Para os que persistem em encarar “o véu” como um mero exercício inocente da liberdade religiosa

E ainda a propósito do debate de ideias que segue na caixa de comentários do 5 dias, suscitado pelo lúcido post de António Figueira, vale a pena recordar uma entrevista de Ben Greeman a Jane Kramer na New Yorker de 16 de Novembro de 2004. Fica um excerto:

(…) women in North Africa, where most of the families of young Islamic women in France come from, have really been struggling for their rights. But in France, with all its freedoms, so many young women seem to be capitulating to Islamist pressure. It usually starts with the young men who are recruited, and the symbols of successful recruitment are the women in the family. In other words, the women are the symbol of the new identity of the man. When you see a twelve-year-old girl coming to school in a chador, where for two or three generations no one had worn one, you have to look at this as the expression of an enormous pressure from the men in the girl’s family. You’re really dealing with a born-again movement, and the girls get the short end of the stick, because the boys don’t have to change what they study, how they dress, and so forth. The girls are the proof of the new purity of the family. Many French people I know felt that this law was a Pandora’s box, that it was going to be more trouble than it was worth, and that the best thing to do was to continue to try to deal with it in the schools, with teacher-parent conferences and so forth. But it’s hard to do that as the Muslim communities become more extreme. Ten years ago, a Muslim girl who told her family “I’m going out to the movies with friends” might have caused a family fight. These days, she might be shipped off to Algeria to be married.

Momento Malibu

Para quê levar a vida demasiado a sério?

A South African man has been fined $140 for taking a week off work, telling his employers he was pregnant.
Charles Sibindana, 27, stole a certificate from a clinic during his pregnant girlfriend’s checkup, a court near Johannesburg heard. He then added his own details to the note and submitted it and took seven days off work, seemingly unaware that only women consult gynaecologists.

His employers became suspicious and investigated the matter.

A entidade patronal became suspicious…que delícia!

Subsídios para a história da cunha em Portugal

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Um dia apareceu no Ministério da Instrução um professor primário, director de uma escola oficial, a Sete-Rios. Tinha direito a uma casa do Estado, ilegalmente ocupada por uma professora.Há uns nove meses que o assunto se arrastava.
O Ministro despachou mandando entregar a casa a quem de direito. Ora o leitor, se não sabe, fica sabendo que o ministro Costa Ferreira, como disse Homem Cristo no jornal, “não é para graças”…
Pois bem; os burocratas resolvem entravar a cousa, porque a interessada era irmã dum inspector. Chegaram ao descaramento de me informar – a mim secretário do ministro! – que o professor não era director da escola, quando ele estava nomeado em dois Diários do Governo!!!!
O ministro era massacrado por todos os lados com “cunhas”, cunhas que ele me mandava rasgar, logo que eu lhas principiava a ler.
Duma vez, aproveitando o facto de me mandar em serviço no carro do ministério e eu passar próximo da citada escola, disse-me para falar à professora a lembrar-lhe que ele, ministro, não era para festas.
Pois a professora não saía. Este é que era o facto. (…) entretanto o ministro, que esteve apenas dois meses na pasta, demite-se, e a professora, apesar de todas as ordens ou directivas que eu dera “por ordem de S. Exa. o Ministro” não saíra!!!
Era a burocracia a empatar!
Dias depois de saír do Ministério, quando se preparava tudo para deixar ficar na casa a professora, – atendendo a que estava grávida…!! – o interessado apareceu-me em minha casa a solicitar ainda o meu interesse, apesar de eu já nada ser. Escrevi ao Governador Civil João Luís de Moura que, ao que parece, no momento, tinha já contra-ordem para não mandar proceder a despejo.
Disse-lhe eu então da vergonha que era para a “situação” o adiamento dum assunto claro como a água. E incisivamente dizia-lhe que quanto à mulherzinha estar grávida, havia onze meses que a situação se arrastava!! isto é, começara antes de o marido sequer pensar na possibilidade de vir a ser pai, pois que o período de gestação de uma criança são só nove. Que, além disso, durante os dois meses que passamos no ministério, o assunto fôra sempre mexido e a professora nunca se dispusera a saír, à espera duma cunha salvadora, ou da queda do ministro tão invulnerável aos seus formidáveis pedidos!
E só então saíu o diabo da mulher! Arre!

