Bestas quadradas

Ser (muito bem) pago para estar num canal televisivo a despejar opiniões é um raro privilégio, ainda mais raro e de mais alto privilégio quando do programa em causa saiu um primeiro-ministro. A pose, os maneirismos, na “Circulatura do Quadrado” transportam-nos para um microsenado onde os participantes cultivam uma gravitas de estufa. Não sei se a influência que alcançam iguala aquela onde se embrulham na vaidade respectiva, mas sei que representam tipos socialmente influentes na comunidade que somos.

Lobo Xavier é a voz da oligarquia económico-política, actuando literalmente como advogado dos interesses de quem tem o poder financeiro e estrutural (empresas, advogados, institutos de educação, a Igreja Católica, e, claro, os órgãos de comunicação e partidos da direita que servem os mesmos interesses). Pacheco Pereira é um parasita do sistema político que usa ao serviço da sua remuneração mensal e da fantasia ego-melancólica com que se vê ao espelho. E Jorge Coelho não é nada, por nada conseguirmos fixar das banalidades que lhe enchem as intervenções.

Ora, num caso com as ondas de choque e espectacularidade da “Operação Marquês”, um verdadeiro caso de regime aconteça o que acontecer, o que estes protagonistas mediáticos digam no espaço público ganha conotações que ultrapassam inevitavelmente o âmbito das suas individualidades. Vejamos dois significativos exemplos do programa de 30 de Outubro.

Pacheco Pereira - Eu não quero participar nesta onda de hipocrisia do "alegadamente" culpado. A minha convicção é a de que é culpado. Pelo que eu conheço. Pelas declarações que ele fez. Pelo que eu conheço das mentiras compulsivas que eu conheço directamente. As declarações dele, eu não preciso de mais nada para ter esta convicção.

Eis um argumento ad hominem na sua pureza. Esta pessoa declara outra merecedora de uma pesadíssima pena de prisão a partir de uma convicção estritamente subjectiva a respeito da imagem construída no passado e não a partir dos factos na berlinda no processo judicial presente, convicção essa formada a partir da interpretação de afirmações avulsas sem qualquer assunção de culpabilidade criminal – isto é, Sócrates sempre negou ter cometido crimes de corrupção, o que de arrasto equivale a negar o branqueamento de capitais. Que leva o Pacheco a querer ser visto, ou a não se importar com tal, como alguém que despreza o Estado de direito e qualquer noção de Justiça? Qual a motivação que o faz passar por potencial e horrendo criminoso, posto que foi contra tiranos que faziam justiça pelas próprias mãos que a Civilização – na sua essência – se criou e tem vindo a desenvolver-se?

Há várias hipóteses possíveis, obviamente, optando por iluminar esta: o Pacheco é profundamente ignorante. A sua ignorância não está no recurso automático aos universais mecanismos de diabolização, onde um adversário se pinta como inimigo desumanizado, os quais explicam a repetição maníaca do assassinato simbólico de Sócrates que faz desde 2009. De cada vez que repete a acusação, o bibliotecário da Marmeleira está a reactualizar o confronto político em que foi derrotado pelo Engenheiro, servindo-lhe o ressentimento e o rancor como combustível inesgotável para o desforço. A sua ignorância está na incapacidade para ser crítico de si próprio, e essa incapacidade nasce de ser ignorante nos terrenos da psicologia.

O Pacheco largaria gargalhadas soberbas perante a sugestão de ser ignorante a respeito da psicologia, ele que se considera um especialista na natureza humana, dando caudalosas e semanais provas disso mesmo quando explica enfastiado a história contemporânea do rectângulo aos leitores e telespectadores não tão afortunados como ele em leituras e experiência de vida. Porém, se, por milagre, algum dia fosse confrontado com uma pergunta a respeito de Fritz Heider, dobrado contra singelo como ficaria à nora. Igual resultado para a tentativa de descobrir o que conhece a respeito do conceito de “enviesamento correspondente” ou “erro fundamental de atribuição” e para as teorias da Atribuição Causal e das inferências espontâneas de traços. E não há enigma nenhum nesta previsão, basta reconhecer que o Pacheco não discursa como um filósofo ou cientista (leia-se “investigador”), antes como um moralista. Todo o moralista é uma besta que prefere o egocentrismo à curiosidade. Todo o moralista é, tem de ser, profundamente ignorante.

Outro galo canta, em harmonia, pelo bico de Lobo Xavier. Vejamos:

Lobo Xavier - [quando Pacheco realçava a fragilidade da acusação] Mas é muita matéria, é muita matéria. Esteja descansado, Pacheco Pereira, esteja descansado...

Lobo Xavier - [para Jorge Coelho, o qual realçava a gravidade da situação caso não existam provas de corrupção contra Sócrates] Não se aflija, não se aflija, não se aflija...

