A República dos Labregos

Na República dos Labregos, a Internet é um franchising do Arquivo de Identificação. Para escrever num blogue, estar no Facebook, deixar um vídeo no Youtube, utilizar o Messenger ou comentar num pasquim online, cada indivíduo deverá primeiro expor nome, foto, morada, número de contribuinte, declaração de rendimentos, boletim de vacinas e impressão digital. Caso contrário, sujeita-se a ser tomado como anónimo e tratado como cobarde.

Os labregos não querem surpresas, enigmas, mistérios. Transparência absoluta é a meta, devassa completa o método. Quem não se expuser biograficamente, é denunciado e ostracizado. Voto secreto e bailes de máscaras são conceitos banidos da cultura labrega. Todos transportam à vista uma placa com a árvore genealógica. Todos? Não. Curiosamente, as alimárias que disparam apodos contra o anonimato não exibem mais do que dois ou três nomes, um email que até pode ser geral, e chega. Algumas vão mais longe, colocam a fotografia. Mas a lógica é a mesma: elas não duvidam de si próprias nem daqueles que as imitam. Por exemplo, quando recebem dois comentários nos seus blogues, e um deles está assinado como “Anónimo”, estando o outro como “António Silva”, elas tendem a castigar o primeiro e a acreditar no segundo. Tal como acreditam em tudo o que encontrem digitalizado, de caracteres a imagens, desde que lhes pareça normalzinho da Silva. Não é por acaso que as alimárias são alimárias.

Quando se decidiu fazer o Aspirina B, só o José Mário Silva me conhecia presencialmente. O Luis Rainha convidou-me sem carência de outra identificação para além do pseudónimo “Valupi”, um email e a convivência no BdE. Depois, ficou naturalmente na posse dos dados biográficos usuais e chegámos a estar juntos. Nas pessoas que se reuniram para iniciar o blogue não havia anónimos, quem não se conhecia ao vivo poderia a qualquer momento pedir as informações que quisesse a qualquer outro. E, quanto a mim, nenhum dado relativo à minha identidade ou profissão era secreto, nem foi pedido qualquer tipo de sigilo a ninguém a esse respeito. O mesmo para qualquer uma minhas relações pessoais e profissionais, qualquer uma livre de contar a quem quisesse o que sabia do “Valupi”. Por isso, constatar que há quem me considere anónimo sem nunca me ter contactado pessoalmente, é constatar que a educação continua a ser uma qualidade que não está universalmente distribuída. E descrer da honra alheia, fazê-la depender de um registo civil, será uma das maiores infelicidades que podem acontecer a um cidadão.

Dito isto, acrescento: aqueles que atacam verdadeiros anónimos que se limitam a usufruir da liberdade de expressão, são piores do que aqueles que abusam dessa liberdade.

8 thoughts on “A República dos Labregos”

  1. Completamente certo, Valupi.

    E tu tens apanhado com esta labreguice toda em cima por parte de gente imbecil e mal intencionada.

    Mas, insisto, houve um palerma que começou com isto, passado um tempo de aqui ter chegado. O JPP- o mesmo que não se preocupava em trocar gracinhas com o anónimo do meu Pipi e que, passado uns tepos, já inventava um proletariado a querer fazer sombra aos senhores famosos do andar de cima.

    É claro que não digo isto pelo facto dele ter arrolado o meu nick entre outros ao acaso. Porque isso nada teve de pessoal .Calhou-me a mim, como calharia a qualquer outro.

    Mas digo-o por quem pegou no pé do JPP e passou a ir mais longe em devassa que não é aleatória como essas rábulas à Moisés que dita as leis da blogo.

    E sei o que há de nojento alguém usar a palavra e os princípios de outrem para abusar.

    Comigo aconteceu isso. Um cretino que era todo identificações e mais cartõezinhos e nºs de mil e uma coisas e que depois fazia fwd dos e-mails de resposta que eu dava, em troca privada.

