A redação do Carlos

Bom dia dona Merkel,

O meu nome é Carlos e não falo alemão. Houve uns meninos que fizeram um filme para si. Eu não tenho um filme, mas também lhe queria dizer umas coisas. Espero que perceba, mesmo a senhora não falando português e eu não falando alemão.

Queria dizer-lhe bem-vinda ao meu país. O meu país é muito bonito, tem muita história e cultura, e está cheio de pessoas boas e trabalhadoras que não falam alemão, por isso se calhar a senhora não os percebe. Essas pessoas têm uns ditados que gostava de lhe ensinar. Os ditados são importantes porque nos ensinam muita coisa, e a senhora precisa de aprender muita coisa sobre nós. Também servem para dizer “toma e embrulha”, que é uma expressão que o meu pai usa quando diz um ditado.
Um ditado que a minha prima me ensinou diz “quanto mais te baixas mais se vê as cuecas”, e nós somos muito pobres e já quase não temos cuecas. E se ficamos sem cuecas não podemos pagar o que devemos, e nós queremos ser honrados e pagar o que devemos, mas não podemos porque não temos cuecas e sem cuecas temos vergonha de sair de casa para  trabalhar e ganhar dinheiro. E “sem dinheiro não há palhaços”, como diz o meu tio que tem um café.
Outro ditado que a minha avó diz é “quem come a carne deve roer os ossos”. A senhora come a carne toda e deixa os ossos para nós, e isso não é justo. O bife é para todos, não é só para quem fala alemão. Podia partilhar um bocadinho de carne com os outros, não quer dizer que fosse toda, mas só um bocadinho, só de vez em quando. Senão não podemos trabalhar, mesmo que tivéssemos cuecas.
Por causa da crise, a senhora agora manda nisto. Mas a minha mãe diz “quem tudo quer tudo perde”, e nós somos amigos, mas se continua assim a querer tudo para si qualquer dia nunca mais lhe falamos. A professora diz que quem não partilha é feio e fica sem amigos, e nós temos também coisas geoestratégicas que depois também não lhe emprestamos, mesmo que peça de joelhos. E se o Fitch disser que essas coisas não valem nada é muito mentiroso e só quer fazer-lhe a cabeça contra nós. Se calhar é porque fala alemão.
Por isso, quando se for encontrar com quem manda aqui e ele lhe disser que estamos todos bem e cá vamos andando não acredite porque ele também é muito mentiroso. Temos muita fome e miséria, mas muita vontade de trabalhar, como o fizeram os nossos pais e avós. Só precisamos de um bocadinho de bife, e de um barco para o ir pescar.

Do seu amigo

Carlos Zorrinho
Professor universitário
Presidente do Grupo Parlamentar do PS

19 thoughts on “A redação do Carlos”

  1. O “Carlos”, se fosse consequente, denunciava o Memorando, mas, como o assinou, está comprometido com o desastre. Um idiota útil.

  2. isso é que era serviço, oh lambreta! especialmente se afectasse só a cambada comuna, uns meses sem ordenado até lhes fazia bem ao pelo para saberem o que é andar pela trela da jónete. o burrinho até pode ser idiota, mas tu e os teus amigos foram mais úteis a empurrar o país para o memorando.

  3. A minha alma está parva. O Carlos parecia um clone do Seguro mas afinal até sabe ser duro e tem um bom sentido de humor. Viva o Carlos.
    Oh camarada mota, imaginemos que o camarada ou o seu partido estavam no governo e que, de repente, só nos emprestavam dinheiro a juros 4 vezes mais altos do que o habitual. Qual era a solução?

  4. Ignatz,

    Continuas disléxico, pá. Eu falei do Zorrinho e tu falas da “cambadq comuna”. O que é que uma coisa tem a ver com outra? Chama-se a isso, “chutar para canto”…

  5. Eduardo J.,

    Lê a resposta ao Ignatz e não me chames camarada que eu não frequento partidos e penso pela minha cabeça.

  6. Depois das Invasões do Napoleão, da matança real, de La Lys, do 26 de Abril, só faltava esta situação de dependência.

  7. mota, eu também não frequento partidos, só voto neles mas desconfio que era muito mais feliz se também pudesse pensar pela tua cabeça.

  8. oh lambretas! quais disléxico quais caralhos, atão não foram os direitolas como tu que quiseram fmi a toda a força com o apoio da comunada útil. se ficaste ciumento por não te incluir no canil da jonete, ainda vais a tempo de te inscrever. não dúvido que penses pela tua cabeça, mas olha que o resultado não é famoso, se subcontratasses saía-te mais barato e fazias melhor figura.

  9. esta coisa do português andar a pedir clemência mete-me nojo. os outros só vão onde nós os deixamos ir e neste caso, como em quse tudo na vida, temos de deitar para fora cá dentro.

  10. Carlinhos, Carlinhos, conta a “estória” toda, ouviste? Vá não mintas que te fica mal, também. Diz à dona Merkel que quando acabou o dinheiro para comer carne, continuaste a comê-la todos os dias e a todas as refeições, diz-lhe também que foste TU que lhe foste pedir a “guita” emprestada, mas já com as calças na mão, pois que, já nem para o pão tinhas dinheiro, agora, porque te achas um iluminado e queres continuar a andar de AUDI, queres dar o dito por não dito e atiras as culpas para ele e para ELA, que foi quem te deu a mão, olha sabes que mais? Julgas que ELA se esqueceu de quem LHA foi pedir? Tem juízo…e já agora, VERGONHA TAMBÉM.

