A voz de César

Como seria diferente a civilização caso tivéssemos acesso à voz de Buda, Sócrates (o outro, calma…) e Jesus? As palavras escritas que ficaram em seu nome ganhariam, mas igualmente perderiam, significados e sentidos. É que a voz transporta os músculos e o nervo, a carne. E nessa matéria que molda o ar fica impressa a imagem do corpo interior, aquele espaço onde cada um de nós é rei numa sala sem corte nem porta. Na ausência da voz, as palavras engaioladas na unidimensionalidade da escrita transfiguram-se em seres que tanto podem ser angélicos como demoníacos. A raiz da palavra humana é um humano enraizado, e esse concreto pede a voz e o rosto.

Falta-nos a marca sonora dessas figuras históricas, mas podemos recorrer à voz de vultos igualmente grandes, senão maiores, como, por exemplo, um César, e logo um das Neves:

Fórum TSF, 13/12/12

Nestes 5 minutos de paleio espontâneo temos uma súmula do quadro ideológico que explica a reacção e estratégia da direita partidária desde a crise de 2008, num crescendo de ferocidade e revanchismo que está agora em plena produção. Consiste num discurso simplista e moralista, daí ser repetido por tantos daqueles que nem sequer percebem que são vítimas da lógica que defendem acefalamente, onde se procura um acerto de contas – do ponto de vista da oligarquia derrotada no 25 de Abril – com o modelo de sociedade onde a repartição da riqueza tenta reduzir a pobreza e as desigualdades, tanto as económicas como as do ensino e da qualificação profissional. Repare-se no modo vago e sem qualquer fundamentação como César das Neves dispara fórmulas cujo propósito é apenas um: instigar a pulsão para culpabilizar bodes expiatórios. Não há nenhuma contextualização com a política europeia nem raciocínios que promovam a análise e a reflexão a respeito das crises internacionais. O orador, ao contrário, investe o fôlego no juízo definitivo e castigador sobre os seus adversários políticos e a própria comunidade, como se as nossas dores actuais fossem o directo e exclusivo resultado do mau comportamento de uns indivíduos muito beras e rascas.

Mas talvez a passagem mais relevantemente reveladora, e nela a voz é um elemento que confere transparência, seja a seguinte afirmação:

é só num momento de desespero que é possível fazer alguma coisa

Esta ideia de que só à bruta – com a violência que fosse necessária, o tal “custe o que custar”, o tal “ai aguentam, aguentam” – se poderia desmantelar o Estado social criado ao longo de 30 anos chegou a ser vocalizada por mais do que uma vez, e em diferentes vestimentas, ao longo de 2009, 2010 e 2011 nos encontros da elite da direita portuguesa. Ir a eleições com esse programa era de loucos, sabiam-no, pelo que a única forma de alcançar esses objectivos seria pelo recurso a uma invasão estrangeira: o FMI, que se tornou a sua bandeira de salvação. A crise das dívidas soberanas na Europa veio criar o quadro perfeito para se realizar o plano, com o altíssimo e gozadíssimo bónus de se poder culpar o PS e Sócrates pelo pedido de ajuda externa. Restava só garantir que o Presidente da República alinhava no enredo, depois caluniar e mentir à fartazana na campanha eleitoral, e, assim que chegassem ao poleiro, começar a destruição e concluí-la no mais curto espaço de tempo para poderem ir à sua vida satisfeitos da mesma. É o que está em marcha a todo o vapor, continuando Cavaco a ser cúmplice e ficando a oposição a ver o comboio passar.

César das Neves é um publicista inflamado que trabalha numa instituição da Igreja Católica e que defende posições morais conformes a uma certa ortodoxia católica. Contudo, o seu entusiasmado apoio à devastação social que os actuais PSD e CDS promoveram e estão a executar faz-nos suspeitar de que as suas leituras da Bíblia ainda não chegaram àquela parte que vem a seguir ao Antigo Testamento.

5 thoughts on “A voz de César”

  1. Assim é que se fala. Mas, ou eu me engano muito ou vamos assistir, encolhidos, trocando mensagens nas redes sociais, ao desmantelamento completo do nosso Estado Social. Quando atingirmos o ponto da irreversibilidade, talvez até meados de 2013, o plano estará consumado. E eu quero ver depois a “esquerda unida” a tentar apanhar cacos, perante a galhofa dos relvas deste país. Sem dinheiro, sem crédito e com a dívida em números impossiveis.
    A democracia como um cordeirinho levado para degola. E a gente sabe quem entregou a democracia ao calvário. Os mesmos que agora querem a “grande esquerda” para apanhar cacos.

  2. Quanto a Buda não sei, mas podia garantir que as igrejas cristãs entrariam em transe de aflição, só de imaginar que poderiam ouvir , de viva voz, uma vez que fosse, as palavras de Jesus. Não porque Jesus lhes fosse passar um grande raspanete, mas pela desilusão enorme que seria ouvir palavras de gente, em vez de palavras divinas. Como diz o Val, “a voz transporta os músculos e o nervo, a carne”. Tudo o que nunca reconheceram, efectivamente, a Jesus: a sua humanidade completa, autêntica, a partir de um espermatozoide e um óvulo, como em todos os seres humanos verdadeiros; a sua ignorância sobre o dia de amanhã e as tramoias que se faziam nas suas costas; a sua morte horrorosa às mãos de César e de Deus. “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste!”
    Os cristãos não iam suportar ouvir a “voz” autêntica de Jesus.

  3. é mesmo isso: a palavra escrita tem uma voz e um rosto. é o kit, a ser verdadeiro, inteiro. mas os ganhos são sempre maiores do que as perdas, estou convencida, por ser mais rico o que é inteiro – e a verdade é sempre, ainda que detestável, preferível.

  4. e a croniqueta de hoje no DN? mas nem era preciso sair do AT, não tivesse JCN um cérebro completamente retorcido e completamente falho de imaginação, e teria por lá muito onde aprender a justiça e a atenção aos mais pobres.

  5. Olavo, nada é irreversível, atenção. Numa democracia, o povo é mesmo quem mais ordena, para utilizar um lema comunista que se limita a ser literal.
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    Pedro, bem verdade. A voz de Jesus talvez fosse humanidade a mais para com ela se criar uma religião.
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    Olinda, bem dito.
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    maria, absolutamente de acordo. No Antigo Testamento, até por ser uma colecção de variadíssimos e díspares livros, já há muito por onde pegar se a ideia for a de procurar a justiça e a protecção dos mais carenciados. Ter um católico a ignorar sobranceiro os ensinamentos de Jesus é que continua a ser daquelas coisas que não lembram ao Diabo.

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