A canga que merecemos

Cavaco foi reeleito após uma campanha onde pintou o seu principal adversário, Alegre, como uma figura sem as condições adequadas ao tempo de gravíssima crise que então se vivia. Só o homem de Boliqueime era garante da tão necessária estabilidade política, afiançava a sua candidatura, tendo o próprio chegado ao ponto de alertar a Nação para as consequências de uma eventual 2ª volta: imediato castigo dos mercados com subida dos juros e contenção do crédito.

Alguns dos seus mais notáveis apoiantes, como Freitas do Amaral, não acreditaram no que viram e ouviram no discurso da vitória eleitoral, onde Cavaco fez algo nunca antes registado em Portugal: atacou e insultou os candidatos derrotados. O episódio era especialmente relevante pelo descontrolo emocional – portanto, cognitivo e volitivo – que exibia, fazendo temer o pior por ser absurda e infame aquela explosão de raiva. Freitas previu, instigado a comentar o sucedido, que na tomada de posse a responsabilidade e o espírito institucionais estariam de volta e Cavaco faria o discurso da união que a sua função e o momento do País exigiam.

Esse discurso, de facto, estava destinado a entrar para a História. Há pelo menos três aspectos nele que são extraordinários; e sob variegados pontos de vista da análise política, da investigação jornalística e mesmo da reflexão em ciências humanas. O primeiro consiste no seu teor populista, onde Cavaco se representa como uma entidade acima da política e, por isso, mandatada para julgar os políticos em nome de uma isenção e impecabilidade cuja autoridade radica na própria audiência a que se dirige. Daí a exortação directa e explícita à população para se manifestar e revoltar na rua contra o Governo e contra os deputados. O segundo consiste na ausência de qualquer referência à conjuntura internacional, nem sequer a uma União Europeia afundada na maior crise da sua existência. O apagamento desses factores servia o intento de diabolizar o poder executivo, dessa forma alimentando as dinâmicas que levariam a uma crise política no mais curto espaço de tempo. Tendo em conta que Cavaco tinha passado o mês de Fevereiro a falar com os principais agentes políticos e económicos nacionais e da Comissão Europeia, ele seria um dos gabirus com mais e melhor informação acerca da influência do exterior nas dificuldades nacionais. A exclusão dessa parte maior da realidade revela um cinismo que se sabe absolutamente inimputável. O terceiro aspecto surpreendente, e chocante, é também uma ausência: não se encontra naquele texto um só caracter, vírgula ou espaço entre letras que faça referência às Forças Armadas Portuguesas, muito menos aos militares que arriscam a sua vida em diferentes palcos de guerra e de conflitos no estrangeiro. O Comandante Supremo, na solenidade da tomada de posse, nem se lembrou de deixar uma palavrita de circunstância para os seus homens e mulheres tamanha era a tontura do ódio contra os socialistas. O que isto nos diz da miserável direita portuguesa vai sem comentário.

Cavaco quis uma crise política em Março de 2011 e foi um dos principais causadores dela. Ele sabia qual seria o custo dessa opção para os portugueses. Ele queria vingança e a cabeça de Sócrates servida numa bandeja. A desgraça que se iria abater sobre milhões de portugueses seria apenas um dano colateral numa guerra onde ele era o intocável generalíssimo. É por isso de espantar que estas palavras abaixo não tenham causado – e não venham a causar – qualquer manifestação de indignação. A direita putrefacta subsiste, afinal, por ser o simétrico de uma esquerda fanática que prefere a indigência à liberdade. Dois terços de Portugal merecem, e até agradecem, esta canga:

Precisamos de recuperar a confiança dos Portugueses. Não basta recuperar a confiança
externa dos nossos credores. Temos de trabalhar para unir os Portugueses e não dividi-los.

Na situação em que o País se encontra, os agentes políticos e sociais têm de atuar com
grande sentido de responsabilidade.

A resolução dos problemas nacionais pressupõe diálogo e consenso, entendimentos feitos a pensar nos Portugueses e no País como um todo.

O País não está em condições de se permitir juntar uma grave crise política à crise económica, financeira e social em que está mergulhado.

Iríamos regredir para uma situação mais penosa do que aquela em que nos encontramos. Devemos, pois, trabalhar em conjunto e unir esforços para encontrar as soluções que melhor sirvam o povo português.

O povo português tem dado mostras de um sentido de responsabilidade que deveria servir de exemplo para os nossos agentes políticos.

Mas será que não existe um jornalista capaz de lhe perguntar se entende o que lê?

4 thoughts on “A canga que merecemos”

  1. Jornalismo em Portugal? Eles, os jornalistas, ou são a voz do dono ou cuidam-se de todas as formas para não perder o emprego. A “notícia”, mais do que nunca, transformou-se numa preciosa mercadoria. Consta dos livros, que as coisas (disse coisas) mais valiosas vão parar às mãos dos endinheirados. Neste sentido, até podíamos concluir que estamos no “pós-jornalismo”. Para exemplificar. Acaba de ser nacionalizado o Banif. Dizem que é só por uns meses. O que aconteceu? O Banco de Portugal, a PGR, o governo, o jornalismo…mantêm tudo no segredo dos deuses. Imaginem se o supervisor do Banco de Portugal fosse um Victor qualquer do PS! A cruz já estaria erguida no calvário. Ou a fogueira no Rossio.
    Que preciosidade, meu deus, a notícia! Compre-se, compre-se.

  2. o palhaço, com o ar sofrido que costuma emprestar a estas manifestações promulogativas, aprovou a sentença de morte do país e com o habitual topete de boliqueime vem dizer que não está de acordo, coiso e tal.

  3. Se entende o que lê? Tens alguma dúvida, Val, em como ele ENTENDE perfeitamente aquilo que lê? Pôr essa dúvida é já uma tentativa de o desresponsabilizar de todos os actos em que ele foi interveniente e conivente e, como dizes neste teu artigo, conduziram a toda esta situação.
    Só que a hipocrizia, para este homem, não tem limites.

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