Venha a próxima

Nos blogues o verbo é fácil: a malta quer escrever e ser lido, ser criticado e contra-atacar o tempo todo. Parece que há tempo a mais, ou trabalho a menos, e a malta não se cansa. O pior que pode haver nisto são consensos, reais ou aparentes: a malta tem de ser do contra, os blogues incarnam a natureza adversarial do combate político, são uma espécie de RGA’s por outros meios. Com alguma distância, quem tiver o verbo mais lento (é o meu caso, não por nenhum tipo de sagesse, mas simplesmente porque escrevo devagar, já a professora da escola primária dizia) vai reparando que, de forma discreta porém segura, as posições vão evoluindo, e sempre num sentido só: o do conflito, que às tantas parece que se justifica por si próprio. Tome-se o caso dos cartoons do Maomé: quem a priori se imaginaria ateu e sem pachorra para susceptibilidades, muçulmanas ou outras, acaba sem dar por isso a defender o indefensável e a negar as mais evidentes evidências; quem normalmente se preocupa com os sentimentos religiosos das massas passa a fazer tábua-rasa do senso comum, torna-se um zelota da liberdade de expressão dos tablóides e descobre nisto tudo uma conspiração do tamanho da terra (ainda vão dizer que foram os serviços secretos sírios que, entre duas bombas em Beirute, fizeram os malfadados desenhos do profeta). Tenho imensa vontade de dizer a toda a gente que tem razão, uns porque sim e os outros porque não. Vou esperando que o pó assente e que alguém se digne a comentar a ninharia que se passou esta semana : a OPA da Sonae sobre a PT, que me parece menos susceptível de produzir os lugares comuns que o episódio dos cartoons não pára de produzir.

4 thoughts on “Venha a próxima”

  1. A OPA da Sonae sobre a PT é boa, porque deverá, quase que de certeza, conduzir a (1) maior concorrência no mercado das telecomunicações, nomedamente pela separação das redes de cabo e cobre, (2) eliminação da “golden share” que o Estado detinha, deixando portanto a PT de ter quaisquer privilégios especiais, e (3) possível desmembramento da PT, aumentando ainda mais a concorrência.

    Mesmo que a OPA não tenha sucesso, é provável que se alcancem um ou mais destes 3 objetivos, o que será positivo.

  2. A PT tem sido um quase-monopólio protegido pelo Estado. A OPA conduzirá quase de certeza à redução da proteção do Estado a essa empresa, e à redução do monopólio. Portanto, é boa para os cidadãos consumidores. Será provavelmente má para os trabalhadores da PT, mas esses são uma pequeníssima minoria da sociedade portuguesa.

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