O MAL QUE DIVIDE AS ALDEIAS (2)

Por este andar, disse-me há dias um velhinho reformado, na mais feliz das hipóteses e sem dramatizar excessivamente a teatrada, as lutas por aumento de salários ou contra o desemprego, por melhores condições de trabalho, impostos mais baixos e outras bagatelas menores penduradas nas barracas da grande feira da reivindicação ainda serão daqui a mil anos a norma permitida e oficialmente encorajada pela assembleia dos justos, a isca e engodo que nos impedem de começar a considerar a verdade primeira dum planeta que cada vez mais nos parece ser, em todos os aspectos e sentidos, resultado do esforço dessintonizado duma mente colectiva influenciável, compulsòriamente afastada das áreas fundamentais do conhecimento, pescando apenas o que lhe ensinaram a pescar, para gáudio dos inescrupulosos detentores dos arcanos milenários.

E continuou, o velhote : já são horas de se tocar alguns sinos de rebate, já é tempo para os menos parvos ou iludidos começarem a interrogar-se sobre se não haverá infantilismo político a mais na ideia de se pensar que as anseios da Humanidade podem ser eternamente acalmados com mais um ou dois euros por hora de vez em quando para alegrar o olho ao papá e habilitar o menino a mais um ou dois gelados por altura dos banhos, ou com uma greve-geral de vinte em vinte anos. Concordei plenamente.

Mas, que fazer? Isso também eu gostaria de saber ao certo, eu e o velhote do lar de esperar pela morte. Todavia, sugestões merecedoras de alguma consideração não faltam por aí, a pingarem de bocas ou a bailarem em cabeças com boas intenções. Que tal, por exemplo, a proposta honesta dum tal Eurico da Labareda para se ultrapassar com urgência a mentalidade reivindicadora e materialística dos pobres e remediados, cujo resultado imediato, e esperado porque premeditado por quem a tolera e cultiva, é o de sancionar, justificar e assegurar aos ricos a enorme fatia que lhes cabe? Ou a ideia nada má de que seria aconselhável fugirmos para bem longe, e quanto mais cedo melhor, das gratuitas e bolorentas explicações oficiais para “o que somos?” e “donde viemos?” que nos vendem ou impõem com a ajuda de ciências a soldo de políticas que se estão, no fundo, marimbando para nós? Que tal aceitar que há, no desafio que se apresenta no futuro a toda a gente de carne e osso, vantagem em incluir a participação activa da Alma e do Espírito que fomos ensinados a desprezar, única forma de nos reposicionarmos harmoniosamente em relação ao cosmos, de nos limparmos das lamas de mentira, de revogarmos decretos inspirados em filosofias de atrito entre classes, de negarmos direitos de arbitragem às administrações centrais que nasceram da iniciativa de dúzia e meia de abutres políticos a quem ninguém encomendou o sermão?

Até que alguém nos ilumine sobre essas ou outras sugestões mais capazes ou menos chocantes para o pusilânime mas satisfeito troglodita, uma simples passagem da nossa mão pela crista do galo politico que nos acorda todos os dias às seis da manhã com ordens para continuarmos o trabalho da Repetição servirá, no mínimo, para nos lembrar que o segredo supremo do Mal – a Manutenção e Congelamento da História Que Nos Ensinaram– continua a não dar mostras de querer revelar-se ou abrir-se voluntàriamente, apesar de tanta testa franzida, de tanto reparo por parte dos curiosos e preocupados inquiridores. Vê-se que o Senhor Mal ainda sabe a força que tem, provavelmente soma controlada das energias de todos os seus aliados

Mas há um obstáculo de difícil transposição atravessado no caminho do Mal e dos seus vassalos. É que a História, se bem que com tendência a coincidir nalguns aspectos do seu desenrolar não confirmado e por confirmar, só se repete nos sonhos e nas imaginações optimistas dos que pretendem falsificá-la ou escrevê-la a seu bel-prazer. A essa gente escapa-lhes a importante necessidade de não se esquecer que tudo tem um prazo para se consumir, sob pena de se causar enjoo ou repulsa ao consumidor. As coisas ou são frescas para poderem enganar ou espirituais para poderem perdurar.. O uso prolongado dum método de convencimento expressamente criado para criar ignorância torna evidente o caracter perecível e degradante da política que o utiliza. Tais métodos, quando batidos e gastos, são passiveis de promoção a lixo, senão redundam em desastre. E os desfechos últimos de registo histórico, mesmo se isso fosse, que não é, considerado fundamental e importante para uma solução final com base no Amor e Compreensão, dependerão sobretudo das reacções avisadas ou naturais do duplo elemento Humano-Espiritual. E é por isso que já começa a notar-se que esta não é das melhores épocas para se fazerem prognósticos fáceis usando as réguas e compassos do sistema antigo – uma enorme dor de cabeça para a irredutível, enganosa e enganada filosofia do Poder, para os Planeadores Gerais e para as Elites a soldo do Mal.

