Coragem Submersa

Pouco surpreendidos com a notícia, o psiquiatra Álvaro Carvalho e a ex-provedora da Casa Pia de Lisboa Catalina Pestana, da Rede de Cuidadores (associação criada após o escândalo Casa Pia para apoiar crianças e jovens vítimas de abuso), lembram que avisaram a hierarquia da Igreja para este problema, há mais de um ano. Chegaram a enviar uma carta, depois de o actual cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, ter dado uma entrevista a um diário em que dizia não ter conhecimento de qualquer caso desta índole que envolvesse sacerdotes da diocese da capital. “Sei que há casos de pedofilia, só na diocese de Lisboa conheço cinco, e tinha-lhe dito a ele pessoalmente o que sabia”, garantiu ontem ao PÚBLICO Catalina Pestana, indignada com o facto de ainda haver seminários para menores no país. “Todos os abusos em massa [no âmbito da Igreja Católica] aconteceram em colégios de freiras ou em seminários. Basta ler a Manhã Submersa de Vergílio Ferreira, que tem como cenário o seminário do Fundão.” Mas por que não denunciam então os casos? “Não somos da polícia”, retorque Catalina Pestana, que teve uma reunião formal no ano passado com Manuel Morujão e o anterior presidente da CEP D. Jorge Ortiga, para debater este problema. Mas o que acontece aos padres? “São transferidos de sítio”, responde Catalina, destacando que há bispos, como o do Porto e, ao que parece agora, este bispo da Guarda, que assumem um comportamento diferente e são “exemplares”.

Ex-provedora da Casa Pia diz que há outros casos de padres pedófilos

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Existirão milhares, ou centenas de milhares, quiçá milhões, de portugueses que sabem de casos de abusos sexuais perpetrados por elementos do clero ocorridos em Portugal. Tanto de abusos hetero como homossexuais. Sabem-no porque os sofreram, ou porque confiam nas pessoas que os relataram, ou porque são dotados de básica cultura antropológica e mínima inteligência estatística. Grande parte destes sabedores igualmente não ignora que o procedimento da hierarquia da Igreja Católica tem sido sempre o de abafar os casos e mudar os culpados, ou alvos de suspeita, de paróquia. Logicamente, alguns voltam a repetir os mesmos comportamentos e voltam a mudar de poiso só para continuarem a repetir um comportamento que não dominam por ser compulsivo e facilitado pelo meio. Há aqui várias, e até demasiadas, questões para desenvolver numa tarde bonita de Outono quase Inverno. Pelo que me vou restringir a duas.

Por um lado, é incompreensível para a minha santa ingenuidade a pertença a uma organização sem fazer dos abusos sexuais nela cometidos impunemente um motivo de escândalo. Escândalo tanto maior quanto os abusos têm na sua quase totalidade como alvo crianças e púberes. Escândalo tão mais grave quanto os abusos homossexuais masculinos são especialmente devastadores para as vítimas, levando-as a replicarem essa prática ou a serem doentes mentais e psicossomáticos crónicos. E escândalo que anula a racionalidade espiritual própria da esfera onde ocorre, pois não é possível manter que uma organização dedicada ao exemplo de vida religioso – portanto, arrogando-se moralmente superior por se assumir como paradigma existencial – tenha na sua elite membros que abusam do poder que lhes foi confiado para cometerem crimes adentro da própria jurisdição. Dir-se-ia que Deus, no seu infinito poder e ubiquidade, pelo menos conseguiria proteger as ovelhas entregues à guarda da sua guarda – se não consegue, talvez não deva receber tantas ofertas e súplicas.

Por outro lado, a convivência da sociedade com esta prática criminosa, cuja extensão se desconhece, é sintoma de uma cobardia cívica que explica outros fenómenos de coeva anemia e anomia; como a passividade perante uma Justiça disfuncional e pervertida e a inércia perante um Presidente da República que é uma ofensa diária à Constituição e ao Povo. Esta atitude demissionária está sintetizada na exclamação de irresponsabilidade da Catalina: “Não somos da polícia”.

Corolário de se entregar a defesa do Estado de direito à polícia: isto só lá vai com um Estado policial.

