Todos os artigos de Júlio

O Fabuloso Físico Fiolhais

Não se deve julgar ninguém pela aparência física, mas nunca vi ninguém tão cara de parvo como o físico (não é trocadilho) Carlos Fiolhais. Será que estou enganado e que o professor tem, afinal, cara de génio? Deixo ao critério do leitor, mas eu fico na minha.

Fiolhais, que andou pelos States e outros sítios, diz hoje no Público que viu afixada numa grande biblioteca americana uma tabuleta com os seguintes dizeres: “Libraries will get you through times of no money better than money will get you through times of no libraries.” Evocou isto no meritório propósito de defender, mesmo em tempos de crise, a construção de uma nova biblioteca para a Universidade de Coimbra, onde é professor.

O que ele se calhar não sabe é que correm outras versões dessa máxima, como a dos Fabulous Furry Freak Brothers, mais precisamente do Freewheelin’ Franklin, abaixo retratado a fumar uma passa, que nos anos 70 declarou: “Dope will get you through times of no money better than money will get you through times of no dope.” Pontos de vista…

.

FreewheellinFranklin
.

Já agora, comparem a cara de parvo do freak com a do Fiolhais.
.

Fiolhais

.
Mas não é para falar sobre nada disto que ouso roubar o escasso tempo do estimado leitor. O que me traz aqui é outra afirmação do Fiolhais no Público de hoje. Depois de elogiar a D. João V e a majestosa biblioteca joanina da Universidade de Coimbra, o Fiolhais refere-se também elogiosamente ao edifício da Biblioteca Geral da UC, mandado edificar pelo Salazar. Mas eis que depois do absolutismo e do salazarismo chega a democracia, em que “a cultura tem sido governada por gente inculta” ‒ Fiolhais dixit. Como resultado da democracia e dos seus governantes incultos, a BGUC está a “rebentar pelas costuras”.

Com esta boca parva (tirando o Santana Lopes, não me lembro de outro responsável pela Cultura que fosse inculto), o Fiolhais arruína toda a sua nobre argumentação em prol da construção duma nova biblioteca universitária. Onde é que este gajo tem andado desde o 25 de Abril para não ter reparado nas verbas enormes que foram destinadas a bibliotecas novas, restauradas ou aumentadas? Como Fiolhais é politicamente sectário e preconceituoso, não me admirava nada que ele tivesse também subscrito aquele abaixo-assinado contra as obras de ampliação da Biblioteca Nacional ‒ mais uma das “obras faraónicas” do Sócrates, daquelas que “comprometem o futuro dos nossos filhos”.

A mania de atribuir culpas à democracia é um tique à la mode de variadíssimos cretinos e imbecis, entre os quais eu não gostaria, a priori, de incluir o Fiolhais, mesmo sendo ele um ferrenho adepto do ministro Crato. Fiolhais foi, aliás, o autor de um panegírico acrítico da acção do ministro, considerando que ele está a levar a cabo uma revolução, quando, cada vez mais, todos vemos que o seu objectivo é a destruição meticulosa e programada do ensino público.

POST SCRIPTUM

O artigo do Fiolhais faz publicidade aos 16 livros facsimilados da biblioteca joanina que o Público vai vender por um “preço módico”. Como ele ignora que a democracia tem feito boas coisas pela biblioteca de Coimbra e pelos seus utentes, esqueceu-se de dizer que esses mesmos livros que ele publicita já estão disponíveis online, GRATUITAMENTE, no site da BGUC Digital, juntamente com centenas de outros livros digitalizados…

 

Flocos do Neves

O Tribunal Constitucional está, claramente, a funcionar em termos políticos, temos um outro Parlamento ali e, por acaso, curiosamente, a maioria é da oposição”.

Quem largou ontem esta pérola foi o inevitável homem Das Neves, o ex-assessor de Cavaco Silva e actual professor catedrático da Universidade Católica, um palavroso calino que tem lugar cativo nos meios de comunicação social. Só nas últimas horas brindou-nos com uma entrevista à TSF e outra ao Expresso.

César das Neves pensa, claramente, que o Tribunal Constitucional é um cancro do Estado de Direito. Bem, ele também confessa nada perceber de Constituição.

