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O grande vizinho a Norte

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Na Galeria de Arte SARGADELOS, no Porto (galeria, e também loja de porcelana, sim, vá até lá, e veja o seu serviço de jantar, na sua mesa, quando você for rico…), está visitável, até 28 de Fevereiro, a exposição PORTUGAL E GALIZA: um passado comum. Fica na Rua Mouzinho da Silveira, 294.

Não é por nada, mas você podia ir lá, ir lá por mim – que vivo tão longe das coisas boas – e depois contar aqui. Tá?

O homem que levava os raciocínios até ao fim

Dos jornais que lhe passam hoje pela mão, que sobrará, que sobreviverá, daqui a uns tempos? Muito pouco. Mas a maior probabilidade, nisso, têm-na as crónicas, aquelas que você, leviano, desprezou ao passar das folhas. Sim, bastantes cronistas reúnem, depois, a sua produção. Está a ver: você vai ter segunda chance.

Não faço ideia se Paulo Moura, repórter do Público e estreante de romancista, algum dia reunirá as suas crónicas. Mas aqui lhe fica o pedido de que, venha ele a fazê-lo, não exclua «O homem lógico», a sua crónica daquele domingo de Fevereiro do ano – ah, tão longínquo – de 2007.

Quanto a você, visitante do Aspirina, não espere essa segunda oportunidade, que pode, sim, vir ainda longe. Volte a folhear o jornal. O impagável texto está (se a versão online confere) na página 46. Vá, divirta-se. Você tem esse direito.

Actualização 1

Afinal, o Público de hoje está grátis online. Aqui.

Actualização 2

… e portanto também aqui. Aqui. Em casa. Ora abra.

Dores bem gemidas

De Mínimo Ossário, série de sonetos de JOSÉ LUIZ TAVARES, e mais exactamente de «sonetos para o meu pé esquerdo» – meu, dele – seleccionámos este.

Flictena, eritema, eczema — pra soneto
não serão baixo tema? Vertical, porém,
no comum silêncio que do deus é desdém,
na manhã espigada soa o médico decreto.

Minha dor bem gemida (envergonhado
embora do sorriso da enfermeira castelhana)
não seria bem maviosa ária siciliana,
mas alento do que o osso traz quilhado

por mor de mal medido salto. Mas amanhece
num solo de Turina, à química do sonho
entrego os prenúncios da dor, pois socorro

são as mãos da jovem castelhana. Inda fosse
só o calor fingido de um dezembro tristonho,
ante tão sinestésica aparição, todo eu coro.

JOSÉ LUIZ TAVARES

Uma trompete no coração da noite

Na noite em que festejo discretamente os meus 56 anos, um acaso leva-me a colocar no leitor de CDs um disco de promoção da música portuguesa apresentado no Festival do MIDEM em Cannes. Trata-se de uma edição da Sociedade Portuguesa de Autores e inclui músicas tão diversas como «Venham mais cinco» de Zeca Afonso, «Vila Faia» de Thilo Krasmann, «Amélia dos olhos doces» de Carlos Mendes e Joaquim Pessoa ou «Queda do Império» de Vitorino. Os músicos são quatro, mas os outros que me perdoem. Há um não sei quê de especial na trompete de Tomás Pimentel. É algo de muito familiar para quem nasceu numa casa de músicos filarmónicos e desde muito cedo aprendeu a ver o avô a lavar a trompete com água morna e bolinhas de chumbo. O tom puríssimo e alto de um som que guardei na minha memória afectiva regressa de súbito ao meu ouvido. Tomás Pimentel pega na trompete e espalha os mesmos sons quentes e tensos que o meu avô tocava só para nós depois de lavar a trompete com água morna e bolinhas de chumbo. Zezinho, queres ouvir o «Teodoro leva-me ao sonoro»? – perguntava o meu avô. E eu dizia logo que sim. Outras vezes era a moda da Rita: «Esta é que era a moda / que a Rita cantava / lá na Praia Nova olaré / Ninguém lhe ganhava». Tomás Pimentel lembra-me o meu avô por causa do modo firme e delicado, impetuoso e suave, alto e sussurrante como faz sair da trompete os sons das mais velhas canções portuguesas. Também o meu avô usava a surdina apenas quando a pauta musical o determinava. O som da trompete deve ser sempre amplo e cheio, forte e intenso, timbrado e solene para que a música possa ser um intervalo de festa na monotonia cinzenta da nossa vida.

José do Carmo Francisco

Retrato breve de M. R. D. L.

