Todos os artigos de Valupi

É a democracia, estúpido

Foi contigo que me mandou o velho cavaleiro Peleu
naquele dia em que da Ftia te mandou a Agamémnon,
criança que nada sabias da guerra maligna
nem das assembleias, onde os homens se engrandecem.
Por isso ele me mandou, para que eu te ensinasse tudo,
como ser orador de discursos e fazedor de façanhas.

Fala de Fénix a Aquiles, Ilíada, Canto IX, 438-43, Cotovia

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Marx ainda gastou umas pestanas com o vanguardista Demócrito, o que mui bom proveito lhe fez, mas os seus trinetos não querem nada com a cultura clássica. Cheira-lhes a imperialismo, e imperialismo é obra de americano. Maneiras que se auto-excluem do convívio com os criadores das primeiras formas de democracia que este planeta viu nascer. Quão melhores as disputas bizantinas acerca da teologia marxista, isto para maiores de 60 anos, ou a calhauzada à montra burguesa e as provocações à bófia fascista, isto para menores de 30 anos. Entre os 30 e os 60, há muito restaurante para descobrir, muito vinho para beber, a revolução pode esperar.

Talvez esteja nessa actual aversão à paideia a explicação para um dos maiores enigmas eleitorais em Portugal e não só: porque não conseguem os partidos que prometem o céu na terra para os trabalhadores e miseráveis obter maiorias parlamentares? Que estará a falhar? Será apenas uma questão de tempo, estando nós cada vez mais perto de ter um primeiro-ministro do PCP ou do BE? Será que a mensagem ainda não chegou a todos os votantes? Será que anda alguém a boicotar a correcta recepção e entendimento das propostas nos neurónios dos cidadãos? Que se passa, afinal, que está a atrasar o fim da exploração do homem pelo homem, e da mulher pela mulher, ou qualquer outra das variantes exploratórias possíveis?

O episódio de Relvas no ISCTE permite a elaboração de uma nova hipótese. Para lá chegarmos, vamos começar por ouvir o João Semedo, pois nestas declarações se condensa o essencial do argumentário que tem sido repetido por tanta gente inteligente e bem-intencionada: uma voz da esquerda pura e verdadeira a educar o povo. E agora ponhamos em letra o seu remate:

A democracia é uma dinâmica que tem várias expressões. Tem a expressão eleitoral através do voto. Tem a expressão através das opiniões e da construção da opinião. Mas tem também uma componente de protesto, de revolta, de insubmissão. É isso que ontem vimos no ISCTE e eu julgo que isso faz parte da pluralidade das formas como a democracia se constrói e desenvolve.

Segundo a metade que mija de pé na liderança do Bloco, a democracia constrói-se e desenvolve-se sempre que a turbamulta consegue impedir com o seu berreiro que um dado alvo da sua antipatia não consiga usar da palavra. Estando assim estabelecido o princípio, Semedo está a convidar a malta do PNR, ou uma delegação do Aurora Dourada em trânsito para umas fériazitas no Algarve, a aplicar a receita em iniciativas do BE. É que razões não faltarão a essa rapaziada atlética para se entregarem ao protesto, à revolta e à insubmissão em nome da construção e desenvolvimento da sua peculiar concepção de democracia. Boa sorte, Semedo, e não te esqueças de levar o Betadine.

Mas o que me intriga é este recente monopólio do hooliganismo de plateia no que toca ao formato do protesto, tal como Semedo estipula e consagra. Seria de esperar – ingenuamente, sei bem – que os estudantes do ensino superior até começassem por agradecer a Relvas a extraordinária oportunidade que ele lhes estava a oferecer. Eis uma figura especialmente detestável de um detestável Governo que se presta a deslocar-se a uma instituição académica, a qual ainda por cima sempre foi conotada com ideais ou perfume de esquerda, para se expor ao interrogatório e comentário de uma audiência livre. Foda-se, senhores ouvintes. Para mais, essa figura vinha de um evento no dia anterior onde se tinha afundado num poço sem fundo de ridicularia e achincalho pela sua própria iniciativa. Seria de pensar – ingenuamente, sei bem – que algum estudante de Economia, Ciência Política, Sociologia, Gestão, Finanças e Contabilidade, Gestão de Marketing, História Moderna e Contemporânea, Gestão de Recursos Humanos, Informática e Gestão de Empresas, Arquitectura, Gestão e Engenharia Industrial, Engenharia de Telecomunicações e Informática, Psicologia ou Antropologia pegasse no seu telemóvel e marcasse uma reunião no bar para elaborarem à volta de umas minis um brilharete que desse boa fama ao ISCTE e a cada um deles. Que poderia ser? Deixa cá ver… hum… mostrar o rabo?… bom, dependeria do rabo em causa, claro, mas já foi feito… hum… cantar a Grândola?… divertido mas já cliché… hum… pedir a demissão e vaiar o senhor?… justíssimo, embora pobre face ao potencial da situação… Ah, heureca! Que tal ter um, dois ou três estudantes a pedir a palavra e a demonstrar perante Relvas e o País que eles são muito melhores do que o seu Governo? Ó Semedo, não seria este um protesto, uma revolta e uma insubmissão muito mais proveitosos para a construção e desenvolvimento da democracia? Espera, não te irrites. Perguntar não ofende. Se achares que não é, prontos, não é. Tu é que sabes, tu é que tens os livros lá em casa.

