Todos os artigos de Valupi

Sinais de longa duração

Isto está de cortar à faca. É um pouco inevitável com a conjugação de três coisas em sequência: um pano de fundo de crise económica e social grave, que gera uma peculiar sensibilidade a questões como a corrupção, e, como na política não há alternativas, tudo desagua num ambiente pastoso, irritado e sem esperança. Hoje, num supermercado, um homem disse-me: “vai haver uma explosão”. Sei lá, alguma coisa vai haver. Não menosprezem os sinais.

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Dardo de Ouro

Em Janeiro deste ano, expressei a minha resolução em levar o nosso amigo Manuel Pacheco a tornar-se blogger. De imediato me esforcei em não mexer uma palha nesse sentido, entregando aos deuses da blogosfera a responsabilidade de tratar do caso. Em Julho, deu-se o divino parto: Coisas que podem acontecer

Agora, um dos portugueses que me enche de orgulho por ser meu patrício, Osvaldo de Castro, teve a graça de nomear o novíssimo blogue na sua escolha para o Prémio Dardos. É uma merecida, e instantânea, consagração.

A história do nosso amigo Manuel Pacheco, interessado em aprender e dominar as novas tecnologias de comunicação, vencendo as naturais inseguranças da exposição pública, ganhando calo na desvairada e selvagem interacção no meio digital, é a prova de que podemos ser um país de jovens. Tenham eles a idade que tiverem.

Do not go gentle into that good night

Fernanda Câncio, no DN, dá-nos mais um exemplo da sua independência e afirmação profissional, agora acusando o próprio jornal onde trabalha de ter tido uma prática que ofende a decência mínima necessária à vida em comunidade e ao funcionamento das instituições políticas democráticas. É, até à hora em que escrevo e se nada me escapou, a singular voz nesse órgão de imprensa a dizer o óbvio e o necessário. Nem sequer o director, na sua coluna ou em nota de rodapé aos editoriais diários, gastou meio caracter com o assunto. Derrelicção de quase todos os que aí exercem funções de responsabilidade deontológica, alienação ou cobardia que nos estigmatiza como sociedade – e ainda mais forte o aplauso para a Fernanda, portanto.

Mas há um ponto onde ela não tem razão, falha também cometida pelo Pedro Marques Lopes e Pedro Adão e Silva, pelo menos. Ao se causticar a reacção de Ana Gomes, e outros, registada no contexto de uma provocação insidiosa, estamos a deixar que as emoções nos façam ainda mais mal do que aquele que o acontecimento inicial já fez. Os risos dos que foram apanhados pelo jornalista do DN, que nos começam por aparecer como chocante legitimação da perfídia, podem não passar de respostas defensivas ou expressões de ansiedade e desorientação. O que muito provavelmente não são é o resultado de uma demorada reflexão acerca do conúbio entre uma Justiça inimputável e um jornalismo imprestável. Ana Gomes também é vítima, directa, da pulhice feita a Edite Estrela e Armando Vara. Exigir-lhe seráfica imperturbabilidade e discernimento em matéria desta toxicidade afectiva, e no instante em que é confrontada a frio (ou a quente), talvez seja excesso de zelo.

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Mundialização

Em pouco mais de 1 mês, Sócrates decidiu entrar no Conselho de Segurança do Mundo, trouxe o homem mais poderoso do Mundo a Portugal para lhe sacar o dinheirinho, chamou o segundo homem mais poderoso do Mundo só para lhe ouvir elogios do outro mundo, explicou à Nato como é que se mantém a paz neste novo mundo e ainda teve tempo para ordenar à Selecção que toureasse os Campeões do Mundo.

Apotegmas da quinta

A divisão entre esquerda e direita é confusa sem essoutra, muito mais distintiva, entre conservadores e reformadores. Porque há conservadores à direita e à esquerda, reformadores de esquerda e de direita. O PCP é conservador, Sá Carneiro era reformador.

O centro é o lugar da união entre o que vale a pena conservar e o que precisamos de reformar.

Toda a governação é feita ao centro, gerando novas esquerdas e direitas sucessiva e inevitavelmente.

O Poder. Quem o tem quer conservá-lo, quem não o tem quer obtê-lo através de reformas. O Poder está sempre circunscrito. Não há poderes infinitos, nem sequer ilimitados – nem sequer na imaginação.

A direita é pessimista porque sabe a História quase toda. Quase.

Donde vem o culto da erudição balofa, maníaca, que se vê em tanto revolucionário pançudo e pinga-amor? Daqui: na origem, o marxismo é uma aristocracia sem aristocratas. Não tem títulos, mas abundam os titulares.

Isto é fundamental. Isto é simples.

Tempos perigosos

Uma Selecção com Rui Patrício na baliza e Postiga no ataque, treinada por Paulo Bento, ganha por 4-0 ao Campeão do Mundo e Campeão da Europa. Temor e tremor.

Mas calma, calma… A Nato foi rápida a reagir e já marcou uma cimeira para discutir esta ameaça à estabilidade internacional, aqui para Lisboa mesmo. Começa na sexta, porque não há tempo a perder.

E mais valia estares calado

A crise, sim. E a pobreza, pois. Os políticos que não prestam, claro. E a legião de trafulhas, javardos, moinas e pilha-galinhas que nos oprimem e esmagam sem terem de mexer uma palha, basta aparecerem nas nossas desculpas. Mas história continua a mesma, exactamente igual há uns bons, excelentes, milhares de anos: saber é poder.

Se dizes que não podes, não sabes o que dizes.

Esquerda imbecil

Louçã, na voragem de quebrar o PS por dentro, impôs um candidato condenado à derrota contra um farrapo chamado Cavaco. E isto em nome de uma psicadélica esquerda unida da qual se sonha general.

Ao menos, que lhe escrevessem discursos audíveis.

Ou pode?

Em mais um acto de assassinato de carácter, agora atingindo Edite Estrela, o Correio da Manhã publicou suposto material recolhido judicialmente nas escutas a Vara, o qual não tem qualquer relevância legal. Acontece que também não tem qualquer relevância política, isto se aceitarmos que a política em Portugal ainda não se faz a partir de escutas, particularmente aquelas que são patrocinadas pelo Estado. Que resta para justificar a infâmia e o terrorismo cívico?

Não há mais nada a não ser uma colectiva impunidade para o crime, desde os jornalistas que assinam estes serviços até aos directores e administradores do jornal. O envio do material – a ser verdadeiro e a ter sido fielmente registado e copiado – e a sua publicação correspondem a uma repulsiva violação dos direitos dos envolvidos, com imediatos prejuízos de impossível contabilidade. É pior, muito pior, do que o roubo de bens materiais ou a sua destruição. E o modo como estes casos se repetem, de acordo com calendários que têm impacto político, só é possível por existir da parte do aparelho judicial – e do Ministério Público – uma qualquer cumplicidade, conivência ou passividade que leva ao sentimento de absoluta protecção para todos os bandidos, dos mentores aos executantes.

Mas o supremo horror da merenda estava guardado para o DN, o qual também quis chafurdar no espectáculo de violência que os pulhas tinham montado. A peça bate no fundo, porque deste secular jornal esperamos um qualquer fundo, não o abismo onde vale tudo. E coloca-se inevitavelmente um problema que atinge os colunistas dessa outrora instituição de referência, pois não se pode servir a dois senhores.

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Um bravo para o Pedro Marques Lopes.