
Tian Bian Yi Duo Yun_Tsai Ming-Liang
Se não sabes porque escorre a lágrima, olha para estas imagens. Fica por lá um bocado, analisa as pistas e desenvolve uma primeira explicação, depois volta – enquanto eu fico aqui abrindo a melancia. Para tal, começo pelo pêssego. Há muito que o pêssego é o meu fruto preferido. É o mais sensual e saboroso, desde a pele de veludo ao perfume simultaneamente suave e complexo, passando pela fibra tenra, polposa, suculenta. A sua degustação provoca embriaguez sinestésica, ouvindo-se imagens, apalpando-se sons, contemplando-se odores – ou assim li algures. Esta descrição desafia a erosão do tempo e as actuais definições do que se considera ser a saúde mental. Porém, que fazer com a melancia? Cedo neste planeta me dispus a coleccionar recordações de homéricas talhadas, repetidamente associadas a momentos de alegria familiar. Não tinha como o negar: a melancia era um fruto que, embora não ameaçasse o pêssego na corrida ao grande prémio, concorria para os prémios especiais do júri e do público. Porém, havia um desprezo declarado pela melancia junto da opinião corrente, tanto a falada como a escrita, dizendo-se que o seu valor nutritivo seria reduzido, quase nulo, dado ser pouco mais do que água. Para mim, especialista em generalidades nutritivas, algo não batia certo. Juntando a fome à vontade de saber, fui investigar. A primeira descoberta foi a do licopeno. Ora, já tinha sido apresentado ao licopeno por causa dos tomates, pelo que conhecia a importância dessa novíssima vedeta da literatura mágico-nutricional. Pois bem, a investigação revelava que a melancia tinha ainda mais e melhor licopeno do que os tomates, era uma coisa do caralho. E continuava a ser do caralho por uma eréctil descoberta: a melancia tinha poderes análogos aos do Viagra. De repente, aquela bola de água traidora, sportinguista por fora e benfiquista por dentro, mais famosa pelo milagre fatal da transformação do vinho em cortiça do que por qualquer promessa curativa, surgia associada à protecção contra o cancro, contra problemas cardiovasculares, contra o envelhecimento dos tecidos e ainda contra a impotência – ou seja, a favor da potência. Estava encontrado o fruto que dava a provar a metafísica aristotélica: a mais saudável passagem da potência ao acto disponível fora das farmácias. E resulta, afianço. Estas descobertas aconteciam no Verão de 2007, a poucas semanas da estreia em Portugal do pevidesco filme de Ming-Liang.









