
Jan Peter BALKENENDE e Wouter BOS
Amanhã, um destes dois homens acordará primeiro-monistro holandês. Um, o cristão-democrata Balkenende, já o é há quatro anos. O outro, o socialista Bos, deseja-o há pelo menos tanto tempo.
As sondagens dão a vitória, mesmo se renhida, aos cristãos-democratas. Eles governaram com a direita, o Partido Liberal, e não foram mansos para os pobres. Sim, neste país de 16 milhões, dez por cento anda no rendimento mínimo, mais ou menos garantido.
É sobretudo em nome dos párias que a esquerda se veio levantando. E tem, nas sondagens, um avanço espectacular. Mas… essa esquerda pode nem sequer – e mais uma vez – entrar no governo. E Wouter Bos, o líder trabalhista, morrerá, de novo, à vista da praia.
E porquê? Porque um segundo partido de esquerda, tão socialista que se chama isso mesmo, Partido Socialista, e até hoje com escassa representação parlamentar, pode bem aproximar-se da percentagem trabalhista (e até, segundo uma das sondagens, ultrapassá-la, tornando-se o segundo partido do país), mas, por isso mesmo, fazendo afastar do governo a esquerda inteira.
Dentro de três horas encerram as urnas. Restam três horas para votar útil.
Votar útil. Há-de tê-lo feito o eleitorado da direita, esquecendo liberais e até ultras, para assegurarem a Belkenende a vitória, e o lugar de primeiro-ministro. Há-de tê-lo feito a esquerda, também. Dos eleitores socialistas-socialistas aos encantadores verdes, muitos terão talvez votado Bos, para assim tirarem a direita do poder.
Não se diga que a Holanda é um país monótono, mesmo com toda esta planura sob o nível do mar.
Só mais uma coisa: os sorrisos dos senhores protagonistas. Nada que se compare com a cerimónia portuguesa. Não se está a ver, pois não, José Sócrates, Marques Mendes e Francisco Louçã, na noite anterior às eleições, num talk show televisivo, tratando-se naturalmente por tu (como quase todos aqui se tratam, no governo ou no parlamento), em distendida cavaqueira… Enfim, e não acredita você em universos paralelos.
Mas, também nestes baixos países, o poder não brinca. Primeiro-ministro, mesmo sorridente, haverá só um.
Amsterdão, já caída a noite.
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