Há uns dias, eu e o Zé Mário passámos em revista o pelotão de desertores da extrema-esquerda que hoje engorda as engravatadas fileiras do liberalismo. Confesso que dedicámos longos minutos à patusca figura de João Carlos Espada, o oxfordiano de obra invisível e famoso amigo póstumo de Karl Popper, antes um assanhado controleiro marxista-leninista-estalinista.
A páginas tantas, pergunta-me o Zé Mário: “será que o inverso também é possível, e muita desta malta que hoje escreve em blogues liberais vai dar em esquerdista daqui a uns anos?”
Por muito que me divertisse a visão do João Miranda de T-shirt do Che ou do Luciano Amaral numa manif de braço dado com a Odete Santos, tive de ser realista: “Não me parece. Aquilo deve oferecer melhores condições que a Esquerda. Pensando bem, é igualzinho ao que se passa com a homossexualidade: os gajos que para lá vão nunca voltam.”
Arquivo mensal: Novembro 2006
Ironias da política americana

O caramelo que se refugiou no Champagne Squadron, a milhares de quilómetros da guerra, conseguiu fazer passar a ideia de que John Kerry, ex-combatente no Vietname, insultou os soldados americanos.
A equipa de spin doctors dos republicanos continua em forma. Kerry continua a dar provas de que não nasceu para isto da política. Bush, o homem das mil gaffes, continua a gozar de um estatuto único: a ele, todos os deslizes são perdoados com um encolher de ombros.
Diários em Leitura

Sir Alan Frederick “Tommy” Dascelles. Secretário particular de quatro Monarcas. Jorge V. A abdicação de Eduardo VIII. A Segunda Guerra Mundial e Winston Churchill. Jorge VI e Isabel II. Alguns episódios sobre Eduardo:
Dascelles demite-se
When, about the middle of December, we got home, the King was still very ill and one evening I sent the Prince a note saying that I wished to resign. When he asked me why I wanted to leave, I told him what I thought of him and his whole scheme of life, foretelling, with an accuracy that might have surprised me at the time, that he would lose the throne. He heard me with scarcely an interruption, and when we parted, said: “Well, goodnight, Tommy, and thank you for the talk. I suppose the fact of the matter is that I’m quite the wrong sort of person to be Prince of Wales” — which was so pathetically true that it almost melted me.
Aprendiz de Calígula
Ulick Alexander (Keeper of the Privy Purse) has told me that, in the May of that year, he at last induced the King, Edward VIII, to go round his immense kitchen garden and glasshouses at Windsor. The particular pride of the old Scottish gardener was the peach-house, at that time a mass of blossom, promising a record crop of peaches. The King passed no comment till his tour of inspection was ended; he then turned to the gardener, and told him to cut all the blossom on the following day, and to send it to Mrs Simpson, and to one or two other ladies, to embellish their drawing-rooms in London. Caligula himself can never have done anything more wanton.
Espiões em Lisboa
The whole Windsor problem has recently been complicated by the discovery among the German Foreign Office archives at Marburg of a set of top-secret telegrams between Ribbentrop and Stohrer (German Ambassador in Madrid), regarding certain alleged overtures made to the Windsors by German agents when they were marooned in Portugal in May 1940. If the Windsors’ reactions were as implied in this correspondence the result is, to say the least, highly damaging to themselves.
Churchill
A few years ago, when Winston was still compos mentis, Jock asked him what he really felt about the Abdication, looking back on it after quarter of a century. (…) “Yes, but were you really prepared to accept Mrs Simpson as your queen?” — to which Winston, after a slight pause, replied: “ Never for one moment did I contemplate such a dreadful possibility.” Jock went on to say that Winston and Max Beaverbrook decided early in the Abdication crisis that “Cutie” (their private name for Mrs S) must leave the country as soon as possible. “It must have been fairly easy to persuade her,” said Jock, “when people started throwing bricks through the windows of her flat, and threatening to throw vitriol at her.”
“Max,” said Winston with one of his deepest chuckles, “Max arranged all that.”
A little later Jock found himself next to Beaverbrook after dinner. He put to him the same question that he had asked Winston. B, with his gargoyle smile, answered: “I thought it was all great fun.”
[King’s Counsellor.Abdication and War: the Diaries of Sir Alan Lascelles § Orion Books]
O Movable Type está tipo imóvel
Momento Bandarra
Algumas expressões que vamos ouvir muitas vezes no futuro próximo:Read/Write Web; WebOS; Parakey.
DESENHO #21
Os 10 Mandamentos Liberais

