João Paulo Ribeiro pensou na coisa, já a tinha pensada há muito, e não perdeu a oportunidade. Chegou-se à frente e disse das boas ao Presidente. Disse-lhe as verdades, a verdade do verdadeiro povo: Marcelo confrontado na rua: “O senhor fala muito bem, mas não faz nada”
Vamos assumir que a dupla João Paulo Ribeiro&João Paulo Ribeiro (pai e filho) representam as populações na base da pirâmide social e, num improviso, conseguiram articular os seus maiores problemas e carências frente às câmaras. A ser assim, segue-se que em Portugal, “há 40 anos”, “os tribunais não trabalham, não temos saúde, não temos educação, não temos justiça.” Mais: o Presidente da República não faz nada, apenas fala bem, e a ele se deve, por omissão, que Sócrates tenha recebido 3 mil euros por mês estando preso, isto enquanto um bombeiro ganha só 400 euros. Há também uma referência à actualidade dos baldes de água no combate aos fogos.
Pai e filho estavam exaltados, e por uma excelente razão: se a ideia é confrontar o Chefe de Estado no meio da rua, não temendo os seus seguranças e demais forças da ordem, há que ter ponderosos motivos para tal. E o pai, pelo menos esse, tinha. De facto, passarem-se 40 anos e ainda não termos saúde, educação e justiça é demais. Precisamos de quem nos dê isso e já, alguém que “faça alguma coisa”.
Podemos achar que os dois senhores são densamente broncos, ou que estavam alcoolizados, ou que é uma questão de temperamento, ou que terão uma fulgurante carreira política no Chega. Tudo inútil para o que mais importa, o qual é relativo à atitude de Marcelo. Ele foi paciente, compassivo, até amoroso. Na ânsia de conseguir falar, e de dizer algo objectivamente relevante no contraditório, ocorreu-lhe a temática da descida na mortalidade infantil. Seria a prova de que os tais 40 anos sempre serviram para, pelo menos, nos podermos orgulhar desse feito mesmo que o resto da saúde nacional fosse inexistente. Perante a chegada dos bebés, João Paulo Ribeiro pai, e muito a propósito, de imediato ripostou “Não venha agora com panos quentes!” Os panos quentes, na sua hierarquia de valor, deviam era ser enviados para os tais bebés a precisar de cuidados em vez de os sentir a atingir-lhe a mioleira. Ora, podia Marcelo ter respondido de forma diferente, e mais proveitosa para a Grei, face ao descontrolo emocional da dupla? Sim.
Marcelo devia ter parado. Ficado a ouvir. E depois convidar os senhores a irem ao Palácio de Belém conversar com ele com mais tempo, com chá e bolachas, com fotos no jardim, pois estava muito interessado no que eles tinham para dizer, queria conhecer as suas soluções para as questões que lhes estavam a causar tamanha indignação, tamanha fúria. Se eles aceitassem, Marcelo conseguiria gerar uma onda de agrado popular e popularucho tão ao seu gosto. Assim, incapaz de sequer acalmar um pobre diabo, e validando com a sua cumplicidade nas referências a Sócrates e Salgado o lumpenchunguismo que a direita anda há 15 anos a alimentar (e donde nasceu Ventura pela mão de Passos), o que fica é apenas uma exploração mediática da fragilidade de um Presidente da República, por um lado, e uma promoção da violência política dos decadentes, pelo outro.