A primeira volta do resto das nossas vidas

Até há uns minutos, continuava indeciso. Indeciso sobre se escreveria qualquer coisa mais sobre as eleições, claro está. Mas, depois de ver a malta do costume aos berros por uma vitória “à primeira” do seu candidato (sugerindo um discreto desespero: se não for à primeira volta, quem sabe o que poderá acontecer?) porque não poderia eu falar do meu voto?
Até podia lá ter chegado por eliminação de hipóteses. Não iria por certo votar num ancião amargo com a ingratidão do mundo. Nem noutro que tem como grande ideal de tranformação enchê-lo com resmas de estátuas a eternizar a sua figura lírica e corajosa.
Fora de cogitação ficou logo o ecrã em branco onde foram projectadas vagas e desfocadas legendas — mas em letras de tamanho impressionante — a berrar “competência”, “seriedade” e “experiência”, para alegria de uma plateia que fingia apreciar a profundidade da obra enquanto esfregava as mãos apenas por se sentir na iminência de “lá ter” um dos seus. Um candidato que nos foi vendido como sendo de “valores” e “personalidade”, mas que à primeira curva apertada da campanha mentiu, negou palavras suas e ainda atribuiu a culpa a inexistentes mentiras dos seus adversários.
O candidato que se assume como mera emanação de uma máquina partidária — despótica, divorciada do mundo e retrógrada, aliás — também só se arrisca a convencer os convertidos.
O candidato que sobra, ainda por cima, parece-me o único a merecer a eleição: pelo intelecto, pela personalidade, pela energia, pelo pensamento: informado, pragmático e idealista. E, acima de tudo, por ter o futuro pela frente. O seu partido não é certamente perfeito; até pode nem ser ainda uma organização homogénea e estável. Mas é um embrião de qualquer coisa que promete vir, nem que seja só no tempo dos meus filhos, a protagonizar novas ideias, novos sonhos, novas formas de fazer política.
É que a divisa de Aron que estes senhores adoptaram como lema — “Il faut gagner en politique, ou bien il ne faut pas en faire” — não me parece fazer qualquer sentido nas presentes circunstâncias (e quero ver com que cara estarão eles daqui a uns minutos…). Perderei hoje de certeza. Mas a história não acaba aqui.

23 thoughts on “A primeira volta do resto das nossas vidas”

  1. lembro-me de ver lá mais um retrato… ai, espera lá, estás a esquecer-te de alguém…
    (e, de facto, “ganhar as eleições” não é o único ganho de uma eleição. ganha-se força, adeptos, visibilidade, definição)

  2. “A história não acaba aqui”.
    Pois não.
    Não se está a ver que, ao contrário de ti, a maioria dos portugueses é estúpida?
    Ganda democrata!

  3. Numa coisa o FL acertou, quando gritou que a sua candidatura contribuiu para a divisão…e aldrabão até ao fim disse e repetiu que tinha ultrapassado os 300 mil, quando nem aos 290 mil chegou!

  4. Como o Daniel Oliveira ainda está engasgado e nem sei se vai ter tomates para hoje aqui postar alguma coisa,tenho uma pergunta para lhe fazer, e façam-na chegar a ele urgentemente, quero saber em que cemitério vai ser o velório e a chorada derrota do Francisco Louçã. Por nada deste mundo quero faltar a esse velório. Levo uma coroa de flores com os seguintes dizeres: « a decisão à esquerda é entre mim e Mário Soares -F.Louçã »

  5. Oculista,

    Como derrota, até podia ser bem pior: 21.000 votos mais que o Bloco nas últimas legislativas…

    Da_se
    ?

  6. “O candidato que sobra, ainda por cima, parece-me o único a merecer a eleição: pelo intelecto, pela personalidade, pela energia, pelo pensamento: informado, pragmático e idealista. E, acima de tudo, por ter o futuro pela frente. O seu partido não é certamente perfeito; até pode nem ser ainda uma organização homogénea e estável. Mas é um embrião de qualquer coisa que promete vir, nem que seja só no tempo dos meus filhos, a protagonizar novas ideias, novos sonhos, novas formas de fazer política”.

    que profissão de fé diferente fariam aqueles cromos que se juntam no 28 de maio junto à campa do antónio para clamar ordem e autoridade ? nisto de clamar sempre vitória mesmo nas mais humilhantes derrotas é hábito de comuna, uma vez comuna…

  7. Eu queria estar triste e não estou.

    Também não estou alegre (‘isso’ não).

    Estou… deixa-ver.

    E não foi Cavaco, um dia, sentido como perigoso esquerdista (muito ‘Estado’) pelo PP e pela direita da PSD?

    E não levou o PS, ontem, e sobretudo o Sócrates, um safanão desconforme?

