O homem que levava os raciocínios até ao fim

Dos jornais que lhe passam hoje pela mão, que sobrará, que sobreviverá, daqui a uns tempos? Muito pouco. Mas a maior probabilidade, nisso, têm-na as crónicas, aquelas que você, leviano, desprezou ao passar das folhas. Sim, bastantes cronistas reúnem, depois, a sua produção. Está a ver: você vai ter segunda chance.

Não faço ideia se Paulo Moura, repórter do Público e estreante de romancista, algum dia reunirá as suas crónicas. Mas aqui lhe fica o pedido de que, venha ele a fazê-lo, não exclua «O homem lógico», a sua crónica daquele domingo de Fevereiro do ano – ah, tão longínquo – de 2007.

Quanto a você, visitante do Aspirina, não espere essa segunda oportunidade, que pode, sim, vir ainda longe. Volte a folhear o jornal. O impagável texto está (se a versão online confere) na página 46. Vá, divirta-se. Você tem esse direito.

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… e portanto também aqui. Aqui. Em casa. Ora abra.

6 thoughts on “O homem que levava os raciocínios até ao fim”

  1. O homem lógico

    Vi com os meus próprios olhos um homem tornar-se racional. Foi muito penoso. Conhecia-o bem, era um tipo normal, até certa altura. Sempre mostrou uma tendência para questionar a realidade que o rodeava, o que frequentemente dava origem a conversas intelectualmente estimulantes. Coisas que nos passavam despercebidas aproveitava-as ele para reflectir sobre o mundo, para tirar conclusões drásticas, para criticar e se indignar. Era um cidadão consciente e lúcido, daqueles a quem não é fácil enganar. Conferia sempre as contas nas lojas, submetia os actos dos amigos a um rigoroso exame moral. Resultado: as pessoas tinham cuidado com ele e não prevaricavam. Isso era bom. A sua presença tinha um efeito edificante, dissuasor da auto-indulgência. Elevava o nível à sua volta, digamos assim. Mas de um dia para o outro começou a comportar-se de forma estranha.

    Jantávamos num restaurante e, ao contrário do costume, ele estava muito calado. Parecia preocupado, como se o atormentasse algum problema sem solução. De repente, levantou-se. Dirigiu-se à mulher de uma mesa ao lado e fez-lhe esta curiosa observação: “Minha senhora, peço desculpa por a abordar desta forma, mas… os seus seios estão a notar-se”.

    Ela corou instantaneamente e não conseguiu evitar baixar os olhos para o seu próprio peito. Mas não havia nada de anormal. Usava uma camisola de lã de gola alta, não particularmente provocante.

    “Eu sei que pretende cobrir os seios, mas a verdade é que eles se notam perfeitamente, lamento dizer-lhe”, prosseguiu o meu amigo racional, apontando para as duas protuberâncias que moldavam o pulôver azul. “Se é obsceno exibir os seios em público, não o é menos denunciar a sua existência de forma tão óbvia”.

    Consegui arrastar o meu amigo para fora do restaurante, mas não logrei convencê-lo da estupidez da sua atitude. Insistia ele que, se havia uma regra social segundo a qual as mulheres deviam esconder os seios, seria lógico que se empenhassem verdadeiramente em fingir não os ter, explicava.

    E isto foi só o começo. No dia seguinte fez ver a uma grávida que passear-se naquela condição era como anunciar com um megafone que tinha praticado sexo. “Ora, se o acto sexual deve ser feito às escondidas, é uma vergonha andar a mostrar o estado em que se ficou…”, dizia ele.

    Tornou-se insuportável. E o pior é que era difícil combater os seus argumentos. Por mais absurdo que parecesse, havia alguma lógica no que dizia. Talvez demasiada. Era esse o problema: ele levava os raciocínios até ao fim.

    Começou a recusar-se a comer em restaurantes, pois alegava que os cozinheiros usavam restos e cuspiam na comida. “É lógico!”, gritava, louco de lucidez. “Já reparaste na quantidade de comida que os clientes deixam nos pratos? Por que razão não haveriam esses restos de ir engrossar a sopa, ou o bacalhau à Brás do dia seguinte? E quando o cozinheiro está cansado e com a neura, não haverá momentos em que odeia os clientes? Que escrúpulo o vai coibir de cuspir na panela? Se o pode fazer impunemente, é lógico que o faz”.

    Passou a cozinhar em casa. Mas só até ao dia em que, depois de elaborar uma lista de todos os alimentos cancerígenos, oxidantes, indutores do aumento do colesterol, de problemas digestivos e outros, praticamente deixou de comer.

    Era lógico que teria de ser internado, expliquei-lhe. Ele olhou para mim, lívido, cheio de olheiras.

    E como era extremamente racional, lúcido e lógico, concordou.

    Paulo Moura
    Público, 25-II-2007

  2. Uma belíssima crónica a fazer esquecer o qt o Público desceu nessa busca obscena de ‘audiência’…lembro-me do tempo em q corria ‘seca&meca’ para conseguir arranjar o Público; lembro-me de levar dias a ler o mesmo jornal; lembro-me de pedir para me gardarem o jornal e avisar logo q o ia buscar nem q fosse daí a 3 dias!; lembro-me de já não ter espaço para guardar os Públicos em casa; e lembro-me de comprar o jornal e depois da primeira leitura na mesa do café – meu local preferido! – junto com a biquinha e o pãozinho de leite, acabar por o ir reler online; lembro-me de tantas vezes ñ ter tempo para o ler em papel, acabando por ler à noite, online, e mesmo assim no dia seguinte voltava a comprar; tb me lembro de ter começado a deixar de comprar o Público qd começaram a fazer pagar pelo acesso online…

    Hoje em dia, por td isto e mais uma acentuada redução de qualidade nos conteúdos, já quase só o compro por saudosismo…

    Mas esta crónica fez retemperar, em mim, o gostinho, o prazer, de ler o Público à mesa do café…

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