Um servicinho público

A série Teorias da Conspiração é um fenómeno. Quem perder o seu rico tempo a ler o pouco que saiu aquando do lançamento vai descobrir que a promoção pelo autor, realizador e jornalistas amigos prometia um vendaval de reacções políticas, especialmente por parte do PS. O tema indicado era o da crise que tinha levado ao resgate de emergência em 2011, tendo-se criado a ideia de ser esta série o espelho de uma investigação, um docudrama ou docuficção, a partir do livro de Paulo Pena Jogos de Poder. Muito bem, fixe, pensou o ingénuo telespectador e pagador de impostos.

Vem o primeiro episódio. O registo é de telenovela da hora de almoço. Estranheza inicial: não há nomes reais. Temos de tentar descobrir quem é quem através dos contextos, caricaturas, insinuações e convocação lateral ou analógica de factos históricos. Apesar das incertezas, algumas figuras são inquestionavelmente reconhecíveis: José Sócrates, Joe Berardo e Jardim Gonçalves. Resumo dos 40 minutos: Sócrates, Joe Berardo, CGD, Maçonaria e aquele que se revelará um psicopata assassino uns episódios à frente, sendo que neste já se exibe como assassino involuntário, conseguem afastar Jardim Gonçalves recorrendo a uma ameaça à sua vida; Jardim Gonçalves, apesar de ter feito umas merdas no BCP que cheiram mal, é uma pessoa seriíssima e com muito valor, tendo pegado em bancos falidos e criado o maior banco privado português. E prontos, estava despachada a primeira fatia de um bolo com 18 episódios.

Lá para o 7º ou 8º episódio, depois da confusão dos nomes alternativos e dos desvarios ficcionais ir em crescendo para quem não domine todas as cifras identificativas, faz-se uma luz, uma luz negra. Ocorre quando se atribui ao primeiro-ministro, o nosso Sócrates – já devidamente retratado como irascível, prepotente e maquiavélico em versão Chelas anos 80 – o caso das casas do Cavaco. Sim, descreve-se a trafulhice cavaquista mas retrata-se na personagem socrática o seu protagonismo. O mesmo se fez com o caso dos submarinos e até dos vistos Gold. Não só Sócrates aparecia como o vilão diabólico que absorvia e espalhava todo o mal da Nação como o calendário da ficção deixava de ter relação com o calendário real onde esses casos ficaram inscritos. Passava a valer tudo, assim se concretizando numa narrativa delirante a moral da perseguição e linchamento de Sócrates realmente operada política, mediática e judicialmente logo a partir de 2004.

O silêncio que se abateu sobre esta série merecia uma investigação académica. Por um lado, é uma homenagem à sua qualidade paupérrima como objecto televisivo de ficção. De facto, custa chegar ao fim quando estamos a ser ofendidos na nossa inteligência. Por outro lado, o silêncio manifesta a intenção do regime em condenar Sócrates à maneira do massacre dos Távoras. Assim, a administração da RTP não terá de dar a mínima explicação sobre os critérios que levaram à aprovação deste projecto e qual a razão para ter 18 penosos episódios. Para se entender o que está em causa, pensemos se seria possível fazer algo similar sobre o BPN ou os efeitos das políticas de Passos Coelho. A resposta é uma óbvia negativa, há nomes intocáveis. Porém, acerca de acontecimentos, casos e questões que estão em aberto, que são alvo de polémicas políticas, que não tiveram da Justiça o seu devido esclarecimento, pode-se achincalhar, deturpar, inventar e alucinar sem freio porque se trata de Sócrates e do PS.

Teorias da Conspiração é uma série criada para informar o público, de modo divertido, que existiu um primeiro-ministro que teve como cúmplice do seu plano mefistofélico de poder um advogado assassino, entre outros escroques. Os autores apresentam referências directas à realidade factual para comporem e ilustrarem a sua narrativa. A televisão pública comprou este projecto, promoveu-o, e fez com que apanhasse o calendário eleitoral e chegasse ao último episódio nas vésperas da votação para as Europeias. Fica cúmplice da sua natureza caluniosa e doentia – ou seja, faz de nós todos cúmplices da decadência moral e anomia da vingança em curso.

