Paulo Pereira Cristóvão acusado de sete crimes
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Romaria à vertigem
Dividir o mundo entre homens e mulheres, velhos e novos, hetero e homossexuais, pretos e brancos, é das piores manifestações da natureza humana, ou falta dela, que me é possível imaginar.
Já dividir o mundo entre aqueles que reconhecem esta cena e os que nunca a viram com vida, entre aqueles que correm o estouvado risco de a eleger como a melhor do filme e aqueles que optam pela sensata e quase obrigatória prudência de nem sequer escolherem uma cena favorita entre tantas e todas, entre aqueles que entram em êxtase nesta cena por causa de uma puta de uma certa onda e aqueles a quem a onda passa por cima ou bate ao lado, eis uma das melhores manifestações da natureza cinéfila, ou sublimação dela, que me é possível imaginar.
Cavaco, um fantasma perigoso
Jorge Bacelar Gouveia, constitucionalista e antigo deputado do PSD, faz uma defesa eloquente do “império da Constituição” e desmonta a retórica e os sofismas que estão a ser lançados na praça pública para justificar mais uma traição de Cavaco ao seu juramento presidencial:
Perguntas complicadas
Só faltou dizeres por que raio votaste contra um Governo de esquerda que fez tudo para evitar que Portugal caísse no Memorando desejado pela direita
“Um governo de esquerda é um governo que se constrói e pratica uma política ao contrário da que está no memorando, o memorando protege os bancos, um governo de esquerda defende as pessoas; o memorando destrói a economia, um governo de esquerda constrói e faz emprego; o memorando é o paladino das privatizações, um governo de esquerda defende os serviços públicos, foi isto que dissemos ao PS”, afirmou o líder bloquista.
Perguntas simples
A voz de César
Como seria diferente a civilização caso tivéssemos acesso à voz de Buda, Sócrates (o outro, calma…) e Jesus? As palavras escritas que ficaram em seu nome ganhariam, mas igualmente perderiam, significados e sentidos. É que a voz transporta os músculos e o nervo, a carne. E nessa matéria que molda o ar fica impressa a imagem do corpo interior, aquele espaço onde cada um de nós é rei numa sala sem corte nem porta. Na ausência da voz, as palavras engaioladas na unidimensionalidade da escrita transfiguram-se em seres que tanto podem ser angélicos como demoníacos. A raiz da palavra humana é um humano enraizado, e esse concreto pede a voz e o rosto.
Falta-nos a marca sonora dessas figuras históricas, mas podemos recorrer à voz de vultos igualmente grandes, senão maiores, como, por exemplo, um César, e logo um das Neves:
Nestes 5 minutos de paleio espontâneo temos uma súmula do quadro ideológico que explica a reacção e estratégia da direita partidária desde a crise de 2008, num crescendo de ferocidade e revanchismo que está agora em plena produção. Consiste num discurso simplista e moralista, daí ser repetido por tantos daqueles que nem sequer percebem que são vítimas da lógica que defendem acefalamente, onde se procura um acerto de contas – do ponto de vista da oligarquia derrotada no 25 de Abril – com o modelo de sociedade onde a repartição da riqueza tenta reduzir a pobreza e as desigualdades, tanto as económicas como as do ensino e da qualificação profissional. Repare-se no modo vago e sem qualquer fundamentação como César das Neves dispara fórmulas cujo propósito é apenas um: instigar a pulsão para culpabilizar bodes expiatórios. Não há nenhuma contextualização com a política europeia nem raciocínios que promovam a análise e a reflexão a respeito das crises internacionais. O orador, ao contrário, investe o fôlego no juízo definitivo e castigador sobre os seus adversários políticos e a própria comunidade, como se as nossas dores actuais fossem o directo e exclusivo resultado do mau comportamento de uns indivíduos muito beras e rascas.
