Estava eu sentado na casa-de-banho, que é como sabemos lugar destinado a meditações e a leituras esdrúxulas, quando dei comigo agarrado a um dos 15 suplementos de um “Expresso” já atrasado, começando logo pela página de uma velha conhecida, mas que se apresentava na ocasião irreconhecível, oculta por um novo e frenético estilo capaz de a disfarçar como a mais decente e recatada das burqas. E de que falava ela? Ela escrevia muito, escrevia sobre tudo mas sobretudo sobre o Natal, que é a seca que todos sabemos, mais a mais para ela, que sente um indisfarçável ennui a cada vez que o calendário se aproxima do dia 25 do costume, do menino Jesus, da manjedoura, da Palestina e, acima do mais, do consumismo desenfreado. O SMS, a hipocrisia kitsch, o presentinho, a bichinha do centrinho comercial, isto é a nossa sina, condenados como estamos a manter apenas este sentimento de ocidental. E ela lembra-se bem do Fernando Calhau (animem-se que é o único nome que ela larga na crónica toda, logo ela que se dedicava ao name-dropping com o afinco produtivo das gaivotas da Praça Duque da Terceira em pleno bird-dropping) e ele até lhe ofereceu uma t-shirt a dizer I spend therefore I am, e isso das compras deixa a menina a pensar que está tudo doido, é que ela sim tem direito a comer pratos gratinados com cabernet sauvignon na Madragoa e o pior é logo a seguir quando chega o sacana do fim do ano. Ela quer mesmo é ir mudar de ano ao Brasil ou a um país muçulmano, longe das passas e da gente passada, porque se viu numa festa sinistra a olhar para os amigos todos com desejo de suicídio em massa como em Jonestown, e logo emborcariam uma litrada de cicuta se alguém representasse essa fatídica beberragem (claro que a moça só podia mesmo ter um desejo de término ligado a poção letal digna de filósofo, nunca aos banais artigos de drogaria manhosa que vitimaram os fiéis do reverendo Jones), e o Messias não vinha, e o champanhe corria como se fosse água (só não percebi se o tal Messias era o do espumante homónimo ou não). Pronto, a rapariga fez a malinha e deu de abalada para o Brasíu, só que chegou ao check-in e viu aquilo pejado de brasileiros barulhentos e portugueses chunguentos de sapatilha e aquilo foi demais, lá foi ela em busca de um lugar em executiva por quinhentas lecas, contos de reis, informa ela. Pró ano vai às Seychelles de executiva matar saudades de quando lá foi com Soares, pois agora nunca iria com o Cavaco, cruzes canhoto.
A senhora diz há anos que quer escrever um grande romance mas ainda não passou dos contos sofríveis, agora parece correr desesperada em busca de um estilo cool, diferente e orgulhosamente livre de pausas, cheira-me que ainda não é desta que vamos ter direito a degustar a prometida obra-prima.