A quem possa interessar

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Tomás da Fonseca. Nascido em 1877. Jornalista. Professor. Republicano. Anti-clerical e jacobino produziu das obras mais provocadoras, azedas e polémicas do ateísmo militante. Actualmente bastante raras e nada fáceis de encontrar. Mas a quem possa interessar adquirir de uma assentada um rol substancial delas – a peça maçónica “Águas Novas”; o “Bancarrota:exame à escrita das agências divinas”; o “Ensino Laico: educação racionalista e acção confessional”; o “Na Cova dos Leões” (sobre o milagre de Fátima); o “Sermões da Montanha – A Religião e o Povo” e “O Diabo no Espaço e no Tempo” – é só ir ali à Calçada do Combro n.º 43, ao templo livreiro do Luís P. Burnay. Eu, fiel temente a Deus, espreitei só, li algumas orações, pousei e deixei ficar.

É o YouTube, estúpido!

A TV tal como a conhecemos acabou? O que vai mudar na produção contemporânea de conteúdos audiovisuais numa altura em que a tecnologia nos abre novas possibilidades a cada dia? Estas perguntas servem de mote para o É a Cultura, Estúpido! de amanhã, às 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, em Lisboa. Os convidados, Manuel Falcão (ex-director da 2:) e Francisco Rui Cádima (professor universitário), responderão aos reptos de Nuno Artur Silva, Pedro Mexia e Nuno Costa Santos. A rubrica “Relatório do Mês”, com sugestões culturais, ficará a cargo de Daniel Oliveira e José Mário Silva.

Venha curar-se aqui!

Será só impressão minha? Pode, claro. Mas vou dizer, ainda assim. Trata-se da caixa de comentários. A nossa. Ou as de outros, onde calho espreitar.

Digamos assim. Quando o blogue é «de causas», quase sempre amáveis, e oportunas, a caixa de comentários é duma respeitabilidade que faria pensar, se não olhássemos para o lado, que o mundo era afinal um oásis, descontraído e estimulante.

Mas quando o blogue não tem causas, como este, está um fulano à mão de semear de uns tipos soturnos, regularmente (mas nem sempre) basto sucintos, que desembestam contra uma novidade que se conta, uma proposta que nos surgiu, uma visão geral do mundo que um conhaque tinha dentro.

Não brilham ali, na intempestiva reacção, um raciocínio, uma chalaça, um cinismo sequer. É só recusa, é só rejeição, é um grito de alma em estado puro.

Constitui, sempre, uma surpresa – e, quase sempre, um susto. Com quando nos fazem uma injustiça, a sensação é esta: «Isto não pode estar a acontecer-me». É a salutar fase da negação, que nos impede a entrada no vórtice do disparate, ali tão convidativo.

Vem, depois, a fase, essa supremamente irónica, da razão. Aquela que nos diz: «Também, meu velho, quem te mandou meter nisto?»

Entretanto, o outro, que até já te esqueceu, está mais perto da cura.

Blogues que marcam

O recente post do Luis faz-me antecipar uma reflexão que, no meu ritmo de tartaruga dos Galápagos, tinha previsto introduzir lá para 2016. Refiro-me à ambiguidade intrínseca, e irresolúvel, dos blogues enquanto objectos mediáticos entalados entre o angelismo de se sonharem órgãos de imprensa e a bestialidade de se saberem voluntarismo e aleatoriedade.