14 thoughts on “O MAL QUE DIVIDE AS ALDEIAS (2)”

  1. TT, só vim cá comentar para não ficares triste com a falta de eco (será que este eco também vem de oikos?), com excepção do nosso inefável bigornas, mas não sei que dizer, acho que a profundidade do teu texto me transcende, ou por outras palavras: que não percebi!

    Queiram os deuses que tenhas razão e que se possa proximar uma época onde prevaleça o Amor & Compreensão.

    Eu sou bem disposto em regra, mas trágico – de travejamento neomalthusiano – e acho que primeiro vem aí um flop do caraças e só depois, como isto é às ondas, virá uma nova época de concórdia, para os sobreviventes da desgraça.

    Mas pode ser que eu esteja enganado, o que era bem bom, e não o estando prometo-vos quevo u tentar ir na primeira leva, como compete por efeito karmico aos agourentos.

    Em qualquer caso acho que é uma pena que não tenhas vindo brinkar comigo de caçar a história escondida do Braganza diamond, que ainda não consegui descortinar por inteiro, para que te convidei noutra altura…

  2. Py,

    Obrigado pela reacção. Fizeste bem em não preceber e nem era para perceber. O Mal é uma invenção de certas cabeças, da minha, pelos vistos, também. Só que ao espírito inclinado para “invenções” desse tipo não lhe faltam oportunidades para se re-inspirar, mormente nas decisões arbitrárias dos mandões do Poder, visível ou invisível, por esse mundo fora. Mas como deixei explícito, o Amor com coragem para dizer “não” à mentalidade de rebanho parto-politiqueira levará a melhor no fim e eles sabem disso, mas esfolam-se para o evitar.

    Não me lembro dessa provocação Braganza Diamond, apesar de um dia já ter tido uma conversa muito interessante, mas acidental, com um dos Saboias no exílio. Repete-a, pode ser que tenha alguma a dizer sobre isso. Assim a priori, parece-me ser uma daquelas tuas partidas de brincar com as virilhas das pessoas cândidas como eu. Um abraço, seu malthusiano de não se importar de ir na primeira leva.

    TT

  3. Iaumin min al-aiam (num dia dos dias) havia um mercador em Bagdad que tinha um criado.
    Numa ocasião mandou o criado ao souk comprar um saco de laranjas.
    Quando lá chegou, o criado viu a Morte. A Morte olhou para ele e fez-lhe um gesto ameaçador.
    Assustado, voltou para casa e contou o sucedido ao patrão. E acrescentou: “Vou fugir para Samarra. Se partir agora, consigo lá chegar ainda esta noite”.
    Assim fez. Montou-se no burro e fugiu para Samarra.
    Intrigado, o patrão foi ao souk e de facto lá estava a Morte. Acercou-se dela e perguntou-lhe:
    “Morte, porque razão fizeste um gesto ameaçador ao meu criado?”
    A Morte respondeu-lhe:
    “Eu não fiz um gesto ameaçador. Fiz um gesto de surpresa por o ver em Bagdad, porque tenho um encontro com ele esta noite em Samarra”.

    TT, para ti, um bom dia!

  4. Py

    Não filho, não apanhei nada do que mandaste, se é que mandaste. Continuo muito interessado, sem ter porra de ideia do que se trata.

    Sininho,

    Não sei se a tua história tem uma moral à vontade do freguês, ou se servirá apenas para sublinhar fatalismos a que não podemos fugir.
    Seja como for, agradeço, mas prefiro a versão do Somerset Maugham. Como é que a porra dum burro vai de Bagdad a Samarra num dia com um gajo em cima? De cavalito ainda é como o outro.

    Outra coisa, que não sei se saberás: a engenhosa tropa anti-americana no Iraque anda a utilizar burros para transporte de rocket launchers. Um talento para a improvisação que não tem nada de asinino, além de doer quando resulta.

    Bom resto de dia e continua a mandar mais moral das mil e uma noites.

    TT

  5. Mandei sim pá, e olha que eu devo ser mais velho do que tu, papá!

    Vou-te reenviar uma versão reduzida, para ver se passa…

    Googla o Portuguese diamond, que está no Smithsonian I. Verás que dizem que não existe evidência de que tenha pertencido à casa real portuguesa, que seria antes uma pedra sul-africana e o nome um equívoco. Ora eu tenho a certeza de que é a pedra que está na pregadeira de D. José, no retrato da aklamação de 1750 que está nas Necessidades. Arranjei maneira de ir lá ver e fotografar. E também acho que não é por acaso que o retrato está lá resguardado em vez de estar num museu.

    O que é preokupante (?) é que escrevi cartas para o BdP e mais algumas pessoas, e nem uma respostinha. Falei com o gajo que estava a fazer o inventário das jóias da coroa e tentou vender-me à força que o dito Portuguese diamond era uma pedra sul-africana, etc, e até tinha estado com ela na mão!

