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A Ciência confirma o óbvio: hoje é o dia mais deprimente do ano

O psicólogo Cliff Arnall, da universidade de Cardiff, provou cientificamente o que já nos parecia uma evidência: o dia 23 de Janeiro vai ficar marcado a vermelho no calendário como o mais abominável do ano. O esforçado cientista usou “uma fórmula elaborada” que levou em conta o mau tempo, as dívidas pós-natalícias, as resoluções de ano novo frustradas e muitas outras variáveis similares. Só se esqueceu de incluir nos seus cálculos a vitória de Aníbal Cavaco Silva; tivesse ele dado a importância devida a este factor infausto e estaria encontrado o dia mais sorumbático da década.

Iatrofobia (1)

Sala de espera de um hospital ferrugento, estreito, inadequado. Espero por alguém que há-de sair de uma pequena cirurgia. Espero agarrado a um livro, tentando desviar os olhos dos coloridos panfletos sobre a psoríase, sobre o herpes labial, sobre um bestiário inteiro de pequenas criaturas letais que por ali devem andar em barda.
Um velhinho, com ar de padre reformado, resolve combater o medo falando. E fala, para o seu acompanhante e para o mundo em geral. Começa por perorar sobre as qualidades imprevisíveis da gravidade noutros planetas. Depois, vem a extinção dos dinossauros, a tectónica de placas, o império romano e a mecânica celeste. O pior, além do tom monocórdico do monólogo, é que o pobre e assustado homem inventa metade do que diz: o meteorito que deu conta da bicharada jurássica causou a cavidade do oceano Atlântico, os continentes trocam de posições várias vezes ao milénio e a Terra cai pelo espaço mais ou menos a metade de C. Estão a nascer ali capítulos inteiros de uma alucinada história natural alternativa, um delírio febril em forma de alocução académica.
Meio acabrunhado, escondo-me num jornal gratuito. E dou de caras com uma coluna de Nuno Júdice em que ele me garante que Colombo encontrou, em vez da almejada Índia, “os Estados Unidos” — sendo depois talvez recebido pelo presidente republicano Trovão da Pradaria.
Parece-me que o mundo inteiro acordou com uma tremenda ressaca e está ainda incapaz de dizer coisa com coisa.

Em resumo

Como previsto, Cavaco ganhou mesmo à primeira volta. Mas nem assim deixa de ser uma nulidade política, incapaz de começar um discurso de vitória sem falar nas “lições de civismo” que damos não sei bem a quem (estaria à espera de tiros ou coisa que o valha?). Alegre provou o que queria: o PS fez a escolha errada. Soares afundou-se.
Francisco Louçã e Jerónimo conseguiram aguentar-se, ganhando algumas (poucas) dezenas de milhares de votos face às últimas votações nacionais dos seus partidos.
Duas alegrias pessoais: Alegre venceu claramente o antigo “pai da pátria” e Cavaco não logrou a hiper-validação do seu mandato que me deu maus sonhos durante três meses; desse fado, lá nos salvámos.
Enfim; podia ser pior. Mas não muito.

PS: Podia ser pior, podia. Talvez por ter a visão enublada por lágrimas irreprimíveis, tresli os números da CNE. Louçã desceu e muito.