Uma parte do que o Luis escreve é expressão da sua pessoa e respectiva weltanschauung; logo, é matéria que apenas diz respeito a quem se identifica com os parâmetros ideológicos assinalados. Mas o restante, aquilo que manifesta uma concepção do que deve ser um blogue, suscita-me a crítica. De facto, e servindo-me do exemplo, ninguém no Aspirina tinha assinalado o 1º (e último?…) aniversário. Há boas razões para tal, a começar pelo facto de todos os seus membros fundadores, de uma forma ou de outra, terem debandado. Uns saíram, outros ausentaram-se, outros afastaram-se. Contudo, haveria ainda uma melhor razão, boicotada bondosa e involuntariamente pelo Luis: não haver nada para celebrar. E não me refiro particularmente ao Aspirina, que não precisa dos meus encómios. Não há nada para celebrar na quase totalidade dos blogues, eis a realidade. Que eu conheça, só o Abrupto mereceria aniversários e foguetes, tão distinto e profícuo é o produto que oferece à populaça. Mas o resto?!… Não há mérito nenhum em emitir opiniões ou em fazer uns malabarismos literários — ainda por cima usualmente banais, quando não pífios. O mundo não carece de mais opiniões ordinárias, desconfio.

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Eles têm o 31, nós estamos feitos num 8

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Aí está o que promete ser mais um excelente e animado blogue colectivo de direita: o “31 da Armada”, onde pontifica o nosso marialva preferido, o Rodrigo Moita de Deus. Acrescentemo-lo à blogroll mental, ao lado de coisas dignas de nota como o “Blasfémias” e o “Insurgente” (este com a ressalva de alguns reforços recentes um pouco mais fracos). Assim vai a direita pela blogosfera: bem. Bem organizada. Bem dinâmica. Bem interessante.
E a esquerda? Para lá de um sorumbático e sempre sério “5 dias”, é o deserto. Ou impera a simplicidade sem risco, ou o panfletarismo mais ou menos previsível, ou o mainstream pomposo que já não interessa a ninguém. Nem a coutada da Cultura serve para garantir animação à malta. Ná. Por estas bandas não há ideias novas, não se lobriga provocação inteligente, murchou a militância consistente e prolongada.
Reparem que não incluo a 100% o “Aspirina B” na funesta procissão: nunca aqui almejámos a unanimidade ideológica e sempre nos orgulhámos da nossa polissemia. Mas isso não nos imunizou contra a maleita geral: também aqui impera a acédia, também daqui fugiu a vitalidade, a discussão, e até a alegria que, de acordo com o mito, devia contaminar as hostes esquerdistas a tempo inteiro.
Sim; eu sei que é mais fácil angariar polémicas quando se tem ideias pour épater le bourgeois em barda, como a compra e venda de votos ou a privatização do ar. Ou quando se conta com clowns finórios como o Pedro Arroja, capaz de se atrever, sem medo do ridículo, a ressuscitar a ideia de que os ingleses só chocaram ex-colónias civilizadas e democráticas, esquecendo a caterva de casos mais sinistros, do Afeganistão ao Zimbabué.
Não sei se falta ao lado esquerdo da blogosfera um ou dois Arrojas; espero que não. Talvez seja apenas uma questão de míngua dos sombrios “financiamentos próprios cuja origem é desconhecida” agora denunciados, com algum veneno teleguiado, pelo Abrupto. Mas certo, certo é que há qualquer coisa que não funciona por aqui. Querem mais uma prova? No dia em que o “31 da Armada” se lançou no meio de grande festança, estava o pessoal deste estaminé ocupado a… esquecer o primeiro aniversário do blogue. Coisas de velhos.

Quiosque

Como todas as manhãs, espreito as gordas num dos quiosques da Graça. Os jornais de referência dão grande destaque a Cesariny, os outros dão menos. E depois há o 24 Horas. O 24 Horas não dá uma linha sequer ao poeta na primeira página, mas tem uma chamada para nos informar que Mantorras «vai oferecer um cavalo à filha»…

«Faz-me o favor…»

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor – muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny
1923-2006

Lisboa 2026?

