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Mordóvia oferece casa e cargo de ministro a Depardieu
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Oficial: Vercauteren já não é treinador
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Passos: “Estamos a vislumbrar a saída de um período difícil”
O caso Artur Baptista da Silva é análogo do caso Carlos Santos, ambos nascendo de perturbações de personalidade que simulam coerências mentais e intelectuais onde conseguem explorar a natural e espontânea simpatia alheia num contexto de agitação social. É fácil – ou até inevitável – aceitar sem reservas a sanidade de um discurso que não apresente sinais evidentes de psicose. Essa adesão tende a ser reforçada com a constatação da ligação desse indivíduo a outros segundo a mesma lógica representativa. Foi assim que o Carlos Santos apareceu em 2009 com uma persona que deveria ser tomada como legítima por todo aquele que não sofresse de paranóia. O facto de muitos terem sido enganados por ele – Prémio Confirmação – Blogosfera 2010 – não é nem o fim dessa história nem a sua parte mais importante.
O que importa veio depois. Tratou-se da manipulação e abuso da sua condição patológica que figuras gradas da política e do jornalismo fizeram com impávido cinismo. Quem são eles? Os mesmos que adoraram a palhaçada doentia do Silva da ONU. Os mesmos que revelam uma e outra vez que são capazes de cometer violências que degradam e destroçam a dignidade de terceiros. Esses marmanjos não são de direita nem de esquerda. São apenas velhacos que odeiam a comunidade. Nada mais, mas nada menos, do que gangsters.
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Let crying babes lie: Study supports notion of leaving infants to cry themselves back to sleep
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Mentally reframing a situation can ease negative feelings
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For those short on time, aerobic, not resistance, exercise is best bet for weight- and fat loss
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Gene Variant Linked to Active Personality Traits Also Linked to Human Longevity
Arnaut é um espécimen perfeito para se dissecar o cadáver intelectual em que se tornou o PSD desde a fuga de Barroso. Ei-lo aqui frente a Silva Pereira a desfilar abrutalhado a sua impreparação, a sua ignorância, a sua provocatória e obscena paródia a respeito da calamidade em que o País se encontra por exclusiva responsabilidade do seu partido.
Estamos em Janeiro de 2013 e Arnaut permite-se justificar qualquer erro e desvario do Governo com a cassete da “bancarrota”, das “gorduras”, do “regabofe”. Chega ao ponto de subsumir as políticas do Executivo na expressão “ter de se pagar a factura”. Toda a sucessão de acontecimentos e revelações desde Março de 2011 é por ele apagada, ficando só a diabolização do PS. Que credibilidade merece um político que insulta a inteligência alheia com a naturalidade de um troglodita? Em Portugal, muita. Apenas uma minorca minoria tem consciência das consequências do chumbo do PEC IV e da entrega do poder ao casal Passos-Relvas.
Assim como não estávamos obrigados a ter ido para eleições a meio de uma legislatura e a assinar um Memorando nas piores condições possíveis, tendo sido essa a escolha da oposição e do Presidente da República, igualmente não havia só uma forma de cumprir o acordo com os credores, tendo sido esta a escolha do Governo e da maioria. As diferenças medem-se em vidas arruinadas, vidas separadas e vidas destruídas.
Quem se esquecer de como chegámos aqui, para recuperar o slogan dos traidores, vai continuar a ser vítima dos mesmos e do mesmo.
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Estou convencido que Passos Coelho vai ser um primeiro-ministro que vai marcar a História do nosso país, nasceu para este lugar, tem um sentido de responsabilidade…
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Quando os membros do meu Governo não tiverem a minha confiança não estarão no meu Governo.
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“O que o senhor Presidente da República disse é que perante novas circunstâncias, designadamente esse impacto negativo da recessão em países como Espanha, a base para uma negociação poderá ser pedida aos credores e, portanto, há uma circunstância nova que pode justificar essa renegociação, coisa completamente diferente de um perdão de dívida que Portugal não deve pedir, e devo dizer que concordei”, afirmou Nuno Melo.