Mais flocos do Neves:

Não percebo nada da Constituição, por isso nem vou comentar as decisões do TC.”

Agora, quando vejo que o TC, em vez de invocar detalhes jurídicos, invoca o princípio da igualdade, que é um principio genérico que qualquer cidadão percebe, e vários dos juízes lá dentro votaram contra isto, as coisas afinal não são assim tão óbvias, e, portanto, sem entrar em manipulações da lei, era possível perceber uma coisa, que aliás era óbvia, que é que o lado privado da economia está a sofrer cortes brutais não de um salário, mas de 12 ou 14, desde 2008. Quando, finalmente, cortam um salário aos pensionistas e aos funcionários, o TC diz não, porque isto não é igualitário.”

Não se vêem manifestações de pobres e desempregados em Portugal, não se vêem manifestações de emigrantes. Os verdadeiros oprimidos, os verdadeiros proletários, desses, ninguém fala. Infelizmente, em Portugal, não temos nenhum partido a defender os pobres. A maior parte das manifestações, dos protestos dos partidos, são para defender a manutenção de benesses que, evidentemente, são pagas pelos impostos dos pobres.”

Interrogado sobre quais as alternativas ao perdão da dívida a Portugal, como o alargamento de prazos ou o perdão de juros, o “técnico” Das Neves estadeou a sua imensa sabedoria:

Há várias maneiras e técnicas de fazer. Eu nem sequer domino o tema, porque não sou financeiro.”

Da entrevista do Neves ao Expresso colhi algumas frases sobre o novo papa, cuja boa imagem o incomoda notoriamente.

Reconhecendo a “euforia mediática” que rodeia o papa Francisco, César da Neves quer todavia acreditar que quem estiver à espera de mudanças na doutrina do catolicismo “vai ter uma grande desilusão”, pois o papa “não quer andar para aí a partir tudo”. E, se acaso quisesse, aí estava o César da Neves para o impedir:

A doutrina é claríssima, não vamos mudar nada. Não se espera isso. Nem compete ao papa. Ele não é dono da doutrina. É servo da Igreja”.

O Francisco que se cuide, porque o Das Neves não quer mudanças na Igreja católica.

Dois aldrabões compulsivos

No momento em que escrevi esta carta, em 5 de Novembro de 2008, não tinha quaisquer acções ligadas ao Banco Português de Negócios (BPN). Aliás nunca tive, em qualquer momento, acções do BPN. Equivocadamente escrevi então que nunca tinha tido acções da Sociedade Lusa de Negócios (SLN). É bom sublinhar que este é o único ponto da minha carta em que existe uma incorrecção factual”.

(Do comunicado de Rui Machete divulgado ontem).

Isto é, o mangas confessa que mentiu ao parlamento, chamando “incorrecção factual” à mentira, mas continua a querer gozar com a malta. Afirma que se trata de um equívoco, pois o que queria dizer era que nunca teve acções do BPN.

Pois não. Nem nenhum indivíduo teve tais acções, porque o BPN, como Machete está fartinho de saber, era detido a 100% pela SLN.

Ou seja, para justificar a mentira, Machete vem agora com outra história da carochinha.

Uma particularidade desta história bufa é que ela se assemelha muito a outra, protagonizada por Cavaco em 23 de Novembro de 2008, no célebre comunicado em que declarou que nunca comprou nem vendeu nada ao BPN.

Pois não. Cavaco comprou e vendeu acções à SLN, única detentora do capital do BPN…

Coelho queria um capacho

TC por Vives-Rubio

Passos Coelho gostaria que o Tribunal Constitucional se resumisse a este capacho que se encontra no fundo da escadaria do Palácio Ratton e que que o fotógrafo catalão Enric Vives-Rubio se lembrou de retratar. Ora o TC tem-se recusado a ser um Tribunal Capacho e a maioria dos comentadores, incluindo vários do partido no poder, não tem alinhado na estratégia de descredibilização do órgão, essencial num Estado de Direito.

Os cinco chumbos que, em apenas um ano, o governo já levou por parte do TC estão a enraizar a certeza de que há um propósito de confrontação e de desafio à ordem constitucional. Segundo todos os indícios, o governo vai continuar a insistir em tal estratégia nos tempos que se avizinham, visando a crescente intimidação dos juízes e a construção de alibis para uso interno e externo. O desemprego cresceu? A culpa não é do governo, é da Constituição. As metas negociadas com a troika não vão ser cumpridas e o segundo resgate parece inevitável? A culpa é dos juízes do TC, que não têm “bom senso”.

