Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Quem é que gostavas de escutar?

«Leio, no Expresso, que "há 14 mil telemóveis sob escuta". Se cada um dos seus utilizadores tiver 15 interlocutores no período de tempo em que essas escutas estiverem ativas, haverá cerca de 210000 cidadãos que terão, sem o saberem, as suas conversas gravadas e, tantas vezes, ilegalmente publicitadas. Esta verdadeira devassa justificar-se-á pelos resultados obtidos na prevenção e investigação criminal? É a análise que está por fazer.»


A.R.

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Não só essa análise está por fazer como nem sequer me parece a questão principal. Em Portugal temos agentes da Justiça que cometem crimes sistemáticos de violação do segredo de Justiça onde os conteúdos mais valiosos são precisamente aqueles obtidos em escutas e outras formas de violação da privacidade das pessoas apanhadas na máquina policial. A impunidade reinante é não só aceite como “normal”, aparece ainda defendida pelas próprias autoridades supremas da República para a anomia ser institucionalizada. O Presidente da República que ameaça fazer cair o Governo por causa das alterações climáticas, e que sai à rua em pijama se um ligeiro de passageiros vindo da Calçada da Ajuda amolgar a traseira de uma furgoneta do pão estacionada na Junqueira, está-se a marimbar para a criminalidade que enche de gozo e dinheiro a Cofina et alia. Joana Marques Vidal, interrogada sobre o número de violações ao segredo de Justiça e a incapacidade absoluta para sequer se descobrir quem as faz, riu-se e e declarou que não lhe parecia ser um assunto importante visto que os deputados não legislavam para tornar esse crime mais grave. O seu riso compreende-se e fiquei a admirá-la para sempre por ter conseguido responder sem se ter afogado em gargalhadas. É que o primeiro partido que sequer ameaçasse ir começar a pensar em tal seria acto contínuo esmagado pela indústria da calúnia, pelo sindicato dos magistrados e pelos restantes partidos que não iriam perder uma miraculosa oportunidade de ficarem ao lado do valente povo que não precisa de tribunais nem de leis quando as capas do esgoto a céu aberto fazem a verdadeira justiça: imediata, implacável e sem se perder tempo com os atrasos e recursos da bandidagem.

Mas pensemos. Se há agentes da Justiça que se sentem completamente à-vontade para entregarem a jornalistas informações que vão ser usadas para o sensacionalismo, os assassinatos de carácter e as campanhas negras, e isto apesar da notoriedade máxima dos casos, o que é que eles não farão em casos onde não há qualquer atenção mediática? Quão difícil será conseguir usar as polícias e a Justiça portuguesa para fazer espionagem empresarial, ou para satisfazer pedidos secretos de entidades criminosas estrangeiras? Se o Ministério Público não sabe quem é que faz dezenas ou centenas de crimes num processo que envolve um ex-primeiro-ministro, crimes que começaram ainda antes de haver arguidos constituídos, como poderá saber dos outros eventuais casos? Por exemplo, será que existe um mercado onde se podem encomendar escutas por particulares sobre particulares? E de partidos sobre partidos? Os factos sugerem que sim.

A extra ordinária Operação Marquês

Depois de 4000 páginas de despacho acusatório, 53 000 de investigação, 77 000 de documentação anexa, 8 000 de transcrições de escutas telefónicas, 13,5 milhões de ficheiros informáticos, 103 horas de vídeos de interrogatórios e 322 de depoimentos áudio de testemunhas, o que será mais extraordinário na “Operação Marquês”? Haverá respostas para todos os gostos, agendas e ódios, mas duvido que alguma ultrapasse em espanto e relevância esta: não se ter constituído como arguida Maria Adelaide de Carvalho Monteiro e não se ter constituído como arguido qualquer outro elemento dos XVII e XVIII Governos para além do respectivo primeiro-ministro. Isto é, as pontas da suposta investigação – que supostamente começou com a denúncia de dinheiro recebido da sua mãe por Sócrates na CGD e que terminou com uma acusação onde se diz terem existido supostos crimes cometidos em Gabinetes Ministeriais e Conselhos de Ministros – não constam no processo.

Algo similar aconteceu no “Face Oculta”. Num caso construído sem provas e baseado no relato em segunda mão de Ana Paula Vitorino, alegou-se que Mário Lino acedeu a um pedido ilícito de Vara mas o ex-ministro alegadamente cúmplice nem sequer foi constituído arguido. Porquê? Porque se calculou que, sem provas, sem prejuízo para o Estado, sem mais nada a não ser uma conversa que se diz ter existido com um certo sentido subjectivo, não seria possível fazer-se a Lino o que se ia fazer a Vara – nem se podia fazer a Vara alguma coisa sem por tabela Lino ter de levar igual ou até pior. O temor e tremor de acusar e prender um ex-ministro exclusivamente com provas indirectas e sem qualquer possibilidade de o relacionar com algum proveito material, ou outro, arriscava boicotar a vingança destinada ao asqueroso socialista que tinha ousado ir para o BCP como administrador depois do caos para onde o banco foi arrastado por Jardim Gonçalves e Paulo Teixeira Pinto.

