Todos os artigos de Valupi

Inveja bissexta

Tenho inveja de quem nasceu a 29 de Fevereiro. Porque, durante 3 anos seguidos, ficam com a liberdade de escolherem duas outras datas, em dois meses diferentes, para celebrarem o seu aniversário. E também porque podem retirar 3 a cada 4 anos no registo biográfico mental, chegando aos 80 com a convicção secreta de só terem 20 aninhos.

Parece pouco? Pode ser o que mais importa.

Passos criminoso

Num sábado, há duas semanas, andei de Metro em Lisboa. Mais de 70% dos passageiros não eram caucasianos. Desta minoria, uns 10% seriam ostensivamente estrangeiros. Não vi o menor desacato, uma simples discussão. Apenas rostos indecifráveis quanto à sua biografia e variabilidade etnográfica num registo de provável baixa condição social, salvo pontuais excepções.

Subitamente, não só compreendi mas também senti como pode ser altamente eficaz espalhar o medo acerca desta paisagem demográfica. Os mecanismos tribais do racismo e da xenofobia estão antropologicamente enraizados, fazem parte da herança biológica ligada ao instinto de sobrevivência. É muito mais fácil suspeitar de um estranho do que confiar nele, especialmente se esse estranho se apresenta culturalmente exógeno aos nossos grupos sociais onde construímos a identidade.

Passos a imitar Ventura pode não surpreender, posto que criador e criatura se têm declarado aliados desde Loures. Contudo, porém, todavia, ver um ex-primeiro-ministro (ainda com planos de voltar à ribalta política) a acirrar os instintos que podem causar alarme social, pânico colectivo e violência física potencialmente letal é historicamente significativo. O PSD pode mesmo ter deixado de fazer sentido no regime após a algaraviada de Passos a 26 de Fevereiro de 2024. Pela simples razão de ser incompatível com a decência pertencer a um partido onde a irresponsabilidade máxima é recompensada com discursos ao lado do líder e com um messianismo alimentado pela escória da direita portuguesa.

Há crimes cometidos por imigrantes? Sim. Tal será inevitável, estatisticamente necessário. Mas, como a sua percentagem é muitíssimo mais baixa do que a dos crimes cometidos por portugueses, o discurso que diaboliza os estrangeiros — e que aponta as suas tochas e forquilhas na direcção de pessoas com aparência africana e asiática — é uma mentira que procura instigar o ódio. Pretende-se levar para o Parlamento ainda mais incendiários do pior que existe na natureza humana.

A solução dos populistas de direita contra o crime é sempre serem eles a cometer crimes.

Revolution through evolution

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Dominguice

E o Marcelo, pá? Protegido pela comunicação social, poupado pelo sistema político, quando aparece expõe-se cognitivamente friável, moralmente pusilânime. Contraste radical com a postura irresponsável, acintosa, estouvada que, durante quase dois anos, gerou instabilidade política absurda e criou as condições para um golpe de Estado judicial — o qual ele validou e consumou.

Marcelo, no seu segundo mandato, quis brincar aos monarcas absolutistas. Vai acabar decapitado, a guilhotina será o juízo da História.

No lugar do outro

«no lugar de J.S., e sendo inocente, eu — embora sendo levado a julgamento por crime diferente daquele de que teria sido acusado — não recorreria mais nem tentaria prorrogar mais o julgamento: quereria antes, quanto mais depressa possível, poder provar a minha inocência — se verdadeira.»

Miguel Sousa Tavares

Problema: o Miguel não está no lugar de José Sócrates. Só estando descobriria o que o lugar tinha para lhe ensinar, quem ele quereria ser nessa condição e estado. Por exemplo, poderia constatar que o sistema de Justiça estava viciado (como se viu com Armando Vara e se vê com a própria Operação Marquês, como se viu e vê na Operação Influencer), restando-lhe lutar com todos os recursos à sua disposição para evitar correr o risco do prejuízo maior.

Também pode acontecer que Sócrates não esteja inocente, daí calculando que não conseguiria obter em julgamento a sua absolvição. Só que essa hipótese, legítima para quem apenas pode ir assistindo ao desfilar público dos factos e especulações, não é o que mais importa na Operação Marquês. A hipótese de ser culpado tem na actualidade a consistência de uma bola de sabão a embater na calçada. A única realidade sólida no presente é a de estar inocente posto que nenhum crime foi ainda dado como provado em julgamento e, depois, transitado em julgado.