12 thoughts on “Coragem Submersa”

  1. apenas uma pequena, muito reduzida, percentagem de dedicados à vida religiosa possui, efectivamente, vocação. isto significa que no que concerne à sexualidade, a maior parte sente predisposição e impulso sexual pós-reprimido que canaliza para o que lhe está mais próximo tornando-se, inclusivé, indiferente o sexo da presa pois o que interessa é continuar a ser da igreja porque o pecado mora ao lado – no lado de fora. é a índole fugitiva do mundo, nojenta, que se esconde por debaixo do altar. e é, também, a índole falsa do mundo que, ao não denunciar, corrobora dos abusos e violência e na cadeia de abusos e violência que os abusos geram. um triângulo de miséria.

    sugiro o veredicto de culpa por omissão para uns e de cortarem a pila desvocacionada, metendo-a numa caixinha acrílica para poderem vê-la todos os dias, aos outros. e talvez alguma coisa começasse a mudar.

  2. aliás, estou aqui a pensar, não sei porquê que os que convictamente decidem abraçar a vida religiosa, neste caso a católica, não se oferecem como voluntários para serem capados aquando dos votos. isso poderia ser uma evidência da vocação.

  3. Deve-se assacar também algumas culpas, por este comportamento dos religiosos, à inatividade ou pouca actividade das “beatas falsas” que à maneira antiga, se tornavam mães solteiras dos filhos dos párocos e sacerdotes do nosso pequenino Portugal.

    Essas senhoras não davam descanso àquela rapaziada, e hoje essa actividade feminina parece que caíu em desuso, e é o que se vê.

    Agora que essa entidade nacional, que é o presidente da República, acho que deve ser substituida e regressar-mos à monarquia.

  4. Ola,

    Os casos de abusos sexuais sobre menores são mesmo os unicos em que a obrigação de denuncia é absolutamente incontroversa, sobrepondo-se nomeadamente ao sigilo profissional.

    A ultima frase do teu post é importante porque, excepto em casos extremos como o de que tratas, é rarissimo ver quem, de forma coerente, leve a maxima até às suas ultimas consequências. Nesse aspecto, continuamos a ser um pais de cultura mafiosa, onde impera o medo de ser um “bufo”. No fundo, trata-se de uma absoluta falta de confiança no poder da lei. A frase que diz que, entre o forte e o fraco, é a liberdade que oprime e a lei que liberta, é perfeitamente incompreensivel para os Portugueses. Se lhes explicarem que a lei é a vontade geral, olham desconfiados e respondem “vontade, so conheço a do patrão”…

    Boas

  5. “Existirão milhares, ou centenas de milhares, quiçá milhões, de portugueses que sabem de casos de abusos sexuais perpetrados por elementos do clero ocorridos em Portugal. ”

    Epá, o Valupi deve conhecer muitos. Quantos denunciou?

    “Não somos da polícia”, retorque Catalina Pestana, que teve uma reunião formal no ano passado com Manuel Morujão”

    “Vinha o meu nome nesse encontro, no qual nunca estive informal ou formalmente”, assegurou Manuel Morujão, sublinhando que nunca cumprimentou sequer a antiga Provedora da Casa Pia.”

    http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/sociedade/igreja-desafia-catalina-pestana-a-provar-existencia-de-padres-pedofilos

    Tão pulha é quem comete a barbaridade como quem dela acusa gente inocente infundadamente ou com generalizações precipitadas. Não encheram a barriga com as brincadeiras da Casa Pia?

  6. joão viegas,

    essa da incompreensão do conceito da Vontade Geral fez-me lembrar um episódio caricato dos meus tempos de universidade. Um tradutor passou do inglês para o português “General Will” para o General Will e assim foi obra fora. O General Will fez, o General Will aconteceu. Grande militar…

  7. joão viegas, exacto.
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    Lucas Galuxo, não entendo o que pretendes dizer, se é que pretendes dizer alguma coisa, mas, para responder à tua pergunta, declaro que conheço um caso de abuso sexual por parte de um padre sobre jovens adultos. Não o conheço directamente, no sentido em que não se passou comigo, mas acredito nas pessoas e nos relatos que me fizeram, assim como na lógica que levou esse padre a ser afastado do local onde ministrava depois das vítimas terem feito queixa ao seu superior.

    Se acaso vires neste meu comentário algo que contradiga o que escrevi acima, avisa, please.