Tais alibis caem pela base quando se pensa três segundos. Durante décadas, tivemos taxas de desemprego à roda de 5% – e até inferiores – com idêntica Constituição e com leis laborais bem mais condicionantes. De resto, as reformas que este governo quereria fazer vingar só aumentariam o número de desempregados, com dezenas de milhares de funcionários públicos a serem despedidos. A tentativa de Coelho de virar os 900.000 desempregados contra a Constituição é conversa de carteirista para distrair otários. Até o padrinho Ângelo Correia achou “injustificável” a boca de Coelho e já suspeita que o seu afilhado “não se preparou para ser governo”.

No caso do recente chumbo do TC ao regime de mobilidade da função pública, a comentadora Ferreira Leite acusou anteontem o governo de pretender “amedrontar as pessoas com um papão” e de fazer “um bluff de todo o tamanho”, porque os efeitos orçamentais desse novo regime, se não tivesse sido chumbado, nunca se iriam fazer sentir nem no presente ano nem no próximo, mas só a partir de 2015. Dados os conhecimentos e a vasta experiência de Ferreira Leite em matéria de bluff e de amedrontação do público, temos que considerar esta sua opinião como a de uma expert.

Os portugueses não são otários e a troika já percebeu que o governo anda a tentar construir alibis, nomeadamente para futuras negociações. O recorrente ataque de Coelho à Constituição e ao TC – combate em que se irmana cada vez mais com o incontinente sultão da Madeira – não faz qualquer sentido e sugere que o governo está numa situação desesperada. Sem falar do desgraçado exemplo de desafio à lei que tal estratégia vem dando ao país.

A cruzada anti-piropo

A estação tonta está a chegar ao fim. Já é possível fazer um balanço provisório e propor prémios para as maiores tontices proferidas neste verão. Sério candidato ao primeiro lugar é o quixotesco ataque que algumas ferrabrases bloquistas se lembraram de lançar contra o piropo.

O tema foi mesmo desenvolvido este fim-de-semana durante o Fórum Socialismo 2013, no painel “Engole o teu piropo”, a cargo de duas amazonas do Bloco que querem acabar com essa instituição multimilenária de nome grego (pir + ops = olho de fogo, vá lá saber-se porquê). Adriana Lopera deu exemplos de piropos escolhidos para sustentar a sua cruzada, tais como: “És boa como o milho! Anda cá que te quero transformar em pipoca”. Isto na tentativa de explicar uma coisa “tão difícil de entender”, a saber, “porque é que o piropo é machista”. Mais, o piropo, na opinião de Adriana, é “agressão verbal”, “assédio sexual”, “violência contra as mulheres” e outras coisas mais.

Adriana devia estar a referir-se ao piropo 1) ordinário, 2) ofensivo e 3) dirigido por um homem 4) a uma mulher, porque como é sabido, o piropo, definido pelos dicionaristas não bloquistas como “galanteio, elogio, frase amável ou lisonjeira dirigida a alguém”, não tem logicamente que ser 1) ordinário, 2) ofensivo e dirigido obrigatoriamente 3) por um homem 4) a uma mulher. Mas Adriana, que não ficaria mal a ensinar androfobia numa madrassa ao contrário, não se ocupa de minudências.

A propósito, encontrei um site cor-de-rosa que tem uma página intitulada Como conquistar um rapaz. Dele respigo estes conselhos dados às raparigas:

“Diz-lhe piropos para conquistá-lo. A coisa é muito fácil. Os homens, tal como as mulheres, gostam de ser elogiados. Os homens têm um grande ego e gostam de saber que são os melhores e portanto qualquer tipo de elogio nesse sentido vai conquistá-los muito facilmente. […] Mostra-te divertida. Os rapazes adoram raparigas com sentido de humor. […] Também é muito importante que transmitas segurança de ti mesma. Uma mulher com carácter e personalidade é sempre muito bom. Demonstra que não dependes dos homens e isso poderá ser uma boa táctica.”

