Uma trompete no coração da noite

Na noite em que festejo discretamente os meus 56 anos, um acaso leva-me a colocar no leitor de CDs um disco de promoção da música portuguesa apresentado no Festival do MIDEM em Cannes. Trata-se de uma edição da Sociedade Portuguesa de Autores e inclui músicas tão diversas como «Venham mais cinco» de Zeca Afonso, «Vila Faia» de Thilo Krasmann, «Amélia dos olhos doces» de Carlos Mendes e Joaquim Pessoa ou «Queda do Império» de Vitorino. Os músicos são quatro, mas os outros que me perdoem. Há um não sei quê de especial na trompete de Tomás Pimentel. É algo de muito familiar para quem nasceu numa casa de músicos filarmónicos e desde muito cedo aprendeu a ver o avô a lavar a trompete com água morna e bolinhas de chumbo. O tom puríssimo e alto de um som que guardei na minha memória afectiva regressa de súbito ao meu ouvido. Tomás Pimentel pega na trompete e espalha os mesmos sons quentes e tensos que o meu avô tocava só para nós depois de lavar a trompete com água morna e bolinhas de chumbo. Zezinho, queres ouvir o «Teodoro leva-me ao sonoro»? – perguntava o meu avô. E eu dizia logo que sim. Outras vezes era a moda da Rita: «Esta é que era a moda / que a Rita cantava / lá na Praia Nova olaré / Ninguém lhe ganhava». Tomás Pimentel lembra-me o meu avô por causa do modo firme e delicado, impetuoso e suave, alto e sussurrante como faz sair da trompete os sons das mais velhas canções portuguesas. Também o meu avô usava a surdina apenas quando a pauta musical o determinava. O som da trompete deve ser sempre amplo e cheio, forte e intenso, timbrado e solene para que a música possa ser um intervalo de festa na monotonia cinzenta da nossa vida.

José do Carmo Francisco

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