No país dos comentadores

Particularmente para José António Saraiva, a hora mais escura da noite foi a que antecedeu o nascer do Sol. Há seis anos, publicou um texto que te convido a ler, ou a reler – e a comparar com o que os comentadores profissionais e reputados, ou amadores e desconhecidos, têm dito nos últimos dois e quatro anos. As coincidências são assustadoras, nem falta uma variante televisiva do Big Brother a despertar os enésimos e bacocos protestos. Tudo se repete: as mesmas personagens, as mesmas misérias, as mesmas queixas. Parece que só em Portugal vigora a lei de Fukuyama, com os comentadores numa amnésia nascida do desleixo intelectual e da promiscuidade com os omnipotentes poderes fácticos.

José António Saraiva é uma figura patusca, geneticamente predisposta para a hipérbole, e tinha idade para ter juízo quando chegou a 21 de Setembro de 2002 com 54 anos. Está ligado à época de ouro do Expresso, assim como ao declínio da sua relevância. Todas as semanas, pelo menos, publica qualquer coisa. Como já o faz há mais de 40 anos, é uma vítima da prolixidade. Ter de escrever por obrigação é tramado, ainda mais se for preciso elaborar opinião. Inevitavelmente, há opiniões que serão apenas a expressão ciclotímica da subjectividade. Os comentadores políticos estão condenados ao adultério: afirmam-se casados com a amada Sr.ª Verdade, mas há muito tempo que perderam o desejo por ela, preferem escapulir-se para o quarto da criada, a úbere serigaita Vaidade. Este flirt é fonte de folia nocturna, embriaguez recuperadora da eterna e irresponsável juventude. Eis uma condição psicológica propícia à megalomania, ao melodrama. Não espanta, então, que os comentadores políticos se descuidem com a cristalização do hábito e se dispam à nossa frente de vez em quando. E lá saltam as vergonhas tão humanas, tão vulgares. É o caso neste caso.

Antes de ter prometido superar as vendas do Expresso em poucos meses, e de jurar por escrito nunca vir a oferecer brindes (jura entretanto apagada), o arquitecto auto-nobelizável teve um dia menos optimista, mas igualmente delirante, e deu nisto, mais isto, mais aquilo e aqueloutro. Paradoxalmente, ler esta jeremiada depressiva – e simultaneamente exacta na sua lúcida acusação, mas estatelando-se ao comprido por ser superficial e ilusionista – funciona como acto de higiene. É um aviso, para quem dele precisar, de que nenhum comentador se substitui ao cidadão, não importando o meio onde escreva ou bote faladura.

A blogosfera aumentou exponencialmente esta lógica da lamúria como intervenção social preferida, por razões evidentes decorrentes do próprio meio. O resultado? Os intervenientes em blogues, e em caixas de comentários da comunicação social digital, juntam-se aos profissionais da opinião e tornam-se parte da política-espectáculo, da indústria da opinião, sendo totalmente ineficazes como força de construção cultural ou profilaxia cívica.

Estão por inventar as novas formas de pensar, e de agir, que saibam o que fazer com a liberdade de expressão e sua ubiquidade. A salvação nunca foi e nunca será individual – o que for individual, e não mais do que individual, chama-se loucura, inferno. É esse o país dos comentadores de opereta.

11 thoughts on “No país dos comentadores”

  1. O país dos comentadores, das conversas de café, dos novos partidos, das velhas sedes, do vinho novo em odres velhos, das moscas que mudam, dos desabafos [como este], dos complexos de esquerda e da direita, do logo se vê que amanhã é outro dia e a esperança é a última a morrer. E assim se acaba de comprovar que não sei que faça, não sei que diga, com a liberdade de expressão. Gosto do uso que aqui fazem dela por isso tomo regularmente. E continuação, como se diz agora.

  2. Caro Valupi,

    “sendo totalmente ineficazes como força de construção cultural ou profilaxia cívica”.

    Estamos de acordo sobre este tema, a citação realçada confirma as minhas suspeições sobre a validade deste comum exercício.

    Seguramente, como afirma, as virtudes colectivas são a soma das virtudes individuais. É bom que assim seja.

    A descoberta é sempre uma aventura, não se pode condenar o meio, ou concluir
    que a coisa supera e desespera por não lhe darmos bom uso.

    Entender este fabuloso meio como uma extensão de nós mesmo e não colapsar,
    por inaptidão ou mau uso, creio ser a pedra de toque do entendimento contemporâneo.

    Gostei do tema e estamos de acordo sobre o sujeito.