O Miguel deu uma peremptória e ofuscante lição de moral à sociedade e ao regime. Ele leu tudo, nada encontrou que sustente a exploração política e mediática continuamente a ser feita. Teve como resposta o mais imperturbável silêncio dos que andam há anos, quase duas décadas, a urrar as suas certezas de culpabilidade. Os perseguidores profissionais de Sócrates, uns por ódio político e outros por predação, são iguais aos broncos e maluquinhos que montam banca nas caixas de comentários deste blogue: nada leram do processo e têm alergia a quem pretenda que se faça justiça a Sócrates. Estes pulhas não sabem coisa nenhuma para além das gordas do lixo do sensacionalismo e da violência da indústria da calúnia porque apenas lhes interessa a continuação do linchamento de um certo cidadão e terceiros relacionados com ele.

Ter um ex-primeiro-ministro condenado por corrupção, sem haver dúvidas quanto à justiça da sentença, seria uma nódoa histórica que abalaria o PS e o regime. Mas ter uma Justiça que desonra a sua autoridade e viola o Estado de direito democrático é um dos maiores perigos concebíveis para a segurança nacional e para a ordem pública. É uma forma de tirania, um ataque à liberdade.

Nada

«A mim, enquanto português, não me é indiferente saber se José Sócrates é culpado ou inocente. E quando digo saber, é mesmo isso: não me basta ter uma ideia, uma percepção, uma presunção, uma preferência. Eu quero saber qual das duas coisas é verdade: se tivemos um primeiro-ministro que, como sustenta a acusação pública, foi corrupto até à medula ou se, pelo contrário, foi e continua a ser alvo de um procedimento judicial fundado justamente em presunções e não em factos. A menos que estivesse disposto a aceitar, desde já, a conclusão tirada pelo director do “Público”, David Pontes, quando escreveu que “a presunção de inocência continua a valer, mesmo que as fracas justificações de José Sócrates há muito tenham levado a maioria dos portugueses a tirar as devidas conclusões sobre a sua conduta”. Há muito e as devidas conclusões? Desde quando e com base em quê? Acaso a “maioria dos portugueses” e o próprio David Pontes se deram ao trabalho de ler com atenção e espírito isento as 4083 páginas da acusação do Ministério Público (MP), as 6728 páginas da decisão instrutória do juiz Ivo Rosa e agora as 683 páginas do acórdão da Relação sobre o recurso do MP dessa decisão? É um trabalho muito chato, eu sei, mas acham que é possível tirar “as devidas conclusões” sem o fazer? Se sim, então para que será necessário também um julgamento? Bom, eu dei-me a esse trabalho (saltando os longos e repetidos copy paste), porque, como disse, a conclusão não me é indiferente enquanto cidadão e só será séria se informada. De tudo o que li e ouvi ao longo destes 10 anos tirei algumas conclusões que me parecem pacíficas:

— Durante três anos, de 2011 a 2014, José Sócrates (J.S.) viveu, e largamente, à conta de um amigo, Carlos Santos Silva (C.S.S.), que lhe pagou todas as despesas pessoais, incluindo aquelas de outras quatro ou cinco pessoas a quem ele, por sua vez, ajudava a sustentar;

— Mas se viver por conta, especialmente um ex-PM, não será propriamente glorioso, também não é crime. E tanto J.S. como C.S.S. admitiram que o primeiro vivia dos empréstimos do segundo, que, pelas contas deles, terão somado entre meio milhão e 1,1 milhões de euros — ou 4.733.691,30 euros, segundo a acusação;

— Porém, diz o MP, isto só foi possível porque o dinheiro, que provinha de contas de C.S.S. na Suíça, não era dele, mas sim de J.S., e adquirido devido a corrupção;

— Disto — de uma e outra coisa — não existe qualquer prova directa no processo, sustentando o MP, e agora também o Tribunal da Relação de Lisboa (TRL), que tal não é necessário, bastando a prova por deduções, suposições ou presunções, pois que, como foi escrito a certa altura, “quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem”. Salvo melhor opinião, tal não me parece nem suficiente nem recomendável como prática de incriminação criminal: se eu for apanhado a comer caviar no Gambrinus, isso não significa que tenha acabado de assaltar um banco. Sócrates começou a ser investigado muito antes de ser preso; esteve detido preventivamente 10 meses; o inquérito demorou cinco anos e foram interrogadas dezenas de pessoas, feitas inúmeras buscas, centenas de apreensões, horas incontáveis de escutas telefónicas e inumeráveis outras diligências envolvendo uma quantidade imensa de procuradores e inspectores: é difícil convencer um tribunal sem pré-juízos de que, face à magnitude de meios da investigação envolvidos e à gravidade da acusação — Sócrates corrompido pelo Grupo Lena, por Vale do Lobo e pelo GES —, não haja para apresentar como prova do que se imputa um só testemunho, uma escuta, um e-mail, um documento, um papel, uma fotografia, uma transferência bancária, o relato de um encontro, uma conversa. Nada.»