Num certo dia de um certo mês de 2013, Rosário Teixeira e Joana Marques Vidal encontraram-se, a sós ou acompanhados por outros procuradores, e decidiram que era desta que o inimigo nº 1 da oligarquia portuguesa ia ser apanhado, linchado e enterrado. Nessa reunião, adivinho, tomaram decisões sobre a mãe de Sócrates e sobre os ministros e secretários de Estado ligados a Sócrates. Seria possível deter a frágil senhora, levá-la algemada para ser interrogada pelo Carlos Alexandre e de lá ter de mandá-la na ramona para uma prisão feminina qualquer? Isso causaria demasiado ruído mediático, correndo-se o risco de gerar antipatia contra a PGR e simpatia a favor de Sócrates. Pelo que se decidiu logo ali, imagino, que a pessoa que se iria apontar como tendo sido cúmplice principal de uma transacção fraudulenta no mais grave caso de suspeita de corrupção da História de Portugal iria ficar de fora do processo. E quanto às dezenas de ex-governantes que iriam ser apontados também como cúmplices de decisões supostamente vendidas por milhões vindos do Grupo Lena, do BES ou de quem a acusação se lembrasse de inventar? Idem, aspas, não haveria logística para serem investigados e nem tal era preciso, antes pelo contrário. A aventura seria triunfal mesmo que apenas decapitasse uma das cabeças da Hidra, a mais apetecida. Aumentar o número de arguidos com responsabilidades nos Executivos socráticos traria mais atrasos, mais dúvidas, mais riscos de se perceber que toda essa gente estava a ser presa para ser investigada, devassada e assassinada política e socialmente. Ter Sócrates como troféu de caça, mesmo que dali por não sei quantos anos ele acabasse condenado apenas por fraude fiscal, era só o que interessava garantir. A “Operação Marquês”, logo a partir da sua detenção para ser interrogado, iria ser a sua condenação instantânea sem ser preciso ficar dependente dos volúveis juízes. Os restantes alvos seriam atingidos por associação e contágio.

A “Operação Marquês” iria ser excepcional, algo nunca antes visto na Justiça portuguesa quanto aos recursos disponíveis e quanto ao caudal criminoso das violações do segredo de justiça e dos direitos fundamentais. A PGR só iria avançar se tivesse a certeza de conseguir blindar a acusação mesmo antes de se poder saber qual viria a ser o seu conteúdo. Aceitar arquivar o inquérito caso a investigação nada encontrasse não era uma opção. O suspeito teria de ser tratado como condenado a partir da sua constituição como arguido; a matéria de facto era um tópico quase indiferente, algo se iria apanhar de certezinha absoluta, e o trânsito do dinheiro já chegava para o gasto. O que importava era o simbolismo, o choque e pavor, a exibição da presa derrotada, ferida de morte. Para tal era necessário garantir não só a cumplicidade como a activa colaboração do juiz a quem competia a defesa das liberdades e garantias dos cidadãos. Carlos Alexandre era perfeito para esse papel de carrasco – e não havia alternativa, não havia risco de calhar um juiz que tivesse a mania de querer ser isento. O Ministério Público da santa Joana olhava à volta e via o Presidente da República, o Governo e a maioria parlamentar a pedirem acção impiedosa contra o monstro que os apavorava e que não admitiam ver como candidato à Presidência, via a comunicação social dominada pelos impérios da direita pronta para iniciar um fogo de barragem épico com a sua ubíqua indústria da calúnia, via o magistrado judicial responsável pelo Tribunal Central de Investigação Criminal a arder de desejo para ser a arma divina que limpa o mundo do pecado e dos políticos demoníacos, via um ano eleitoral a chegar para umas legislativas onde era preciso debilitar ao máximo um PS que tinha trocado o manso Seguro pelo bravo Costa. Era desta, 40 anos depois do 25 de Abril voltaríamos a poder assistir a um regime de excepção para julgar criminalmente opositores políticos.

É tentador ver na entrevista que Carlos Alexandre deu à SIC, em Setembro de 2016, o maior escândalo alguma vez protagonizado por um juiz em funções. Nela, ouvimos referências directas a um arguido num processo ainda sem acusação onde o próprio era juiz de instrução – ou seja, onde se tinha comprometido com o Estado a defender a Constituição e os códigos legais para respeitar os direitos desse mesmo arguido. Para além de ser o processo mais importante na história da Justiça portuguesa por estar em causa uma suspeita de corrupção sobre um primeiro-ministro, o registo usado para violar o dever de reserva a que os juízes estão obrigados misturava a intenção de publicitar a culpabilidade de Sócrates com o culto da sua augusta e proba pessoa de Mação, que ficava como bastião popular e rural contra os corruptos da elite e da cidade. Infelizmente, essa estouvada e torpe manifestação de soberba está longe do que é o supremo escândalo relativo à sua figura e papel na “Operação Marquês”. A suspensão do Estado de direito começou logo após a detenção dos suspeitos quando decretou a prisão preventiva de Sócrates e declarou ter pena de não poder impor uma pena ainda mais grave logo naquela fase inicial e sem sequer se saber quais os eventuais crimes em causa. Continuou com o prolongamento da prisão em Évora, concordando com Rosário Teixeira no deboche de se considerar demasiado arriscado passar Sócrates ao regime de prisão domiciliária sem o uso humilhante de uma pulseira electrónica – e isto apesar do Tribunal da Relação já ter excluído o perigo de fuga. Culminou com uma entrevista à RTP onde considerou uma farsa o sorteio informático que designou Ivo Rosa como o magistrado que liderará a fase de instrução criminal, assim despejando sobre todo o sistema da Justiça portuguesa uma calúnia maximamente agravada pelo seu estatuto. Pelo meio, conseguiu a mudança do Tribunal Central de Instrução Criminal do Campus de Justiça para as instalações da antiga sede da Polícia Judiciária, cuja leitura tanto pode ser vista como gesto político e/ou sintoma de paranóia, e ainda disparou ameaças genéricas para outros magistrados não identificados alertando ter uma excepcional memória. Last but not least, descobrimos que a relação com um certo amigo e o seu dinheiro, numa mixórdia de promiscuidades incríveis tendo em conta que ambos são magistrados, era um bocadinho diferente do que tinha apregoado na TV quando quis condenar na praça pública um cidadão à sua guarda.