  3. Só tu, Val, para ires reler textos do JAS velhos de seis anos. Eu deixei de ler esse fulano há vinte, pelo menos. Nunca li o Sol, mas não tenho falta de luz.
    O que JAS dizia sobre a única salvação ser individual tem um sentido preciso, que provavelmente só ele poderá explicar, a quem isso interessar. Não sei se era: “vou tratar exclusivamente da minha vidinha” ou outra coisa semelhante. Não sei nem me interessa. Nunca aprendi nada com JAS.
    O que me chamou a atenção foi a condenação que te mereceu, a ti e ao z, o apelo à salvação individual. S. Paulo, o verdadeiro fundador do cristianismo, dizia: “Obra tu a tua própria salvação”. O cristianismo não é, que eu saiba, uma doutrina anti-social. Mas é, que eu saiba, uma doutrina que prega a igualdade perante Deus e quer a salvação de cada alma. Algo que a mim, ateu, me agrada. A salvação individual faz parte da saúde mental e espiritual de cada um de nós. Quem se esquece de si próprio, muitas vezes é porque aceita ser usado, explorado ou esmagado por outrem. Antes da felicidade colectiva e dos seus múltiplos enganos e miragens está o direito à realização e à felicidade individual. A salvação colectiva deve assentar na salvação individual. Nesse ponto sou cristão.

  4. Nada de novo, claro que sabes o que fazer com a liberdade de expressão. Estás a mangar com o pessoal.
    __

    Z, embora διαβολος também seja o duplo, ou dúplice, por oposição ao uno, ou íntegro.
    __

    ramalho santos, os meios são sempre de louvar. Desesperar, jamais.
    __

    Nik, não sei a que passagem paulina te referes exactamente, mas posso-te garantir que a salvação cristã é sempre colectiva. Esta ideia é tão decisiva que constitui o mistério maior do cristianismo: a Trindade. Deus, para um cristão de evolução católica, é o resultado da inter-relação de três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Aliás, uma das definições mais célebres da Vida Eterna é precisamente de Paulo: “Deus ser tudo em todos”. Maior projecto colectivista não é possível conceber.

  5. “sendo totalmente ineficazes como força de construção cultural ou profilaxia cívica”.

    Comentando o já comentado e sem saber muito bem se o objectivo dos autores da blogosfera era criarem uma força de orientação e mudança cívica, passo a opinar, como os demais.

    Sou nova nestas por aqui. Em Agosto resolvi criar um blog como passatempo de férias. A 1ª coisa que fiz foi perceber do que se fala, por este mundo virtual.
    Ver este Post: http://veranuda.blogspot.com/2008_08_03_archive.html

    Uma pesquisa rápida no pesquisador de blogues do google, não deixa margem para dúvidas que a blogosfera está a transbordar de amor:
    1,477,816 blogs – amizade
    3,407,989 blogs – dinheiro
    6,624,846 blogs – saúde
    25,982,593 blogs – amor

    Em resumo, parece-me (novata no assunto), que a blogosfera é mais um antro de amores, perdidos, desiludidos, esperados e futuros, do que um parlamento de discusão social/politica com consequências reais na sociedade fora deste espaço virtual.
    Desculpem o comprimento do comentário
    Abreijos – este é um dos milhares de neologismos/codigos de grupo, que por cá encontrei. (o Mia Couto é um mero amador, ao lado dos criadores de neologismos da blogosfera)

    Maria

  6. Maria, tendo em conta que começaste em Agosto e já estamos perto de Outubro, estás autorizada a não ter de pedir desculpa pelo comprimento dos comentários. Se alguém reclamar, diz para virem falar comigo.

    Quanto à blogosfera, tens razão: uma parte minúscula dela está interessada na política. Não deve surpreender, pois vem tudo do mesmo alguidar. Na vida dos nossos amigos, familiares e colegas de trabalho ou estudo, é igual. Muitos até se recusam a discutir ou pensar no assunto. Então, qual o problema? É escolher conforme o gosto.

    Mas atenção: os que gostam de política também estão à procura de um amor perdido ou por chegar. Geralmente, é um amor enorme, do tamanho da comunidade. Nesse sentido, os políticos são uns grandes românticos.

  7. > políticos são uns grandes românticos

    Não é amor o ingrediente principal do romantismo ? Se sim, como podem ser romanticos os profissionais da politica ?
    Se fossem amadores, amavam as causas que defendem e talvez, ai sim, pudessem ser romanticos e exercer esse “amor enorme, do tamanho da comunidade”.

    Maria
    PS: Valupi, obrigada pela oferta de protecção ;)

  8. Faltam os números acerca da pesquisa com o termo “sexo”. Só aí poderei pronunciar-me com algum rigor acerca do que a Maria afirmou.
    Quanto ao post propriamente dito, e para não defraudar o ícone blogueiro que a nossa colega de férias desenhou, digo que ainda não me desapaixonei do Expresso que tanto gostava de ler mas dou umas rapidinhas clandestinas com o Sol para matar as saudades.
    Abróculos!

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