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Inquérito à comissão de inquérito

Comecemos pelo fim: quem for intelectualmente honesto, quer saber como se chegou ao ponto de votar conclusões risíveis. Dizer que o Governo sabia do negócio por este ter sido noticiado na imprensa no dia anterior ao debate no Parlamento talvez não justificasse a existência de uma comissão de inquérito. Talvez, vamos pois supor. Dizer que a PT queria mudar a linha editorial da TVI através da contratação de Moniz fica como exemplo da política-Tarot: lança-se uma carta e fala-se do que apetecer. E dizer que o Governo interveio no negócio por nada ter feito, primeiro, e por ter reagido à desvairada intervenção dos partidos e do Presidente da República nesse mesmo negócio, depois, é de um nível de estupidez que ameaça ficar sem ser ultrapassado nos próximos 900 anos.

Não por acaso, os tontinhos que foram para a Assembleia durante a hora de almoço, movidos a toque de escutas e violação do Estado de direito, calaram-se assim que a Comissão de Ética passou a exibir os números circenses dos asfixiados. Calaram-se bem caladinhos, não voltaram a tocar no assunto tamanha a falta de vergonha e deboche a que se chegou no Parlamento. Com a CPI foi igual, não piaram. A única esperança era o Pacheco Pereira, esse exemplo de probidade. O deputado-espião encontrou matéria avassaladora no que releu, e anunciou que o Governo devia ser demitido e entregue à Judiciária. Como não foi ouvido, nem sequer no seu partido, esperemos que ele próprio divulgue as escutas e vá até às últimas consequências. A Política de Verdade a isso obriga.

PSD e BE quiseram esta comissão de inquérito para desgastar Sócrates e, dependendo das agendas políticas respectivas, ter pretextos para jogadas parlamentares. Acabam a votar um relatório que apaga as declarações dos principais responsáveis por todo o negócio: Bava, Granadeiro e Polanco.

A Assembleia da República viveu um dos seus piores momentos, conclui o cidadão.

E para ti?

Uma feliz sequência de três textos bondosos – ingénuos, nesse sentido da generosidade e do engenho, o oposto do cinismo – permite a rara oportunidade de enaltecer a política:

Da necessidade de ideologias políticas e outra vez o voto – Fernando Nobre
Isabel Moreira

A cartilha.
Tomás Vasques

« Nem realpolitik, nem irrealpolitik, mas politik, pf.»
Inês de Medeiros

Estamos perante três facetas de uma mesma compreensão. Para os autores, e para muitos de nós, a intervenção política ocorre num contexto de complexidade intelectual e de ambiguidade ideológica, sem rótulos evidentes. Seja no acto de votar ou apenas de vocalizar uma opinião. E uma das maiores dificuldades consiste na polissemia, na fluidez dos conceitos e confusão dos discursos, onde não se cultiva a análise e a reflexão na ânsia feroz de obter anuências. Por isso, estes três textos escritos para a partilha informal, inerentemente humildes e genuínos, dão a pensar. Enquanto a Isabel reclama uma definição ideológica, a Inês abjura-a. Pelo meio, o Tomás assume o ramalhete das correntes e designações e passa-lhe uma fita rubra à volta. Mas todos estão a expressar um sentimento de pertença a um espaço comum, imune aos tribalismos e receptivo à surpresa.

O que me interessa, e encanta, neste território é a sua fragilidade, por ver nela a condição necessária para o crescimento cívico, político e pessoal. Os soldados à esquerda desta esquerda não podem conviver com dúvidas, o seu treino é religioso e violento. Tomaram conta da História, conhecem as suas leis, têm a casa cheia de livros que os deixam dormir descansados. Obviamente, não suportam esta gente. À direita, os cavalheiros de indústria que conhecem por experiência própria as delícias do capital, e a facilidade com que ele compra convicções e honorabilidades, exibem sorrisos condescendentes e paternalistas perante o lirismo. Obviamente, não suportam esta gente.

Para mim, esta é a minha gente. Uma gente que não sabe a que mundo veio parar, mas que dá o seu melhor para descobrir o que fazer com a liberdade.

Betsaida

Rui Castro, que tem levado às costas o Blogue de Direita desde o seu início, assinalou o seu protesto contra o delírio. De caminho, relembra um tempo em que era leitor frequente do Aspirina B. O elogio misturado com o acinte faz uma mistura sempre fértil.

Adivinho a surpresa, e gosto, do Rui com a minha dissonância face à orquestra de esquerda purificada que se reuniu neste blogue, um elenco de luxo até meados de 2006. Em diferentes ocasiões, citou-me pelos blogues por onde foi passando. E, em Abril de 2008, chegou a convidar-me para escrever um texto para o 31 da Armada. Que se passou entretanto que justifique o azedume da sua nota? Simples de explicar: o ambiente ficou tóxico com a estratégia e acção do trio Cavaco-Manela-Pacheco. Sócrates foi diabolizado e quem se aproximasse dele, ou dele não se afastasse, apanhava por tabela.