    Conclusão: acho que o Portuguese diamond é a versão de cerca de 150 cts do Braganza diamond (há outra versão de 1580 cts mas parece que é uma menina, ou seja é a água-marinha que ainda estará (?) na Ajuda), e apareceu fora de Portugal pela primeira vez que eu saiba em 1928 nos joalheiros Black, Starr & Frost, em Londres. Ora estávamos na ressaca do Alves Reis e chegava a ministro Salazar, com as finanças de rastos depois da mamã Inglaterra ter recuperado o padrão-ouro para o esterlino à conta das reservas de Portugal, em nome do empréstimo e dos juros do esforço da Grande Guerra.

    Mais tarde ouvi dizer que o grande diamante azul teria sido pago, mas não regressou. Acontece que o Portuguese diamond ainda hoje é o maior diamante azul do mundo, na opinião de muitos, embora não de todos.

    (agora tenho de bazar)

  6. As sociedades não são perfeitas, nem os seus governos, cabe a cada um de nós lutar pelas causas e direitos que lhe parecem justos. É o que faço. Sinto-me bem assim.
    Continua o bom trabalho.

  7. TT
    É a segunda hipótese.
    Também sei que uma grávida não deve montar num burro pois arrisca-se a perder a criança. E o burro não tem culpa, mesmo se promovido a cavalo.

    As leis não são feitas para resolver o que está Bem mas sim o que está Mal, a excepção (mesmo que bárbara). Também não são feitas para resolver o espiritual, nem o governo existe para nos explicar e solucionar sentimentos.

  8. Py,

    Mesmo que um dia eles aceitem que o D. José foi o primeiro khan vaidoso a envergar a pedra, no que é que ficamos? Heróis do Mar, nobre povo, nação valente, suponho?

    Sinninho,

    Deixaste-me banzado com tanta sofistaria. Eu, confesso, sou mais simples nos meus critérios. Os homens bons fazem leis boas (às terças e quintas) e os maus leis más (no resto dos dias úteis da semana) e a maioria delas são copiadas de sebentas ou livros velhos de pessoas que os legisladores admiram ou então acatadas de ordens ou sugestões novas de certos gabirus da mesma família que controlam os preços do ouro e do bacalhau. Isto nos países pequeninos, onde há futebol colorido, pastéis de nata, bons pepinos, etc.. Nos outros não sei, mas se calhar decide-se tudo à volta duma mesa redonda, sorvendo-se chá ou café, sem cheiros de carne de porco a incomodarem narizes sensíveis. E os asnos não entram neste processo, a não ser em certos casos. aliás raríssimos, de emergência. E as mulheres grávidas ainda menos. Não vale a pena aumentares a parada.

    Porque as leis se encaixam todas umas nas outras e procedem na sua totalidade de filosofias arcanas cujo objectivo é o de fundar a República Capitalícia do Socialismo Não-Espiritual no contexto da presente Era da Cabalona, também não vou ligar ao teres esquecido de me dizer se as leis agradam a toda a gente de igual maneira ou se apenas a meia dúzia de ursos polares.

    E tens razão, o espiritual não se resolve. Não há meio de resolver-se. Ou se concentra ou se dissolve. Ou anda por ai sublimado e coitado à espera que o agarrem pela cauda e lhe dêem importância. E ficam-te muito bem esses sentimentos que o governo nunca ousará solucionar. Também era só o que faltava, depois de andarem a ensinar aos meninos ignorantes que os bébés são o produto do descuido de se deixar a pila dormir demais no orifício da maçã adâmica comida pelo bicharoco, etc. etc. etc..

    TT

  9. TT, a história está tão escondida e branqueada que só pode ter algo muito misterioso por detrás. O que é que ouviste dizer ao Sabóia?

    PS o Braganza é um diamante maldito…

  10. TT

    Se o país é pequeno ou grande, com bola, nata, queque ou duchesse, asnos e/ou mulheres grávidas num processo de decisão ou não, as leis não podem agradar de igual forma a todos.

    Será que me estás a tentar convencer que há leis feitas para os bons pelos bons e para os maus pelos maus? Ou para os bons pelos maus e para os maus pelos bons?
    Dá-me exemplos, concretos e actuais, só para eu despertar direito.

    Para quem são feitas as leis?
    Aquelas que não concordas são feitas para ti? Para mim?

    Têm um objectivo espiritual? Deviam ter? Como?
    Na tua aldeia, que é a da humanidade, resolve-se o espiritual ou vive-se o espiritual?

  11. Sininho,

    Por favor, não transformes isto num debate entre duas putas sobre a castidade. As leis são feitas para serem respeitadas por todos e aproveitadas por uma minoria. Soa bem, mas é uma opinião leve só para consumo exclusivo neste estabelecimento, o que por outras palavras é o mesmo que aconselhar-te a não perguntares a um jurista teu amigo para te elucidar, não vá o gajo cobrar-te por isso. Quanto ao “resolver” ou “viver” o Espírito, já fiz essa escolha há muito tempo. A tua, que me inspirou bastante, também já a sabemos desde ontem, basta releres aquilo que escreveste.

    TT

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