Noutra página do dito site, dedicada ao piropo, dão-se alguns exemplos, se bem que estafados e falhos de imaginação, que tanto podem ser proferidos por homens como mulheres:

“Tenho que comprar um dicionário. Desde que te vi, fiquei sem palavras.”
“Deus deve estar distraído pois os anjos estão a cair do céu.”

Podemos pensar o que quisermos do tom delicodoce e superficial que impera neste site, mas dificilmente o suspeitaremos de machismo e de promoção de assédio e violência verbal contra mulheres. Ao lado do primarismo neurótico do Esquerda.net, o site Amor-amizade.com até parece super-inteligente.

O cónego dos bombistas

Em Braga lá puseram a estátua do Cónego Melo no seu pedestal. O socialista Mesquita Machado não se queria ir embora sem se certificar que o amigo dos bombistas dos anos 70 tinha mesmo o seu bronze a dominar uma rotunda. “Era um bracarense dos sete costados” – disse o autarca, justificando a homenagem (votada só pelos socialistas locais, com a abstenção dos partidos da direita). A expressão correcta seria “dos quatro costados”, mas pelos vistos o cónego tinha sete. Coisas do Minho profundo, presumo.

Talvez o próprio Mesquita Machado, outro bracarense dos sete costados, lhe queira fazer companhia em cima do pedestal daqui a uns anos. Com catorze costados, seria uma estátua única no mundo.

Governo on, governo off, governo out!

A grande invenção do Maduro, até agora, são os briefings, que em português se diz sessões de informações. Mas sessão de informações é notoriamente uma expressão longa de mais, difícil de dizer, chata e cafona. E depois shit soa muito melhor do que merda, não acham?

Um briefing também pode ser uma sessão de instruções, que era mesmo o que calhava ao governo: instruir os jornalistas sobre o que eles devem escrever. Quando o cérebro do ministro espremeu os briefings, devia estar a pensar nesta vertente de instrução. Mas os jornalistas têm o péssimo costume de fazer perguntas, o que potencialmente estraga qualquer sessão de instruções bem intencionada.

Através de declarações avulsas, porta-vozes, conferências de imprensa, comunicados, entrevistas, etc. sempre os governos têm informado ou desinformado a comunicação social do que andam a fazer ou fingir que fazem. O Botas era mais notas oficiosas de publicação obrigatória, pois não dava confiança a jornalistas, excepto de muito longe a longe, e sobretudo a estrangeiros.

Qual é a diferença que o briefing do Maduro introduz? Nenhuma, a não ser o nome inglês e, hipoteticamente, a periodicidade, que de resto não está no nome. Um briefing pode ser um acto único, diário, semanal, anual ou quando der na real gana de quem brifa. Ora os briefings do governo foram anunciados como diários, depois passaram a bissemanais e, destes últimos, um já foi cancelado. Um pagode.

O briefing à portuguesa tem também, segundo o inefável Lomba, um botão on/off. Os governantes, disse ele, poderiam falar on the record ou off the record. Como o nome indica, o que é dito em off não pode ser registado nem desvendada a sua autoria. O off é bom para a intriga, a mentira, a insinuação anónima ou para quando o governante não sabe o que dizer. É como uma conversa do governante com o jornalista amigo. Um off em briefing colectivo, com testemunhas, é uma coisa muito esquisita. Uma coisa em forma de Lomba.

Depois do fiasco que têm sido os briefings, que até já levaram à “demissão em directo” de um governante “inconsistente”, para não dizer mentiroso (liar seria mais chic), Maduro brifou agora os jornalistas que os briefings vão ser suspensos, para o modelo poder ser “repensado”. Não excluem sequer contratar um briefer profissional, vulgo porta-voz, que consiga o milagre de transformar a acção deste governo em qualquer coisa de inteligível e até atraente.

Entrementes, o governo cancelou o off e anda agora à procura de outra coisa. Com resets já não vão lá. Sugiro um out para a equipa toda.