Não desejo ao Rui que perca o seu tempo a ler o que escrevo, sem ironia o digo. Mas é descoroçoante constatar como é fácil perder a lucidez por causa das paixões ideológicas e políticas. Essa ideia de eu ser um dos defensores oficiosos de Sócrates é despejada sem o mínimo contexto ou justificação. É um dichote. Contudo, se lhe desse a maluqueira e passasse os meus textos a pente fino, não encontraria alguma defesa política de Sócrates, Governo ou PS. Pelo contrário, defendi o Não no referendo do aborto, defendo a Igreja e o seu universo em variadas ocasiões, não votei PS nas Legislativas, não irei votar Alegre nas Presidenciais. Que pensará o Rui que ando a defender, então? Licenciaturas ao domingo e por fax? Os envelopes castanhos do Freeport? O plano para acabar com um programa de comédia na TVI?

Rui, se não entendes que sou capaz de defender Sócrates, ou outro governante qualquer, de ataques que me pareçam injustos e indignos com o mesmo entusiasmo com que defenderei a Igreja, a Bíblia ou um qualquer católico nas mesmas circunstâncias, tenho a dizer-te que estás cego. Espero que não seja preciso um milagre para começares a ver.

Da natureza humana

Se Mota Amaral surpreendeu muitos com a dignificante proibição de utilizar escutas para fazer política, terá calado fundo em quase todos com a invocação da sua experiência com a PIDE.

Em quase todos, mas não naqueles que o censuram. Seus colegas de partido. Parlamentares e presidente do partido. Políticos que conspurcam a política.

Pedro Mexia, correndo o risco de ser vítima dos fanáticos, partilha também a sua experiência e termina com uma citação definitiva a respeito deste péssimo momento da democracia portuguesa.

Silly President

De Cavaco Silva aceitávamos que não fosse ao funeral de Saramago. Do Presidente da República, não.

Agastado com quem o detestou em vida, temendo aumentar o fosso com os católicos ressabiados, optou por faltar a um acontecimento que uniu os portugueses. Os portugueses gostam dos seus mortos, são essencialmente unos. Infelizmente, têm um Presidente da República que não é tão patriota como eles, como fica patente pelas explicações que deu para faltar: promessa de férias com a família. Esta completa ausência de sentido de Estado, e de compreensão simbólica do que está em causa, tem acompanhado a sua Presidência. Mais valia que assumisse a sua ausência com uma declaração de distância ao homem, havendo tantas e tão boas razões para tal, mas a hipocrisia que rege a sua conduta política não lhe permite essa afirmação de carácter.

O cavaquismo dá-se muito mal com a época estival.

In dubio pro ranho

Na porqueira, nesta quinta-feira, o frente-a-frente foi entre Francisco Assis e Aguiar-Branco. Tema: as conclusões da comissão de inquérito ao caso PT/TVI. O espalha-suspeições do Pontal trazia um rosto sorridente, mesmo feliz, e um esgalhanço de jurista encartado – o finca-pé à volta do princípio in dubio pro reo. O PS estaria a puxar a brasa para a inocência do réu porque permaneciam dúvidas, enquanto a oposição puxava a brasa para a acusação, precisamente por persistirem dúvidas.

Aguiar-Branco não podia ter sido mais verdadeiro, disse que a política não precisa de provas, chega-lhe ter suspeitas. Provas é no Tribunal, na política vale tudo. Assim, acabando-se os trabalhos da comissão sem conclusões inquestionáveis, a culpa é dos que protegeram a sua privacidade, dos que exerceram os seus direitos, dos que respeitaram a sua consciência e dos que cumpriram a Constituição. A isto Assis respondeu com indignação, denunciando o mecanismo de calúnia promovido pelo seu interlocutor, onde o alvo da suspeita é que tem de fazer prova de inocência.
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Barra pesada

O Fernando Fonseca solicitou a colocação do 31 da Sarrafada na barra das ligações. Ocasião para explicar que esse conjunto de links não representa, actualmente, qualquer critério de gosto, relevância ou destaque do Aspirina B. É um elemento da página que tem sido mantido por inércia, deixado ao abandono por preguiça e pelas alterações sucessivas na equipa de autores activos. Creio que não é renovado desde o início do blogue, tendo resultado da listagem que existia no BdE, se bem me lembro.

As listas de blogues extensas manifestavam um espírito democrático e comunitário associado aos primórdios deste ecossistema social. Depois, com a maturidade e crescimento desmesurado, passaram a ser declarações de afinidade, algumas num registo minimalista.

Ironicamente, o 31 da Sarrafada não se compromete com ligações. Nada contra, claro.

