Excluindo o próprio e os seus advogados, não se conhece uma única figura pública que defenda Sócrates em relação às acusações judiciais de que é alvo. Não se conhece uma única figura pública que julgue moralmente aceitável o seu passado financeiro privado descoberto pela “Operação Marquês”. Não se conhece uma única figura pública que antecipe qualquer futuro político, sequer profissional, para Sócrates. Apesar de se encontrar num efectivo estado de desgraça, sem prazo conhecido para acabar e com alta probabilidade de ainda vermos aumentar a duração e magnitude da mesma, é diariamente perseguido, atacado, linchado pela turbamulta e pelos algozes que a atiçam. Não existe maior homenagem ao seu carisma político do que este fenómeno de continuar a deixar raivosa e apavorada a direita decadente depois da colossal violência policial e mediática já exercida sobre ele.
José Manuel Fernandes representa paradigmaticamente a direita do poder pelo poder, a qual actua como braço armado da oligarquia (não a oligarquia de que fala o Rui Ramos assanhada e retoricamente, antes a oligarquia que paga ao Rui Ramos em numerário e abundantemente). O Zé Manel não aguentaria 24 horas na arena política, dado ser falho das condições intelectuais mínimas para liderar partidos e projectos de interesse comunitário, pelo que fez a sua carreira de pulha na comunicação social. Nela teve sucesso e, no início de 2007, esteve à beira de ter grande sucesso pois seria um dos beneficiários da eventual compra da PT pela Sonae ao acumular a direcção do Público com a posição de administrador no grupo accionista. A OPA falhou e de imediato, um ou dois dias depois, o jornal da família Azevedo iniciou uma campanha negra contra Sócrates – a qual tem durado ininterruptamente até hoje. Dificilmente esse pasquim conseguirá ultrapassar o nível de subversão constitucional e indecência cívica atingido na “Inventona da Belém”, quando a 1 mês do início da campanha eleitoral para as legislativas de 2009 o nosso admirável Zé Manel foi cúmplice activo e interessado de uma espantosa e sórdida golpada lançada pela Casa Civil da Presidência da República com vista a perverter os resultados eleitorais, a qual chegou a eleições com o apoio declarado do Presidente da República de então. Será este Zé uma figura com credibilidade, ou que fosse módica vergonha na cara, para fustigar supostas mentiras e supostos mentirosos?
Aqui o temos agarrado à sua paixão – Sócrates: mentir não custa, basta ter esse hábito – e tudo o que despeja é útil para se tirar a fotografia à pulsão assassina que o anima e à vingança em curso:
– Começa por se queixar de Ivo Rosa ter dificultado o acesso aos interrogatórios a Sócrates mas depois fala das suas declarações ao juiz como se as tivesse ouvido na íntegra e presencialmente.
– Pinta Sócrates como mentiroso mas não identifica qualquer das aludidas e copiosas mentiras de forma objectiva e factual.
– Goza com a quantidade de dinheiro gasto por Sócrates em diferentes situações e circunstâncias para o difamar, promovendo o sofisma de serem os seus gastos anómalos e ilícitos só por serem inalcançáveis para os rendimentos do português médio. Nada contextualiza nem justifica, esgota-se no sarcasmo o chiste.
– Acha impossível que exista um “cofre” (material, metafórico?) na posse da mãe de Sócrates com dinheiro vindo de uma herança. Contudo, apenas possui como informação a respeito desse tema o que acabou de ser espalhado em violação do sigilo judicial e está a apagar a ideia, com décadas, de realmente ter existido tal herança.
– Descreve Sócrates como o político mais bem preparado que conheceu, com domínio absoluto sobre os temas que discutia em público. Não se interroga se tal perfil é conforme à imagem de corrupto incontrolado que promove na comunicação social há anos.
– Descreve Sócrates como “grande actor”. Na aparência, está a sugerir que é hipócrita, mentiroso. No fundo, está a deixar-lhe outro elogio, pois não há política sem teatro, sem actores, sem palco, sem assistência.
– Regozija-se por o “animal feroz” estar “ferido”, contudo ainda não está morto, daí continuar a ser “perigoso”. O exemplo que dá do “perigo” é delicioso de perfídia.
– Para combater o suposto “risco de populismo” que uns ingleses antevêem caso se leve Sócrates a tribunal, o Zé Manel considera que os bifes não percebem nada do que se está a passar. E explica: “os portugueses já têm bem consciente que houve corrupção, gestão danosa e que muita gente enriqueceu com custos pesados para o País, sobre isso não há dúvidas”, portanto, “Sócrates tem mesmo de se sentar no banco dos réus para se fazer justiça” – ou seja, o julgamento de Sócrates já foi feito nos esgotos a céu aberto, tendo sido declarado culpado pela corrupção de tudo e de todos, estando só a faltar a formalidade de cumprir com a burocracia num tribunal disponível para ser despachado na ramona até ao calaboiço.
O Zé Manel não tem disponibilidade mental, nem estofo moral, para tentar descobrir se o dinheiro usado por Sócrates veio da corrupção, da mãe ou do amigo. Para ele é exactamente igual ao litro, e quanto menos se falar disso melhor. O processo resume-se a cumprir com um julgamento que é, primeiro e acima de tudo, político. E, sendo político, não há perdão nem misericórdia. Não há justiça, é matar ou morrer. Daí a desumanização extrema a que se entrega, encharcado de adrenalina e dopamina no antegozo de ver as labaredas a devorarem a sua némesis.