Miguel Sousa Tavares

De maneiras que é isto

Se desde o início tivesse sido o juiz Ivo Rosa, ou o juiz Jorge Bernardes de Melo, ou o juiz Nuno Dias da Costa, ou este colectivo de juízes de Viana do Castelo, ou o juiz X, ou o juiz Y, ou o juiz Z, a validar os actos processuais da Operação Marquês e a velar pelos direitos e garantias dos arguidos, esta teria sido uma coisa completamente diferente.

Diferente porque mais próxima da justiça, fosse qual fosse o seu resultado. Tal como correu, com um juiz que se comportou como defensor do Ministério Público e amplificador da acusação, para além de verdugo e vedeta populista, a Operação Marquês foi sempre um processo político que se transformou num fiasco policial, num imbróglio judicial, numa perseguição individual, num linchamento social, num tabu moral, numa cobardia cívica e num vexame comunitário.

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Tech Layoffs Signal ‘Feeling Economy’ Shift
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Dominguice

A pandemia, com o choque do isolamento social, as perdas laborais e financeiras, a convivência intensiva e forçada das famílias, e a ansiedade desvairada antes de aparecerem as vacinas, levou a um grande aumento da depressão. Quando estávamos convencidos de ter passado o pior a seu respeito, a Rússia invadiu a Ucrânia. Especialmente para os europeus, tal levou a um novo grande aumento da depressão, tanto por se ter guerra na Europa como pela retórica de ameaça nuclear dos putinistas. Quando essa guerra estabilizava na rotina do impasse, o Hamas organizou um massacre de civis em Israel, o qual deu origem a uma destruição bíblica da Faixa de Gaza. O sofrimento inumano causado de parte a parte a encher os noticiários, e a explosão de ódio sectário numa situação de impossível favorecimento moral, levou a mais um drástico aumento da depressão. Depressão cada vez mais profunda neste processo acumulativo sem fim à vista, como a situação política na América faz prever e as alterações climáticas impõem como certeza.

Eleitores deprimidos perdem capacidade cognitiva e tomam decisões impulsivas. São vítimas de sensacionalismos rapaces, pasto para populistas com a cassete da extrema-direita. Explicam as sondagens.

Decente versus Pulha

Pontuar debates políticos impõe uma lógica de competição onde se procura estabelecer quem “ganhou”, para assim também carimbar quem “perdeu”. Essa decisão é entregue a jurados oficiosos que não precisam de seguir qualquer metodologia de avaliação objectiva. Daí comportarem-se, sem excepções, como editores de uma agenda política subjectiva. Perseguem e castigam as suas animosidades, protegem e louvam as suas afinidades. E gerem o grau de obscenidade nos seus vieses de acordo com a sua marca pessoal.

Embora este contexto possa, ainda assim, gerar comentários qualitativamente úteis para o esclarecimento da audiência e para as escolhas do eleitorado, nos casos onde o comentador não é sectário e tem módica honestidade intelectual, o resultado colectivo reduz a campanha eleitoral à política-espectáculo. Isto é, a racionalidade do acto eleitoral — a escolha de um Parlamento que dará legitimidade a um Governo — é substituída pela encenação de uma luta onde está em causa conseguir agredir o adversário, dar-lhe socos. No final, contam-se os socos respectivos e, com sorte, há KO para festejar nos estúdios televisivos. Segue-se a amplificação mediática da glória do vencedor e da humilhação do derrotado.

Os directores, editores e jornalistas da nossa imprensa querem este modelo (pois não passam de irresponsáveis à procura de audiências), os políticos igualmente (aceitam a degradação do seu papel na sociedade). Mas é fácil imaginar outro, qualquer outro. Por exemplo, o velhinho modelo SWOT evitaria a retórica e o jargão da porrada. Geraria comentários mais inteligentes, porque mais compreensivos e prospectivos. A qualidade da opinião no espaço público melhoraria ao se reduzir drasticamente o efeito tóxico de contágio com o caudal de violência emocional ininterruptamente a ocupar a pantalha.

Ou então, tão-só, substituir os números pelo léxico. Usando o debate entre Rui Tavares e André Ventura como exemplo, e em vez de começar a dizer coisas a partir de algarismos, os comentadores ficariam obrigados a escolher duas palavras de síntese. No meu caso seria: Decente versus Pulha.

Só se desilude quem se ilude

O debate entre Pedro Nuno Santos e André Ventura foi uma desilusão. Só se desilude quem se ilude, pelo que a minha ilusão prévia era a de ir ver, finalmente, alguém colocar o traste no seu lugar. E ninguém com maior responsabilidade para tal do que um líder do PS — fosse quem fosse esse líder.