A extraordinária responsabilidade, complexidade e cautela exigidos numa investigação com as consequências da “Operação Marquês” pedia um juiz com este perfil pacóvio, justiceiro, megalómano e estúrdio? Ao contemplarmos o modo como o seu desprezo pela Lei e pelos direitos de outrem foram validados pelo Conselho Superior da Magistratura, e ao percebermos que esse órgão é uma entidade corporativa onde a Assembleia da República e o Presidente da República se demitem estrategicamente da sua soberania quando há comunhão de vontades contra o bem comum, ficamos na posse de um retrato onde é todo o regime que apoia e protege Carlos Alexandre. Um retrato onde é cristalino o desprezo pela descoberta dos factos e a condenação dos eventuais criminosos, caso contrário jamais se deixaria de fora uma cidadã sem a cumplicidade da qual não teria existido a descoberta do crime (dizem eles), e ainda menos se deixaria sequer sem investigação as dezenas de governantes que tomaram decisões apenas para que Sócrates enriquecesse de modo ilícito (dizem eles). Em que outros casos cidadãos dados como coniventes em actos ilegais ficam impunes por causa da idade, sexo ou relação familiar com outros delinquentes? Por que raio a mãe de Sócrates, designada como a ponte entre Carlos Santos Silva e Sócrates para a lavagem de dinheiro vindo da corrupção, nem sequer como arguida foi constituída? E se o Ministério Público acha que existiu um Governo em Portugal que manipulou negócios de milhares de milhões de euros, envolvendo centenas de decisores entre responsáveis executivos, administradores bancários e accionistas da PT e do BCP, só para que um primeiro-ministro pudesse ir para Paris estudar e ficar numa casinha com um soalho ao seu gosto, como é que essa inominável e indescritível perversão da República Portuguesa fica sem investigação e condenação judicial?

A “Operação Marquês” nasceu de uma legítima suspeita a respeito da circulação de dinheiro usado privada e ocultamente por Sócrates, a qual teria de ser investigada necessariamente. Porém, a violação do Estado de direito marca os antecedentes e desenvolvimento da investigação, onde há igualmente legítimas suspeitas de espionagem ilícita sobre Carlos Santos Silva e Sócrates, legítimas suspeitas sobre abusos de poder no Ministério Público antes da abertura formal do processo, legítimas suspeitas sobre manipulação ilícita do sistema de Justiça de modo a garantir que fosse Carlos Alexandre a conduzir o processo até à acusação, legítimas suspeitas de actos criminosos cometidos pela equipa de procuradores de Rosário Teixeira ao violarem o segredo de Justiça, legítimas suspeitas da inexistência de integridade em Carlos Alexandre ao aceitar ser juiz num caso em que à partida já considerava culpado o arguido sem lhe conceder o direito a um processo justo. Tendo em conta que este caudal de violências foi festejado e reclamado como triunfo supremo por parte de Passos Coelho e Cavaco Silva aquando da campanha para a continuidade da sua Procuradora-Geral da República, a heroína a quem fizeram uma estátua de elogios e agradecimentos, fica evidente que a dimensão de linchamento e assassinato de um inimigo político não só supera como torna irrisória a dimensão judicial de se averiguar se um certo cidadão cometeu actos ilegais, seja lá qual for a sua gravidade. Neste sentido, a “Operação Marquês” é o maior triunfo da direita decadente desde o estabelecimento do Cavaquistão. Ver o PS e a esquerda a colaborarem com este festim sórdido e odiento exibe um regime onde é necessária a destruição de Sócrates por razões de Estado.

No arneiro da Celeste

ARTV, por causa da crise (que é também deontológica) da imprensa e por causa da decadência da direita portuguesa, é o canal televisivo mais importante para a cidadania. Nele podemos ver e ouvir os protagonistas parlamentares, governativos, institucionais e qualquer cidadão com a obrigação de responder ao Soberano. Há muito e variado para descobrir sobre o centro político da República, e talvez o registo das comissões de inquérito seja o conteúdo mais valioso posto à disposição de todos na sua vertente documental. Por um lado, as questões tratadas nas comissões de inquérito são inerente e especialmente graves. Por outro, essa gravidade é inerente e invariavelmente palco de polémica e baixa política, quando não chicana ou pura canalhice. A radical diferença está em se dar tempo aos cidadãos na berlinda para se explicarem sem serem interrompidos – isto é, permite-se que se exerça o direito à palavra e ao bom nome.