Cansa os olhos nos vidros do écran
Cansa os dedos nas letras do teclado
A voz mantém a frescura da manhã
E o rosto é um mapa do seu passado

Quando não tinha as horas sozinhas
Quando passava as noites em vigília
Era a mãe das irmãs e das sobrinhas
Tal como foi dos rapazes da família

Abria a porta duma casa pequenina
Como se fosse milagre de hotelaria
E naquela sua pensão clandestina
Quanto mais se cansava mais sorria

O seu quarto não tem porta fechada
A sua voz continua firme e quente
Uma solidão todavia tão povoada
Que se multiplicou em tanta gente

José do Carmo Francisco

«Na cabeça de Sócrates»

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Saia de casa. Já. Compre o Público de hoje. Leia «Na cabeça de Sócrates», de Ricardo Dias Felner. Não perca um dos textos mais fascinantes – e perturbantes – do jornalismo português dos últimos tempos.

O primeiro-ministro português é, da cabeça aos pés, uma laboriosa e enervante mistura de «frontalidade» e «dissimulação»? Não me diga que não tinha reparado.

Eu, comovido a Oeste

Não, caros blogleitores. Não se trata de uma nova leitura do livro homónimo de Vitorino Nemésio. Eu comovido a Oeste sou eu mesmo. Eu, obscuro cronista numa manhã fria de Lisboa, pouco tempo depois de ter descoberto num alfarrabista o livro Litoral a Oeste de José Loureiro Botas. E fiquei comovido porque este livro agora por mim recuperado tem muito a ver com a minha educação sentimental. Alguns dos contos deste volume com capa de Manuel Ribeiro de Pavia estavam no livro de leitura do Ciclo Preparatório quando eu tinha dez anos. E fiquei comovido porque vi de novo aquelas figuras dos contos ao meu lado: a Tia Morganiça, o Pichelim, a Rita Rebocha, a Ana Fateixa, a Jacinta Caréoa, a Maria Rita, a Raposinha, a Leandra. Era gente que saltava das páginas dos livros e vinha para ao pé de nós, misturando as suas vidas e as suas lágrimas com as ondas do mar na Praia da Vieira. A própria história do autor do livro, filho de gente humilde, que começou a trabalhar com 12 anos e abriu uma pastelaria onde se juntavam escritores, me comoveu. Eu próprio sou filho de gente humilde, comecei a trabalhar com 15 anos e tirei o Curso Comercial como o José Loureiro Botas. Também a mim me disseram que não tenho nome para ser escritor como se a qualidade da escrita dependesse do bilhete de identidade de cada um. Também fiquei comovido pelo prefácio de Tomás Ribeiro Colaço, com palavras que deveriam estar à vista de todos em todas as redacções de todos os jornais e de todas as rádios: «Continue. Escreva mais, como sentir. Escrever é semear. É esperar, insistir. É amadurecer. É querer. É atirar pedaços de alma para uma folha de papel. É sofrer em silêncio e pensar em voz alta. É demandar perfeições que não se atingem, procurar ecos que não se ouvem, erguer castelos que ficarão desabitados, cantar ansiosas canções que ninguém escuta ou entende. Mas o espírito é terra abençoada à qual nunca se atira em vão uma semente viva; apenas sucede às vezes ser lento o germinar… E quando o escritor assim escreveu, sucede um dia que outros encontrem na sua obra todos os mundos que ele criou enquanto a servia». Fim de citação.

José do Carmo Francisco

Exageros familiares – 3 e 4

A Sininho ofereceu-nos um notável exagero, com versões feminina e masculina. Os nossos visitantes, que são maiores e baptizados (perdoe-se a cristandade da perspectiva), saberão qual uma e qual outra.

«Já nem se pode ver o futebol! É só novelas!»

«Sempre a mesma coisa – futebol! Já nem se pode ver a novela!»

Mais um:

«Antigamente, levavas uma eternidade a ter as fotografias na mão».

Um exagero monumental, sobretudo se as podias ter num 1 HOUR SERVICE. Mas compreende-se o seu tanto. Actualmente, o tempo entre o disparo e a obtenção do «print» é desprezável. Mas acabou-se, também, de vez, qualquer romantismo da espera. Ah, mundo prosaico!

«É VOCÊ O MEU PAI?»

Os autores do Aspirina têm acesso aos bastidores do blogue. Nada de transcendental, nem – habitualmente – de muito excitante. Mas ele há casos.

No post de 12 de Janeiro sobre as «lampreias», alguém – certa Sue – colocou, dias depois, um apelo. E, ontem ainda, informava que vem «todos os dias» ver se chegou resposta.

