de gajas, seria admissível que uma estação com a responsabilidade da TSF veiculasse opiniões tão díspares. Tratando-se porém do tema em causa, e na conjuntura paranóica actual, o mínimo que se lhe exigia, antes de dar assim voz a quem dizia estar a chover no nabal e a quem assegurava, ao mesmíssimo tempo, estar o Sol na Eira, era um pouquinho de investigação. E, sempre, confrontar as “fontes”, anónimas ou diplomáticas, com os argumentos contrários (tão óbvios eles se arrogavam…).

    Como aliás fez, sensatamente, a RTP ontem, em que “pelo menos” conseguiu até entrevistar o confesso mandante-mór deste “primeiro comando português” de mafiosos favelados…

  7. Caro Valupi,

    A sua pipa já deu melhor vinho. Mistura alhos com bugalhos mas a coisa não liga.

    É melhor ser temido que odiado, dizia o Cícero.

    “Rui Marques está num registo de rigor, detalhe e idealismo que tem toda a vantagem em instituir como marca do seu partido. Será crime não ver”.

    Como era crime não ver, vi e revi, e conclui que não entendo os adjectivos que lhe dedicou.

    O argumento do RM é de que os verdadeiros crimes são praticados em casa, ou melhor, no lar e em família.
    É aí que se encontra o nível de insegurança da nação pátria, as mortes violentas em local de trabalho estão na normalidade, os acidentes com vítimas inocentes nas estradas está em metade de há cinco anos.

    Tiro o chapéu a tamanha sandice.

    Na forma, o costume, imita o que deseja ser, um politico baço, monocórdico.
    Eram três velhos e uma empertigada, esta, na forma do costume, para não variar.

  8. “Perante a catástrofe iminente, aqueles mesmos que reclamavam, há poucos meses, menos Estado, mais privatizações, recorrem agora ao Estado, com total desfaçatez, isto é: ao dinheiro dos contribuintes. Privatizam-se os lucros e socializam-se os prejuízos – essa parece ser agora a regra.”
    Mário Soares, “Diário de Notícias”, 23-09-2008

  9. pois Valupix tu desespautabilizaste-me com aquela deixa bonita do fundo perdido-> perdido no fundo, que eu rendo-me sempre à poesia, mas devo-te dizer que já tenho a ali a fórmula para calcular a distância de z a ∞ por causa das coisas, e funcemina. Mas fui buscá-la a outro só a reconfirmei.

    ó decisores gulosos: se vós não alimentais a base da pirâmide exaurida vem tudo por ali abaixo e o maior tombo, de quem é, de quem é?

    pois é

    greed

    remember?

  10. MFerrer, vou guardar a chapelada.
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    Z, toda a gente sabe que a distância de z a ∞ é, mais ou menos, Pi.
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    jcfrancisco, gosto dessa ideai das linhas tortas.
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    Nik, o Rui Marques entrou mal na política, mas ainda pode ser que se endireite. Pelo menos, tem boas ideias à disposição.
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    Rui, quem jura mais mente. Juro.
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    Marco Alberto Alves, bem verdade: a RTP deu uma lição de profissionalismo. Estes assuntos pedem muito mais inteligência das redacções.
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    Ora porra, larga o vinho.
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    ramalho santos, quais alhos e quais bugalhos?

  11. Bem me parece que o Portas “abafa a costeleta”.Mas isso é lá com ele e com a maior ou menor elasticidade do seu esfíncter.O que me envergonha é que Portugal tenha um caixeiro-viajante armado em ministro dos Estrangeiros que ainda não tenha ido bater com os costados (ou com a peida) na pildra, por conta da gatunagem dos submarinos.Ele,o Duarte Lima,o Dias Loureiro,o Oliveira Costa,o Isaltino,o Relvas e outros ,incluindo o “padrinho” desta mafia que nos conduz ao abismo.O Povo vencerá!

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