Apesar da abundância de informação da maior relevância política, esperar que a programação e matérias deste canal suscitem sequer uma ensonada referência junto do bom e sofrido povo é do foro das patologias delirantes. Só jornalistas de política, outros políticos e uma mão-cheia de malucos (como aqui o pilas) é que aceitariam perder três horas, cinco minutos e trinta e dois segundos para descobrir o que foi dito na audição de uma senhora com vasto currículo ao serviço do CDS e do regime. As pessoas normais não o fazem, por excelentes razões: têm bem mais e muito melhor onde gastar o seu precioso tempo. Preferem pagar o preço de ignorarem voluntariamente o acontecimento, ou ficarem involuntariamente na ignorância por ninguém falar dele, ou levarem com interpretações distorcidas de fragmentos tirados do seu contexto. As pessoas normais, na normalidade de serem tratadas como borregos por uma comunicação social que na sua enorme maioria actua como extensão de partidos e grupelhos da direita (inclusive na RTP), fazem construções lógicas a partir de premissas maradas. Uma das ideias indiscutíveis mais populares, também porque difundida e festejada televisivamente por um ilustre Conselheiro de Estado braço-direito de um popularíssimo Presidente da República, é a de que Armando Vara foi condenado sem provas num processo de sucata&robalos para assim poder ser castigado pelo que esse ilustre Conselheiro de Estado declara que o bandido fez na CGD e no BCP. Será verdade que Vara era o “todo-poderoso” na CGD, capaz de dominar os restantes administradores e directores de forma a servir o seu mestre diabólico de nome Sócrates? Poderia alguma vez ter sido verdade esta demente fantasmagoria repetida de forma maníaca por bostas e papada por broncos?

Não era necessário esperar pela audição de Celeste Cardona para sabermos que uma pulhice é uma pulhice. Vamos na 2ª comissão de inquérito parlamentar à Caixa e ainda não apareceu ninguém que tenha deixado a menor das dúvidas acerca da legalidade e controlo administrativo dos processos internos, inclusive nas decisões de crédito no centro das explorações políticas. Aspectos questionáveis existiram, existem e existirão sempre neste banco e em todos no Mundo, mas um cenário de manipulação criminosa por um Governo socialista de uma entidade também nas mãos do PSD e do CDS é bojarda insana. Como explicar, então, que se continue a usar a calúnia para encher o espaço mediático dominado pela direita? Ouvir Celeste Cardona e depois ir à procura dos ecos e efeitos das suas declarações é uma lição a respeito do fenómeno. Os editorialistas, colunistas e políticos que andam há anos a berrar contra o alegado uso da CGD pelo PS de Sócrates para tomar o controlo do BCP ficaram calados. Naquilo que se chama a “opinião” não se inscreve o que Celeste Cardona jurou ter testemunhado e assumido. Problemazito: o que ela revela prova estarmos perante um crime, sim, mas não cometido por Vara. E não há quem se atreva a desmentir a sua palavra.

Quando à direita a política se reduz à mais obscena e raivosa calúnia, e quando à esquerda se pactua com essa calúnia por razões ideológicas (os bancos, o dinheiro, o capitalismo e os “falsos socialistas” não prestam, cantarolam PCP, BE e quejandos), esperaríamos do PS, o alvo sistémico, e do Presidente da República, o suposto garante da integridade da democracia e da decência na República, uma intervenção célere e corajosa na defesa do Estado de direito. Estão em causa as instituições Justiça e Parlamento, será coisa pouca? Acontece que Palácio de Belém, São Bento e Rato pretendem deixar que Vara e Sócrates continuem a ser linchados mesmo que se torne crescentemente patético tentar conciliar os interesses subterrâneos do regime com o princípio da razão suficiente. Aparentemente, neste momento todos os agentes políticos com fáctico poder ganham com este circo onde dois bodes expiatórios vão servindo para entreter a turbamulta e os profissionais da canalhice que a açulam. Resta, no espaço público onde somos comunidade, esse oásis da ARTV para qualquer um que prefira passear-se neste planeta sem ser enganado por aldrabões e seus patrões.

Revolution through evolution

Antibiotics that dentists prescribe are unnecessary 81% of the time
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Eating blueberries every day improves heart health
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Hyphens in paper titles harm citation counts and journal impact factors
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Extroverts enjoy four key advantages according to science; here they are
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Rui Rio é estúpido?

Rui Rio quis liderar o PSD após a catástrofe económica e social da responsabilidade principal de Passos e Portas. Quis enfrentar o PS a governar num inaudito quadro de apoio parlamentar e com estrondoso sucesso económico e social, liderado eficazmente por António Costa. Não temos de conhecer as razões que o levaram a escolher este calendário, mas cresce a convicção de que a sua escolha nasceu de uma fraqueza. Arriscar o menos possível, ganhar o partido à primeira tendo este batido no fundo. E continuar sem nada querer aprender.

