Há nomes que são todo um programa

“Como o Cinema era belo”. O título do presente ciclo de Cinema da Gulbenkian é transparente. “Era”, garante-nos o director da Cinemateca, autor da selecção de 50 grandes filmes que agora ilumina o Grande Auditório da nossa bem-amada Fundação.
Mesmo assim, lá se infiltrou na lista uma magra dezena de obras posteriores à década de 60. Seriam talvez menos, se a Orquestra Gulbenkian não estivesse sem tempo para animar projecções de filmes mudos. No entanto, a falta de música ao vivo poderia ter sido facilmente ultrapassada. Bastaria para tal um guitarrista e uma voz. A banda sonora, bem ao estilo de Bénard da Costa, seria apenas esta, claro: “Ó tempo, volta para trás”.

Relendo Hans Morgenthau # Política e Moral

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Political realism refuses to identify the moral aspirations of a particular nation with the moral laws that govern the universe. As it distinguishes between truth and opinion, so it distinguishes between truth and idolatry. All nations are tempted-and few have been able to resist the temptation for long-to clothe their own particular aspirations and actions in the moral purposes of the universe. To know that nations are subject to the moral law is one thing, while to pretend to know with certainty what is good and evil in the relations among nations is quite another. There is a world of difference between the belief that all nations stand under the judgment of God, inscrutable to the human mind, and the blasphemous conviction that God is always on one’s side and that what one wills oneself cannot fail to be willed by God also.

Intellectually, the political realist maintains the autonomy of the political sphere, as the economist, the lawyer, the moralist maintain theirs. He thinks in terms of interest defined as power, as the economist thinks in terms of interest defined as wealth; the lawyer, of the conformity of action with legal rules; the moralist, of the conformity of action with moral principles. The economist asks: “How does this policy affect the wealth of society, or a segment of it?” The lawyer asks: “Is this policy in accord with the rules of law?” The moralist asks: “Is this policy in accord with moral principles?” And the political realist asks: “How does this policy affect the power of the nation?” (Or of the federal government, of Congress, of the party, of agriculture, as the case may be.)

This realist defense of the autonomy of the political sphere against its subversion by other modes of thought does not imply disregard for the existence and importance of these other modes of thought. It rather implies that each should be assigned its proper sphere and function. Political realism is based upon a pluralistic conception of human nature. Real man is a composite of “economic man,” “political man,” “moral man,” “religious man,” etc. A man who was nothing but “political man” would be a beast, for he would be completely lacking in moral restraints. A man who was nothing but “moral man” would be a fool, for he would be completely lacking in prudence. A man who was nothing but “religious man” would be a saint, for he would be completely lacking in worldly desires.

[Hans J. Morgenthau, Politics Among Nations: The Struggle for Power and Peace]

Bem-aventurados os homens de Fé…

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O insurgente Helder acaba de deixar numa das nossas caixas de comentários uma divertida e reveladora pregação: “Se você comparar a acção de Tony Blair ou da Greenpeace com a da Toyota, fácilmente concluirá que a segunda faz muito mais pelos objectivos de redução de emissões que os primeiros. E isso tem um nome: capitalismo.”
A Fé nos mercados e nas empresas há-de levar esta malta ao Céu. Mas descamba por vezes numa comicidade irresistível.
O santo Helder está mesmo convencido de que colossos industriais como a Toyota se dão ao trabalho de investigar novas tecnologias e alterar processos de fabrico, criando produtos menos nocivos para o Ambiente… apenas movidos pela bondade intrínseca dessa acção! Já encontrei testemunhas de Jeová menos crédulas em milagres e outras divinas intervenções.
Se não receasse abalar profundamente as fundações mágicas do reino de fantasia do bom Helder, talvez lhe explicasse que está a ver tudo ao contrário: os fabricantes de automóveis fabricam carros cada vez menos poluentes em resposta aos regulamentos cada vez mais exigentes que alguns países vão adoptando. E preparam-se já para as restrições ainda mais draconianas que se adivinham ao virar da esquina. Quanto aos governos, como o de Tony Blair, grande parte da sua motivação para intervir neste campo vem da pressão da opinião pública; e aqui fica explicado o papel que organizações como a Greenpeace (por sinistras que sejam) têm nesta tendência.