O vice-presidente do CDS acrescentou que há “circunstâncias exteriores que não dependem nem podem depender deste Governo”, como a recessão que atingiu países “clientes primeiros de Portugal”, e que justificam “em si mesmo que Portugal encontre aí uma base negocial com os credores” que, aquando da assinatura do Memorando de Entendimento, não podia ter previsto.
Estes acontecimentos externos “têm consequências do ponto de vista da consolidação orçamental e das metas que têm de ser atingidas”, pelo que, o eurodeputado realçou a afirmação do Presidente da República de “se tentar junto dos credores a reavaliação dessas circunstâncias”.
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Nuno Melo é um bufarinheiro pimpão de um partido que está no Governo. Esse Governo aumentou a dívida pública de 164,3 para 193,5 mil milhões de euros desde que tomou posse até Novembro de 2012. Corresponde a 120,5% do Produto Interno Bruto. Esse Governo tem falhado contas, previsões e Orçamentos como nunca se tinha visto antes. Um Governo que enterrou a economia e a qualidade de vida dos portugueses na vala comum do saque fiscal ao arrepio de tudo o que os Nunos Melos bufarinheiros pimpões andaram a prometer e a jurar ao longo de anos de oposição e meses de campanha eleitoral.
Isto da actual direita ser isto, a mais descarada falta de coerência e de vergonha, não nos deve impedir a análise dos seus procedimentos. Pelo contrário, carecemos de defesas contra esta forma de baixa política à medida de um país onde o analfabetismo, a iliteracia, a cidadania incipiente e um anti-intelectualismo secular e larvar premeiam os arrivistas e os sectários.
As declarações acima citadas mostram Nuno Melo a discorrer sobre a influência da conjuntura internacional nas contas nacionais. Pelos vistos, o senhorito não tem agora dificuldades em perceber essas correlações e daí tirar corolários sensatos. Comparemos, pois, com o que o mesmo passarão dizia há dois anos – altura em que não existiam crises internacionais e Sócrates era o único culpado de todo o mal na Terra – e pensemos no que nos custou esta guerra civil da inteligência onde a direita e a esquerda escolheram afundar o país num charco de irracionalidade:
Cavaco foi reeleito após uma campanha onde pintou o seu principal adversário, Alegre, como uma figura sem as condições adequadas ao tempo de gravíssima crise que então se vivia. Só o homem de Boliqueime era garante da tão necessária estabilidade política, afiançava a sua candidatura, tendo o próprio chegado ao ponto de alertar a Nação para as consequências de uma eventual 2ª volta: imediato castigo dos mercados com subida dos juros e contenção do crédito.
Alguns dos seus mais notáveis apoiantes, como Freitas do Amaral, não acreditaram no que viram e ouviram no discurso da vitória eleitoral, onde Cavaco fez algo nunca antes registado em Portugal: atacou e insultou os candidatos derrotados. O episódio era especialmente relevante pelo descontrolo emocional – portanto, cognitivo e volitivo – que exibia, fazendo temer o pior por ser absurda e infame aquela explosão de raiva. Freitas previu, instigado a comentar o sucedido, que na tomada de posse a responsabilidade e o espírito institucionais estariam de volta e Cavaco faria o discurso da união que a sua função e o momento do País exigiam.