Na campanha eleitoral para o PSD e tempos seguintes, Rio pôde sentir na pele a colossal energia guerreira que a temática da Justiça armazena e espalha sistemicamente. Tal resulta de 15 anos de judicialização da política e de politização da Justiça que culminaram na “Operação Marquês”, uma investigação que se transformou em bandeira política reclamada oficialmente por Cavaco Silva e Passos Coelho. A mera expressão de avulsas e óbvias críticas ao Ministério Público de Marques Vidal valeu a Rio ataques ferozes da direita decadente, na qual se destacou Marques Mendes (em representação do regime) que chegou ao ponto furibundo de colar Rio a Sócrates – no que ficou como ostensiva, debochada, chantagem pública. Se Rio continuasse por esse caminho, arriscando pôr em causa o sucesso pleno da vingança em curso e a tentativa de atingir o PS com dano máximo, então iria ser destruído com base em difamações e calúnias.

A chantagem resultou. Aquele que era o maior trunfo de Rio, a manifestação de uma coragem singular numa sociedade cúmplice da violência que constitui a essência da “Operação Marquês”, foi abandonado, com isso perdendo a sua imagem de integridade e abdicando de construir um posicionamento político capaz de disputar o eleitorado mais comprometido com a decência e a segurança na cidade. Para as Europeias, escolheu um profissional da baixa política que fez uma campanha inane, sem qualquer ideia e a cuspir ódio sempre que abriu a boca. O próprio Rio assumiu a calúnia como arma eleitoral, destruindo de vez a sua credibilidade. Fez tudo exactamente ao contrário do que devia ter feito, perdeu uma ocasião histórica para deixar o seu nome na História.

Vem aí o Verão, as férias, os incêndios, e depois teremos umas semanas de berreiro partidário até às legislativas. A única coisa sobre o actual presidente do PSD que resta descobrir é esta: é estúpido ou apenas falho de inteligência política?

PANegírico

O equívoco daqueles que falam em equívoco no resultado do PAN está em pensarem que a fatia principal dos votos veio de pessoas com preocupações ecológicas. Desconhecendo qualquer estudo sociodemográfico e psicográfico sobre os 168.501 eleitores em causa, mas registando que o voto foi maioritariamente urbano, intuo que a motivação pode ser múltipla e convergente:

– Dependência afectiva e relacional de animais de estimação.
– Iliteracia e alienação política.
– Desejo de intervenção cívica.

Neste retrato imaginado não existe qualquer preocupação com a ecologia, muito menos a transformação dessa eventual problemática numa decisão eleitoral informada e analítica. A decisão de ir votar, e de votar no PAN, encontra antes a sua lógica e dinâmica como solução para a dificuldade cognitiva em assimilar as mensagens das restantes forças políticas e para a dificuldade emocional em suportar a retórica hostil, bélica, litigante que preenche obsessivamente os espaços de discussão e propaganda política.

Aposto também que o PAN terá conseguido contribuir para o aumento do número de votantes face às últimas eleições, sendo uma excelente opção para abstencionistas de longa data. A ser verdade, e independentemente da sua imprevista evolução interna e externa como partido com representação parlamentar, o seu papel no sistema partidário e no regime é altamente benéfico pois estará a formar eleitores. Eleitores que poderão mudar o sentido do seu voto numa qualquer outra ida às urnas, ou não, assim cumprindo perfeitamente o ideal democrático.

O julgamento de Nuremberga vai parecer uma brincadeira

«José Sócrates sempre foi muito próximo politicamente dos líderes socialistas da América Latina, como Lula da Silva e Hugo Chávez. Isso gerou oportunidades de negócio para as empresas portuguesas mas também gerou fortes suspeitas de corrupção internacional que têm sido detetadas nas investigações da Operação Marquês e do caso BES. O Brasil, Portugal e um futuro governo democrático na Venezuela deviam investigar essas ligações a fundo com uma equipa de cooperação judiciária especial?»

Sérgio Moro. “É uma possibilidade criar equipa para investigar as relações entre Sócrates, Lula e Chavéz”

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O talibã está feliz da vida. Um juiz que judicializou umas eleições presidenciais para alcançar poder político, o qual acumula com ser ministro da Justiça de um presidente adorador de tiranos, voltou a Portugal para continuar a exibir o seu desprezo pelo Estado de direito. É isto que enche de alegria o talibã, poder abraçar-se ao seu ídolo e usá-lo para escoucear o princípio da presunção de inocência e fazer a apologia das perseguições políticas a partir da Justiça.

Como podemos ler acima, a direita decadente pode não ter votos mas tem uma utopia. Trata-se de montar uma força policial internacional onde Sócrates continue a ser linchado nos próximos 20 a 30 anos. Para já, o talibã apenas avança com a sugestão de reunir três países, mas é óbvio que está a ser modesto e que se podem juntar muitos mais. Basta ver a listagem das suas viagens ao estrangeiro como primeiro-ministro e depois incluir esses países, mais aqueles com que tenham fronteiras (porque os corruptos internacionais são uns saltitões, é uma chatice), na entidade judicial mundial que vai investigar Sócrates, Lula e Hugo Chávez (para este último bandido, a eventual sentença será aplicada por seres com asas e vestes imaculadamente brancas).