Com a recente confissão de Pedro Arroja — “O liberalismo é um produto do cristianismo e não é viável sem ele” — confirma-se algo de que sempre desconfiei: a versão do liberalismo professada por alguns nossos amiguinhos de folguedos é mais uma questão de fé que de razão. Aliás, bastava ler as suas reacções ao relatório Stern e os remédios que apontam para as alterações antropogénicas do clima (esquentadores inteligentes e SUVs híbridos, p. ex.) para topar que tanto fervor evangélico, tanta cegueira voluntária, só podia mesmo brotar de obsessões religiosas, não de pensamento sóbrio.
Depois desta revelação, os nossos intrépidos repórteres puseram-se em campo. Penetrando com ousadia na sede lusa do Grande Templo Liberal, apoderaram-se de um draft espantoso. Trata-se, nem mais nem menos, dos 10 Mandamentos Liberais, como constavam nas tábuas que o ressuscitado e venerando profeta Arroja trouxe da sua última visita a Chicago. Leiam e ponderem.
1. Amar o Mercado sobre todas as coisas.
2. Usar o nome da Liberdade sempre que possível; clamando, acima de tudo, que as ideias dos outros (leia-se “a Esquerda”) a ofendem.
3. Nunca, mesmo em momentos de fraqueza, não rir ao mencionar o “Aquecimento Global”.
4. Honrar qualquer governo dos EUA, desde que Republicano. Idem para Israel, mas independentemente do seu governo.
5. Abjurar a ideia de que a sociedade deve proteger os mais fracos; trata-se de uma tirania insuportável sobre os mais fortes e ricos.
6. Reconhecer na Iniciativa Privada infindas virtudes miraculosas e lutar quotidianamente para que mais e mais aspectos das nossas vidas sejam entregues aos iluminados desígnios dos Empresários.
7. Denunciar a incapacidade total do Estado para fazer seja o que for sem meter água.
8. Recusar um só tostão dos contribuintes à Cultura. Quem precisa de Brecht se pode ter La Féria? A quem interessará Emanuel Nunes quando anda por aí a lucrativa Ruth Marlene?
9. Atribuir aos madraços dos trabalhadores as culpas em qualquer conflito laboral ou em qualquer coisa que nos corra genericamente mal.
10. Acusar quem não acate qualquer um dos Mandamentos supra de iliteracia económica, corrupção científica, má-fé, ateísmo ou mesmo — t’arrenego! — comunismo.
É da minha vista…
Uma noite no football
Pela primeira vez num quarto de século, fui assistir a uma partida de futebol profissional. Ficou-me na retentiva o simpático rapaz vestido de verde que fez o primeiro golo do SLB e a assistência para o segundo. Imune a essas desventuras, a claque do Celtic acabou o jogo com palmas e cânticos; afinal, e ao contrário do que pensam os tugas, futebol é festa, não drama e depressão. Mas também eu cantaria se soubesse que estava prestes a regressar a um país civilizado. Cá fora, os adeptos do Benfica agradeciam a visita dos irlandeses com simpáticos “Celtic go home”. Enfim; a tristeza do costume.
George Bush é obstáculo à Parúsia
Sucede às vezes que o apoio eleitoral possa chegar de onde menos se espere. Assim, também já o Partido Democrata pode orgulhar-se de contar com o apoio de pelo menos um demente da escatologia evangélica: no Ohio, K. A. Paul exorta os seus fiéis a votar contra o Partido Republicano porque, segundo ele, a política externa norte-americana está a atrasar a segunda vida de Cristo.
Advocacia Preventiva
Mesmo quando se entra naquele clima e tal…convém ter algum cuidado e prevenir contenciosos futuros, preenchendo os formulários adequados.