Mas não digam nada ao Helder. Deixem-no continuar emigrado no seu lindo mundo, onde a indústria automóvel acolhe com um sorriso estas imposições (como já o fez quanto aos airbags, por exemplo), os produtores de guloseimas protegem a saúde das crianças e as tabaqueiras reduzem de moto próprio a nicotina nos seus produtos e ainda os decoram com simpáticos avisos. Tudo para bem do Homem e do seu Deus Único, o Mercado.

Está morto? Era terrorista

Para Israel, há uma forma infalível de definir um terrorista: é aquele que as suas forças amadas matam. Seja criança, ancião ou simplesmente transeunte com azar. Se morreu, só podia andar de foguete às costas ou de bomba no colete. Isto é o que se infere das recentes declarações de Ehud Olmert ao parlamento israelita, gabando-se dos “300 terroristas” eliminados em Gaza nos últimos três meses. Ora, segundo a organização israelita de direitos humanos B’Tselem, 155 das 294 vítimas palestinianas não eram combatentes, incluindo 61 crianças.
Mas se morreram, alguma devem ter feito, os malandros. Assim o garante Olmert. Eis uma excelente forma de evitar problemas morais, inquéritos tontos e cuidados em excesso na hora de premir o gatilho.
Quando lhe impingirem de novo o cântico “apoio Israel porque é uma democracia como nós”, pergunte que outra democracia é que assumiria, nos dias que correm, uma postura destas. Talvez a Rússia, digo eu.

Descubra as diferenças

“Em planos distintos, a liberdade de expressão saiu maltratada no Iraque, onde soldados são pressionados para fecharem os seus blogues, e em Portugal, onde Miguel Sousa Tavares reage com excesso de legítima defesa aos abusadores anónimos.”

Início da crónica do Paulo Querido no Expresso Online.

“Em planos distintos, a liberdade de expressão saiu maltratada no Iraque, onde soldados são pressionados para fecharem os seus blogues, e em Portugal, onde Miguel Sousa Tavares defende os abusadores anónimos.”

Teaser (na verdadeira acepção da palavra) da Única (página 136) para a crónica do Paulo Querido no Expresso Online

EPC e a Blogosfera

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Eduardo Prado Coelho conseguiu escavar um pequeno mas notório nicho nos media tradicionais muito graças a questões de forma, não de substância. No “Público”, as suas colunas quase diárias usam um registo peculiar, onde referências à actualidade se cruzam com alguns morceaux choisis de cultura contemporânea num embrulho estilístico (algo devedor de Jean Baudrillard) semi-poético, semi-factual.
Olhem à vossa volta: não é esta uma boa definição da prosa que encontramos em muitos dos nossos blogues? E, suprema ofensa, tudo à borla, tudo desprovido da chancela do “grande autor”, tudo oferecido numa espécie de feira chunga onde nada é eterno nem merecedor de avenças. Hoje em dia, bastam uns cliques para se encontrar a mesma mescla de observação e reflexão, os mesmos ademanes floridos… ainda por cima com uma enorme variedade de autores e temas. Como é que o EPC poderia dar as boas-vindas a semelhante desgraça?
Esta reacção adversa à inopinada subalternização tem mais casos célebres: Sousa Tavares, com o seu estilo agressivo e de denúncia desabrida, encontra com facilidade dúzias de sósias por esta blogosfera afora; vai daí, trata de declarar tonitruante que a Internet lhe interessa “zero”. Vasco Pulido Valente é um exemplo antípoda: a sua prosa não é mera fancaria cromada, é mesmo the real deal, brilhante, bem recheada, inconfundível.
Em suma: a súbita ira de EPC não é o uivo do dinossauro que se adivinha a um passo da extinção. Muito pelo contrário: é a lamúria do mamífero que acorda um dia num mundo repleto de criaturas igualmente felpudas e adoráveis. Aí, ele sabe-se desvalorizado, banal, redundante.
Não, Fernando: julgo que nunca ele se arriscará a emigrar para a blogosfera. O pedestal faz-lhe falta demais.