Como o Aspirina serve – também – para facilitar a vida, aqui se publicita, com este nosso discreto destaque, o apelo de Sue. Tal e qual. Com a sua grafia. E com a sua esperança.

janeiro 22, 2007 01:15 AM

Ola pessoal!
Feliz ano novo a todos aqui que sao adeptos!
Hora bem!
Estou a procura desde… nao sei quando do meu pai, Carlos Rodrigues Costa de Febres. Posso vos pedir este favor, querem me ajudar? Aqui encontrei muitas coencidencias com ele. O peixe, o mar, o estrangeiro…sao coisas que sei. Pai, se me leres, qual que sejas o que fizeste, sou tua filha Susana, nao te esqueceses de mim, porque vivo com sodades tuas.A Ultima vez que te vi, fui quando tua primeira neta Sydney Claudia (minha filha) nasceu. Eu vi tua imagem tua cara na Sexta feira 17 de dezembro 1999 e tu fizeste ano no dia seguinte. Tens um neto tambem Nils nascido uma sexta feira 22 de fevereiro de 2002 em Paris. Eles nao te conhencem mas falam de ti.Temos fotos, mas as imagems sao frias e sem sentimentos e carinhos. Eles tem esperança de te conhecer e eu de te fazer esta prenda, nos tres. Sou Susana Maria Santos Rodrigues Costa com meus meninos Sydney e Nils

fevereiro 17, 2007 03:49 PM

Boa tarde!
Venho aqui todos os dias, em vao, espero mesmo uma resposta.
Deixe meu email a vista : suebysue@msn.com assim se calhar e melhor, pois nao?!
Boa continuacao a todos!
Bye

Exageros familiares – 2

«Dantes não havia assim estes maus-tratos de crianças».

É mero efeito (e efeito benéfico) de uma sociedade mais aberta. Simplesmente, agora crescidinhos, vêm-nos o arrepio, e o susto, de termos estado, um dia, vulneráveis.

Conhece outros «exageros familiares»? Conte-nos.
Se minimamente nos reconhecermos, pomo-los em destaque.

Crónica para um menino que também perdi

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Escrevo-te, André, esta crónica triste descendo a Avenida Fontes Pereira de Melo, no mesmo lugar onde há vinte e quatro anos chorei as lágrimas mais quentes e mais grossas pela morte do teu irmão Paulo. É esta estranha e repetida geografia citadina que me leva hoje a recusar as lágrimas e pensar em ti não no passado mas no presente.

Tenho em casa, algures perdida numa gaveta, mas não perdida na minha memória, uma fotografia que tirámos na eira da casa da tua avó. É uma fotografia a preto e branco como, afinal, são todas as fotografias porque na verdade o nosso mundo não é a cores mas sim a preto e branco. Como aquela fotografia em que estamos todos felizes depois de um almoço de festa, cozinhado naquele fogão que é um monumento culinário e naquela cozinha que é um santuário da gastronomia. Mais do que felizes, estamos juntos, todos juntos à volta da festa de aniversário da tua avó que eu abusivamente resolvi, entretanto, tomar como minha.

Era Abril, o mês de todas as esperanças, depois de tantos anos de notícias censuradas, de músicas proibidas, de filmes cortados, de ruas sossegadas e de prisões cheias. Circulo hoje de mãos nos bolsos, cheio de frio e atónito perante a notícia da tua morte em Paris e a Avenida Fontes Pereira de Melo, onde soube da morte do teu irmão Paulo em 1982, esta avenida, transformou-se, de repente, num quadro cor de cinza onde o teu nome está escrito e não se apaga.

Quero que saibas, André, que continuamos todos naquela fotografia a preto e branco tirada à volta da avó na eira numa tarde de sol em Abril. Vamos continuar todos nessa fotografia porque ao lado da avó somos felizes e não há preço a apagar nem pelos beijos nem pelas lágrimas.

José do Carmo Francisco

Para um retrato de Fernanda

Nos olhos de Fernanda existe e permanece uma melancolia serena, mas vigiada por intervalos de alegria. São intervalos de alegria as viagens e os encontros. Na Índia, na Etiópia, no Egipto, em São Tomé e Príncipe, no Dubai ou em Marrocos, as viagens são um apelo difícil de recusar. Por isso Fernanda viaja no tempo e faz crónicas modernas de lugares antigos, lá onde o som das caravelas sulcando o oceano ainda persiste nos búzios entre os recifes, as areias e as dunas das praias mais quentes.