Esse discurso, de facto, estava destinado a entrar para a História. Há pelo menos três aspectos nele que são extraordinários; e sob variegados pontos de vista da análise política, da investigação jornalística e mesmo da reflexão em ciências humanas. O primeiro consiste no seu teor populista, onde Cavaco se representa como uma entidade acima da política e, por isso, mandatada para julgar os políticos em nome de uma isenção e impecabilidade cuja autoridade radica na própria audiência a que se dirige. Daí a exortação directa e explícita à população para se manifestar e revoltar na rua contra o Governo e contra os deputados. O segundo consiste na ausência de qualquer referência à conjuntura internacional, nem sequer a uma União Europeia afundada na maior crise da sua existência. O apagamento desses factores servia o intento de diabolizar o poder executivo, dessa forma alimentando as dinâmicas que levariam a uma crise política no mais curto espaço de tempo. Tendo em conta que Cavaco tinha passado o mês de Fevereiro a falar com os principais agentes políticos e económicos nacionais e da Comissão Europeia, ele seria um dos gabirus com mais e melhor informação acerca da influência do exterior nas dificuldades nacionais. A exclusão dessa parte maior da realidade revela um cinismo que se sabe absolutamente inimputável. O terceiro aspecto surpreendente, e chocante, é também uma ausência: não se encontra naquele texto um só caracter, vírgula ou espaço entre letras que faça referência às Forças Armadas Portuguesas, muito menos aos militares que arriscam a sua vida em diferentes palcos de guerra e de conflitos no estrangeiro. O Comandante Supremo, na solenidade da tomada de posse, nem se lembrou de deixar uma palavrita de circunstância para os seus homens e mulheres tamanha era a tontura do ódio contra os socialistas. O que isto nos diz da miserável direita portuguesa vai sem comentário.
Cavaco quis uma crise política em Março de 2011 e foi um dos principais causadores dela. Ele sabia qual seria o custo dessa opção para os portugueses. Ele queria vingança e a cabeça de Sócrates servida numa bandeja. A desgraça que se iria abater sobre milhões de portugueses seria apenas um dano colateral numa guerra onde ele era o intocável generalíssimo. É por isso de espantar que estas palavras abaixo não tenham causado – e não venham a causar – qualquer manifestação de indignação. A direita putrefacta subsiste, afinal, por ser o simétrico de uma esquerda fanática que prefere a indigência à liberdade. Dois terços de Portugal merecem, e até agradecem, esta canga:
Precisamos de recuperar a confiança dos Portugueses. Não basta recuperar a confiança
externa dos nossos credores. Temos de trabalhar para unir os Portugueses e não dividi-los.
Na situação em que o País se encontra, os agentes políticos e sociais têm de atuar com
grande sentido de responsabilidade.A resolução dos problemas nacionais pressupõe diálogo e consenso, entendimentos feitos a pensar nos Portugueses e no País como um todo.
O País não está em condições de se permitir juntar uma grave crise política à crise económica, financeira e social em que está mergulhado.
Iríamos regredir para uma situação mais penosa do que aquela em que nos encontramos. Devemos, pois, trabalhar em conjunto e unir esforços para encontrar as soluções que melhor sirvam o povo português.
O povo português tem dado mostras de um sentido de responsabilidade que deveria servir de exemplo para os nossos agentes políticos.
Mas será que não existe um jornalista capaz de lhe perguntar se entende o que lê?
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
*
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós…
Alexandre O’Neill
Sou um sortudo porque tenho o privilégio de escrever ao lado dos aspirinas, da guida, da Isabel Moreira, do Júlio, da Penélope e do Vega9000. Sendo o caso da Isabel especial, por estar na política activa e pertencer a um órgão de soberania, é justo reconhecer que a Penélope sobressaiu em 2012 pela qualidade, quantidade e pregnância dos textos que generosamente partilhou connosco.
Este foi o ano em que acabaram as ilusões acerca dos actuais PSD e CDS para os que ainda tinham ilusões. Foi o ano em que acabou o sentido mesmo da existência de um Presidente da República. O ano em que acabou a paciência para aturar o disfuncionalismo e cumplicidades do PS com os fulanos que nos querem manter na rudeza duma austera, apagada e vil tristeza. Este foi o ano em que até o Sporting acabou, e não estou a falar da equipa de futebol e seus cómicos espectáculos.
A Internet permite tomar conhecimento com dezenas, centenas e milhares de pessoas sem sair da mesma cadeira, assim haja tempo e gosto. O que a Internet nos mostra dos indivíduos que constituem os tecidos sociológicos e intelectuais da direita e da esquerda portuguesas oscila entre o soporífero e o assustador. Mas há excepções. Há muitas excepções admiráveis, gratificantes, que são fontes de confiança e esperança. E há muitas mais destas excepções do que há pachorra para perder calorias com quem não seja excepcionalmente relevante para o que nos interessa.
