Para um retrato de Fernanda

Nos olhos de Fernanda existe e permanece uma melancolia serena, mas vigiada por intervalos de alegria. São intervalos de alegria as viagens e os encontros. Na Índia, na Etiópia, no Egipto, em São Tomé e Príncipe, no Dubai ou em Marrocos, as viagens são um apelo difícil de recusar. Por isso Fernanda viaja no tempo e faz crónicas modernas de lugares antigos, lá onde o som das caravelas sulcando o oceano ainda persiste nos búzios entre os recifes, as areias e as dunas das praias mais quentes.

Os encontros começam nos almoços ruidosos onde a ementa principal é a troca de testemunhos e de opiniões. Continuam entretanto, tarde fora, entre os licores mais doces do Inverno e os refrescos mais apetecidos do Verão. Nos olhos de Fernanda existe e permanece uma melancolia serena, mas vigiada por intervalos de alegria. Por isso, quando se despede e a sua sombra se perde no fim da rua perto do Teatro Nacional, apetece parar o tempo dos relógios e fixar um tempo interior onde seja possível não o desgaste mas a permanência. Para que Fernanda fique e seja o ponto de encontro entre a memória e a alegria.

Nos olhos de Fernanda há o apelo da água. A mesma água de onde saíram os sons que animam todas as orquestras do Mundo e todas as notas que povoam as pautas de todos os músicos. Os olhos de Fernanda são a estante onde se projecta e repousa uma música muito antiga mas sempre pronta a subir do lugar da escrita até à sua arte final, cumprindo assim a tarefa principal de todas as melodias. Ou seja: trazer ao coração dos homens um tempo feliz mesmo que essa felicidade seja veloz. Mesmo assim valerá a pena toda essa brevidade.

José do Carmo Francisco

5 thoughts on “Para um retrato de Fernanda”

  1. Muito lirismo, sim senhora. “as notas que povoam as pautas…”. rica imaginação. Bom para ir dsenjoando as conversas dos tribunos de toga.

    TT

  2. Li e apreciei o texto, fica-me a dúvida de não saber quem é a Fernanda. Mas gosta do mar, já é um ponto comum.
    O v/blog passou a fazer parte dos n/links por indicação de uma v/leitora habitual.

  3. fernanda,

    admiro-a imenso.

    só uma mulher, uma fêmea tinha capacidade para tanto.

    ser-lhe atribuido o título de namora de pinto de sousa e não mandar tudo às malvas é obra de fêmea.

    ou, honni soit qu’il mal y pense, é preciso ter uma grande cona.

    acabo por ter compaixão por si, de ter pena de si, que se vendeu sabe-se lá porquê e por quanto.

    tenho acompanhado os estertores da sua lógica; são estertores…

    para sua e nossa felicidade, Vexa é burra, estúpida; a única maleita que não tem cura.

    pergunto, sinceramente, se nunca alguém a mandou pró caralho? prá puta que a pariu?

    se a resposta for não, Vexa tem sido uma previlegiada.

    se a resposta for sim, direi que eu cá tinha um feeling…

  4. Obrigado, José Francisco, por teres dito da Fernanda aquilo que cada um de nós, que frequentamos os almoços ruidosos, gostaria de ter dito.
    Obrigado, Fernanda pela melancolia serena dos teus olhos e pela música antiga do teu sorriso.

  5. Quem assina o comentário do dia 16 às 4.40 pm tem que voltar rapidamente para o Miguel Bombarda de onde não deveria ter saído para o fim de semana. Volte já; você não é daqui.

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