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À atenção de um ou outro dos 28% de portugueses que se desejariam espanhóis

CARTA DOS DOS DOUS JOVENS ESTUDANTES DA USC [Universidade de Santiago de Compostela] DETIDOS E TORTURADOS EM 21 E 22 DE NOVEMBRO

Ante a gravidade dos factos acontecidos na capital de Galiza entre os dias 21 e 22 de Novembro, Aurélio L. e Iago B., detidos e torturados, queremos relatar o seguinte:

1) Efectivos antidistúrbios coordenados para defender da ira popular internacionalista a charla do ex-ministro dos Asuntos Estrangeiros do Estado de Israel detivérom-nos irregularmente a propósito de presuntos [presumíveis] actos de desobediência e injúrias à autoridade.

Minutos antes de começar a convocatória dumha concentraçom de protesto diante do prédio da Aula socio-cultural da Caixa Galicia onde Shalom Ben-Ami haveria dar umha conferência, dous agentes solicitárom o deslocamento dum carro para a nossa detençom alegando:

a – Ter sido chamados “terroristas” por um de nós. Várias testemunhas presentes defendérom-nos conhecendo que tal feito nunca tivo lugar.

b – Desobediência à autoridade por requerirmos umha justificaçom no momento em que, sem razom algumha, se dirigírom a nós para solicitar-nos identificaçom. Esta petiçom, realizada dum jeito intimidatório e prepotente antes inclusive de ter começado a concentraçom, seria a seguir satisfeita, motivo que nom saciou a sede repressora dos membros da Polícia espanhola.

2) Aproximadamente 20 minutos depois, fomos introduzidos numha carrinha policial compelidos por umha violência desproporcionada em que participárom umha dúzia de efectivos. Estes, arrastando-nos e agredindo-nos com patadas, forçárom-nos sem mediar palavra a penetrar no veículo. Antes de consegui-lo, I.B. foi brutalmente violentado nos seus genitais ao sofrer umha enorme pressom por umha mao policial, enquanto A.L. era espancado e agredido com um cacete com que tentárom forçar-lhe o anus.

3) Umha vez trasladados à esquadra policial, três policias fechárom o garagem no qual se detivera o veículo, deixando-nos ao “cuidado” de três agentes, entre eles os dous que levavam o carro. Após saírmos do veículo, I.B. foi deliberadamente espancado com dous fortes golpes de cacete no lombo e as nádegas, enquanto transcorria o primeiro “cacheio” a que fomos submetidos. O maior dos polícias presentes tivo de intervir exigindo o seu companheiro que se tranquilizasse.

4) Levados à ante-sala dos calabouços, na qual aguardamos quase 5 horas sem ser informados sobre a nossa situaçom, fomos postos baixo vigiláncia, alternativamente desenvolvida por um ou dous agentes. Passadas duas das 5 horas referidas, o polícia antidisturbios que provocou a nossa detençom no centro de Compostela baixou a “visitar-nos” . Ante esta inesperada e agressiva apariçom e, em previsom do que puder ocorrer, os agentes encarregados de custodiar-nos abandonárom cobarde e cumplicemente a sala.

A “intervençom” desta auténtica besta supujo que A.L. fosse agitado e insultado, trás o qual o agresor se dirigiu a I.B., a quem propinou três punhadas na cabeça com a mao direita, a qual enfundara previamente numha luva de lá, mantendo ao descoberto a mao esquerda, o que pode dar ideia da intençom com que acudiu onda nós. Acompanhando a gesta de horror com insultos e ameaças consistentes em frasses como “enséñame ahora la lengua que te la troceo” ou “esta noche la vais a pasar en los calabozos. Iré a visitaros para meteros un cuerno por el culo. Preparaos”. Ao abandonar o soto, e acreditando a natureza política das agressons, chamou-nos “desgraciados, bobos, terroristas” .

5) Sobre as 22,30 horas, após o sofrimento padecido, e ante os flagrantes danos causados em genitais, costas, nádegas e cabeça, decidimos solicitar atençom médica para I.B. Aliás, solicitamos o Habeas Corpus devido ao intolerável procedimento da detençom seguido pola Polícia espanhola em todo o momento, interpretado ao ritmo de falsidades, insultos, ameaças e agressons. Se a primeira petiçom foi demorada até as 2 da madrugada, a segunda foi denegada polo juíz, que nom achou irregularidades no procedimento.