Mas talvez a passagem mais relevantemente reveladora, e nela a voz é um elemento que confere transparência, seja a seguinte afirmação:
é só num momento de desespero que é possível fazer alguma coisa
Esta ideia de que só à bruta – com a violência que fosse necessária, o tal “custe o que custar”, o tal “ai aguentam, aguentam” – se poderia desmantelar o Estado social criado ao longo de 30 anos chegou a ser vocalizada por mais do que uma vez, e em diferentes vestimentas, ao longo de 2009, 2010 e 2011 nos encontros da elite da direita portuguesa. Ir a eleições com esse programa era de loucos, sabiam-no, pelo que a única forma de alcançar esses objectivos seria pelo recurso a uma invasão estrangeira: o FMI, que se tornou a sua bandeira de salvação. A crise das dívidas soberanas na Europa veio criar o quadro perfeito para se realizar o plano, com o altíssimo e gozadíssimo bónus de se poder culpar o PS e Sócrates pelo pedido de ajuda externa. Restava só garantir que o Presidente da República alinhava no enredo, depois caluniar e mentir à fartazana na campanha eleitoral, e, assim que chegassem ao poleiro, começar a destruição e concluí-la no mais curto espaço de tempo para poderem ir à sua vida satisfeitos da mesma. É o que está em marcha a todo o vapor, continuando Cavaco a ser cúmplice e ficando a oposição a ver o comboio passar.
César das Neves é um publicista inflamado que trabalha numa instituição da Igreja Católica e que defende posições morais conformes a uma certa ortodoxia católica. Contudo, o seu entusiasmado apoio à devastação social que os actuais PSD e CDS promoveram e estão a executar faz-nos suspeitar de que as suas leituras da Bíblia ainda não chegaram àquela parte que vem a seguir ao Antigo Testamento.
Revolution through evolution
‘Commitment-Phobic’ Adults Could Have Mom and Dad to Blame
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Caffeinated Coffee May Reduce the Risk of Oral Cancers
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Brain Cells Made from Urine
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Conservatives Can Be Persuaded to Care More About Environmental Issues When Couched in Terms of Fending Off Threats to ‘Purity’
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Bedroom TV Viewing Increases Risk of Obesity in Children: More Than 2 Hours of TV a Day Adds Significantly to Children’s Waist Size
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Feeling Lonely Linked to Increased Risk of Dementia in Later Life
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Higher Levels of College-Degree Attainment Boosts Employment for All, Even the Least Educated
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Got Food Allergies? You Can Now Test Your Meal On the Spot Using a Cell Phone
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Ability to Sit and Rise from the Floor Is Closely Correlated With All-Cause Mortality Risk
Chorar
Adia essa pôrra, Dilma!
Ponham estes gajos no poder, fechem as fronteiras e distribuam uma picareta a cada português
O líder comunista frisou que Portugal não é um país pobre nem precisa de mais empréstimos, pois tem «potencialidades imensas» para libertar meios para criar emprego e gerar riqueza, dando como exemplo as riquezas existentes no subsolo – ouro, prata, cobre, pedras ornamentais – e que quando são exploradas o são por estrangeiros.
«Temos o maior filão de cobre da União Europeia. Está a ser explorado, mas por quem? Por estrangeiros que o arrancam em bruto e o levam para os seus países para o transformarem, quando, se tivéssemos sentido patriótico, eram os portugueses que o exploravam e depois transformavam», afirmou.
Exactissimamente
Uma bola de neve para a quadra
Good food for good thought
Embora seja hoje em dia relativamente consensual encarar a difusão de conteúdos nas plataformas digitais como um processo sociotecnológico (isto é, como um processo social dos seus utilizadores dependente das características tecnológicas do medium), as concepções dominantes da difusão na Web continuam paradoxalmente subjugadas a duas metáforas eminentemente biológicas utilizadas não apenas pelas indústrias da publicidade, do marketing e dos media como por uma parte considerável da comunidade científica e dos utilizadores: a dos conteúdos mediáticos virais e dos memes.
