Liberal, sim, mas só se a tua liberdade não me ofender

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Pedro Arroja continua impulsionado pelas místicas visões que já o levaram a declarar Deus imprescindível à civilização e Cristo ao liberalismo. Agora, surge com mais um “original e importante” argumento (de acordo com imparcial avaliação do próprio), desta vez sobre o referendo ao aborto.
Ele começa por fazer de conta que não sabe que o primeira consulta não foi vinculativa: «o mais provável é que outros referendos se sigam até que ganhe, finalmente, o “Sim”.» Mas o melhor está para vir. Quando pensávamos nós que uma situação despótica é aquela em que o Estado, esse odiado monstro, decide pelas pessoas nestes assuntos de vida e de morte, eis que o arrojado profeta do Blasfémias nos esclarece, fulminante: «O referendo ao aborto é, provavelmente, uma das mais insidiosas manifestações do despotismo da multidão sobre a individualidade humana que Portugal conheceu desde que vive em democracia.» Qual o medo de Arroja? Simples: «não é senão de esperar que, com o decorrer do tempo, esse limite (para a realização da IVG) seja alargado, primeiro para doze semanas, depois para quinze, até chegar a nove meses.» Ou seja, o mal não é do referendo mas sim de imaginárias decisões futuras que só existem neste delírio acossado.
Mas «a questão seguinte, ainda ela eminentemente racional, será a de perguntar se certas vidas humanas (v.g., deficientes) valem a pena ser vividas.» Claro está que a resposta, para o profeta da desgraça será, «em muitos casos, não». Aqui, ele faz de conta que não é decidido, todos os dias, terminar vidas que persistem agarradas a máquinas, abortar fetos com deficiências profundas, desligar comas sem remissão. Isto sem que se ouça grande resistência nem da Igreja nem dos seus voluntariosos porta-vozes de ocasião. «Deliberar sobre o momento em que ela (a vida) termina» é hoje coisa corriqueira: a prolongada falta de actividade coerente num cérebro humano já basta para declarar alguém morto; só não entendo porque é que o mesmo critério não serve para definir o ponto do crescimento de um feto em que a vida humana tem real início.
Não adianta muito, como o próprio Arroja admite, discutir tais assuntos com quem os analisa com a Fé e não com a Razão; só estranho que gente tão amiga da liberdade não perceba quão despótico é tentar impor à vida dos outros os suas baias morais e religiosas.

PS: olhem que não estão em causa meros assuntos de “correntes políticas”, como Arroja insinua. Veja-se a excelente resposta do blasfemo Rui.

Por fim, um culpado de Portugal

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Há quanto tempo anda meio Portugal em busca de um responsável pelos nossos persistentes males colectivos? Culpados provisórios já foram recenseados nas elites, no sistema de ensino, nos fundadores do país, no clima luso — brando demais para suscitar temperamentos empreendedores, diz-se —, no excesso de vinho, nas ditaduras que nos assolaram, no 25 de Abril… sei lá.
Ontem, graças a uma dica do nosso leitor py, relembrei-me de uma suspeita antiga. Que aponta o dedo acusador ao mais remoto dos suspeitos: os patuscos mas obsoletos Neandertais.
Já leram, por certo, algum apontamento sobre o famoso “menino do Lapedo”, criatura falecida há uns 25.000 anos, em parte humano moderno mas com alguns traços de neandertal. Seria, de acordo com o vociferante “dono” da descoberta, João Zilhão, prova de grandes poucas-vergonhas entre as duas espécies, o que poderia indicar que toda a Humanidade era afinal produto de miscigenações manhosas.
Nada disso. Ao que parece, trata-se de hipótese improvável. Quando muito, só em locais seleccionados é que a funesta misturada poderá ter ocorrido. De acordo com tal hipótese, os únicos berços deste passo atrás na Evolução seriam a Roménia, a Morávia e… Portugal.
Está tudo explicado. Enquanto o Homem Moderno evoluiu alegre rumo à Civilização, à Cultura, à Arte, ao Progresso, os pobres mestiços permaneceram atolados na lama primeva, presos pelos seus toscos genes à mais pesada das heranças. Assim, lá ficámos nós, os tristes e isolados portugueses, entregues ao atraso, à acédia, à irresponsabilidade, à estupidez inata dos nossos cérebros atarracados e inviáveis.
Eu bem desconfiava que Portugal devia ter explicação.

Bem haja, Pedro!

“Podem confirmar com a segurança!”

Santana Lopes, ontem, em entrevista à RTP (a propósito do livro que escreveu para o bisneto e para que este se possa defender dos coleguinhas que possam vir a ofender a memória do bisavô – foi mais ou menos isto, se bem percebi a mecânica da coisa), após afiançar que não tinha estado mais de 15 minutos num desfile de moda e que apenas lá tinha ido para cumprimentar a organização, porque tinha sido Presidente da Câmara de Lisboa, como, aliás, João Soares já tinha sido, e que, portanto, não muda de personalidade quando muda de funções e que patati-patatá.