    E fez isto o tempo todo, por eu lhe ter dito que não ia furar o meu código de honra. E só parou quando eu pespeguei menos de metade de outro e.mail, em directo, na caixa de comentários onde ele fazia a rábula pela frente.

    E calou-se para sempre. Por que eu apenas postei o que era inofensivo. Preguei-lhe o susto e poupei-o, pois bastava ter largado mais umas linhas do e-mail para ele ficar queimado entre a plateia para quem falava.

  2. tempos e outras gralhas.

    Isto serve para dizer que o boato é das coisas mais cobardes e mais difíceis de fazer parar.

    Precisamente porque quem tem código de honra não é capaz de fazer o mesmo.

    Mas digo-te :se pode haver problemas que já tive na vida foi por ficar manietada entre o código de honra e o abuso que dele faziam.

    E hoje em dia digo-te que não me arrependo mas que aprendi que temos de nos defender a dobrar dos que nem sabem o que estas tretas são.

  3. Mas não lhes faças a vontade. Eles nem querem nada de ti agora. Querem apenas justificar a merda que fazem e por defesa não te vão largar.

    Esta treta não é apenas por capricho. É por uma questão de princípio. É bom que se defenda a liberdade de cada um contar de si o que bem entender e que a blogosfera é um dos últimos redutos de liberdade.

    Separe-se o trigo do jóio e cobre-se politicamente o que é para cobrar politicamente, mas nunca à custa de diminuir a liberdade.

    Porque o Poder tem sempre megafones maiores. E mais precisa de liberdade e de anonimato quem não tem as costas quentes do quem as tem.

    Esses pavoneiam-se com todos os apelidos que lhes derem jeito. E os nicks até costumam dar muito jeito aos JPPs quando também se disfarçam entre o proletariado.

  4. A bimbalhice é tamanha que o morcão do CAA chegou a andar com a rábula que uma pessoa que até se apresentou ao vivo era mais um anónimo escondido no falso nome com que se apresentou.

    Se for preciso chegam a este extremo de cretinice. Dizer que alguém de quem sabem o nome e reconhecem fisicamente e até sabem a profissão é um “anónimo” que usou este estratagema para branquear o anonimato.

    ehehe

    Parece loucura mas é mesmo assim. E a questão é simples de se entender- é o efeito big brother. Só não é “anónimo” o que é mediático.

  5. O Pacheco, e temos de lhe reconhecer esse mérito, conseguiu tanto infectar a política partidária como a blogosfera política. Mas há dois grupos bem distintos nesta merda: o dos canalhas e o dos cagões. Os primeiros querem prestar serviço, os segundos reduzem o meio ao tamanho caixa córnea.

  6. Mas quem é que está verdadeiramente, isto é, do fundo do coração das cuecas, interessado em saber da identidade do portista, perdão, sportinguista Valupi? Só se for o Paulo Gorjão, director do IPRIS, guarda-costas não-pago da segurança nacional, dançarino da conga e do quango. Para mim, seja quem for o sujeito ou sujeita a dar-lhe cabo da burqa, e temos por aí alguns capacitados a financiarem esse non-event da intriga superficial, o Valupi será sempre o meu herói inviolável, quer trasvestido, ou em pelote com uma falta na área onde o prepúcio costumava dormitar a maior parte do dia e da noite, para evitar conclusões orientalistas por associação fisionómica. Mai nada.