Os encontros começam nos almoços ruidosos onde a ementa principal é a troca de testemunhos e de opiniões. Continuam entretanto, tarde fora, entre os licores mais doces do Inverno e os refrescos mais apetecidos do Verão. Nos olhos de Fernanda existe e permanece uma melancolia serena, mas vigiada por intervalos de alegria. Por isso, quando se despede e a sua sombra se perde no fim da rua perto do Teatro Nacional, apetece parar o tempo dos relógios e fixar um tempo interior onde seja possível não o desgaste mas a permanência. Para que Fernanda fique e seja o ponto de encontro entre a memória e a alegria.

Nos olhos de Fernanda há o apelo da água. A mesma água de onde saíram os sons que animam todas as orquestras do Mundo e todas as notas que povoam as pautas de todos os músicos. Os olhos de Fernanda são a estante onde se projecta e repousa uma música muito antiga mas sempre pronta a subir do lugar da escrita até à sua arte final, cumprindo assim a tarefa principal de todas as melodias. Ou seja: trazer ao coração dos homens um tempo feliz mesmo que essa felicidade seja veloz. Mesmo assim valerá a pena toda essa brevidade.

José do Carmo Francisco

O MAL QUE DIVIDE AS ALDEIAS (4)

Em termos do grande encontro, ou recontro, chamem-lhe embate se quizerem, entre o Mal e a Humanidade, há que ser amigo da verdade de todos os tempos e há que ser realista até ao desconforto doloroso, mesmo que esse seja o preço que cada um terá de pagar para permanecer acordado ou simplesmente diferente. Dói admitir, mas repare-se no triunfo, ainda que passageiro porque descaradamente desumano, do Mal sobre o Bem, exuberantemente inegável a toda a largura do espectro das cores do engano apresentado panoramicamente na frente de qualquer observador atento. Só um despeito sumamente irrealista ou ingénuo se lembrará de menosprezar ou ignorar as aptidões do Mal e a grande perícia que demonstra nas suas actividades de endrominação, ou de ver defeito geométrico no desenho, ou funcional na organização e distribuição estrutural ou de instabilidade na construção do grande edificio que alberga o cérebro central da índole malfazente.

Que ninguem perca um segundo sequer a duvidar da suprema organização e astuta inteligência que presidiram à obra maldosa levantada a poder de ouro mitológico vindo não se sabe donde, ano após ano, década sobre década, século após século, e depois depositado como aposta no pano verde de escombros renováveis da politica e da intriga sob o olhar impávido e comprometido das quintas-colunas com ninho nos antros da grande finança e nos grandes palácios da religião ou mosteiros de alquimistas.. O Mal está de parabéns como sempre esteve desde que se organizou em partido encapotado, sem dúvida nenhuma, a usufruir lucros capitalizados, vivendo alegremente à grande e à latina nas grandes capitais, senhor do seu nariz arrogante, corroendo memórias confusas e manipuláveis ou mantendo sob prisão o subconsciente do ente que ainda consegue respirar, ou permanecendo confortavelmente longe das recordações dos que por cá já passaram e que agora apenas são capazes de pensar ou criticar com corações de perdão e sem azedumes. E não é de há pouco esta teia e organização. Foi sempre assim desde que a História deixou de ser escrita em linhas direitas.

Mas a Humanidade é um monstro sagrado respeitável e praticamente indestrutivel, uma senhora enorme com bilhões de filhos de todas as idades, com um destino colectivo que não pode ser mantido eternamente longe da capacidade de percepção do individuo que dela é parte integrante, e até se pode dar ao luxo de dormir plàcidamente a dois passos de soldados e generais do Mal que não fecham os olhos, meio-acagaçads com receio de morrerem sem deixarem saldos anímicos visíveis, ou de serem reduzidos a pó biologicamente intransmutável, ou chorosos porque ninguem lhes dá garantias nenhumas de que não serão reencarnados na forma de filhos de gente pobre duma tribo da Somália, em vez de o serem nas mais apetitosas posições de vantagem que agora desfrutam. Problemas que as consultas de oráculos e rezas a Isis e Osiris ainda não conseguiram resolver.

