Romaria à vertigem

vertigo

Dividir o mundo entre homens e mulheres, velhos e novos, hetero e homossexuais, pretos e brancos, é das piores manifestações da natureza humana, ou falta dela, que me é possível imaginar.

Já dividir o mundo entre aqueles que reconhecem esta cena e os que nunca a viram com vida, entre aqueles que correm o estouvado risco de a eleger como a melhor do filme e aqueles que optam pela sensata e quase obrigatória prudência de nem sequer escolherem uma cena favorita entre tantas e todas, entre aqueles que entram em êxtase nesta cena por causa de uma puta de uma certa onda e aqueles a quem a onda passa por cima ou bate ao lado, eis uma das melhores manifestações da natureza cinéfila, ou sublimação dela, que me é possível imaginar.

12 thoughts on “Romaria à vertigem”

  1. Como a “Virgem” católica nasceu de um erro de tradução do hebraico para o grego, não do Velho para o Novo Testamento, mas ainda dentro deste, não me espanta que o precurso da “virgem” se tenha constituido como um longo peregrinar de equívocos. Confundiu-se mulher, com virgem; maldição, com benção; sexualidade, com pecado; serva plebeia, com rainha celeste.
    O filho de uma tal virgem seria um homem-faz-de-conta, tanto quanto a virgindade de uma mãe nascida de erro de tradução.
    Para bem da cristandade, nem Maria foi erro de tradução, nem a Virgem foi virgem-mãe. E Jesus de Nazaré foi mesmo humanidade nossa.
    Pelo que o Val conta, o filme deve ser mais um equívoco para a fileira.

  2. Comparar Vertigo (A mulher que viveu duas vezes) do Hitchcock, com Citizen Kane (O mundo a seus pés), do Orson Welles, ou com O Leopardo, do Visconti, ou com Amarcord, do Fellini, ou com Os morangos silvestres, do Bergman, ou com o Andrei Rubliov, do Tarkovski, e podia alinhar, pelo menos, mais uma dezena deles, é o mesmo que comparar serradura com pão ralado. A verdade, é que a maior parte dos críticos que escolheram Vertigo com o melhor filme, quase só vêm filmes de Hollywood, e dos outros as versões em inglês.

  3. «Dividir o mundo entre homens e mulheres, velhos e novos, hetero e homossexuais, pretos e brancos, é das piores manifestações da natureza humana, ou falta dela, que me é possível imaginar.»

    Ora cá está um caso de política correcta à Gödel: dividir o mundo, a propósito de tudo e nada, entre quem divide e não divide a propósito do que quer que seja, é uma manifestação de quê, para além de inconsistência lógica?

  4. Subscrevo: é uma obra monumental, seja qual for o critério, mas sobretudo o cinematográfico. Sempre que o vejo, no entanto, fico sempre com o desejo que o filme termine com aquele beijo que sela a progressiva reconstrução da amada perdida. Há ali um clímax do qual o filme não recupera nos 10 ou 15 minutos finais. Eu sei que é quase heresia estar práqui a dizer isso, mas é o que sinto. O que achas daquele final, primo?

  5. pronto, não podia faltar a comparação do filme em relação a outros filmes em não questão. Comparar com o Leopardo? A propósito de quê? Estas cenas da melhor obra de arte de todos os tempos são dos pretextos mais estúpidos para produzir conversas estéreis.
    Aí vou com o ignatz. Derivo de uma conversa que não vale pevas e dou-lhes música. Para comparar:)))
    tomem lá vertigem
    http://www.youtube.com/watch?v=s88r_q7oufE
    http://www.youtube.com/watch?v=6CktwQNpwNU
    http://www.youtube.com/watch?v=QZN4qLSwS5U
    http://www.youtube.com/watch?v=mBPGm4Fbo0Q
    http://www.youtube.com/watch?v=9Q7Vr3yQYWQ
    romagem concluída, por agora.Com a escadaria vertiginosa até ao céu ;)

  6. citação de comentário à última peça:

    I have always commented on many discussions regarding comparing these bands or guitarists…DO NOT Compare or rank them ever…

    They all are LEGENDS and best in their own bands and in people’s hearts…

    (capisce?)

  7. Primo, não te acompanho até ao fim, precisamente porque sem aquele fim, tal e qual como o temos, não teríamos o mesmo filme. Mas acompanho-te até essa magnífica e estonteante cena da ressurreição do objecto amado, ficando a imaginar no que se ganharia e perderia caso ela fosse final. Sem dúvida que estaríamos perante uma história mais coerente, mais sólida, mas também por isso mais linear, quiçá mais pobre. Isto porque o final me parece conter todos os sentidos substantivados no clímax que muito bem enfatizas, os quais são o suporte para o último salto (pun intended) onde a um novo desvelamento das personagens e seu drama se segue uma nova jura de amor mútuo, e é nessa consumação que se dá a destruição absoluta pelo regresso do fantasma do passado. O filme, pois, teria de terminar em morte para que fosse ontologicamente um verdadeiro filme de amor. É que este amor-paixão, sendo constituído apenas por projecções egóicas sucessivas, só se pode realizar na transcendência, na morte dos repetidos Tristão e Isolda de todos os tempos.

    (sim, Denis de Rougemont e o seu livro de 1939 como fonte destas básicas associações)

  8. eu cheguei mesmo na horinha de vir descascar nisto dos protótipos do amor na história. chega, basta, de alimentar a ideia de que o amor-paixão não é consumável e, por isso, não consumível a não ser para lá da vida. credo, cruzes-canhoto, lagarto-lagartixa, chiça-penica, haja criatividade para contrariar essa tendência que não sai de moda. há muito amor desse para se realizar e cumprir de verdade – até nos filmes que são tão ou mais reais do que as contas do talho e da luz. é assim que tem de ser ou as gentes continuarão a brincar ao amor, do bilhar, de bolso. é preciso mudar a forma de pensar sobre o amor para que ele consiga respirar e viver do sentir. e mais nada.

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