    Que o Valupi não trema, no entanto, apesar desse perigo aparente. O Gorjas, for one, é amigo e amigo fixe, pensa como nós – um verdadeiro gajo da cidade ideal, talvez exumador de ideias velhas, talvez membro do Conselho Nocturno cretino, porque de Creta. Quando ele se resolve a cá vir tomar ácido acético do lote B e aproveita para espalhar os méis da confusão e delírio cientificamente explicáveis, deixa sempre, apesar do extremo cuidado que usa, umas caganitas curtas e sem compromisso, mas altamente suspeitas na opinião de gente maior e vacinada. Como eu. Mais vale isso que nada, tenho que reconhecê-lo, sem identificá-lo com precisão, no meio desta confusão de fundo que é a política podre do terrorismo financeiro e bombista. Mas, um certo dia, fez o Gorjas da pescada postas e saiu-se com uns “gorjeios” de solidariedade com características quase uterinas ao competente dono deste blogo e meu heroi, numa “lição” ao Ibn Erriq sobre a origem religiosa do raciocínio do marxista moderno. E disse assim, ao Erriq, a arrumá-lo com técnica insuperável:

    “ Isso faz do esclarecimento um dever sagrado do marxista, no que não difere assim tanto do fundamentalista islâmico”.

    Na altura pensei: seu malandreco, que não gosta nada do Muhamad “fundamentalista”, tal como o Valupi e o Pacheco Pereira – ambos a fingirem que são inimigos figadais mas no fundo a concordaem com a filosofia do patrão único e não só!

    Na mesma bandeja de solidariedade e pontos de vista comuns explicitados e tornados públicos nesse comentário, encontrei uma inesperada “gorja” que diz muitissimo bem com o asco às riscas muito tecnocrata e muito “Science Daily” que o Valupi veste quando bota parecer sobre as ideologias, e que normalmente lhe dá o ar independentezinho tão querido e apreciado pela maralha das palminhas:

    “a ideologia equivale invariavelmente a uma consciência errada”.

    Confuso, mas que se foda. Falta de filósofos não temos, decidi logo, não fosse arrepender-me. E aproveitei para concluir que o que este vaso de guerra da neutralidade académica e da segurança nacional queria dizer-me com toda a sua convoluta parla é que, do que precisamos, nós que só vimos preto e branco, capital e trabalho, Deus e Diabo, é de ganhar coragem, perder vergonha e hábitos antigos, olhar para o futuro através do olho grande do computador ligado à rede, de sairmos das aldeias e lugarejos e entrar pela única porta da Cidade franqueada aos desiluminados dos salários mínimos mentais. Só assim seremos capazes de inquirir com vantagem e benefício sobre o misterioso “mind stuff” dos seres superiores da anti-ideologia, nesta sua última edição, forrada a plástico e cara como à merda – chamem-lhe nova banha da cobra para hipnotizar e espantar ou comer os passarinhos, que a mim não me rala nada.

    Mas aviso os arquitectos das cidades normais do presente, cidades com problemas sanitários e de sanidade mental, para se porem a pau com cimentos abstracto-filosóficos deste tipo, saido da pena do Gorjas: .

    “isto é, perspectivando a cidade num todo”

    “porque se quer uma cidade diferente, alternativa”.

    Para não complicar, vou esquecer com muita graça que a perspectiva é uma “ideologia” que só chegou até nós muitíssimo depois da Cidade Ideal da Creta dos Cretinos.

    Outro aviso que pode ser útil e evitar suores potássicos à arraia miuda em geral ainda não vacinada contra o bacilo da Academia Superior do Desensino: para se descobrir mais pontos de encontro e beijos às escondidas trocados entre estes dois pensadores livres que se alimentam da mesma placenta, não vale a pena fazer viagens ao Bloguítica do Gorjas, rebuscando os posts velhos da sua autoria para comparação laboratorial. Foi tudo apagado para não deixar rasto. É um método mais velho que o cagar de cocas, pois que já vem lá dos tempos dos beneditinos e dos franciscanos escondidos sob os hábitos e carapuças dos falsos nomes e pseudónimos.

    Nota: “Gorjas” não é, está de caras, um pseudónimo.

  7. GiróFlé, estás em forma. Mas não deves abusar do vinho, apenas um copo às refeições. Ok, podes incluir o pequeno-almoço na categoria.

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