Como se faz render uma sinecura

Rui Machete, que tinha sido ministro da Justiça e vice-primeiro ministro no governo do Bloco Central, foi posto de lado por Cavaco Silva na composição dos seus governos a partir de 1985. Não era nada de pessoal contra Machete, mas ter participado no governo do Bloco Central era de muito má nota para o PSD cavaquista. Em todo o caso, como “compensação” (o termo é do embaixador americano Thomas Stephenson), Cavaco entregou-lhe em 1988 a presidência da FLAD, onde Machete se iria notabilizar por oferecer negócios e investimentos a empresas por ele participadas e por conceder grants (fundos, bolsas, financiamentos) a troco de favores políticos, no interesse da manutenção da sua “sinecura” (a fonte destas informações continua a ser o embaixador Stephenson). Às reclamações de vários embaixadores americanos, Machete respondeu que o governo dos EUA não tinha nada que interferir nas operações da FLAD e informou mesmo um representante do Congresso que lhe começou a fazer perguntas que essas operações “are none of your business” (idem). Isto, quando o governo americano tinha metido em poucos anos 111 milhões de dólares na FLAD, que constituíam o grosso do seu portfolio. Manifestamente, Machete queria gerir sozinho o bolo, sem dar cavaco aos financiadores, gastando aliás boa parte das suas receitas em despesas administrativas, sumptuárias e de public relations, estas entregues a uma firma da sua confiança política (idem).

Já neste século, Machete comprou para a FLAD dois milhões de acções da SLN/BPN a 2,20 € cada, ou seja, um investimento de 4,4 milhões de euros, feito basicamente com o dinheiro dos contribuintes americanos. Machete era então o presidente do Conselho Superior da SLN, como se sabe. Agradecido, Oliveira e Costa ofereceu a Machete, antes ou depois desse negócio, 25,5 mil acções da mesma SLN a 1€ cada, ou seja, menos de metade do preço que a FLAD pagou. Esta notícia do Expresso de hoje é a confirmação cabal e absoluta do que, de resto, todos os portugueses já sabiam: Machete beneficiou pessoalmente de um tratamento de favor por parte da quadrilha da SLN/BPN, tal como Cavaco.

Concluindo, Rui Machete não passa de um corrupto. O ministro dos Negócios Estrangeiros deveria ir imediatamente para a rua e as autoridades portuguesas deveriam instaurar um inquérito à sua presidência da FLAD. Se os americanos não podem meter o bedelho, nós podemos!

A podridão e a baixeza do governo denunciadas por quem lá esteve

O governante que se demitiu ontem alegou ter havido manipulação da proposta entregue em 2005 pelos representantes do Citibank (ele incluído) ao gabinete do então primeiro-ministro. O original da dita proposta* não coincidiria, segundo ele, com o revelado há dias pela SIC e pela Visão. O fulano disse mesmo que o documento terá sido perfidamente “falseado” de modo a incluir o seu nome, que não constaria do original.

Podemos assim inferir que o fulano, apesar de já ter reconhecido (depois de ter negado) ter estado em três reuniões com o dito gabinete para apresentar a dita proposta, tê-lo-á feito anonimamente, quiçá sob um nome falso. É grave.

Ontem à noite, porém, a SIC desvendou a origem do documento que o fulano que se demitiu sustentou ter sido “manipulado” e “falseado”: nada mais nada menos do que “a residência oficial do primeiro-ministro”, ou seja, o gabinete de Passos Coelho.

Ficámos assim a saber que a podridão política e a baixeza intolerável de que o fulano se queixava eram, afinal, acusações dirigidas ao governo de Passos Coelho.

______

* O título do documento apresentado em 2005 pelo Citibank ao governo era: “Uma proposta de gestão do passivo para a República Portuguesa”.

Post-scriptum: O governo, com alegada intenção de “afastar dúvidas”, veio hoje aumentá-las, afirmando que não forneceu à SIC o documento que esta revelou. O governo não quis dizer se o dito documento está ou não está, e em que forma, no arquivo do governo. Se está, porque é que o primeiro-ministro não esclareceu cabalmente se o documento revelado pela SIC é ou não “falseado”? Se não está, porque é que não o disse?

O mealheiro dos laranjas

Machete fez como Cavaco, ou vice versa, Cavaco fez como Machete.

Foi hoje revelado que o actual ministro dos Negócios Estrangeiros também fez pela vidinha na SLN. Aqui há uns anos – não foi dito quando ao certo – comprou 25,5 mil acções à SLN, a cujo Conselho Superior presidia (até se começar a saber cá fora que aquilo cheirava a esturro), e vendeu-as depois com 150% de lucro ao BPN, o banco detido a 100% pela dita SLN. Tudo entre compinchas e fora da bolsa.

