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Antes de se começarem a preocupar com a absoluta hecatombe que os quadros e gráficos acima – referentes à execução orçamental até Outubro – representam, respirem fundo. Outra vez. Agora lembrem-se que estes são os resultados depois de um ano de austeridade selvagem em que Victor Gaspar, o Primeiro-Ministro de facto, resolveu que seria melhor retirar 9 Mil Milhões de Euros da Economia em vez dos 5 exigidos, cumprindo assim em pleno a profecia de “ir além da troika”. E que, após esse frontloading – expressão de economês que significa simplesmente tomar a caixa de comprimidos inteira de uma vez para ver se a doença passa mais depressa, porque se um faz bem, então dez devem fazer melhor – dizia, após essa opção do “inteligentíssimo” Gaspar – epíteto que cada vez mais serve não para descrever o ministro mas para avaliar da burrice de quem assim o chama – aí temos os resultados: a 2 meses do fim do ano, a única dúvida é ainda se o défice vai ficar pelos 7%, 8%, ou ainda passa um bocadinho. Para quem a austeridade servia para “pôr as contas em ordem”, ou seja controlar o défice, não está mal. Está péssimo. Pior que péssimo. Porque os sacrifícios não serviram para rigorosamente nada. Nada.
Mas vamos, não esquecer, respirar fundo. E relembrar que está em processo avançado de aprovação o Orçamento de 2013, que em vez de reconhecer o que é óbvio para quem tenha dois dedinhos de testa – excepto Gaspar, que tem apenas um, e Passos, que nem sabe o que isso seja – resolve que se em 2012 a estratégia falhou, o melhor é mesmo aplicá-la novamente em 2013, mas com redobrada ferocidade. Para falhar ainda mais espetacularmente. E que uma série de deputados que gostam de pensar que têm mais que dois dedinhos de testa o aprovou porque…porque não podiam fazer outra coisa, dizem. Custa-lhes muito. No caso do CDS, então, é dramático, sendo que o stock de lenços já foi reposto no parlamento 10 vezes. Só na semana passada.
Respiremos, mais uma vez, fundo. E vamos às “boas” notícias. E as boas notícias são as seguintes: apesar do falhanço da politica económica ser completo, apesar do país estar mergulhado numa recessão à beira de se tornar numa espiral recessiva tipo Grécia, apesar dos números impressionantes de desemprego, de despedimentos, de falências, dos gráficos lá em cima, no fundo, apesar da realidade bater com muita força, temos avaliações positivas de uma troika em auto-avaliação e grandes elogios dos responsáveis alemães. Sobretudo de Wolfgang Schaueble, o todo-poderoso ministro das finanças. E um governo que mostra uma determinação impressionante em obter esses elogios e essas avaliações positivas, mesmo que isso produza resultados desastrosos e gráficos como…bom, vocês sabem quais.
E esse, se calhar mais do que os “planos neo-liberais” e de destruição do estado social que estão em curso, é capaz de ser o verdadeiro objectivo da governação. Não é salvar, melhorar, ou até “refundar” o país. É simplesmente salvar a pele de governantes alemães, cumprindo escrupulosamente toda e qualquer exigência de “sacrifícios” que estes se lembrem de fazer, de modo a preservar o “bom exemplo” de um programa que existe não como “assistência” a países endividados, mas para que os eleitores alemães não pensem que o dinheiro deles é entregue sem a devida punição. E nesse sentido, o governo tem boas razões para estar satisfeito. Apesar de todas as evidências de que está a destruir a economia e com ela o país, esses elogios e avaliações positivas têm chegado. O programa funciona.
Evitemos pois pensar naquela palavra que descreve, na perfeição, gente que entrega o país aos caprichos de estrangeiros em vez de o defender. Gente do PSD e CDS. E respiremos fundo.