A madraça lá conseguiu mais um título para alimentar os seus borregos. Que teriam para dizer caso não fizessem da pulhice o seu modelo de negócio? Mistério que nenhuma coligação internacional, ou que fosse planetária, conseguiria desvendar.

Ajudemos os “observadores”, a nossa célula adormecida não sei de quê

Os escribas da direita passista evoluíram de bloguistas para uma espécie de jornal digital que pretende perpetuar a memória da “época de ouro” do neoliberalismo experimental português que foi o governo Passos-Gaspar-Troica, uma orgia de sadismo social.

Ora bem, depois do aparecimento de Passos Coelho na campanha para as europeias, supostamente para dinamizar a campanha do Rangel e angariar-lhe mais votos através do seu “prestígio” (ui…!), e depois do rotundo fracasso de tal aparecimento, que figura descobrirão os esgroviados, e órfãos (que uma desgraça nunca vem só), colunistas do Observador para possível encarnação das suas posições políticas numa futura campanha para legislativas?

Nota: o bloqueio da grande maioria dos seus artigos parece-me um grande entrave aos seus intentos, mas eles lá sabem.

Europeias 2019, o Pedro explica

"Ah, com certeza passaria a defender o voto no PS, no PCP e no Bloco de Esquerda. Se pudéssemos todos, sem dinheiro, devolver salários, pensões, impostos e no fim as contas batessem todas certo, isso seria fantástico."


Pedro

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Ou seja, apesar de ter aparecido na campanha do PSD para carimbar os socialistas como “ilusionistas”, arte onde o Pedro revelou ser mestre sem rival na campanha para as legislativas de 2011, às escondidas o saudoso líder andou a defender o voto no PS, no PCP e no Bloco de Esquerda. Como explica na entrevista, estamos perante um milagre e há que pôr a cruzinha respectiva para o assinalar.

Agora só resta esperar que o Pedro volte daqui a uns meses para continuar a magnífica obra que antecipou logo em 2016. A direita está patrioticamente a tentar ajudar a governação e as contas públicas. A fórmula passa por se agarrarem ao Sócrates, ao Vara, ao Berardo, à CGD, aos familiares até ao décimo quinto grau, ao Carlos Alexandre, à santa Joana, aos cómicos engajados, assim evitando terem de sequer simular que possuem uma ideia, uma que seja, que mereça a atenção do eleitorado. E resulta, as pessoas compreendem e reagem em conformidade.

Como se gritou nos comícios onde o brilhante Paulo Rangel pôs a chicana e o ódio na ventoinha, número em que é especialista: “O povo não esquece que a culpa é do PS”. É isso, a culpa é do PS. ‘Tá feito. A direita, esta direita decadente, não precisa dizer mais nada para ajudar a malta. São uns queridos.

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Unlike men, women’s cognitive performance may improve at higher room temperature
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Discrimination against older people needs attention
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Study identifies dog breeds, physical traits that pose highest risk of biting children
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‘Imagine…’ – our attitudes can change solely by the power of imagination
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Walking and strength training may decrease the risk of dying from liver disease
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People in higher social class have an exaggerated belief that they are better than others
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Initially threatened by change, people adapt to societal diversity over time
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Um servicinho público

A série Teorias da Conspiração é um fenómeno. Quem perder o seu rico tempo a ler o pouco que saiu aquando do lançamento vai descobrir que a promoção pelo autor, realizador e jornalistas amigos prometia um vendaval de reacções políticas, especialmente por parte do PS. O tema indicado era o da crise que tinha levado ao resgate de emergência em 2011, tendo-se criado a ideia de ser esta série o espelho de uma investigação, um docudrama ou docuficção, a partir do livro de Paulo Pena Jogos de Poder. Muito bem, fixe, pensou o ingénuo telespectador e pagador de impostos.

Vem o primeiro episódio. O registo é de telenovela da hora de almoço. Estranheza inicial: não há nomes reais. Temos de tentar descobrir quem é quem através dos contextos, caricaturas, insinuações e convocação lateral ou analógica de factos históricos. Apesar das incertezas, algumas figuras são inquestionavelmente reconhecíveis: José Sócrates, Joe Berardo e Jardim Gonçalves. Resumo dos 40 minutos: Sócrates, Joe Berardo, CGD, Maçonaria e aquele que se revelará um psicopata assassino uns episódios à frente, sendo que neste já se exibe como assassino involuntário, conseguem afastar Jardim Gonçalves recorrendo a uma ameaça à sua vida; Jardim Gonçalves, apesar de ter feito umas merdas no BCP que cheiram mal, é uma pessoa seriíssima e com muito valor, tendo pegado em bancos falidos e criado o maior banco privado português. E prontos, estava despachada a primeira fatia de um bolo com 18 episódios.