A República dos Labregos

Na República dos Labregos, a Internet é um franchising do Arquivo de Identificação. Para escrever num blogue, estar no Facebook, deixar um vídeo no Youtube, utilizar o Messenger ou comentar num pasquim online, cada indivíduo deverá primeiro expor nome, foto, morada, número de contribuinte, declaração de rendimentos, boletim de vacinas e impressão digital. Caso contrário, sujeita-se a ser tomado como anónimo e tratado como cobarde.

Os labregos não querem surpresas, enigmas, mistérios. Transparência absoluta é a meta, devassa completa o método. Quem não se expuser biograficamente, é denunciado e ostracizado. Voto secreto e bailes de máscaras são conceitos banidos da cultura labrega. Todos transportam à vista uma placa com a árvore genealógica. Todos? Não. Curiosamente, as alimárias que disparam apodos contra o anonimato não exibem mais do que dois ou três nomes, um email que até pode ser geral, e chega. Algumas vão mais longe, colocam a fotografia. Mas a lógica é a mesma: elas não duvidam de si próprias nem daqueles que as imitam. Por exemplo, quando recebem dois comentários nos seus blogues, e um deles está assinado como “Anónimo”, estando o outro como “António Silva”, elas tendem a castigar o primeiro e a acreditar no segundo. Tal como acreditam em tudo o que encontrem digitalizado, de caracteres a imagens, desde que lhes pareça normalzinho da Silva. Não é por acaso que as alimárias são alimárias.
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Quando te dão limões

Dura 35 minutos, à volta de meia hora ou um quarto de duas horas. Foi produzido em 2009. Filma publicitários norte-americanos atingidos pela crise. Eles falam dos seus despedimentos, como aconteceram, o que sentiram. E depois mostra o que fizeram com as suas vidas.

É lindo. E está aqui.

Nota: o documentário vai sendo interrompido por anúncios, é deixá-los passar.

O opróbrio é geral

O Eduardo chove no molhado. Mas ai de nós se esta chuva passar, pois é dela que se alimentam as raízes da liberdade.

Para além dos que utilizam o Carlos Santos, canalhas frios e ferozes, muitos mais estão calados a desfrutar do espectáculo. Como não é nada com eles, nem com alguém do seu círculo de interesses, fruem sadicamente da desgraça. Não conseguem entender que a desgraça é a da própria comunidade. E não o conseguem entender porque começam por não entender o que seja a comunidade. Para eles, é a família, os amigos e os parceiros. Clãs.

O Carlos Santos não passa da versão Júlio de Matos do Pacheco Pereira e sequazes. A peçonha está entranhada até ao topo desta pseudo-direita que não conhece limites para a pulhice.

Queiroz descodificado

Ninguém prestou atenção à mensagem cifrada que Queiroz espalhou durante meses. Com efeito, a escolha dos Black Eyed Peas para mascote da Selecção foi tudo menos casual e inocente. Atente-se no que o vídeo da canção mostra: sexo, droga e ausência de rock ‘n’ roll. Vemos pessoas a caminho de uma festa, pessoas a beber, a saltar, fufices, sado-masos, gayzolas, bolos de haxixe, espumante Raposeira, pretos. Desgraça, enfim, a qual acaba em orgia e cenas tristes pelas ruas.

Pois foi esta a forma ardilosa que Queiroz descobriu em ordem a ir preparando os portugueses para o que aí vinha, a sua fatal presciência quanto ao abandalhamento completo da equipa até ela atingir o deboche. É o que se tem feito à volta de Nani e sua lesão imaginária. Estamos quase a cair no ridículo de aparecer um médico a explicar o problema, vejam só. Deco esteve muito bem e deu um forte contributo para o começo do bacanal, exemplificando com Queiroz. Na presença dos jornalistas, tentou fazer um filho ao seleccionador, à bruta. Mais tarde viria a pedir desculpa e a culpar as vuvuzelas pelo sucedido. Estava dado o sinal de partida, logo se juntaram entesoados do calibre e potência do João Marcelino e Manuel José, para além do Figo e do Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, entre muitos outros, todos fodendo a torto e a direito o balneário da Selecção. Significa esta confusão que a 1ª parte do plano de Queiroz está a dar espectacular resultado.

A 2ª parte remete para o refrão:

I gotta feeling that tonight’s gonna be a good night
that tonight’s gonna be a good night
that tonight’s gonna be a good good night

Não tem como enganar, está escrito e reescrito: só ganharemos se jogarmos à noite. O jogo com a Costa do Marfim foi às 3 da tarde, jamais conseguiríamos ganhar nessas horas impróprias para o feeling da equipa, deu empate. Isso quer dizer que o jogo com a Coreia do Norte, o qual vai ser ao meio-dia, só pode acabar com a nossa derrota. É cedo demais, ficaremos a ver as bolas entrar na baliza do Eduardo como se fossem misseis nucleares a caminho de Seul. Segue-se o Brasil às 3, mais um empate.

Portugal irá somar apenas dois pontos, é para tamanho choque que Queiroz nos anda a preparar. Creio que fez um excelente trabalho, pois é esse, exactamente, o actual feeling do País.