A primeira volta do resto das nossas vidas

Até há uns minutos, continuava indeciso. Indeciso sobre se escreveria qualquer coisa mais sobre as eleições, claro está. Mas, depois de ver a malta do costume aos berros por uma vitória “à primeira” do seu candidato (sugerindo um discreto desespero: se não for à primeira volta, quem sabe o que poderá acontecer?) porque não poderia eu falar do meu voto?
Até podia lá ter chegado por eliminação de hipóteses. Não iria por certo votar num ancião amargo com a ingratidão do mundo. Nem noutro que tem como grande ideal de tranformação enchê-lo com resmas de estátuas a eternizar a sua figura lírica e corajosa.
Fora de cogitação ficou logo o ecrã em branco onde foram projectadas vagas e desfocadas legendas — mas em letras de tamanho impressionante — a berrar “competência”, “seriedade” e “experiência”, para alegria de uma plateia que fingia apreciar a profundidade da obra enquanto esfregava as mãos apenas por se sentir na iminência de “lá ter” um dos seus. Um candidato que nos foi vendido como sendo de “valores” e “personalidade”, mas que à primeira curva apertada da campanha mentiu, negou palavras suas e ainda atribuiu a culpa a inexistentes mentiras dos seus adversários.
O candidato que se assume como mera emanação de uma máquina partidária — despótica, divorciada do mundo e retrógrada, aliás — também só se arrisca a convencer os convertidos.
O candidato que sobra, ainda por cima, parece-me o único a merecer a eleição: pelo intelecto, pela personalidade, pela energia, pelo pensamento: informado, pragmático e idealista. E, acima de tudo, por ter o futuro pela frente. O seu partido não é certamente perfeito; até pode nem ser ainda uma organização homogénea e estável. Mas é um embrião de qualquer coisa que promete vir, nem que seja só no tempo dos meus filhos, a protagonizar novas ideias, novos sonhos, novas formas de fazer política.
É que a divisa de Aron que estes senhores adoptaram como lema — “Il faut gagner en politique, ou bien il ne faut pas en faire” — não me parece fazer qualquer sentido nas presentes circunstâncias (e quero ver com que cara estarão eles daqui a uns minutos…). Perderei hoje de certeza. Mas a história não acaba aqui.

Notícias dos dias que estão mesmo a chegar

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A BlackBerry, famosa pelos seus terminais móveis de e-mail, acaba de lançar um revolucionário leitor de e-books, capaz de bibliotropismo: o BookBerry. À primeira vista, o aparelho não tem nada de espantoso. Mas promete revolucionar a forma como nos relacionamos com a Literatura.
Baseando-se em inquéritos que são actualizados semanalmente pelo utilizador de cada BookBerry, e também no conteúdo das mensagens que ele recebe e emite, o dispositivo trata de introduzir nos textos pequenas mas úteis alterações. O vocabulário e mesmo a estrutura de cada obra é adaptada ao gosto e à literacia do usuário: maior ou menor variação lexical, vocábulos mais ou menos longos, enredo de complexidade variável, etc. No limite, até o género de cada obra pode ser adaptado. Na experiência feita, ao vivo, no lançamento do BookBerry, “O Monte dos Vendavais” foi transformado num drama homoerótico e “A Cartuxa de Parma” passou a uma intrincada Space Opera. Tudo de forma 100% user-friendly e sem prejudicar a legibilidade ou a fluidez da prosa (a Poesia está, até ver, fora das capacidades do sistema).
Por enquanto, a tecnologia inclui um bloqueio que restringe a sua acção a obras no domínio público. Mas é sabido que a BlackBerry está em negociações com alguns colossos editoriais para que nomes contemporâneos também possam beneficiar desta tecnologia espantosa. Quando chegar a Portugal, que maravilhas irá ela fazer pelos tomos de Saramago ou de Agustina, por exemplo?

Notícias dos dias que estão mesmo a chegar

Em Detroit, um juiz deu razão a uma queixa da editora de hip-hop “BreakBack Records” contra um dos seus músicos, um tal DJ Karamel. Este foi condenado ao pagamento de uma pequena multa pelo “crime” de não ter incluído samples nas suas faixas, ao contrário do que garantira à editora. Aparentemente, ele preferia criar na íntegra os seus beats, recorrendo, imagine-se, à obsoleta arte da composição musical. Reza a douta sentença que “hip-hop is all about found objects, recycling sonic elements of our urban landscape. Creating original material and representing it as samples betrays the trust consumers place in what they believe are legitimate and de facto contemporary cultural objects. Sometimes, originality can be considered cheating”.