6) Um de nós, a tratamento médico crónico de dous órgaos vitais, dirigiu-se à polícia com a finalidade de lhe ser facilitada a medicaçom precisa. A reacçom, semelhante às anteriores, foi afirmar que “isso fai-se num momento”. Duas horas depois ninguém perguntara sequer qual era a medicaçom necessária, malia a nossa permanente insistência sobre este aspecto. A medicaçom, solicitada às 22.30 para ser tomada às 23 horas, foi facilitada de jeito incompleto por serviços hospitalários às 03.30 da madrugada.

7) Finalmente informados, por volta das 01.00 horas da madrugada da nossa situaçom de detidos em qualidade de 4 delitos atribuídos (danos, desordens públicas, resitência à autoridade e atentado), fomos internados em calabouços, onde permanecemos a noite toda até às 09.00 da manhá sermos despertados para falar com o advogado e passar a instruçom.

Dito o qual, A.L. e I.B. desejamos pôr em conhecimento de todo democrata galego a detençom irregular de que fomos vítimas e, particularmente, a tortura impingida durante o tempo que estivemos custodiados pola polícia.

Achamos doloroso termos sido sujeitos passivos de violaçons tam brutais mas, ante todo, achamos intolerável que na Galiza do século XXI, uniformados espanhóis se dignem a torturar em dependências da Polícia espanhola jovens galegos pola sua condiçom política. Queremos rematar reconhecendo o trabalho mais importante do processo. É esse trabalho que fixo a gente desde o primeiro momento em que fomos levados polo ar. Ainda agora, escrevendo estas linhas, lembramos com emoçom o momento no qual os concetrados e concentradas rechaçárom a violência empregada e berrárom desde a injustiça contra os armados.

Muito obrigado a todas as pessoas que saírom o mesmo dia dos feitos à rua a denunciar o acontecido, a quem se concentrou até a nossa posta em liberdade, a todas as organizaçons e colectivos que tirárom comunicados, e a todas as pessoas que se interessárom por nós. Agora mais do que nunca decatamo-nos do importante de construirmos um movimento social que ante estes feitos nom tem mais regras das que a democracia. Por todo isto, apelamos a massa galega comprometida com os direitos fundamentais, a tomar nota do relatado e agir em conseqüência.

CONTRA A REPRESSOM, MOBILIZAÇOM!
NENGUMHA AGRESSOM SEM RESPOSTA!
TORTURAS NA GALIZA NUNCA MAIS!
FORA AS FORÇAS DE OCUPAÇOM!!

Isto é Santiago de Compostela em 2006. Você anseia por isto em Lisboa em 2026? Faz-lhe muita falta uma Polícia de Choque espanhola? Óptimo. Avise-nos já. São vinte belos anos para nos livrarmos de você.

A tristeza toda em meia dúzia de linhas

A notícia já começou a passar nas televisões: quatro portugueses morreram no sul do Chile, quando a avioneta em que seguiam se despenhou perto de Coyhaique, na Patagónia. Desses quatro portugueses, três são jornalistas: dois do Record e uma do Diário de Notícias. A Maria José Margarido. A Zé. A rapariga porreira que eu via todas as tardes, na escada, ao pé da máquina do café. Mais nova do que eu um ano. Trinta e três, 33, trinta-e-três. TRINTA E TRÊS ANOS. Foda-se.
Lembro-me agora da sua presença discreta, das suas reportagens invulgarmente bem escritas, das qualidades humanas sempre mais nítidas à luz da morte súbita, escandalosa, inexplicável. Mas não me apetece escrever essas coisas que se escrevem nestes momentos. Só quero dizer deste nó na garganta, desta tristeza que não passa, do café que já não sou capaz de tomar junto à máquina a que ela nunca mais se encostará.