Ventura é um actor político banal, rasca e altamente previsível. Tem uma cassete, repete-a à exaustão. Apela a uma fatia do eleitorado que está condicionada pela iliteracia política, pela insegurança financeira, pela ansiedade social e pela deficiência cognitiva. Este número indeterminado de cidadãos é extremamente influenciável por apelos ao medo, os quais se reforçam e cristalizam com os apelos ao ódio. Assim, PNS sabia ao que ia. Teve tempo para se aconselhar, para pensar e preparar o acontecimento.

Para minha surpresa, e desgosto, vi o candidato a primeiro-ministro nivelar-se por baixo com o candidato a primeiro-chunga. As frequentes interrupções de PNS a Ventura, o palavrório simultâneo e exaltado que geravam, os remoques convencionais quando era Ventura a interromper, as farpas aqui e ali para marcar pontos, a pose sobranceira, tudo isto e o resto são erros crassos numa ocasião em que dispunha de uma vasta audiência. Porque não a aproveitou para expor a lógica da retórica chegana.

O caso Sócrates, inevitável na cassete do proto-facho, poderia transformar-se no patíbulo do caluniador. Para tal, PNS deveria ter tido como estratégia arrastar Ventura para o âmago do que está em causa. Poderia perguntar-lhe quais eram os recursos de Sócrates agitados como excessivos que considerava ilegítimos. Daqui não viria nenhuma resposta coerente ou relevante, pelo que poderia continuar a enredar Ventura em si próprio perguntando-lhe se tinha provas da corrupção de Sócrates. Poderia ainda perguntar-lhe se concedia a Sócrates o direito a ter advogado e a defender-se em todas as fases do processo. Fossem quais fossem os disparates bolçados em resposta, PNS concluiria a faena iluminando o verdadeiro significado deste ataque a Sócrates, comum em Ventura e em toda a direita, idem na imprensa: atacar o próprio Estado de direito para fins de linchamento político, assassinato de carácter, judicialização da política e politização da Justiça.

Porque não foi PNS por aí e se limitou a denegrir Ventura pelo lado em que ele dorme melhor, apenas apontando para a sujidade do porco? Não faço ideia, claro. Ou faço, a cicuta ainda não foi bebida até ao fim.

Agruras da ingenuidade e do romantismo, estava na ilusão de que nestas eleições havia um partido, pelo menos um, que tivesse como baluarte a defesa da liberdade.

Não é o Trump, estúpido

Trump disse que “encorajaria” a Rússia a atacar países pertencentes à NATO que não estivessem a gastar o acordado na sua defesa militar. Por “encorajar”, detalhou que tal significa apelar a Putin para lançar o tipo de “inferno” que mais lhe apetecesse sobre esses países com orçamentos de defesa abaixo dos seus compromissos com a NATO.

Por um lado, isto é apenas mais um exercício da retórica típica de Trump, a qual lhe tem dado um sucesso sem paralelo na política norte-americana. Por outro lado, isto é também o ogre a expressar que se vê como um chefe criminoso para quem outros chefes criminosos são naturais aliados. E nesse seu êxtase, não se importa de ficar para a história como um ex-presidente que apela à destruição e à morte qual cavaleiro do apocalipse.

O enigma maior nesta desgraça civilizacional não é Trump. Ele limita-se a ir esticando a corda, porque tem resultado a seu favor mesmo que morram e fiquem feridos polícias a defender a democracia americana. O enigma maior diz respeito ao povo adulto que habita nos EUA.

Começa a semana com isto

The findings from a large survey study, co-authored by Kyle Hull, Kevin Smith and Clarisse Warren, demonstrate the willingness of people to bend their morals - even behave unethically - when engaging in the political realm.

Results also suggest that hostility toward outgroups (i.e., opposing party) is the driving factor for the moral ambiguity exercised when respondents switch from the personal to the political arena.

And there is not just one guilty party.

"People, regardless of age or ideology, were more willing to engage in immoral behaviors and judgments if the behaviors were in the political realm," said Hull, a visiting assistant professor in political science. "And a lot of it was just driven by genuine internal dislike of the 'other' side."

"I think there's some reason for concern," Hull said. "As long as there is some internalized dislike of the outgroup, there's certainly a risk of behaviors that may be involved when people are willing to act less morally. Politics makes us do things that we just normally wouldn't do and tolerate things we wouldn't normally tolerate. It brings out, sometimes, the worst in us.

"The way some politicians and media speak about the other party fuels that fire in a way. The more we engage in pitting one party or the other as the bad guys, and the more you feel that way, the more you are willing to set your morals aside."


Why politics bring out the worst in us