Lá para o 7º ou 8º episódio, depois da confusão dos nomes alternativos e dos desvarios ficcionais ir em crescendo para quem não domine todas as cifras identificativas, faz-se uma luz, uma luz negra. Ocorre quando se atribui ao primeiro-ministro, o nosso Sócrates – já devidamente retratado como irascível, prepotente e maquiavélico em versão Chelas anos 80 – o caso das casas do Cavaco. Sim, descreve-se a trafulhice cavaquista mas retrata-se na personagem socrática o seu protagonismo. O mesmo se fez com o caso dos submarinos e até dos vistos Gold. Não só Sócrates aparecia como o vilão diabólico que absorvia e espalhava todo o mal da Nação como o calendário da ficção deixava de ter relação com o calendário real onde esses casos ficaram inscritos. Passava a valer tudo, assim se concretizando numa narrativa delirante a moral da perseguição e linchamento de Sócrates realmente operada política, mediática e judicialmente logo a partir de 2004.

O silêncio que se abateu sobre esta série merecia uma investigação académica. Por um lado, é uma homenagem à sua qualidade paupérrima como objecto televisivo de ficção. De facto, custa chegar ao fim quando estamos a ser ofendidos na nossa inteligência. Por outro lado, o silêncio manifesta a intenção do regime em condenar Sócrates à maneira do massacre dos Távoras. Assim, a administração da RTP não terá de dar a mínima explicação sobre os critérios que levaram à aprovação deste projecto e qual a razão para ter 18 penosos episódios. Para se entender o que está em causa, pensemos se seria possível fazer algo similar sobre o BPN ou os efeitos das políticas de Passos Coelho. A resposta é uma óbvia negativa, há nomes intocáveis. Porém, acerca de acontecimentos, casos e questões que estão em aberto, que são alvo de polémicas políticas, que não tiveram da Justiça o seu devido esclarecimento, pode-se achincalhar, deturpar, inventar e alucinar sem freio porque se trata de Sócrates e do PS.

Teorias da Conspiração é uma série criada para informar o público, de modo divertido, que existiu um primeiro-ministro que teve como cúmplice do seu plano mefistofélico de poder um advogado assassino, entre outros escroques. Os autores apresentam referências directas à realidade factual para comporem e ilustrarem a sua narrativa. A televisão pública comprou este projecto, promoveu-o, e fez com que apanhasse o calendário eleitoral e chegasse ao último episódio nas vésperas da votação para as Europeias. Fica cúmplice da sua natureza caluniosa e doentia – ou seja, faz de nós todos cúmplices da decadência moral e anomia da vingança em curso.

“Abutre” – João Pedro da Costa

Tive a sorte, a honra, o kairós de ter lido esta obra quando ela mais falta me fez. Revelo: quando ela foi a melhor companheira de uma longa e última despedida. A sua narrativa fractal, o abraço impossível e cósmico de um avô a um neto, o passado como presságio esvoaçante, envolveu-me numa beleza que fez de Canidelo parte da minha biografia afectiva.

João Pedro da Costa, no tempo em que existia a blogosfera, era o mais criativo dos seus autores. Como se isso não bastasse, foi nele que David Benioff e D.B. Weiss se inspiraram para compor o visual da personagem Jon Snow:

Imitação

Original

Faço votos de que não se venda nem um exemplar. Que mais ninguém leia este livro para além dos felizardos a quem o João o ofereceu. Que fique um segredo para iniciados que viram, ou ainda querem ver, um filho nascer duas vezes.

Coisas do Carvalho

«No Portugal deslumbrado com os fundos europeus, do dinheiro fácil e da promiscuidade barata, bastava ser rico, estar de pé firme na oligarquia da capital para se merecer uma distinção. Berardo não foi o criador dessa cultura; foi sim uma das suas mais exuberantes criações. Puni-lo por se ter tão perfeitamente integrado nesse caldo venal de vícios e favores faz todo o sentido – até para que não continue a gozar com os brandos costumes e com a impunidade alimentada pela lentidão da Justiça. Mas jamais apagaremos esses dias [que] levaram o país até perto da bancarrota com gestos simbólicos.

Caímos assim na essência da Operação Marquês. No julgamento dessa nódoa da história nacional recente, nessa tentativa de uma elite plutocrata criar um sistema de poder tentacular. Se Berardo entrou nesse jogo a convite, se hoje pode dizer que não tem dívidas e se não se vislumbram meios de a Justiça o forçar à verdade é porque, no essencial, nada mudou. Pior: enquanto os tribunais se limitarem a arrastar os processos, enquanto não tiverem meios eficazes, enquanto não forem capazes de punir os “golpes de estado” de pessoas como Berardo, nada mudará. É bom que Portugal seja um Estado de Direito, mas o que o circo do empresário madeirense veio revelar é que, numa questão essencial para a defesa dos valores colectivos, esse Direito se continua a escrever por linhas tortas. Vamo-nos, por isso, contentando com a retirada das comendas.»


