«Suponho que é a primeira vez, no sistema político-constitucional de 1976, que um Presidente da República faz saber publicamente que entende que um ministro deve ser demitido e que, depois, vem anunciar oficialmente que discorda da opção do Primeiro-Ministro de recusar o pedido de demissão entretanto apresentado pelo próprio Ministro em causa.»
Um Presidente que tem no seu currículo de exímio jurisconsulto a publicação de uma Constituição anotada, pelo que talvez nem seja por ignorância que se permite enxovalhar duas das principais instituições da República, o Governo e a própria Presidência que lhe foi confiada sob juramento.
Na comunicação em que recusou a demissão do ministro das Infraestruturas, António Costa frisou por mais de uma vez, mais de duas, que nunca violou o sigilo das conversas privadas tidas entre Presidente da República e primeiro-ministro. Tal respeito e lealdade não têm correspondência por parte do seu interlocutor. A jornalista Ângela Silva, no império Balsemão, funciona como espalha-intrigas e lança-ameaças gizadas pelos crânios na Casa Civil que se imaginam a liderar as falanges do Bem contra a horda do Mal. Logo após a conferência de imprensa de Galamba no sábado, onde este ofereceu ainda mais munição ao inimigo, Belém entrou em modo “Guerra dos Tronos” e os homens do Presidente urraram ter de se fazer sangue. Um dos alvos mais suculentos no Governo havia assinado a sua sentença de execução, faltava só que Marcelo despachasse a ordem. Ocasião imperdível para mostrar ao povo quem era o rei. Seguiu-se o tal telefonema com esse ultimato.
Pelos vistos, Costa terá dito a Marcelo que ia pensar no caso, e no seu caso. Quando chegasse a Portugal tomaria uma decisão. Marcelo passou o domingo com ar fúnebre, já em luto por causa do ministro executado. O PS igualmente entrou no processo de embalsamento de mais um titular da pasta das Infraestruturas, até revelando alívio com a notícia do óbito. Nisto, as declarações do regressado ao Observador e no aeroporto, na segunda-feira, espalharam o pânico na marcelagem. Não carecia ter fundas noções de hermenêutica para perceber que a demissão do Galamba ainda não estava no papo. Vai daí, em minutos, decidiu-se pôr a Ângela e o mano Costa a funcionar e o Expresso publicou uma chantagem na forma de mais uma violação da privacidade entre duas das três figuras cimeiras do Estado. No caso, o teor era obscenamente aviltante da separação de poderes desenhada na Constituição. A escrita retratava o responso presidencial que desautorizava o primeiro-ministro e lhe anulava o espaço de manobra. O facto estava consumado, proclamava esse “jornal de referência”: Galamba não podia ser um Lázaro, Costa que não ousasse ser um Capitão de Maio.
Veio uma terça-feira de peripécias, trincherazos e chicuelinas. No meio do cataclismo de estar a ver Costa sem medo dos abusos presidenciais e do cerco mediático, sem medo inclusive do Partido Socialista, o Presidente da República nem esperou que o primeiro-ministro acabasse de responder aos jornalistas. Foi logo a correr, como se estivéssemos em noite eleitoral, publicar uma nota na página da Presidência onde se declara agastado com isto de termos o responsável máximo pelo Governo a governar de acordo com a Lei e com a sua consciência.
Essa nota, justificada com a salvaguarda do “prestígio das instituições” (no que fica para a História como burlesca ironia), é indigna do mandato de quem jurou defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa. Expõe a indelével fraqueza política do titular. Não é um acto conforme ao estatuto de um Presidente, é antes a pulsão infrene do comentador.
Aposto que sentiu vontade de lá meter a sugestão de um ou dois livros muito bons, de que ele gostou muito.