Relvas escapou de boa. Podia ter ido meter-se na cova dos leões e sair de lá debaixo de uma monumental gargalhada. Em vez disso, deu por si no curral dos burros. Muito zurraram e escoicearam esses asnos. E lá conseguiram o que queriam: fugir do confronto democrático. No final, sentiram-se vitoriosos. A sua inferioridade intelectual, política e moral perante Relvas tinha ficado escondida. Estavam prontos para outra. Quem será o próximo adversário que vão silenciar? É só escolher, alvos não faltam.

Estamos finalmente em condições de apresentar a hipótese explicativa dos sucessivos desaires eleitorais do PCP, BE e restantes corajosos revolucionários: ainda há um número demasiado grande de portugueses que prefere o ruído dos crápulas ao silêncio dos tiranetes – quando nos conseguirem calar a todos, só aí ganharão.

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Oferta do nosso amigo David Crisóstomo:

Não, não me peçam para aplaudir

Terceiros excluídos

Gaspar anunciou hoje que o (seu) mundo mudou e que vai alterar a estratégia orçamental e económica. Perante isto, das duas uma: ou reconhece que a estratégia anterior falhou ou diz que só persistiu no erro porque considerou que tal era necessário para reforçar a posição negocial do país e, portanto, instrumentalizou o sofrimento de milhares de portugueses. Ou os portugueses foram vitimas de uma incompetência do ministro ou foram moedas de troca numa estratégia de negociação.

João Galamba

A manhã em que perdi a admiração pelo Alberto Martins

Alberto Martins é uma das mais ilustres figuras da política nacional, tanto pelo seu papel na Crise Académica de 1969 com pelo seu serviço ao Estado assumindo diferentes responsabilidades públicas que foi sucessivamente prestigiando. As suas intervenções são invariavelmente marcadas por uma ponderação benfazeja nascida de uma genuína autoridade vivencial e intelectual, tendo ainda obra publicada no campo da cidadania. Eis um perfil ideal para senador da República.

Ora, desta pessoa esperava uma radical defesa da liberdade de expressão e da participação política, especialmente quando se trata de um governante por ser este um representante do Soberano. Aquilo que podemos ouvir abaixo mostra uma enrolada defesa da violência que se abateu sobre Miguel Relvas no ISCTE. Para o desgosto ser maior, tudo aquilo que Alberto Martins diz é inquestionável – só tendo a lamentar o que deixa por dizer: que o direito à manifestação cessa quando, ou enquanto, viola o direito de terceiros à participação na cidade. E que, em democracia, não há excepções a este princípio, Alberto.

No país do Miguel Relvas

É sempre uma cena circense ver alguém que se diz de esquerda a validar e promover a arruaça da multidão contra um cidadão cuja função governativa é democraticamente legítima. E constatar que uma instituição de ensino superior pode ser palco da celebração da barbárie só acrescenta espectacularidade ao acontecimento. Que saberão estas inteligências de História? Que noção têm estes valentes do Estado de direito? Que leitura estes iluminados fazem, se alguma alguma vez fizeram, da Constituição? Que grotesca concepção do que seja a democracia estes justos transportam no bestunto?

Miguel Relvas é uma decadente e degradante figura, um autêntico traste. É um político do PSD paradigmático da lógica da conquista do poder pelo poder a que o partido se reduziu desde a fuga de Barroso. Não tem existido mais nenhuma ambição na São Caetano, mais nenhuma ideia que mereça ser discutida pela sociedade, daí a política de terra queimada e permanente chicana que apareceu para lidar com um inimigo que tinha ocupado o centro com um espírito de esquerda e deixado os social-democratas sem bandeiras. A resposta do laranjal, também por causa da crise internacional que fez ruir o seu império bancário, foi a da violência máxima, num frenesim de ódio e calúnias que ocupou todos os órgãos de comunicação social onde controlavam a edição e que se serviu da Justiça para perseguir e conspurcar os adversários. O tipo que ofendeu os filhos de Sócrates na sua raiva cega contra o pai – algo que, creio, nunca antes tinha ocorrido na política portuguesa desde que há memória – foi uma peça de capital notoriedade e impacto nessa estratégia.