12 thoughts on “Um servicinho público”

  1. Há muito tempo que a estação pública de televisão (RTP) se transformou num
    instrumento da direita ou direitas do burgo apesar de, ser paga por todos nós!
    Não só na programação como também nos convidados para os diversos casos
    em que, se impõe diferentes opiniões ou o chamado contraditório até porque
    nas chefias só estão engajados nas direitas claro, com uma ou outra excepção
    que, só vem confirmar a regra!
    A tal independência prometida pelo pequeno ministro Maduro, acabou por se
    transformar na dita “irresponsabilidade” em que hoje a estação pública parece
    viver, se o modelo não presta mude-se e corram com os estipêndiados que por
    lá vão governando a sua vida … com o evidente prejuízo para os portugueses!!!

  2. Se eles sabem da hora que dispõem,nós estamos cheios de conhecer as suas habilidades: fora com os farsantes !!!

  3. O comentário que enviei anteriormente é integralmente trancrito da tragédia de William Shakespeare ” Júlio César “.

  4. penso que a personagem do assassino advogado pertence à Maçonaria, aliás a mãe que o mata é uma conhecida figura da Maçonaria Feminina, sendo que o primeiro ministro não é Sócrates, mas sim Mário Soares, conhecido maçon francês. a trama está feita para lixar a Maçonaria.
    ninguém entendeu :))

  5. Uma das causas do abortamento da Comuna de Paris em 1871 é que os responsáveis eram tão puros que transformaram essa pureza em ingenuidades que os matou a todos. Sob a capa da liberdade e das leis da imprensa mantém-se à frente da RTP um antigo deputado do PSD e das duas uma ou o governo é ingénuo ou é estúpido. O tempo o dirá. Vamos esperar igual tratamento vindos da SIC, da TVI ou da CMTV? Impossível acreditar em tal. A prática demonstra que cada um trabalha para si mais do que para o bem comum.

  6. Também assisti aos 18 episódios e confirmo: uma valente merda. Não me perguntem porque assisti aos 18 episódios. Muito provavelmente porque a boxe fez o favor de os ir gravando, uma que não assisti a nenhum episódio no horário normal. Ou seja, depois do show televisivo de populismo da Felgueiras. A PJ também devia investigar o nº de overdoses de sexta à noite dos últimos meses. Quanto ao facto do mesmo PM encarnar todos os alegados casos de corrupção política das últimas décadas em Portugal deve ser uma liberalidade ficcional. Finalmente, também não consegui identificar o advogado psicopata.

  7. Querem o quê? Que nojo de programa!!Porquê? Porque a administração da RTp é só gentinha neoliberal que é do psd ou fez e continua a fazer favores ao psd/cds…e ninguem tem coragem de os por na rua. Enquanto isso o povo é obrigado a pagar a factura dos mamões, queira ou não, pois estes chulos instituiram há uns anos que é obrigatório pagá-la através da fatura da luz e assim continua. Malditos sejam! Bem feito que agora levaram uma tremenda derrota nas europeias e por este andar vão levar outra nas legislativas. Como é possível haver criaturas na rtp com salários muito mais elevados do que o Presidente da Republica e do que o Primeiro-ministro?. Isto tem alguma lógica??? Porque é que ninguém tem a coragem de acabar com este regabofe??

  8. “Porque é que ninguém tem a coragem de acabar com este regabofe??”

    são restos da santa aliança do capital com o proletariado, o conselho geral garante os conteúdos e a associação sindical os ordenados, tudo em nome da paz social e ócial.

  9. Da série “Argumentum ad hominem” (hoje trata-se do Paulo Pena).

    Nota. Valulipi, larga o tinto (e deixa de dar zurrapa aos poucos broncos sobreviventes da troupe alcoólica do Aspirina B).

    Eric
    26 de Maio de 2019 às 17:22
    Valulupi, larga o tinto (se ainda fores a tempo).

    Esqueceste-te?

  10. Ali o José Corvo tem toda a razão quanto a estes anjinhos da geringonça.

    Em nome da paz social na caserna e da bonomia do Manda-chuva do quartel para com a solução governativa da messe, deixam-se os piores canalhas à vontadex, a brincar com as munições mais perigosas do paiol (ou sejam, a comunicação social e a justiça)!

    Quando um dia destes ele explodir, não se venham queixar…

  11. Valupi, viste ontem o verdadeiro argumentista da série na comissão de inquérito? Está desvendado o mistério da miséria ficcional.

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