Comprou a 1 €, vendeu a 2,5 €. Ganho da operação: 38.250 € – pouca coisa comparada com os ganhos da família Cavaco, dez vezes superiores. O que Machete fez foi para “proveito pessoal”, esclareceu também hoje o próprio à Antena 1.

Como é sabido, os títulos da SLN eram acções não cotadas no mercado, que alguns sortudos compravam a um preço de favor para depois as venderem a um preço igualmente estipulado pelos amigos, com ganhos generosos. No caso de Machete, que só ganhava 1.250 € por cada reunião do Conselho Superior a que ia dormir, era uma maneira de ser remunerado à parte pelo seu importantíssimo papel na SLN, que consistia em estar lá e não supervisionar coisíssima nenhuma.

Para cúmulo, Machete vem agora dizer que as transações que fez nada têm de ilícito nem sequer de “censurável”, pois que, segundo alegou, “milhares de portugueses negoceiam em acções”. Mente portanto, o descarado, ao sustentar que não ganhou milhares de euros mediante um tratamento de favor, tal como Cavaco já fizera. Se foram ou não “milhares” de amigos laranjas a lucrar dessa maneira, não sei. Mas 99,99% dos portugueses jamais poderia ter feito o mesmo negócio: a SLN/BPN era um mealheiro privativo.

Carta ao Presidente da República

Sr. Presidente

Dirijo-me ao respeitável cargo, não ao Aníbal que acidentalmente o detém.

O sr. Presidente vai falar hoje ao país. Não lhe restava outra hipótese, pois o país exige que o sr. promova urgentemente uma saída para a actual crise. Esta foi gerada, recordo, pelas demissões sucessivas do ministro das Finanças, “número dois” do executivo, e do ministro dos Negócios Estrangeiros, número três, que é também o líder do partido que garante a maioria em que o governo assenta. No seguimento dessas demissões e do estupor que isso lhe terá causado, o sr. Presidente desenvolveu várias acções tendentes a resolver a crise, embora considerando que o actual governo continuava na “plenitude das suas funções”. Depois de uns episódios de telenovela e de umas negociações feitas de afogadilho entre os dois partidos da actual coligação, o sr. Presidente foi confrontado com uma proposta de remodelação do governo nos termos da qual o ex-número três passava a número dois, com o posto de vice-primeiro ministro e com a coordenação das pastas económicas, entre as quais a das Finanças.

Ora o sr. sabe tão bem como eu que a actual situação do país não se compadece com soluções de baixa opereta e que o pretendido número dois, além de ter perdido qualquer credibilidade política, carece de qualificações plausíveis para ser o coordenador das pastas económicas do governo. Recordo-lhe ainda que ele se demitiu porque não aceitou a nomeação da actual detentora da pasta das Finanças, que ele agora pretende “coordenar”. Acresce que o primeiro-ministro é, como o sr. também sabe, um triste incompetente que em dois anos fez exactamente o contrário de tudo quanto prometeu. Assim, sr. Presidente, avalizar a remodelação governamental que lhe foi proposta seria o passo mais desastrado da sua carreira. E não me estou a esquecer de nenhum dos passos desastrados que o sr. já deu.

Quando a coligação de opereta esperava que o Presidente fosse seu cúmplice e viesse pasmadamente, como é seu timbre, ratificar a remodelação proposta, o sr. decidiu falar ao país. E que disse aos portugueses? Omitindo gritantemente o assunto remodelação, desafiou o principal partido da oposição a contribuir para um compromisso de “salvação nacional”, tido como indispensável para tranquilizar os credores de Portugal até a umas eleições legislativas antecipadas. Não vou esmiuçar aqui os diversos aspectos insólitos e patéticos de tal desafio, porque nunca acreditei que tivesse sido lançado de boa-fé. Sempre o encarei como uma manobra de diversão, cujo expectável resultado – que está hoje à vista – serviria ao Presidente para tentar justificar a decisão que tem preparada e hoje anunciará ao país.