O que nos interessa é recriar o mundo a partir dos escombros do que ruiu e com aqueles que aparecem. É sempre assim.
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Podes vir, 2013.
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Eles aparecem na televisão. A televisão espalha as suas palavras para 30 ou 40 mil pessoas directamente. 30 ou 40 mil espectadores reunidos à hora certa para ouvirem as opiniões certinhas de um ex-primeiro-ministro, um ex-secretário de Estado da Cultura, um ex-presidente do Partido Social Democrata, um ex-presidente da Câmara Municipal de Lisboa, um ex-presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, um ex-presidente do Sporting Clube de Portugal, um ex-deputado na Assembleia da República, um actual Provedor da Santa Casa Misericórdia Lisboa, um ex-presidente da Câmara Municipal de Amarante, um ex-deputado no Parlamento Europeu, um ex-candidato à Câmara Municipal do Porto, um ex-líder parlamentar, um ex-candidato a secretário-geral e um actual deputado na Assembleia da República pelo Partido Socialista, um ex-candidato à Presidência da República, um fundador do Bloco de Esquerda, um ex-deputado na Assembleia da República e um historiador especialista no Estado Novo amassados em três representantes da elite política e intelectual portuguesa.
Os três vocalizaram considerandos a respeito de um certo governante. Esse governante, antes de o ser, igualmente vocalizou considerandos a respeito de um outro governante. Assim:
“Eu quero chegar a casa, depois de ganhar as eleições, todos os dias e quero que a minha filha tenha orgulho daquilo que está a ser feito”, disse o porta-voz do PSD, acrescentando: “Eu no lugar do engenheiro Sócrates tinha vergonha, eu se fosse parente do engenheiro Sócrates escondia que era parente dele”.
Sócrates não respondeu a quem se imaginou pai envergonhado dos seus filhos, familiar dos seus envergonhados familiares. Ninguém no partido de Sócrates utilizou estas palavras fosse em que circunstância fosse para denegrir ou agastar, sequer incomodar, o actual governante. O actual governante, por sua vez, nunca delas pediu desculpa em público. É possível, é provável, é quase certo que delas se mantém orgulhoso. E ninguém de ninguém na sociedade portuguesa protestou por tamanha violência verbal ser incompatível com a função de representação partidária àquele nível, muito menos com a representação do Estado. Daqui se conclui que os temas da vergonha e da família são legítimos tópicos políticos na III República, quiçá os mais valiosos para partidos que se esforçam por transmitirem a brilhante ideia de que os seus adversários são moralmente indignos. Indignos tanto para governarem como para terem parentes, esclareceu aquele de quem agora se fala.
Esse mesmo viria meses mais tarde a mostrar-se numa outra luz. Era afinal o rei das equivalências académicas, o príncipe das mentiras ao Parlamento, o duque das ligações a espiões, o marquês da venda de Portugal, o conde da chantagem sobre jornais e jornalistas, o barão dos negociozinhos tecnofórmicos para o seu amiguinho. Se não era, parecia. E continuava com a confiança do primeiro-ministro, a confiança do parceiro da coligação governativa, a confiança do líder da oposição, a confiança do Presidente da República. A circum-navegação da pulhice estava completada: aqueles que tinham reduzido a luta política à mais vil calúnia eram afinal aqueles que conseguiam praticar as maiores devassas impunemente. Ou assim parece.
Fernando Rosas, Santana Lopes, Francisco Assis e Constança Cunha e Sá assinam um momento televisivo onde se diz que “no anterior Governo havia vários Relvas”. Só que nenhum deles nomeia o que diz, explica o que disse ou se insurge contra o que fica dito à sua frente. Acabamos a ter de reconhecer que há Relvas em todo o lado, mas talvez ainda haja mais na televisão.