O flanco que nos faltava

Assegurámos o contributo de um extremo esquerdo rápido na finta e de um “carregador de piano” discreto e eficaz. Tratámos da contratação-surpresa em terras de Espanha. E arriscámos a compra de um artista do meio-campo que não há forma de aparecer no centro de treinos (e fica entregue à vossa inventividade a tarefa de adivinhar quem é quem)… só faltava mesmo guarnecer melhor o lado direito do nosso ataque. Precisávamos de um atacante rigoroso no cruzamento e estonteante na desmarcação. Alguém para usar o pé direito com proficiência, mas sem esquecer o jogo de cabeça.
Aí está ele: a partir de hoje, Rodrigo Moita de Deus é o nosso convidado residente. E vai dar início a uma existência dúplice, a uma epopeia do pensamento bicéfalo. O Dr. Moita de Deus, do respeitável Acidental, vai transformar-se de quando em vez no temível guerrilheiro maoísta-refundado El Rodrigo, no Aspirina B. Ou será ao contrário? Bem, vamos lá a ver no que isto vai dar. Adivinham-se dias turbulentos no balneário.

Ars longa, o pastiche caprichoso

Estava eu sentado na casa-de-banho, que é como sabemos lugar destinado a meditações e a leituras esdrúxulas, quando dei comigo agarrado a um dos 15 suplementos de um “Expresso” já atrasado, começando logo pela página de uma velha conhecida, mas que se apresentava na ocasião irreconhecível, oculta por um novo e frenético estilo capaz de a disfarçar como a mais decente e recatada das burqas. E de que falava ela? Ela escrevia muito, escrevia sobre tudo mas sobretudo sobre o Natal, que é a seca que todos sabemos, mais a mais para ela, que sente um indisfarçável ennui a cada vez que o calendário se aproxima do dia 25 do costume, do menino Jesus, da manjedoura, da Palestina e, acima do mais, do consumismo desenfreado. O SMS, a hipocrisia kitsch, o presentinho, a bichinha do centrinho comercial, isto é a nossa sina, condenados como estamos a manter apenas este sentimento de ocidental. E ela lembra-se bem do Fernando Calhau (animem-se que é o único nome que ela larga na crónica toda, logo ela que se dedicava ao name-dropping com o afinco produtivo das gaivotas da Praça Duque da Terceira em pleno bird-dropping) e ele até lhe ofereceu uma t-shirt a dizer I spend therefore I am, e isso das compras deixa a menina a pensar que está tudo doido, é que ela sim tem direito a comer pratos gratinados com cabernet sauvignon na Madragoa e o pior é logo a seguir quando chega o sacana do fim do ano. Ela quer mesmo é ir mudar de ano ao Brasil ou a um país muçulmano, longe das passas e da gente passada, porque se viu numa festa sinistra a olhar para os amigos todos com desejo de suicídio em massa como em Jonestown, e logo emborcariam uma litrada de cicuta se alguém representasse essa fatídica beberragem (claro que a moça só podia mesmo ter um desejo de término ligado a poção letal digna de filósofo, nunca aos banais artigos de drogaria manhosa que vitimaram os fiéis do reverendo Jones), e o Messias não vinha, e o champanhe corria como se fosse água (só não percebi se o tal Messias era o do espumante homónimo ou não). Pronto, a rapariga fez a malinha e deu de abalada para o Brasíu, só que chegou ao check-in e viu aquilo pejado de brasileiros barulhentos e portugueses chunguentos de sapatilha e aquilo foi demais, lá foi ela em busca de um lugar em executiva por quinhentas lecas, contos de reis, informa ela. Pró ano vai às Seychelles de executiva matar saudades de quando lá foi com Soares, pois agora nunca iria com o Cavaco, cruzes canhoto.
A senhora diz há anos que quer escrever um grande romance mas ainda não passou dos contos sofríveis, agora parece correr desesperada em busca de um estilo cool, diferente e orgulhosamente livre de pausas, cheira-me que ainda não é desta que vamos ter direito a degustar a prometida obra-prima.

Outra ameaça à segurança mundial?

Depois do desvairado Mahmoud Ahmadinejad, aqui está mais um presidente cheio de vontade de inventar cenários em que poderá ordenar o uso de armas atómicas. Este não quer apagar Israel do mapa; as suas mais modestas ambições passam antes por defender aliados ou “abastecimentos estratégicos”. E tem um hino guerreiro que inclui qualquer coisa como “Qu’un sang impur abreuve nos sillons”. Isto está a ficar cada vez pior.