[…]
Ironia das ironias, o que não raras vezes esta voluntariosa concepção viral da difusão de conteúdos pelas plataformas digitais camufla é precisamente um tipo de discurso ideológico que, originalmente, a metáfora pretendia desmascarar: a de que os utilizadores são alienáveis. O perigo das concepções em que se baseia o marketing viral é precisamente este: o de potencialmente criar a ilusão de que os profissionais competentes possuem mecanismos para propagar ou vender seja o que for aos utilizadores independentemente da sua vontade, o que como é óbvio é música para os ouvidos de potenciais clientes sedentos de disseminar a sua marca ou de escoar os seus produtos no mercado. No entanto, como não se cansa de repetir Henry Jenkins, os consumidores não são meros “pacientes” ou “transportadores” de ideias alheias, mas sim disseminadores de materiais aos quais reconhecem, individual ou socialmente, um determinado valor. A oferta pode ser imensa, mas os utilizadores filtram os conteúdos que têm pouca relevância para si ou para as diversas comunidades de que fazem parte e tendem a propagar os que consideram relevantes nos diversos contextos em que interagem.
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Natal à espanhola
Teodora Cardoso e Brites de Almeida, a mesma luta
A presidente do Conselho das Finanças Públicas entende que é preciso saber bater o pé aos credores internacionais com as medidas que não são as melhores para o país.
«É uma coisa que detesto: fazer-se porque a troika mandou. Temos de perceber e discutir com a troika quando acharmos que o que nos estão a dizer para fazer não é o melhor para fazermos», explicou Teodora Cardoso.
Teodora Cardoso considerou ainda que Portugal se «preocupa demasiado» com a troika, que «não vai resolver os nossos problemas», uma vez que, na sua opinião, será Portugal a ter de os resolver.
Luditas ganham terreno, próxima iniciativa do CDS passará pela redução do número de computadores e telemóveis
O CDS-PP vai apresentar uma iniciativa no parlamento que recomenda a redução entre 33 e 50% dos carros ao serviço dos titulares de cargos políticos, de altos cargos públicos e de dirigentes da administração pública.
“Há algo de simbólico na medida, para demonstrar que os sacrifícios também são feitos pelo Estado e também porque marca uma nova forma de encarar o exercício dos cargos públicos deixando de os associar à utilização de carros”, afirmou, sublinhando que “gerará necessariamente poupanças”, que não se podem quantificar sem se fazer o “censo” dos veículos que a proposta também contempla.
Coisas que vão passar a acontecer no Vaticano
Não se odeia a bosta
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Nunca um Governo foi tão odiado. Nem o de Salazar.
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Soares envelheceu mal. E com isso borrou parte de uma pintura que será das mais decisivas e ilustres na história da democracia em Portugal no século XX. A sua estouvada recandidatura à Presidência, em 2006, arrastando o eleitorado socialista para uma guerra fratricida com Alegre, abriu caminho à vitória – e até à reeleição – de Cavaco. Perante o que estava em causa, a subida de uma figura tão nefanda ao topo da hierarquia do regime, Soares mostrou completa ausência de sentido de Estado, de estratégia e de mero bom senso. Mais tarde, voltou a errar e a capitular face às golpadas que foram cercando Sócrates. Chegámos a ver Soares a dizer de Passos – em cima das eleições de 2011 – que o “bom rapaz” estava “bem-intencionado”, na prática validando os métodos usados pela direita para o derrube do Governo PS e a entrega de Portugal a um programa de empobrecimento radical e ao desmantelamento do Estado social. Last but absolutely not least, ninguém recorda sequer um vagido que Soares tenha largado perante a “Inventona de Belém”, só o maior aviltamento da responsabilidade presidencial de que há memória. Nos últimos meses, e se calhar também por causa do torpor emanado de Seguro, tem andado a fazer declarações cada vez mais rebarbativas contra Passos e o Governo, culminando nesta infelicíssima, tonta e indigna comparação com Salazar. O egocentrismo incontinente, seja em que idade for, é sempre mau conselheiro.
