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Carta aberta

Aos promotores do Manifesto Como uma liberdade.

Caros Tiago Barbosa Ribeiro e Rui Bebiano:

Como muitas outras opiniões já entretanto publicadas, acho que o vosso texto poderia ser muito mais conciso e, portanto, facilitar a criação de um mínimo denominador comum na defesa daquilo que creio ser o vosso/nosso objectivo central e de princípio: a defesa da liberdade de expressão, sem foro privativo para a fé e crenças religiosas e/ou filosóficas.

Quanto ao resto: o Ocidente, o anti-relativismo, etc. – sinceramente dispenso. Um relativista japonês não pode assinar este manifesto pela liberdade de expressão? O que justificaria essa exclusão?

Mas mais do que isso, desejo protestar contra a inexistência de uma caixa de comentários. Que abaixo-assinado pela liberdade de expressão pode viver sem um espaço onde os signatários possam deixar mais um comentário, uma precisão ou uma ressalva?

Não é tarde para abrir esse espaço, já não acoplado a cada assinatura, mas como folha em branco autónoma onde cada um pode deixar a sua opinião. Não faço depender disso a minha assinatura porque não quero que pensem que invento desculpas para não assinar. Mas apelo ao vosso sentido de justiça e equanimidade perante os co-signatários para que o façam.

Tudo ponderado, a minha assinatura será

Rui Tavares, historiador, Lisboa

Publicarei este mail sob a forma de carta aberta.

Abraços libertários

[Rui Tavares]

Gente fina é outra coisa

Nunca foram mulatos ou pretos quando os cabeças-rapadas andaram à solta e mataram no Bairro Alto. Nunca foram imigrantes turcos quando residências foram incendiadas na Alemanha. Nunca foram iraquianos inocentes atingidos por fogo colateral. Nunca foram subsarianos mortos numa jangada no mediterrâneo.

E certamente nunca foram um judeu alemão quando esta frase foi cunhada em apoio de Daniel Cohn-Bendit, em 1968.

Apenas agora os ideólogos d’O Independente querem ser dinamarqueses.

Como os compreendo. Ser dinamarquês dá uma certa classe. Pessoalmente, invejo-lhes os subsídios de desemprego, a assistência médica, a segurança social e, se bem me lembro, as universidades de graça ou quase. Também não me importava de ser dinamarquês.

O azar é que os correligionários locais d’O Independente estão pouquíssimo interessados em naturalizar estrangeiros.

[Rui Tavares, publicado também em Caravaggio Montecarlo]

Venha a próxima

Nos blogues o verbo é fácil: a malta quer escrever e ser lido, ser criticado e contra-atacar o tempo todo. Parece que há tempo a mais, ou trabalho a menos, e a malta não se cansa. O pior que pode haver nisto são consensos, reais ou aparentes: a malta tem de ser do contra, os blogues incarnam a natureza adversarial do combate político, são uma espécie de RGA’s por outros meios. Com alguma distância, quem tiver o verbo mais lento (é o meu caso, não por nenhum tipo de sagesse, mas simplesmente porque escrevo devagar, já a professora da escola primária dizia) vai reparando que, de forma discreta porém segura, as posições vão evoluindo, e sempre num sentido só: o do conflito, que às tantas parece que se justifica por si próprio. Tome-se o caso dos cartoons do Maomé: quem a priori se imaginaria ateu e sem pachorra para susceptibilidades, muçulmanas ou outras, acaba sem dar por isso a defender o indefensável e a negar as mais evidentes evidências; quem normalmente se preocupa com os sentimentos religiosos das massas passa a fazer tábua-rasa do senso comum, torna-se um zelota da liberdade de expressão dos tablóides e descobre nisto tudo uma conspiração do tamanho da terra (ainda vão dizer que foram os serviços secretos sírios que, entre duas bombas em Beirute, fizeram os malfadados desenhos do profeta). Tenho imensa vontade de dizer a toda a gente que tem razão, uns porque sim e os outros porque não. Vou esperando que o pó assente e que alguém se digne a comentar a ninharia que se passou esta semana : a OPA da Sonae sobre a PT, que me parece menos susceptível de produzir os lugares comuns que o episódio dos cartoons não pára de produzir.

A quem serve a escalada

«Seis das doze caricaturas do profeta Maomé foram publicadas no Egipto, em Outubro, sem levantar a menor polémica, afirmou ontem o embaixador dinamarquês no Cairo. A reacção surgiu dois meses depois, quando os líderes muçulmanos reunidos num encontro da Organização da Conferência Islâmica (OCI) coordenaram estratégias e “cristalizaram” a crise, revelou o jornal The New York Times. Só então a revolta começou a sair à rua, com o apoio de vários governos. (…) Para Sari Hanafi, da Universidade Americana de Beirute, os regimes árabes que estavam ressentidos com a pressão ocidental de democratização viram aqui uma oportunidade. (…) Por outro lado, as manifestações também permitiram a certos governos afastar o crescente desafio que enfrentam por parte da oposição islamista que se apresenta como defensora do islão, acrescenta o NYT. Foi o que aconteceu com o Egipto, onde os islamistas têm vindo a aumentar a sua influência, como se viu nas eleições; foi também o que se passou na Arábia Saudita. A 26 de Dezembro, o reino quis ouvir o embaixador da Dinamarca, depois decretou o boicote. “Os sauditas fizeram isto porque quiseram marcar pontos contra os fundamentalistas”, disse Said.»
Público, 10 de Fevereiro

«Estamos num confronto cultural e civlizacional. Podemos rezar todos os dias para que não exista. Estamos em guerra. Os americanos já o perceberam há muito tempo, os Europeus ainda não.»
José Pacheco Pereira, Quadratura do Círculo, SIC

A liberdade não se encomenda

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Lars Refn foi o único cartoonista que, apesar do pedido do Jyllands-Posten, optou por não representar Maomé, o profeta, mas Mohhamed, aluno do 7ºA. O jovem aponta para um quadro onde se pode ler, em persa: «Os jornalistas do Jyllands-Posten são um bando de provocadores reaccionários».

Lars Refn usou da sua liberdade de expressão como queria e não como lhe foi ecomendada. O jornal, apesar de amar a liberdade de imprensa, não gostou da graça e escreveu, como legenda: «pensamos que Lars Refn é um cobarde que não entende a gravidade da ameaça muçulmana à liberdade de expressão». Parece que o Jyllands-Posten adora a sua liberdade, mas não convive bem com a liberdade dos outros. Insultar o jornal que lhe publica o desenho, isso sim, é ter tomates.