O sr. Presidente diz-se movido apenas pela busca de uma “salvação nacional”. Pois se assim é, o primeiro passo que o sr. terá de dar nessa direcção consiste em pôr imediatamente termo a este governo incapaz, descredibilizado e falido. Não querendo desde já dissolver a Assembleia e marcar eleições, decisão que posso respeitar em face das justificações que apresentou, resta, pois, ao sr. Presidente propor à actual maioria um governo de iniciativa presidencial, que deverá gerir o país até às eleições que o sr. oportunamente marcará. Esse governo deverá ser composto por pessoas não comprometidas com os dois anos de governação que levaram o país a esta situação miserável e que não provoquem a priori nos portugueses a ira e o escárnio que a actual coligação provoca. Se a maioria parlamentar não quiser contribuir para essa solução, com o que provaria ser também profundamente estúpida além de totalmente inepta, então o Presidente terá que ir para uma imediata dissolução da Assembleia.

A pífia manobra de diversão que o sr. Presidente ensaiou – para tentar passar as culpas da presente crise para a oposição e assim coonestar a decisão que vai hoje anunciar ao país – permite prever que essa sua decisão não será aquela que eu aqui lhe aponto. Se assim for, sr. Presidente, despeça-se definitivamente da alta magistratura que os portugueses lhe confiaram, pois estes passarão a olhá-lo como um mero fantoche de feira, sem qualquer dignidade nem préstimo.

Bimbo, Bimby & Boliqueime

Passos garante que indigitará Portas como vice-primeiro-ministro após negociações com PS”.

Público

Bimbo, que teimou em manter Relvas no governo até ao limite das suas forças, teima agora em promover Portas a Bimby do governo caído em descrédito.

Das duas, uma: ou Bimbo já combinou isso com Boliqueime, hipótese que me parece improvável, ou Boliqueime, que nunca foi à bola com Bimby, reserva aos dois uma grande surpresa.

O último cavaquista

O ex-major Ramalho Eanes, doutorado pela Opus Dei, testemunha abonatória do banqueiro Jardim Gonçalves, fã do homem de Boliqueime e putativo mediador do famigerado “acordo de salvação nacional”, botou há bocado faladura, para dizer à RTP:

Estou perfeitamente convencido de que, com esta iniciativa do Presidente da República, tão ousada e tão correta, nós vamos poder sair desta situação de crise”.

Eanes não é palhaço, mas parece estúpido. Ninguém é perfeito…

Convite à salvação

PCP e Bloco rejeitaram com sarcasmos idiotas a sugestão socialista de o convite à salvação de Cavaco lhes ser extensivo. Era o que se esperava. Claro que a sugestão socialista também era meramente retórica – exactamente, aliás, como o convite que Cavaco fez ao PS. Uma farsa com tendência a reproduzir-se em série.

Comunas e bloquistas não participam em coisa nenhuma que não seja derrubar governos, especialmente se forem socialistas. São partidos de bota-abaixo. De cem em cem anos há uma revolução popular que eles conseguem manipular durante umas semanas. Aí conseguem acercar-se do poder, expulsando de lá os outros, o que lhes dá muito gozo durante essas semanas, uma vez em cada século. Depois são varridos de cena a tempo de se evitar uma guerra civil.

Em todo o caso, acho que o convite que Cavaco dirigiu ao PS e aos partidos do governo devia antes ter sido dirigido aos quatro partidos da coligação negativa que em 2011 rejeitou o PEC, se bem se lembram: o PSD, o PP, o PCP e o BE.

Tinha muito mais lógica. E, se resultasse, Cavaco arriscava-se a ter o prémio Nobel por transformar uma coligação negativa em positiva.

Soluções com cabeça

Um cientista italiano diz numa revista de neurocirurgia que já é possível fazer transplantes de cabeças humanas – ou de corpos humanos, depende do ponto de vista. Até agora o obstáculo era a fusão das espinais medulas do dador e do receptor, coisa que o italiano diz resolver com umas colas especiais aplicadas no local do corte (não tentem fazer isso em casa). O cientista, que não se chama Frankenstein, mas Canavero, diz que várias situações médicas irremediáveis podem deste modo ser sanadas, ligando uma cabeça saudável a um corpo igualmente sem problemas e deitando fora o resto. Mal o artigo de Canavero foi divulgado, apareceram logo na rede social Reddit candidatos a dadores de cabeças, mas ninguém, por enquanto, a oferecer o seu corpo.