  11. Ó Zé Carioca, vê lá se acertas essas ideias idiotas, com que o PSD e a nossa impoluta Comunicação Social te enche o juízo, lendo o texto seguinte:

    PARA QUE CONSTE…

    Em 1953, há menos de 60 anos – apenas uma geração – a Alemanha de Konrad Adenauer entrou em default, falência, ficou kaput, ou seja ficou sem dinheiro para fazer mover a actividade económica do país. Tal qual como a Grécia actualmente.

    A Alemanha negociou 16 mil milhões de marcos em dívidas de 1920 que entraram em incumprimento na década de 30 após o colapso da bolsa em Wall Street. E O dinheiro tinha-lhe sido emprestado pelos EUA, pela França e pelo Reino Unido.

    Outros 16 mil milhões de marcos diziam respeito a empréstimos dos EUA no pós-guerra, no âmbito do Acordo de Londres sobre as Dívidas Alemãs (LDA), de 1953. O total a pagar foi reduzido 50%, para cerca de 15 mil milhões de marcos, por um período de 30 anos, o que não teve quase impacto na crescente economia alemã.

    O resgate alemão foi feito por um conjunto de países que incluíam a Grécia, a Bélgica, o Canadá, Ceilão, a Dinamarca, França, o Irão, a Holanda, a Itália, o Liechtenstein, o Luxemburgo, a Noruega, o Paquistão, a Espanha, a Suécia, a Suíça, a África do Sul, o Reino Unido, a Irlanda do Norte, os EUA e a Jugoslávia.

    As dívidas alemãs eram do período anterior e posterior à Segunda Guerra Mundial. Algumas decorriam do esforço de reparações de guerra e outras de empréstimos gigantescos norte-americanos ao governo e às empresas. Durante 20 anos, como recorda esse acordo, Berlim não honrou qualquer pagamento da dívida (!).
    Por incrível que pareça, apenas oito anos depois de a Grécia ter sido invadida e brutalmente ocupada pelas tropas nazis, Atenas aceitou participar no esforço internacional para tirar a Alemanha da terrível bancarrota em que se encontrava. Ora os custos monetários da ocupação alemã da Grécia foram estimados em 162 mil milhões de euros sem juros.

    Após a guerra, a Alemanha ficou de compensar a Grécia por perdas de
    navios bombardeados ou capturados, durante o período de neutralidade,
    pelos danos causados à economia grega, e pagar compensações às vítimas
    do exército alemão de ocupação. As vítimas gregas foram mais de um
    milhão de pessoas (38960 executadas, 12 mil abatidas, 70 mil mortas no
    campo de batalha, 105 mil em campos de concentração na Alemanha, e 600
    mil que pereceram de fome). Além disso, as hordas nazis roubaram
    tesouros arqueológicos gregos de valor incalculável.

    Qual foi a reacção da direita parlamentar alemã aos actuais problemas financeiros da Grécia? Segundo esta, a Grécia devia considerar vender terras, edifícios históricos e objectos de arte para reduzir a sua dívida.

    Além de tomar as medidas de austeridade impostas, como cortes no sector público e congelamento de pensões, os gregos deviam vender algumas ilhas, defenderam dois destacados elementos da CDU, Josef Schlarmann e Frank Schaeffler, do partido da chanceler Merkel. Os dois responsáveis chegaram a alvitrar que o Partenon, e algumas ilhas gregas no Egeu, fossem vendidas para evitar a bancarrota. “Os que estão insolventes devem vender o que possuem para pagar aos seus credores”, disseram ao jornal “Bild”.

    Depois disso, surgiu no seio do executivo a ideia peregrina de pôr um comissário europeu a fiscalizar permanentemente as contas gregas em Atenas. O historiador Albrecht Ritschl, da London School of Economics, recordou recentemente à “Spiegel” que a Alemanha foi o pior país devedor do século XX. O economista destaca que a insolvência germânica dos anos 30 faz a dívida grega de hoje parecer insignificante. “No século xx, a Alemanha foi responsável pela maior bancarrota de que há memória”, afirmou. “Foi apenas graças aos Estados Unidos, que injectaram quantias enormes de dinheiro após a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, que a Alemanha se tornou financeiramente estável e hoje detém o estatuto de locomotiva da Europa. Esse facto, lamentavelmente, parece esquecido”, sublinha Ritsch. O historiador sublinha que a Alemanha desencadeou duas guerras mundiais, a segunda de aniquilação e extermínio, e depois os seus inimigos perdoaram-lhe totalmente o pagamento das reparações ou adiaram-nas. A Grécia não esquece que a Alemanha deve a sua prosperidade económica a outros países. Por isso, alguns parlamentares gregos sugerem que seja feita a contabilidade das dívidas alemãs à Grécia para que destas se desconte o que a Grécia deve actualmente.

    A ingratidão dos países, tal como a das pessoas, é acompanhada quase sempre pela falta de memória.
    (por Albrecht Ritschl, da London School of Economics)

  12. Cícero,
    muito bem, este é um continente sem memória e sem dignidade.Um monstro, enfim. Ficou assim no sec. XX com as duas mais atrozes guerras que se conseguiram fazer no ocidente, all made in Europe. E não podemos pôr as culpas todas na Alemanha, somos cúmplices fantoches desta merda que se repete e repete e repete…e gostamos de dizer, para nos confortarmos, que a culpa é dos americanos. Pois. Até ao suicídio final.

  13. Há dezenas de famílias a viver – pelo menos à noite – debaixo dos arcos entre a estação do Oriente e o Centro Comercial Vasco da Gama. Alguém já passou por lá e viu? E o que sentiram?Só para perceber se estou a fazer uma hiper-reacção…É que para o ano vão ser mais e muitos de nós não sabem se estarão como espectadores ou como actores da tragédia… Am I over reacting? Ajudem aqui, por favor.

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