Ontem, meus caros, tive muita saudades do nosso Guerreiro Menino. O homem, caramba, continua a chorar, a desejar colo e palavras amenas, carinho e ternura. E eu, caramba, que estou bem longe de ser a própria candura, tive vontade de saltar para dentro do ecrã e de lhe dar um abraço bem apertado (não gozem, que estou muito comovido) por todos os bons momentos que ele me proporcionou e, se Deus Nosso Senhor Quiser (o verbo a seguir ao Senhor também tem que ser em maiúsculas, atento a proximidade), continuará a proporcionar.

Uma vírgula e dois milhões de dólares

Um erro gramatical pode parecer coisa inofensiva. Mas quando se trata de um contrato, a introdução ou omissão de uma vírgula pode ter consequências bem sérias. Quando, ainda por cima, o que está em causa são as condições temporais de denúncia antecipada do mesmo, a coisa pode ficar preta, designadamente para o advogado que terá metido a pata na poça. No Canadá, a Bell Aliant autorizou a Rogers Communications a usar as conexões telefónicas daquela. Posteriormente, aquela quis retirar-se do negócio, denunciando o contrato antes dos cinco anos. A cláusula invocada para a denúncia antecipada rezava assim:

“This agreement shall be effective from the date it is made and shall continue in force for a period of five (5) years from the date it is made, and thereafter for successive five (5) year terms, unless and until terminated by one year prior notice in writing by either party.”

O busílis está na segunda vírgula. A Rogers invocou que o contrato teria de vigorar pelo menos cinco anos. A Aliant contrapôs que aquela segunda vírgula não conferia à frase esse entendimento: antes permitia concluir que o contrato poderia ser denunciado antes dos cinco anos de duração, desde que assegurado o pré-aviso de um ano.

O regulador Canadiano reconheceu que a razão estava do lado desta última e a meu ver decidiu bem. Entretanto, à conta de uma vírgula, e com pelo menos dois milhões de dólares em jogo, e a Rogers inconformada, o caso segue para os tribunais Canadianos.

Al Jazeera para consumo entre infiéis

Aviso do blogger egípcio the big pharaoh:

So Al Jazeera launched its English channel today. I’m telling you that it’s going to be very different from our Al Jazeera. You’re simply not going to get what we have here. Ours is propaganda mixed with sensationalism and I’m sure the Western editors of the English channel are wise enough not to give that to a Western audience who’re accustomed to professional media outlets. So don’t worry you’re not going to get Jihad TV.

Mais um momento Braz & Braz

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A Má Criação tem o prazer de vos apresentar “Dias Eléctricos”, uma obra de Banda Desenhada construída de acordo com um dispositivo algo original. Um só tema, um só argumentista, e sete desenhadores, entre veteranos como João Fazenda ou Jorge Mateus, jovens promessas e estreantes absolutos.
A electricidade é o ponto de partida para as oito histórias que preenchem estes dias; os traços e as formas de contar, radicalmente diversos entre si, representam algumas das rotas que a BD nacional hoje percorre. São 120 electrificantes páginas com capa dura e um preço quase ridículo: apenas 10 euricos!

Podem aqui aceder a uma página de cada desenhador, em PDF:
Armando Lopes
Daniel Lima
Susana Carvalhinhos
Jorge Mateus
Frederico Rogeiro
Tiago Albuquerque
João Fazenda

Contando com apoio da REN, “Dias Eléctricos” promete vir a ser o início de uma colecção de recolhas similares. Assim queira sua majestade, o Mercado (um pouco de graxa aos nossos abonados amigos liberais).