Mas Miguel Relvas não teria sido possível sem a conivência de um país de cidadania larvar, iliteracia maciça, sectarismo obsessivo e cobardia epidémica. Um país que não reage quando um governante mente no Parlamento sob juramento em matérias que envolvem os serviços secretos, quando um ministro é apanhado a chantagear jornais e jornalistas, quando um político se revela um hipócrita pestilento. Esse é o pais onde uns mandam calhaus contra a Assembleia da República e outros ficam a olhar para o Palácio. O país que alinhou com este Miguel Relvas na golpada que interrompeu uma legislatura e entregou a soberania aos fanáticos do quanto pior melhor.

Este país merece o que tem porque tem o que quis.

Do homem que foi proscrito das listas do PSD em 2009 por causa da estabilidade toda que andava a espalhar dentro do partido

Relvas defendeu que “os líderes da oposição precisam de estabilidade para poder desempenhar a sua função”, sendo “muito importante para os governos que os líderes da oposição tenham estabilidade para não só poderem construir pontes” como para “se assumirem como alternativa e encontrarem consensos”.

“Um líder da oposição que tem problemas internos é um líder mais frágil para poder colaborar e poder chegar a entendimentos com os governos”, acrescentou.

Fonte

Trivial Pursuit – Pacheco Edition

Sem o recurso à fonte do texto (se conseguires resistir, e não consegues…), adivinha a que ano se refere Pacheco Pereira neste naco laudatório do valor da blogosfera:

“Veja-se o caso da blogosfera. A blogosfera devia ter um “depósito obrigatório” imediato. Os blogues, enquanto formas individualizadas de expressão, originais e únicas, são uma voz imprescindível para se compreender o país em [20..]. Eles expressam um mundo etário, social, comunicacional, cultural, político que, sendo uma continuação do mundo exterior, tem elementos “sui generis””.

Fonte

Paulo Campos contra o resto do mundo

No dia 18 de Janeiro do corrente, Paulo Campos esteve a ser interrogado na Comissão Parlamentar de Inquérito à Contratualização, Renegociação e Gestão de todas as Parcerias Público-Privadas do Setor Rodoviário e Ferroviário. A sua passagem por lá gerou menos atenção mediática do que a ida de Liedson para o Porto; a qual, por sua vez, já tinha causado menos comoção pública do que o regular trânsito da sardinha ao largo de Sesimbra. No entanto, este perigoso e nojento socrático é responsável pelo roubo de centenas de milhões de euros ao Estado, dinheiro que ele depositou nas mãos de algumas empresas amigas – tal como os pulhas, a gente séria, o Correio da Manhã e o Mário Crespo não se cansam de repetir, grupo a que se juntam entusiasmados os imbecis da esquerda pura e verdadeira. Essas falcatruas, a que se somam os gastos em automóveis, fundações, TGV e aeroportos por tudo quanto é sítio, é que nos levaram à bancarrota e obrigam agora o nosso amado Governo a ter de empobrecer a mata-cavalos os portugueses, é sabido e está decorado. Aparentemente, o Ministério Público ainda não o conseguiu apanhar, embora a Judiciária já lhe tenha revistado a casa, pelo que ele continua a pavonear-se por aí e por ali mas terá fatalmente os dias contados e um calabouço à espera.

Ora, a sessão consta de 6 horas de paleio. Dir-se-ia que o infeliz do Paulo Campos, invariavelmente julgado e condenado sem piedade de cada vez que alguém debita sentenças sobre as PPP, que nem sequer do líder do seu partido recebe qualquer prova de confiança (bem ao contrário), quando apanhado numa sala com os honestos e competentes deputados do laranjal e seus aliados de ida ao pote seria trucidado, saindo em maca a soro e oxigénio. Afinal, como pode um só homem resistir contra uma maioria, um Governo, um Presidente da República, uma Procuradora-Geral da República e dezenas, ou centenas, dos mais brilhantes jornalistas que este país alguma vez viu, ainda por cima quando os seus crimes são tão graves, tão grandes e tão evidentes?