Creio que ficam assim abertas as portas à resolução de inúmeros problemas, não só médicos, como familiares, estéticos, comerciais, políticos, etc. Imaginemos, que é grátis.

Situações familiares traumatizantes podem ser evitadas se certos casais, em lugar de se divorciarem, se fundirem, passando sem drama a família monoparental. Pessoas inteligentes e bondosas, mas infelizes com os seus corpos, podem chegar a acordo com pessoas de físico invejável, mas estúpidas e más, para fundirem as suas partes valiosas. Dir-me-ão que uma pessoa má não doa o seu corpo. Pois não, mas se for suficientemente estúpida, doa.

Na política, a utilização do transplante cefálico pode ser particularmente frutuosa. Por exemplo, quando um governo de coligação bipartidária entra em crise, um ou vários transplantes de cabeças podem resolver o impasse. Na actual situação portuguesa, o conflito entre o ministro dos Estrangeiros e a ministra das Finanças teria facílima solução, que julgo seria a contento de ambos e também dos contribuintes. Outros transplantes se podem facilmente conceber, dado o número de cabeças sem préstimo que actualmente povoam os pescoços do governo e de Belém. A duvidosa remodelação governamental que se anuncia para a próxima semana não vai servir para nada, a não ser para enterrar ainda mais o país. A minha modesta proposta é que se tente uma pioneira transplantação governamental.

Reserve já o seu exemplar

“Naquele verão frio como não havia memória, em que os portugueses assistiam, finalmente esperançosos, ao cumprimento escrupuloso das metas de política orçamental e à paulatina retoma do crescimento económico…”

– começa assim a obra ficcional de carácter memorialístico que Vítor Gaspar está a escrever no seu retiro de férias e de que dou aqui em primeira mão este aperitivo.

Espera-se que o livro seja um best-seller lá para Novembro. Os funcionários públicos acorrerão em massa às livrarias para o comprar, sacrificando de bom grado uma pequena parcela do subsídio de férias que julgam que vão receber.

Este vosso criado, Portugal

No dia 1 de Julho, véspera de se demitir, o ministro dos Negócios Estrangeiros, alegando “considerações técnicas”, mandou cancelar a autorização para sobrevoar e aterrar em solo português que o seu ministério havia dado ao avião do presidente boliviano Morales, no seu trajecto de La Paz para Moscovo e volta.

Que considerações técnicas seriam essas? Estariam os controladores aéreos em greve ou os radares parados para manutenção? Os aeroportos de Portugal estariam superlotados? Como nesse dia o tráfico aéreo sobre Portugal foi perfeitamente normal, há que excluir todas as razões que se aplicariam aos aviões em geral. Seria o avião de Morales demasiado poluente? Haveria risco de explodir ou cair sobre o território nacional? Portugal não teria combustível apropriado para ele? Como o avião dele é exactamente igual aos outros e não há notícia de estivesse avariado, nem sequer carregado de ogivas nucleares russas, há que procurar outras razões “técnicas” possíveis.

Será que por “técnica” Portas se referia à técnica da aldrabice? Ou aludiria à técnica da subserviência nacional?

Deve ser isso. Os americanos, que despediram recentemente centenas de trabalhadores da base aérea das Lajes, podem contar connosco para caninamente lhes lambermos as botas. Os americanos podem transportar secretamente através do nosso espaço aéreo prisioneiros para Guantanamo e abastecer o avião à vontadinha, que nós nem queremos saber. Os americanos estão permanentemente convidados para se encontrarem em território nacional com dirigentes políticos europeus para falar dos preparativos de guerra contra outro país, que a gente até manda o nosso primeiro-ministro para lhes engraxar as botas. Os americanos podem escutar-nos e espiar-nos à vontade, que a gente até gosta. Não podemos, por isso, deixar passar o avião do presidente democraticamente eleito de um país com quem mantínhamos relações normais (que agora podem acabar), porque podia haver o perigo de ele ter dado boleia a um colaborador dos serviços secretos americanos que bateu com a porta e desmascarou a espionagem maciça que os EUA fazem aos seus aliados.

Reles Ministério dos Negócios Estrangeiros!