Coragem Submersa
Pouco surpreendidos com a notícia, o psiquiatra Álvaro Carvalho e a ex-provedora da Casa Pia de Lisboa Catalina Pestana, da Rede de Cuidadores (associação criada após o escândalo Casa Pia para apoiar crianças e jovens vítimas de abuso), lembram que avisaram a hierarquia da Igreja para este problema, há mais de um ano. Chegaram a enviar uma carta, depois de o actual cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, ter dado uma entrevista a um diário em que dizia não ter conhecimento de qualquer caso desta índole que envolvesse sacerdotes da diocese da capital. “Sei que há casos de pedofilia, só na diocese de Lisboa conheço cinco, e tinha-lhe dito a ele pessoalmente o que sabia”, garantiu ontem ao PÚBLICO Catalina Pestana, indignada com o facto de ainda haver seminários para menores no país. “Todos os abusos em massa [no âmbito da Igreja Católica] aconteceram em colégios de freiras ou em seminários. Basta ler a Manhã Submersa de Vergílio Ferreira, que tem como cenário o seminário do Fundão.” Mas por que não denunciam então os casos? “Não somos da polícia”, retorque Catalina Pestana, que teve uma reunião formal no ano passado com Manuel Morujão e o anterior presidente da CEP D. Jorge Ortiga, para debater este problema. Mas o que acontece aos padres? “São transferidos de sítio”, responde Catalina, destacando que há bispos, como o do Porto e, ao que parece agora, este bispo da Guarda, que assumem um comportamento diferente e são “exemplares”.
Ex-provedora da Casa Pia diz que há outros casos de padres pedófilos
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Existirão milhares, ou centenas de milhares, quiçá milhões, de portugueses que sabem de casos de abusos sexuais perpetrados por elementos do clero ocorridos em Portugal. Tanto de abusos hetero como homossexuais. Sabem-no porque os sofreram, ou porque confiam nas pessoas que os relataram, ou porque são dotados de básica cultura antropológica e mínima inteligência estatística. Grande parte destes sabedores igualmente não ignora que o procedimento da hierarquia da Igreja Católica tem sido sempre o de abafar os casos e mudar os culpados, ou alvos de suspeita, de paróquia. Logicamente, alguns voltam a repetir os mesmos comportamentos e voltam a mudar de poiso só para continuarem a repetir um comportamento que não dominam por ser compulsivo e facilitado pelo meio. Há aqui várias, e até demasiadas, questões para desenvolver numa tarde bonita de Outono quase Inverno. Pelo que me vou restringir a duas.
Por um lado, é incompreensível para a minha santa ingenuidade a pertença a uma organização sem fazer dos abusos sexuais nela cometidos impunemente um motivo de escândalo. Escândalo tanto maior quanto os abusos têm na sua quase totalidade como alvo crianças e púberes. Escândalo tão mais grave quanto os abusos homossexuais masculinos são especialmente devastadores para as vítimas, levando-as a replicarem essa prática ou a serem doentes mentais e psicossomáticos crónicos. E escândalo que anula a racionalidade espiritual própria da esfera onde ocorre, pois não é possível manter que uma organização dedicada ao exemplo de vida religioso – portanto, arrogando-se moralmente superior por se assumir como paradigma existencial – tenha na sua elite membros que abusam do poder que lhes foi confiado para cometerem crimes adentro da própria jurisdição. Dir-se-ia que Deus, no seu infinito poder e ubiquidade, pelo menos conseguiria proteger as ovelhas entregues à guarda da sua guarda – se não consegue, talvez não deva receber tantas ofertas e súplicas.
Por outro lado, a convivência da sociedade com esta prática criminosa, cuja extensão se desconhece, é sintoma de uma cobardia cívica que explica outros fenómenos de coeva anemia e anomia; como a passividade perante uma Justiça disfuncional e pervertida e a inércia perante um Presidente da República que é uma ofensa diária à Constituição e ao Povo. Esta atitude demissionária está sintetizada na exclamação de irresponsabilidade da Catalina: “Não somos da polícia”.
Corolário de se entregar a defesa do Estado de direito à polícia: isto só lá vai com um Estado policial.