Alguns dirão que o Mal nem é assim tão mau. Pois não. Só é (se traduzirmos para miudos e linguagem simples as politicas concretas dos seus representantes em governos por esse mundo fora) contra a Família, unidade fundamental e natural de resistência a uma planeada sociedade robotizada e robotizante modelada a partir de organizações secretas piramidais onde não se pergunta com indiscrição, onde impera o dogma e onde 95 por cento das infantarias patetas não têm a mínima ideia donde vêm nem onde assentam os valores que dizem perseguir e abraçar. É contra Deus, seja qual for a definição, variedade da interpretação ou intensidade da crença. É contra a sobrevivência depois da morte sem o tal regresso reencarnável ou bilhete de ida e volta, porque aceitar isso arrastaria consequências políticas incalculáveis numa transformação da atitude do individuo em relação ao poder que abalaria os alicerces onde se apoiam as várias ordens fundadas na ronha e na pouca-vergonha. É pela guerra, pois claro, se necessária, conveniente, lucrativa e estratégica e como instrumento imprescindível à sua continuação no poder ou alargamento do mesmo. É pelo estrangulamento da ciência, não só através da imposição de deuses já ultrapassados dessa ciência que permite, mas tambem através do encobrimento de verdadeiras descobertas cuja natureza põe em risco esse mesmo poder, e é, em remate importantíssimo, pela falsificação da História, derradeira acusação e corpo de delito.

Tudo somado não monta a grande coisa, passe a ironia ou intenção de levar isto para o lado do gozo. Outros dirão que não há provas de que este Mal existe e se existe é só nalgumas cabecinhas. Ou, alternativamente, que este Mal é um mal necessário, à prova de bala e sindicância. Enfim, em terra de Perpétuas não há Englantina que não tenha opinião tambem à prova convenientíssima de arranhar os rabos a gente importante. Por mim, poderiamos muito bem passar sem ele – sem Ele, ficaria melhor, ao lado da auréola, coroa, tridente e pêra de bode.

TT

O SOL QUANDO BRILHA È PARA TODOS

Ontem, assim que me levantei, vi logo que se iria ter um bonito dia de sol na Londónia Blairo-trabalhosa, uma coisa que cada vez surpreende menos mesmo em fevereiros pós-dickensianos. Global (war)mings, pois então, para assustar as pessoas e arranjar uns quantos tachos a ecologistas desempregados.

Dei uma olhadela rápida ao que tinha agendado para o dia e notei que me seria possivel levar a cabo três salutares actividades, se o solinho se mantivesse: a) apanhar uma banho de vitamina D através das vidraças; b) ir ao newsagent e comprar um jornal às cegas e lê-lo sem sequer me incomodar em saber quem é o seu dono porque já sei disso há muito tempo, e c) ir aviar-me ao supermercado duma cadeia deles que abarbata a bagatela de um terço do dinheiro que se gasta em comida neste país. Os nomes dos donos não são para aqui chamados.

E assim fiz. Com o sol a bater-me no peito e o adjunto da hormona a entrar-me na pele, fui lendo as notícias. Mas só duas me espicaçaram a atenção. O resto era o merdismo jornaleiro do costume. Numa delas dizia-se que o Tony Trabalhista comprou a sua quinta propriedade residencial que juntou às que já tinha para tudo ficar a valer cinco milhões de estrelinas. Pensei: a sua clique de amigos irá certamente lamentar a dificuldade que agora terá em pagar as amortizações dos cinco empréstimos – um encargo mensal da ordem das 20 mil mocas. Eu fico com pena dele porque sei que o seu amigo Berlusconi costuma dar isso de gorgeta em restaurantes em Roma ou Milão.. Se não dá é porque não quer (50 bilhões de eurodemocráticos bruxelenses de fortuna). Estas disparidades injustas entre antigos e presentes cabeças de governo da Comunidade Europeia não se admitem. Um dia destes ainda vai haver por aí uma revolução, se os comunistas venderem a patente. Mais que não seja nas lojas pequenas porque as grandes estão-se cagando.

A outra notícia que me fez piscar o olho da indignação foi uma à volta dum juiz que condenou um pedófilo a dar uma bicicleta ao rapazinho que molestou. Estas coisas têm que progredir aos poucos. Que ninguem se admire que daqui a uns anos as penas baixem para um triciclo com cromados ou um pacote com duas dúzias de fraldas.

Depois fui ao tal supermercado, e quando de lá voltei carrregado com vários quilos de bananas sul-americanas que tenciono transformar numa sopa potássica para me fortalecer os nervos até o comandante Sócrates decidir voltar ao seio dos homens normais, fui ao computador e carreguei no botão do Aspirina, levando de seguida com várias coisas na tromba, entre elas os 25 tostões de prosa tavariana de coçar na pila ao Sim e no grelo à Nova Ordem Mundial – outra surpresa que contribuiu para animar um dia cheio de sol que não foi para brincadeiras, graças a Deus.

TT