Este passarão não se contém, não resiste a pavonear-se com o poder que usufrui ocultamente. Aqui aparece a garantir que Sócrates vai mesmo ser condenado, de uma forma que salvará a “Operação Marquês” de qualquer suspeita de manipulação política. E prevê que vamos ter muitos anos de processo. Não custa a descodificar a mensagem. Lobo Xavier está a profetizar que, na eventualidade de Ivo Rosa ilibar Sócrates ou apenas o mandar para tribunal pela acusação fiscal, o Ministério Público irá recorrer e, nas instâncias seguintes, Sócrates será triturado por juízes sem as manias garantistas desse que actualmente está com a coisa nas mãos. Daí o seu júbilo ao referir a quantidade de pontas por onde se pegar e dar a Sócrates o tratamento que o regime precisa que seja dado. O tratamento que já foi dado a Armando Vara e que correu tão bem.

15 thoughts on “Bestas quadradas”

  1. muitas e muitas pessoas partilham a imagem subjectiva da pacheca ( moi ) , poucas partilham a imagem subjectiva de inocente.. e podemos ter convicções pessoais , ou é proibido ? que eu saiba o homem não ocupa cargo nenhum na justiça, opina e nada mais. o estado de direito também inclui a liberdade de opinar , non? e o zézito pôs-se a jeito , não bate a bota com a perdigota.
    muito especialista em psicologia e psiquiatria poderia chegar a um diagnóstico através da observação do discurso do zézito, e da linguagem corporal e do comportamento , porque não o pacheco?

  2. Pela garantia, do afamado “fiscalista” Lobo Xavier que rouba os portugueses ensinando os empresários como fugir ao fisco e utilizar os off-shores, dada a Pacheco e Coelho de que tudo na “operação marquês” vai acabar bem fica claro a consonância com a afirmação do procurador Teixeira de que “no final é que se fazem as contas”.
    Quer dizer, Sócrates tem de ser condenado com prova ou sem prova, por convicção ou sem convicção, a bem ou a mal. Porque;
    Ele “pôs-se a jeito” no momento em que se meteu com juízes e procuradores querendo tirar-lhes mordomias e sobretudo obrigá-los a trabalhar como os outros trabalhadores para justificarem a mensalidade.
    E também se “pôs a jeito” quando retirou a mordomia ao Cavaco de juntar a pensão ao vencimento de PR visto que, como o próprio confessou o que ganhava não chegava para as despesas.
    E também se “pôs a jeito” quando acabou, no futuro próximo, com os mandatos ad eternum dos presidentes municipais e cortou as pensões vitalícias dos deputados, governantes e presidentes municipais.
    E também se “pôs a jeito” quando mostrou que não ia “ao beija mão” dos empresários e da Igreja bem explícito quando não cedeu à chantagem do Belmiro & Telefónica para o gigantesco e escandaloso lucro da opa à PT e futuro controlo espanhol das nossas telecomunicações.
    Foi deste seu “mau carácter” de “pôr-se a jeito” que os baronetes incomodados assinalados resolveram “pô-lo ao seu jeito” em Évora, lhe retiraram a capacidade de ganhar a sua vida pelo trabalho próprio e depois o insultaram vergonhosa e persistentemente com a mais pura sonsa pulhice perguntando-lhe insultuosamente: “do que vive o senhor actualmente?”
    Foi assim que o “balsoneiro” (pensionista de Balsemão) Daniel Oliveira, na senda do Pacheco, afirmou num das suas milhentas opiniões já produzidas que uma desgraça nacional seria o Sócrates não ser condenado.
    Quanto ao Pacheco pouco resta já de si para além de se representar como o maior falhado político de Portugal democrático pós 25 Abril.

  3. Resulta também da hipocrisia do Pacheco Pereira a imparidade de presunções. Repara bem na incongruência consequencialista entre estes dois casos: no caso de Tancos, relativamente ao encobrimento da recuperação das armas por parte do ex ministro, para o Pacheco é um ato de intelectualidade, “típico desse tipo de pessoas” sem bem me lembro da expressão. Já no caso Sócrates da universidade independente, a tentativa de abreviar o processo para obter créditos é típico de alguém corrupto.
    Ou seja, ele não consegue disfarçar o ódio, embora, façamos justiça, a sua dialética que marchava ao som do ódio sofreu uma síncope ao denunciar a vergonhosa escolha de palavras do procurador, excelentíssimo procurador, que tudo nele cheira a santificado e a rendas velhas.
    Em relação ao Lobo Xavier, não sei se a sua voz tem ou não alcance de profeta, agora que o resto da sua oração tem algo de inconfessável e vergonhoso (como tu próprio pontuaste com as reticências), tem.
    Só uma outra opinião. esta sobre o governo. Só nos (e lhes) é permitido afirmar que o governo é caro quando houver resultados económicos sobre a realidade social do país. Se (esses resultados) forem positivos então o governo é barato.

