O nascimento do menino

A eles, e a todos vós, no fim deste ano tão difícil em que tanto já nos foi pedido, peço apenas que procurem a força para, quando olharem os vossos filhos e netos, o façam não com pesar mas com o orgulho de quem sabe que os sacrifícios que fazemos hoje, as difíceis decisões que estamos a tomar, fazemo-lo para que os nossos filhos tenham no futuro um Natal melhor.

Pedro, um amigalhaço que nos ensina a amar os nossos filhos e netos

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Existe um país da União Europeia onde o chefe de Governo deu por si a sentir que os seus amigos estariam a olhar com pesar para os filhos e netos. Não sabemos se chegou a essa conclusão sozinho ou se alguém o ajudou bichanando-lhe ao ouvido que tal se poderia mesmo estar a passar. Aliás, não sabemos quase nada, como convém quando se trata de chefes de Governo de abraço forte e oferecido. O certo é que lhe daria muito trabalho estar a visitar, a telefonar ou a escrever a cada um dos seus amigos, pelo que recorreu à inventiva de Zuckerberg e despachou o assunto em poucos minutos.

Qual será o antónimo de pesar, interrogou-se momentos antes de começar a escrever. De imediato lhe surgiram candidatos: agrado, comprazimento, deleitação, enlevo, gozo, jucundidade, ledice, mais este, aquele e o outro. O seu cérebro estava em ebulição lexical, disparando alternativas com a velocidade e a violência de uma Gatling M134. Mas não. Era curto. O chefe de Governo teria de refundar todo o esquema antonímico em ordem a alcançar a perfeição a que estava habituado… Orgulho. Eis. Esta sim, a palavra que convinha, o antónimo que faltava. Orgulho. Porquê? Porque não há palavra mais orgulhosa. Atente-se: orgulho. Hã? Pois.

O resto era mais claro. Estávamos no Natal. Há muitas coisas que podem acontecer no Natal, mas que não têm a mesma importância. Por exemplo, há quem se constipe, há quem descasque romãs, há quem se agarre ao Artur Baptista da Silva para não se afundar na miséria própria, há quem publique portarias no Diário da República já de acordo com o calendário maia; e tudo isto não tem a mesma importância, importa e há que repetir. O que mais importa no Natal é o próprio Natal, óbvio. E não poderá ser o Natal sempre melhor ou, quer-se dizer, sempre um bocadinho melhor? Já não dizemos no presente, que o presente é cá uma prenda que vai lá vai, mas se for no futuro, melhor no futuro, qual é o problema? Qual é o mal, afinal? Estamos a falar de um Natal melhor, não de um Sistema Nacional de Saúde melhor, uma Escola melhor, uma economia melhor. Não, nada dessas confusões inúteis. Natal. Um Natal melhor. Com rabanadas melhores, azevias melhores, sonhos melhores. Especialmente sonhos melhores, não tão ensopados, mais leves. Melhores. Ora, estando a malta de acordo neste ponto, não valerá a pena fazer sacrifícios e tomar decisões difíceis tendo em conta que o Natal vai ser melhor para os nossos queridos filhos? Foda-se, é simples. E mais, cuidadinho: com isto do Natal melhor para os nossos queridos filhos e queridos netos não se brinca, foda-se. Por muitas razões, mas, principalmente, por estarmos no Natal. No Natal, foda-se. Os nossos filhos, foda-se. E os queridos netos, caralho.

O chefe de Governo contemplou o texto uma última vez antes de libertá-lo no éter digital. Estava lindo. E verdadeiro. Era até possível que estivesse mais verdadeiro do que lindo, embora não fosse nada fácil ter certezas a respeito. Ele era um cidadão entre iguais, entre amigos. Também a ele tanto tinha sido pedido nesse ano tão difícil, tanto. Ai, tanto. Felizmente, nunca lhe faltou a força para lutar por um Natal melhor. E isso acabava por explicar, luminosamente, a sua elevação a chefe do Governo. Não havia muitos mais como ele nesse país. Um país de preguiçosos, comilões e Carnaval. Um país, enfim, a descobrir o que é ser governado por um menino.

10 thoughts on “O nascimento do menino”

  1. estou a ouvir na RTP 1, frei fernando ventura…
    um hino de humanidade, uma inteligência superior, um pensador brilhante…

  2. Isso mesmo, Val: foda-se! caralho! em vernáculo puro e duro, que o nosso chefe de governo não pesca nada do português comum, nem de coisa nenhuma.
    Já estou a compreender melhor os barões do PSD e os seus imensos amigos “bpns”. Devem ter pensado que, entronizando como PM uma perfeita nulidade como Passos Coelho, ficariam com o caminho todo aberto para as suas jogadas. Com Belém em sintonia. Triunfo em toda a linha. Portugal e os portugueses que se fodam. E a maioria dos votantes pôs-se a jeito.

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