  8. Um caso? Não dezenas? Não centenas? Não milhões? E não conheces nenhum caso de abuso sexual de jovens adultos de alguém que não é Padre? E quantas denuncias fizeste? Ou medes a cobardia cívica de toda a sociedade pelo teu próprio comportamento?
    Já foram os pretos, os ciganos, os gays, os judeus, e tantos outros. Calha agora a vez de servir os básicos instintos de fobia à diferença quem se não conforma com um destino fechado no esterco. Para o que vale tudo, a ignomínia, a justiça sumária, a generalização primária preconceituosa, o escárnio jocoso,… Bem vistas as coisas, tem sido assim desde o início.

  9. Muitas “vocações” que levam ao sacerdócio servem apenas para camuflar a apetência prévia, consciente, de muitos abusadores de crianças e adolescentes. “Gosto de rabinhos e pilinhas de meninos ou de menininhas em botão”, pensa o sacana. Sabe, porém, que na savana social normal a caça tem os seus perigos. Os antílopes ou bambis em liberdade são difíceis de caçar, pode até aparecer o carneiro pai ou a pacaça mãe, ou uma simples ovelha adulta mas bem nutrida, e ainda acabam com um par de chifres na barriga ou uma valente cabeçada, no mínimo. Vai daí, o melhor mesmo é treinar a pontaria em ovelhinhas. É apenas isso que ele vê no rebanho de fiéis que sabe lhe será entregue um dia: uma coutada privada, exclusiva, cheiinha de ovelhinhas tenrinhas, todinha para ele, devido à relação de confiança que quase por definição existe entre fiéis e padre. Não é ele o representante de Deus na Terra? Deixa-me mexer na pilinha, foi Deus que mandou. Deixa-me meter a bisnaga no rabinho, foi Deus que ordenou. O que vai a ovelhinha fazer, formatada como está desde a nascença para a ameaça do Inferno se contrariar a vontade do Senhor?

    É apenas por isso que entre a padralhada filiada no Vaticano existe tanta bicharada dessa. Poucos são os padres abusadores a quem o “problema” surge depois de tomarem os votos. A maioria escolhe deliberadamente a “carreira” e toma conscientemente os votos apenas e exclusivamente porque sabe que isso lhe facilitará a caçada e minimizará os perigos inerentes.

    Mas o que estou eu para aqui a divagar? É claro que isto só acontece na estranja, na igreja católica da Irlanda, dos EUA, da França ou da Bélgica. Não foi à toa que o Altíssimo mandou cá abaixo, em 1917, a sua concubina preferida, pai do seu filho dilecto. Graças às bênçãos então derramadas, a padralhada lusa é imune a tais tentações, e mais ainda à sua concretização prática!

    E depois temos a coisa da Pia e sua generosa chinfrineira, cujo mérito principal foi convencer o país inteiro de que os “poderosos” pedófilos tinham perdido a imunidade e a impunidade e podíamos todos voltar a dormir descansados, porque os rabinhos e pachachinhas dos nossos menininhos e menininhas estava a salvo para todo o sempre, aleluia, hossanas ao Senhor! Há para aí uma gente subversiva que tem a mania de que o principal resultado da coisa da Pia foi a decapitação do então principal partido da oposição, deixando as mãos completamente livres ao merdoso governo de então para continuar a fazer, sem obstáculos, o seu merdoso trabalho, mas isso são os suspeitos do costume, uma cambada de cabrões obviamente incréus que hão-de acabar a torriscar o coirão para todo o sempre na fornalha do Mafarrico. Vade retro!

    E é igualmente claro que a senhora Catalina Pestana é uma heroína do caraças nesta história. Não beneficiou ela própria, aliás, da bênção de um milagre? Tendo trabalhado anos a fio na Casa da Pia, apesar de invisual, e tendo mesmo chegado a directora de um dos colégios da instituição, apesar da cegueira que sempre a impediu de ver o que lá se passava, recuperou milagrosamente a visão quando rebentou o escândalo e tornou-se perita no assunto, detectando abusadores com a facilidade com que uma ratazana fareja um naco de queijo e decretando culpabilidades e inocências com o à-vontade de quem come pipocas num cinema. Sai mais um aleluia para a mesa do canto! Ámen.

  10. Só uma pergunta ao Val, e já agora ao Reaça e outros:
    Aqui não funciona a presunção de inocência, ou este princípio só vale quando estão em causa os nossos?
    Por que é que os miúdos do Fundão não são também eles alegadas vítimas?
    Cumprimentos

  11. José Lopes, não entendo as tuas perguntas. Referes-te à presunção de inocência de quem? Que eu saiba, todos somos inocentes até prova em contrário.

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