    Ora, ora…

  8. Luís Rainha, eu também já acreditei nessa visão idealista e romântica de Francisco Louçã e do Bloco de Esquerda, mas já não acredito. O Bloco de Esquerda, sob um verniz de liberalismo de costumes, e de modernidade, que lhe fica muito bem, é, sob o ponto de vista da organização económica da sociedade, perfeitamente retrógrado. Do ponto de vista económico, o Bloco de Esquerda e o Francisco Louçã ainda estão no tempo das empresas nacionalizadas e das rendas de casa congeladas. Que é como quem diz, da sociedade congelada.

  9. Luís,
    Já agora, onde foi buscar esse ponto de vista do Bloco? Empresas nacionalizadas? Não estou nada a ver o Louçã a clamar por elas…

  10. Não está a ver, Luís Rainha? Não foi o BE que na campanha anterior defendeu a nacionalização de todo o setor energético? E que protesta contra qualquer ideia de privatização, seja do que fôr – da Caixa Geral de Depósitos, da Rede Elétrica Nacional, dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, etc – independentemente das razões, boas ou más, que haja para as empresas se manterem nacionalizadas?

  11. E não é o BE quem passa a vida a falar do desemprego, como se o Estado tivesse alguma coisa a fazer sobre ele? Como se a culpa do desemprego fosse dos governos, como se os governos tivessem a obrigação de empregar as pessoas? Como quer o Bloco que o Estado resolva o problema do desemprego? Falar do desemprego como o Bloco fala, é demagógico.

  12. É à conta de gajos “modernos” como o Luís Lavoura – e o Engº Sócrates! – que o Cavaco está em Belém. Claro que o Estado tem a obrigação de lutar contra o desemprego – até o Roosevelt, que não consta que fosse comunista, sabia isso – e claro que o princípio da apropriação colectiva dos meios de produção é bom em si mesmo, e que é melhor a Caixa ser pública do que ser de uns tubarões quaisquer; depois de fazer o seu harakiri ideológico, e de oferecer à população uma política igualzinha à do PPD, a esquerda “moderna” do Engº Sócrates admira-se da ingratidão popular? Olha, o PS perdeu estas eleições, e esbanjou em menos de um ano o capital político de uma maioria absoluta, não é à conta de defender “velharias”: é por ir nos cantos de sereia do neo-liberalismo, por ler muito o Expresso ou dar ouvidos a imbecis tipo José Manuel Fernandes, e de nos dar como espectáculo as negociatas de um Pina Moura – outro grande “modernizador”!
    “Sociedade congelada” por haver rendas congeladas ?! Evita as imagens fáceis, e pensa nos desgraçados que estão a viver com 100 e 200 euros por mês na sociedade mais desigual da Europa, se fores capaz… (é por essas e por outras que eu sou unreconstructed, e com muita honra).

  13. Luís,

    Claro está que o Estado deve lutar contra o desemprego, sem que tal seja equivalente a criar directamente emprego. Parafraseando o Unreconstructed, até os candidatos americanos à presidência tal prometem.
    Quanto a nacionalizar o sector energético, confesso que não me lembro de tal. Mas olhe que há hoje muita gente, bem moderna, que coloca em causa a obrigação de privatizar tudo e mais alguma coisa. Mesmo o Pinochet tratou de manter o precioso cobre em mãos estatais…
    Quanto à CGD, mas porquê privatizar tal empresa, que até dá abundante lucro?

  14. Há alguns anos, um grupo de populares de Dona Maria, povoação implatada na zona saloia, às portas de Lisboa, entenderam boicotar as eleições, que não recordo quais. As razões, defendiam, radicavam no facto de estarem cansados de não terem água canalizada, apesar das muitas promessas que politicos sem vergonha repetiam em prolongado incumprimento.
    Lembro-me de ver na televisão uma reportagem que mostrava em cena o grupo de populares em plena insubordinação reivindicativa, no momento em que deles se acercava (não sei se por solidariedade com o acto revolucionário se rendido à sedução das camâras) o Dr Francisco Louçã, ele mesmo.
    O que se passou a seguir foi duma crueldade tal que se não fosse Louçã um verdadeiro lutador teria, ali mesmo, posto fim à sua carreira política. É que aos populares desagradou-lhes a ingerência. E, pelo meio de uns “vai embora malandro”, lá lhe iam perguntado, em jeito de resposta, “Só agora é que apareces? É porque está cá a televisão?” “São todos iguais!”, e por ai fora.
    Desde então, quando vejo o Louçã não consigo deixar de me lembrar da cena.
    Enfim, “Só agora… a televisão”…

  15. Justamente. Na verdade há quem diga que essa terá sido a única razão que então fez rumar o Dr. Louçã a Dona Maria. A circunstância foi interpretada como mero oportunismo político, vá-se lá saber por quê… O certo é que os populares não gostaram. Gente esquisita, aquela de Dona Maria…

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