Miguel Sousa Tavares sem rede

Talvez escaldado pela confusão em redor do “colorido narrativo” que foi pescar a obra alheia, Sousa Tavares lançou-se, na sua crónica do “Expresso”, num arriscado voo a solo, sem consultar fontes. E, ao que parece, estatelou-se contra os factos.
Foi o Joaquim Vieira, no indispensável Observatório de Imprensa, que deu pela coisa:
«”A primeira vez que fui aos Estados Unidos foi em 1976, o ano do Bicentennial, estava o país inteiro eufórico com os seus duzentos anos de independência”, escreve hoje Miguel Sousa Tavares no “Expresso”, para acrescentar mais à frente: “E cheguei a tempo de assistir na televisão aos impiedosos interrogatórios da comissão parlamentar de inquérito ao Watergate – autêntica lição prática do que é o sistema de balança de poderes e que culminaria, meses mais tarde, com a renúncia do pantomineiro Richard Nixon”. Ora, o presidente Nixon resignou devido ao Watergate, é certo, mas em 1974, pelo que alguém do “Expresso” devia ter alertado o seu articulista em relação a uma memória algo confusa.»
Mais coisas que talvez uma consulta atempada ao Google tivesse esclarecido: «que não é “Ali Burton” mas sim “Halliburton”, que Rumsfeld não é (nem nunca foi) secretário de Estado mas sim da Defesa, que a Convenção de Genebra não é centenária mas sim cinquentenária e que os EUA não foram “o único país que votou nas Nações Unidas contra o comércio livre de armas de guerra”, mas sim o único que votou contra o controlo desse comércio (ou seja, a favor do tal comércio livre de armas de guerra).»
Como não li a coluna referida, não sei se chegava a acertar em alguma coisa.

PS: já li a coisa e posso confirmar que há alguns acertos. Julgo, por exemplo, que o nome do colunista saiu sem erros.

Ena, ena!

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O Luis, e com ele o Aspirina, ascendeu ao «Diz-se», no Espaço público do «Público». Assim:

“Seria simpático que Santana, como qualquer cadáver político que se preze, se dedicasse mais à decomposição e menos à composição destas rábulas grotescas.”
Luís Rainha

aspirinab.weblog.com.pt, 14-11-06

Nem mais.
Nem menos.

À êga!

Depois de horas às voltas com comentários em triplicado, entradas que não entram, ficheiros que não se actualizam e outras anomalias, declaro-me oficialmente farto. Alguém que me avise quando o weblog, com ou sem Balsemão, voltar a funcionar de forma decente. Até lá, estou em greve.

À atenção de quem imaginou que Cavaco poderia ser um presidente apresentável

Durante a presidencial visita ao Uruguai, ninguém se lembrou de abordar temas económicos, área em que Cavaco teria imenso a dar ao mundo, de acordo com os seus apoiantes. Pior ainda foi que se lembraram de falar de História, descrevendo, por exemplo, a fundação de Colónia do Sacramento por portugueses, ainda hoje reflectida no aparecimento de velhas moedas lusas nas revoltas correntes do La Plata. Resposta profunda de Cavaco Silva, após as delongadas explicações: “ai, este rio é tão castanho!”. O que vale é que a primeira-dama correu de imediato em seu auxílio: “e tão violento!” Isto entre outras aventuras, que meteram, por exemplo, não reconhecer a indumentária de um paisano fardado de soldado português do século XVIII e alguns discursos proferidos em fluente portunhol.
Mas, ao fim de contas, quem é que precisa de cultura geral quando sabe de Economia?

Só para maiores (de 90 anos, ou coisa que o valha)

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Descubro que um novo e trepidante êxito editorial acaba de emigrar da blogosfera para o mundo real. Mais concretamente, uma coisa chamada “O meu ponto G”, oriunda do blogue homónimo.
Encurtando a crítica, que não ha tempo nem pachorra para muito, aquilo mete medo. Uma escrita que gostava de ser erótica mas que se fica pela brejeirice, prosas clonadas dos “contos” da revista “Maria”, lugares-comuns pegajosos repetidos até à exaustão. Rabos “empinados” há 5, só na página de entrada. “Paus” são 10, invariavelmente “duros”. “Ratas” e “ratinhas” formam uma matilha com uma dúzia de alegres convivas.
Aqui vos deixo exemplos um pouco mais extensos, para poderem medir a originalidade e a finura da prosa: “Ao sair de dentro de mim, Felino, os nossos fluidos escorreram pelas minhas pernas, obrigando-me a correr para a casa de banho.” “E chuparei cada pedaço dessa carne só minha, apertá-la-ei nos meus lábios e senti-la-ei a palpitar dentro da minha boca, enquanto engulo o teu leitinho divinal”; “abraçaste-me carinhosamente e assim ficamos, de pé, olhando-nos ao espelho e vendo o lindo casal que formamos…”
“Lindo” é como quem diz. Estamos em presença de um verdadeiro tratado de porno-chanchada, repetitivo, foleiro, piroso, intragável. “O meu ponto G” tenta com vigor enjoar-nos para as delícias do sexo; julgo mesmo que deveria ser leitura obrigatória em seminários e outros locais onde a cópula seja veementemente desencorajada.
Mas quem se lembrou de gastar bom papel neste aglomerado incoerente de paus, ratas e fluidos? Jorge Reis-Sá. Precisamente: o mesmo editor que há uns tempos clamava pelo regresso do “sublime” à poesia lusa, bramando contra quem “a retém nos urinóis”. Ao que parece, a prosa não merece cuidados similares: pode bem ficar presa em boudoirs manhosos.