Editorial do Público, 18 de Maio

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O actual director do Público, em representação da Redacção e do accionista (posto que recorre ao estatuto do “editorial”, assim institucionalizando a sua opinião), considera que a “Operação Marquês” consiste no julgamento “de uma elite plutocrata” que terá tentado “criar um sistema de poder tentacular”. Onde é que já lemos e ouvimos a mesma denúncia, precisamente com o mesmo léxico? Na Cofina, no Grupo Impresa, no Observador, nos meios de comunicação social da Igreja Católica (inclusive nos mais recônditos e supostamente dados ao aprofundamento de temáticas religiosas, teológicas e espirituais). Recentemente, cobiçando ganhos eleitorais ou por desvairo canalha, Rui Rio juntou-se a esta súcia, assim acabando com as dúvidas que pudessem existir a respeito da sua honestidade intelectual, integridade cívica e qualidade de estadista.

Há tectónicas consequências em se entender a “Operação Marquês” não como um processo de investigação objectiva sobre eventuais crimes factuais da responsabilidade de indivíduos a quem se concede o direito de defesa e passar a vê-la como o combate final contra um inimigo que ameaça a liberdade, os direitos fundamentais e o futuro imediato da comunidade. Ao se recorrer à mais pulha das falácias, a petição de princípio, fica-se com carta branca para qualquer violação da lei e qualquer violência que se consiga cometer contra aqueles que, ainda antes do julgamento e mesmo antes da inquirição judicial, já eram pintados como os monstros que se garante que são anos e anos depois de ainda nada ter sido provado em tribunal contra eles. Mas as vantagens não se esgotam na auto-justificação para os imparáveis e compulsivos discursos de ódio, também desta forma se garante uma inevitável vitória política aconteça o que acontecer no desfecho do processo intencionalmente transformado em julgamento político: com condenações pesadas e exemplares mesmo que nada seja provado directamente, como se fez a Vara, o sucesso será retumbante – o PS ficará como o partido dos corruptos para as próximas décadas; com condenações de severidade mediana e adequadas aos eventuais crimes provados directamente, será possível manter o discurso da monstruosidade que ficou por punir por causa de tudo e de todos; e com absolvições para a totalidade da acusação ou quase, especialmente para as acusações de corrupção, o sucesso volta a ser retumbante pois será possível repetir o discurso da calúnia e do ódio e alargá-lo a certos elementos da Justiça, especialmente magistrados judiciais que ficarão associados aos “corruptos” como seus protectores.

Entretanto, enquanto se espera pelo trabalho insano de Ivo Rosa, e tal como vimos publicamente logo em Julho de 2014 (ainda não existiam arguidos na “Operação Marquês”), os crimes cometidos em nome do combate ao crime continuam e são aplaudidos por uma claque que domina o espaço mediático. Atribuir natureza maligna a outrem em contexto de conflito sobre recursos valiosos, como se faz na política mas não só, impele a passar-se ao ataque mesmo sem sinal de movimento ameaçador do inventado inimigo. Pensemos: como é que se poderia, na prática, julgar uma “elite plutocrata”, especialmente a respeito de algo que se define como “tentativa” de não sei quê? Se foi uma tentativa, então não chegou a realizar-se. E se está em causa quem se alega já estar no topo de um poder financeiro corrupto, então os únicos “tentáculos” que interessam são aqueles que se diz não terem chegado a existir em vez dos outros, reais, que lhes deram e permitiram manter esse suposto poder sabe-se lá desde quando? Não é só esta história que está muito mal contada, é a evidência de que se quer contar esta história fantástica para abafar as outras de uma verosimilhança já inscrita na História. Por exemplo, o que era, e como nasceu, e quanto custa, o BPN. Por exemplo, a história das relações de Ricardo Salgado/BES com o PSD e o CDS, com Cavaco, com Durão Barroso, com Carlos Moedas, para só dar exemplos ao correr do teclado e sem entrar na “sociologia da Comporta” que abraça pela cintura o actual Presidente da República. O vale tudo de agentes da Justiça e de jornalistas contra os seus alvos políticos e mediáticos caídos em desgraça – espiados, devassados e expostos para linchamento popular – ocorre com a aprovação do regime. Abafam-se as versões declaradas sob juramento, ou voluntariamente, que apresentem explicações dos protagonistas na berlinda contrárias às calúnias e faz-se debochadamente a diabolização hiperbólica onde o nome “Sócrates” é repetido em êxtase bacante.

Manuel Carvalho sabe que seria impossível julgar “elites plutocráticas”, fosse lá pelo que fosse, num Estado de direito. Esses delírios jacobinos ocorrem em sociedades que entram ou saem de guerras civis ou que estão sob o domínio de tiranos repressivos. Ele também sabe que acordou para o suposto colossal problema não pelo que andou a fazer como jornalista desde 1989 mas porque alguém resolveu prender Sócrates para ser investigado. A partir deste acto fundador, onde se desconhece se algum crime ocorreu mas se trata o suspeito como culpado do que qualquer macaco se lembre de imaginar, o paradigma da “Operação Marquês” ficou estabelecido. Era impossível voltar atrás, sequer impedir o vendaval de perfídias a caminho. A lógica passou a ser a de garantir a condenação, e para isso nada como tratar do assunto pelas próprias mãos não vá o Diabo fazer das suas no último momento. Pela sua parte, em nome de um accionista que é parte interessada na “Operação Marquês”, como director de um semipasquim onde se paga a caluniadores profissionais, este senhor faz a sua parte. Despacha editoriais do Carvalho.

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