Não faço ideia de quantos indivíduos irão ver a sessão completa. Deixo abaixo um excerto que representa o que por lá se passou. Porém, aqueles que optarem por gastar assim o seu tempo irão ter uma lição de sociologia que é, simultaneamente, uma radiografia da classe política que nos governa, assim como da classe política que nos desgoverna. Campos exibe-se altamente preparado, completamente disponível para apresentar factos e responder a todas as perguntas. Mas mais: ele aproveita para reclamar contra a exploração difamatória e caluniosa que fazem do seu nome e passado executivo, oferecendo-se para o confronto com os acusadores. E ainda mais: Campos expõe e denuncia a máquina de manipulação da imprensa e do espaço público com que o laranjal faz “política”. E quem é que lhe aparece à frente? A escória da direita portuguesa. Umas alimárias que nem sequer dominam as noções básicas das matérias sobre as quais bolçam deturpações por cima de deturpações. É estonteante ver a degradação moral desses deputados que se comportam como rufias de tasca. No contraste, Paulo Campos, cujos maneirismos ansiosos não promovem a simpatia imediata, é um monumento de educação, classe e decência.

Ver para crer:

Take five

1. Às vezes dão-me umas angústias totalmente absurdas. A de hoje tem a ver com o nosso ambientalismo.

2. De facto, que é feito dos ecologistas e das suas associações, que nunca mais ouvi falar deles? Dantes tão pressurosos em denunciar poluições, lixos, desrespeitos pela natureza, violações das Diretivas, atrasos nos PROTs, violações da REN, da RAN e já não sei que mais – e agora tão calados, tão mortiços, tão invisíveis?

3. Terão hibernado? Então, porque não acordam, agora que se já sente um cheirinho de primavera?

4. Adorarão a ministra do Ambiente, subscreverão a sua política? Então, porque se acanham de dizê-lo?

5. Ou pertencerão à longa lista daqueles que só verdadeiramente se excitam quando é a esquerda que está no governo?

Augusto Santos Silva

Revolution through evolution

Senate approves anti-violence against women act
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Secret funding helped build vast network of climate denial thinktanks
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Red Brain, Blue Brain: Republicans and Democrats Process Risk Differently, Research Finds
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How Can We Make People More Honest?
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Innovation, Patenting Fuels Economy
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Anxiety About Relationships May Lower Immunity, Increase Vulnerability to Illness
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10 false facts most people think are true

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As traições a Jesus não são propriamente uma novidade

Não sou católico, sequer cristão, mas compreendo a legitimidade – e naturalidade – do fenómeno religioso, tanto nas suas manifestações sociológicas como psicológicas; em suma, como matriz antropológica e necessidade histórica. Alguns antecipam um futuro onde a cultura científica e secular conclua o trabalho iniciado com o Renascimento, Iluminismo e Humanismo, já antes com a filosofia grega, levando a religião a perder por completo o poder político e a influência cultural, reduzindo-se a uma experiência privada e individualista. Tudo aponta nesse sentido nas sociedades democráticas, capitalistas e tecnológicas, mas não se podem ter certezas.

Entretanto, a religião ainda conserva muito poder e influência, mesmo nas comunidades já completamente secularizadas. No caso dos países onde a Igreja Católica está presente, e bem mais grave do que as eventuais falácias à volta da posição da Igreja em relação ao uso do preservativo, o escândalo maior é o da pedofilia. É grave pelos actos e suas consequências devastadoras, e é escândalo pela insegurança das crianças nas instituições católicas e o encobrimento dos crimes pelos superiores hierárquicos. Por esta razão, a voz de Januário Torgal Ferreira é um clamor no deserto, para vergonha de todo aquele que em Portugal se conceba católico e não lhe siga o exemplo da frontal e sentida denúncia:

Gente que Conta – 17 de Fevereiro de 2013

Podem já encomendar o mármore

Os fulanos que deixaram Portugal com um Governo minoritário no meio da maior crise económica mundial dos últimos 80 anos só para o derrubar logo que as condições fossem propícias custasse o que custasse às contas do Estado e à vida dos portugueses, que encheram a comunicação social de ódio, conspirações e deturpações grotescas durante três anos, que levaram a extrema-esquerda a votar na sua golpada para entregarem a soberania do País aos credores e assim obterem esse escudo e carta branca para desmontar o Estado social, que mentiram à má fila do princípio ao fim da campanha eleitoral, que tratam os indígenas como calaceiros e estroinas, que fizeram do crescimento da pobreza e da emigração as únicas metas políticas que conseguem atingir, que lançaram o maior aumento de impostos da nossa história, que dizem exactamente o contrário do que andavam a berrar na oposição, são também os mesmos que pretendem fazer de cada cidadão um fiscal das finanças para o saque ao seu vizinho. Entretanto, nem mesmo este escândalo onde a incompetência rivaliza com a inimputabilidade consegue despertar a direita, alvoraçar o centro ou unir a esquerda, sequer encher ruas que ainda recentemente fervilhavam contra os malvados socialistas.

Isto merece estátua. O casal Passos-Relvas bem merece uma estátua como espectacular conquistador de dez milhões de mansos.