Bem-vindo à petição

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Dias 7 e 8 deste mês, os Reporters Sans Frontières organizam uma cibermanif contra a censura na Internet. Da Tunísia a Cuba, muitas são as paragens onde a auto-estrada da informação está pejada de operações-stop e de desvios para prisões políticas. Pode ser que os ditadores não nos ouçam; mas é certo que alguns dos seus cúmplices irão prestar atenção. Já agora, podem assinar este compromisso promovido pela Amnistia Internacional.

Bem-vindo à perdição

Eu queria pôr aqui uma foto catita de Eduardo Prado Coelho, mas o «Movable Type» emperrou agora por ali. Vai um biografiazinha, sacada ao site dum nosso comum editor portuense, meu e dele (temos dois, ah ganda Porto!).

Nova tentativa. Não, definitivamente, o «upload file» do «Type» só produz barulhos esquisitos, extraterrestres. Vamos ao caso.

Terão reparado no tom de EPC quando fala em «blogues». Há ali uma distância, uma sobranceria. Há ali, sumo requinte, uma estudada ignorância. Aquele (este) não é o mundo dele, nunca o será, Deus o livre.

Não, nada aqui há que se aproveite, que se possa citar, que merecedor seja duma alusão. Como o sabe ele? É questão da mais pura fé. É que EPC não lê blogues. Possivelmente a mágoa é mais vasta ainda. EPC, tudo leva a crê-lo, ignora a Internet. Não me lembro de apanhá-lo cedendo uma «url» à massa leitora. Faz bem, esta aranha interplanetária que nos tem nas penugentas patas não é de recomendar.

Mas o que fere – e ele sabe que fere, porque inteligente é ele – é o alcantilado desprezo que nos vota. Sentimo-nos, a seus olhos, não a minúscula grei de bons selvagens que nos supúnhamos, mas os soturnos diáconos dum culto lúgubre, sórdidos oficiantes de fatais missas negras, diárias para mais, enfim, isto torna-me lírico.

Mas a nossa vingança vai ser terrível. Não tarda, e EPC terá também a sua cela nestas húmidas paragens. Isto, senhor, é um vórtice a que ninguém escapa. Bem-vindo à perdição.

Nem por teima:

Hoje, sábado, no «Público», o magnífico Rui Tavares sai, de mangas arregaçadas, em denodada defesa do nosso convento. Eia, sus! Dá-lhe!

A ler sempre

O impagável Andy no Borowitz Report: Kerry Found With Duct Tape Over Mouth.

Sen. John Kerry (D-Mass), the 2004 Democratic nominee for President, was discovered today in a broom closet at Democratic National Committee headquarters in Washington, his hands bound behind his back and a strip of duct tape over his mouth.
The discovery of Sen. Kerry ended a nationwide manhunt after the former presidential candidate vanished Tuesday afternoon en route to an appearance on CNN’s “The Situation Room” with Wolf Blitzer.

Uma campanha alegre

Enquanto os Republicanos procuram desviar o “circo mediático” para as inabilidades de Kerry – de facto, melhor seria que enviassem o personagem de férias para as galápagos – o pessoal sempre se distrai dos escândalos nas trincheiras republicanas. Há para todos os gostos: sexo com menores; violação de sopeira na forma tentada;contratação de imigrante ilegal; tareia na esposa, and soion and soion. Quem diria, para um partido conservador e presuntivamente respeitável não deixa de divertir.