A eles, e a todos vós, no fim deste ano tão difícil em que tanto já nos foi pedido, peço apenas que procurem a força para, quando olharem os vossos filhos e netos, o façam não com pesar mas com o orgulho de quem sabe que os sacrifícios que fazemos hoje, as difíceis decisões que estamos a tomar, fazemo-lo para que os nossos filhos tenham no futuro um Natal melhor.
Pedro, um amigalhaço que nos ensina a amar os nossos filhos e netos
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Existe um país da União Europeia onde o chefe de Governo deu por si a sentir que os seus amigos estariam a olhar com pesar para os filhos e netos. Não sabemos se chegou a essa conclusão sozinho ou se alguém o ajudou bichanando-lhe ao ouvido que tal se poderia mesmo estar a passar. Aliás, não sabemos quase nada, como convém quando se trata de chefes de Governo de abraço forte e oferecido. O certo é que lhe daria muito trabalho estar a visitar, a telefonar ou a escrever a cada um dos seus amigos, pelo que recorreu à inventiva de Zuckerberg e despachou o assunto em poucos minutos.
Qual será o antónimo de pesar, interrogou-se momentos antes de começar a escrever. De imediato lhe surgiram candidatos: agrado, comprazimento, deleitação, enlevo, gozo, jucundidade, ledice, mais este, aquele e o outro. O seu cérebro estava em ebulição lexical, disparando alternativas com a velocidade e a violência de uma Gatling M134. Mas não. Era curto. O chefe de Governo teria de refundar todo o esquema antonímico em ordem a alcançar a perfeição a que estava habituado… Orgulho. Eis. Esta sim, a palavra que convinha, o antónimo que faltava. Orgulho. Porquê? Porque não há palavra mais orgulhosa. Atente-se: orgulho. Hã? Pois.
O resto era mais claro. Estávamos no Natal. Há muitas coisas que podem acontecer no Natal, mas que não têm a mesma importância. Por exemplo, há quem se constipe, há quem descasque romãs, há quem se agarre ao Artur Baptista da Silva para não se afundar na miséria própria, há quem publique portarias no Diário da República já de acordo com o calendário maia; e tudo isto não tem a mesma importância, importa e há que repetir. O que mais importa no Natal é o próprio Natal, óbvio. E não poderá ser o Natal sempre melhor ou, quer-se dizer, sempre um bocadinho melhor? Já não dizemos no presente, que o presente é cá uma prenda que vai lá vai, mas se for no futuro, melhor no futuro, qual é o problema? Qual é o mal, afinal? Estamos a falar de um Natal melhor, não de um Sistema Nacional de Saúde melhor, uma Escola melhor, uma economia melhor. Não, nada dessas confusões inúteis. Natal. Um Natal melhor. Com rabanadas melhores, azevias melhores, sonhos melhores. Especialmente sonhos melhores, não tão ensopados, mais leves. Melhores. Ora, estando a malta de acordo neste ponto, não valerá a pena fazer sacrifícios e tomar decisões difíceis tendo em conta que o Natal vai ser melhor para os nossos queridos filhos? Foda-se, é simples. E mais, cuidadinho: com isto do Natal melhor para os nossos queridos filhos e queridos netos não se brinca, foda-se. Por muitas razões, mas, principalmente, por estarmos no Natal. No Natal, foda-se. Os nossos filhos, foda-se. E os queridos netos, caralho.
O chefe de Governo contemplou o texto uma última vez antes de libertá-lo no éter digital. Estava lindo. E verdadeiro. Era até possível que estivesse mais verdadeiro do que lindo, embora não fosse nada fácil ter certezas a respeito. Ele era um cidadão entre iguais, entre amigos. Também a ele tanto tinha sido pedido nesse ano tão difícil, tanto. Ai, tanto. Felizmente, nunca lhe faltou a força para lutar por um Natal melhor. E isso acabava por explicar, luminosamente, a sua elevação a chefe do Governo. Não havia muitos mais como ele nesse país. Um país de preguiçosos, comilões e Carnaval. Um país, enfim, a descobrir o que é ser governado por um menino.