  4. Pachecos, Xavieres e Coelhones, apesar de se servirem do regime e, terem passado
    pela política activa sem grande mérito, souberam rentabilizar o seu serviço público
    na esfera civil como “consultores” e não só, do mundo dos negócios!
    As audiências que, anunciam para esse tipo de programas, são empoladas logo, a sua
    influência direta é mínima, o mesmo sucede com o “eixo do mal” da SIC, onde os comen-
    tadores vieram do “jornalismo”!
    Para quem tenha alguma experiência de vida e, interesse pela coisa pública não pode dei-
    xar de reconhecer que, José Sócrates foi uma pedrada no charco da política caseira
    mostrando uma visão de progresso para o desenvolvimento do país! Acima de tudo,
    estudava os “dossiers”, até empurrou o grande líder sibilante Louçã para a reforma
    prematura, passou por vários presidentes do PPD/PSD sem ânimo ou argumentos
    para o vencer na A.R. e não só logo, desde muito cedo começou a ser perseguido com
    ataques e calúnias de índole pessoal que fazem parte da história recente!
    A “operação marquês” é o corolário de outras acções que borregaram, pelo que se
    sabe o M.Público teve luz verde para acreditar nas investigações de um conhecido
    pasquim da nossa praça, fez disparar a perceção no exterior de que Portugal era um
    caso enorme de corrupção ao prender um ex P. Ministro quando entrava no país
    para prestar esclarecimentos à Justiça … o resto já todos sabemos pela boca do tal
    Xavier o amigo que, queria tramar o Ministro M. Centeno junto do Presidente com
    os tais SMS no perfeito espírito de serviço dos bufos do antigamente !
    Creio que, uma acusação de 4000 páginas ou mega processo não tem pernas para
    andar, trata-se de uma fuga para a frente dos “justiceiros” que, só chegaram tão
    longe mercê do corporativismo ainda reinante na Justiça!!!

  5. Um minuto:
    Que pensará Pacheco Pereira,esse velho provocador,de Puidgemont,exilado na Bélgica,com mandato de prisão em vigor? Inocente ou culpado? O Pacheco diz ter convicções… Sócrates,sem qualquer mandato às costas,mal sabe que há uma investigação onde lhe consta estar envolvido,volta de imediato a Portugal e Pacheco fica com a convicçáo que… Sócrates é culpado !!!
    Lobo Xavier não merece uma linha de comentário desde que afirmou na Quadratura que lutou tanto pela Liberdade como não importa qual outro cidadão português porque esteve no comício do CDS no futuro Pavilhão Super Bock-Rosa Mota, correndo risco extremo de vida às mãos do PCP !!!
    Valha-lhes a Manuela Ferreira Leite,a fada dos pagamentos por conta!

  6. o dinheiro da minha mãe vinha do cofre!!!!!!!!!!!!!!!!!! este tipo não existe -:) _:) será que pensa que o rosa o vai dar por inimputável dizendo disparates acriançados ?

  7. jp , o Valupi diz o que lhe dá na gana , e diz bem , não pode é chorar cada vez que alguém tb diz o que lhe dá na gana.

    “o dinheiro da minha mãe vinha do cofre” !! outro que diz o que lhe dá na gana.

  8. Yo chorar?????? desde quando analisar e criticar é chorar?

    Toda a gente pode dizer o que lhe apetece, mas para se condenar alguém eu acho que ainda é preciso provas ou não?

  9. sim , no tribunal, por supuesto. cá fora , somos mais práticos a analisar as provas. a mim bastou-me saber que o primo do zézito era herdeiro do amigo silva ( que parece que não conhece). quem acredita no pai natal achará normal.
    agora fico à espera que a mãe apresente a habilitação de herdeiros , o inventário, e o comprovativo do pagamento ( ou da isenção) do imposto sucessório.
    uma pessoa daquelas bandas contou-me que a família do pai do zézito era porreira , mas que a família da mãe , uma cena qualquer de cooperativa de vinho, eram escroques até à medula . coitado, saiu à mãe.

  10. Jpferra, meu, o título do post é “Bestas quadradas”. Não se lhes dá rédea, ou corda, ou seja o que for, nem sequer palha. Quando muito estricnina, mas nem isso vale a pena, elas acabam por se afogar na própria bílis, é a sabedoria do universo.

  11. No Brasil a Organização Criminosa também tinha tudo sob controle, e de repente … é o que se vê.
    O Xavier que não se excite muito com o que julga saber porque senão ainda morre antes do tempo …

  12. Pacheco Pereira é um parasita do sistema político que usa ao serviço da sua remuneração mensal e da fantasia ego-melancólica com que se vê ao espelho.
    Gostei da descripção.

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