Quem é que gostavas de escutar?

«Leio, no Expresso, que "há 14 mil telemóveis sob escuta". Se cada um dos seus utilizadores tiver 15 interlocutores no período de tempo em que essas escutas estiverem ativas, haverá cerca de 210000 cidadãos que terão, sem o saberem, as suas conversas gravadas e, tantas vezes, ilegalmente publicitadas. Esta verdadeira devassa justificar-se-á pelos resultados obtidos na prevenção e investigação criminal? É a análise que está por fazer.»


A.R.

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Não só essa análise está por fazer como nem sequer me parece a questão principal. Em Portugal temos agentes da Justiça que cometem crimes sistemáticos de violação do segredo de Justiça onde os conteúdos mais valiosos são precisamente aqueles obtidos em escutas e outras formas de violação da privacidade das pessoas apanhadas na máquina policial. A impunidade reinante é não só aceite como “normal”, aparece ainda defendida pelas próprias autoridades supremas da República para a anomia ser institucionalizada. O Presidente da República que ameaça fazer cair o Governo por causa das alterações climáticas, e que sai à rua em pijama se um ligeiro de passageiros vindo da Calçada da Ajuda amolgar a traseira de uma furgoneta do pão estacionada na Junqueira, está-se a marimbar para a criminalidade que enche de gozo e dinheiro a Cofina et alia. Joana Marques Vidal, interrogada sobre o número de violações ao segredo de Justiça e a incapacidade absoluta para sequer se descobrir quem as faz, riu-se e e declarou que não lhe parecia ser um assunto importante visto que os deputados não legislavam para tornar esse crime mais grave. O seu riso compreende-se e fiquei a admirá-la para sempre por ter conseguido responder sem se ter afogado em gargalhadas. É que o primeiro partido que sequer ameaçasse ir começar a pensar em tal seria acto contínuo esmagado pela indústria da calúnia, pelo sindicato dos magistrados e pelos restantes partidos que não iriam perder uma miraculosa oportunidade de ficarem ao lado do valente povo que não precisa de tribunais nem de leis quando as capas do esgoto a céu aberto fazem a verdadeira justiça: imediata, implacável e sem se perder tempo com os atrasos e recursos da bandidagem.

Mas pensemos. Se há agentes da Justiça que se sentem completamente à-vontade para entregarem a jornalistas informações que vão ser usadas para o sensacionalismo, os assassinatos de carácter e as campanhas negras, e isto apesar da notoriedade máxima dos casos, o que é que eles não farão em casos onde não há qualquer atenção mediática? Quão difícil será conseguir usar as polícias e a Justiça portuguesa para fazer espionagem empresarial, ou para satisfazer pedidos secretos de entidades criminosas estrangeiras? Se o Ministério Público não sabe quem é que faz dezenas ou centenas de crimes num processo que envolve um ex-primeiro-ministro, crimes que começaram ainda antes de haver arguidos constituídos, como poderá saber dos outros eventuais casos? Por exemplo, será que existe um mercado onde se podem encomendar escutas por particulares sobre particulares? E de partidos sobre partidos? Os factos sugerem que sim.

6 thoughts on “Quem é que gostavas de escutar?”

  1. “Por exemplo, será que existe um mercado onde se podem encomendar escutas por particulares sobre particulares? E de partidos sobre partidos? Os factos sugerem que sim.”

    sugerem? basta ver o que se passa no processo em que uma das maiores empresas portuguesas foi apanhada com a boca na botija a corromper o sistema de justiça em beneficio próprio. aparentemente, bastou que o acesso à informação privilegiada seja feito através de um assessor para que a empresa em causa já não podesse ser responsabilizada por ter acedido e utilizado essa informação.
    de certeza que por esta altura já sabes de quem falo

  2. Comunicar por telemóvel (voz, sms, whatsapp) é tão barato que tinha que ter algum problema. Tem o problema do costume: falta de privacidade!

  3. Tal como no casos dos “Guardiões” o caso acaba por ir dar sempre ao mesmo problema : «E quem escuta os escutadores?»

  4. Como é óbvio, gostava de escutar a Joana Marques Vidal, o Carlos Alexandre, o Rosário Teixeira e também o Francisco Pinto Balsemão.

    Pelas conversas deles, certamente apanharia as de todos os outros figurões que também gostaria de escutar.

  5. Por exemplo, será que existe um mercado onde se podem encomendar escutas por particulares sobre particulares? Vi logo que só podia ser uma pergunta de retórica.

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