Todos os artigos de Aspirina B

Iberia según Don José

Era inevitável. Até o sisudo El País se péla por uma destas.

E há um inquérito: ¿Qué le parece unir España y Portugal, como dice Saramago?

grafico.gif

AZUL Estupendo, ganaríamos 10 millones de habitantes e igual tendríamos alguna opción en el Mundial de fútbol.
CINZA Fatal, a los portugueses les costó ser independientes y les va muy bien como están.
BEIGE Me da igual, pero pasar a llamarse “íberos” da grima.

Siga o desarollo da encuesta aqui. E divirta-se. Enquanto o Cristiano for nosso.

Ainda «Um jornalista desastrado»

Divulgamos uma carta do jornalista Hernâni de Carvalho dirigida a Soledade Martinho Costa a propósito do post de 12 de Maio desta última no Aspirina. Segue-se a resposta da autora.

Sra Dona SoledadeAconselharam-me a ler as letras que me dedicou. E aqui estou. Se de facto viu o programa da Júlia Pinheiro, devo dizer-lhe que terá, no mínimo, percebido várias coisas mal. Certamente por falta de capacidade de comunicação da minha parte. Afasto-me das incorrecções que aqui pôs na minha boca para lhe garantir que não acredito que a mova contra mim algum rancor. Nunca tinha ouvido falar na sua existência. Coisa de que lhe peço desculpa.
Em verdade, o tempo ajuda. Hoje, ao contrário do que se fazia crer há 2 meses, percebe-se que:
1 – os pais não foram inspeccionar os 3 meninos que abandonaram na casa;
2 – os pais estavam bem-dispostos num bar a mais de 50 metros da casa onde deixaram os meninos;
3 – do bar não se vislumbra a casa onde os Macann deixaram os 3 meninos;
4 – os pais rejeitaram os serviços que o hotel põe à disposição para acompanhamento de crianças;
5 – este comportamento dos Macann é crime em Inglaterra;
6 – poderia avançar com mais esclarecimentos, mas reconheço (tal como diz no seu simpático texto) que sou desastrado. Tão desastrado que, por muito que aqui viesse explicar, estou convicto, a senhora iria encontrar de novo coisas que eu não disse. E a culpa seria de novo minha.
Peço-lhe desculpa por não entender os exemplos que me deixou no texto (a culpa é de novo minha) e aproveito para lhe dizer que nunca tive dinheiro para ter casa, com piscina e muito menos no Algarve. De facto, eu sou mesmo doutros lugares a vários níveis. Peço-lhe desculpa pelo incómodo e agradeço-lhe a atenção.
PS. Não é meu hábito intrometer-me nestas conversas e comentários. Mas como a Júlia Pinheiro é aqui acusada de ter feito uma má escolha (ao convidar-me para o seu programa), entendo ser da mais elementar justiça vir aqui pedir desculpas à Júlia Pinheiro e agradecer à Dona Soledade ter-me apelidado de prata da casa. É bom sinal e fico orgulhoso disso.

Hernâni Carvalho

Continuar a lerAinda «Um jornalista desastrado»

Compreensibilidade

F1-P021.jpg

Ontem na rubrica Pisa-Papéis do «Expresso»

Nos planos de José Sócrates, as relações da Europa com o Brasil devem primar pela «compreensibilidade» e pela «coerência». Assim o disse, há dias, na RTP. A coerência entende-se. Mas terão essas relações de ser, também, compreensíveis, transparentes? É o óbvio, para além de ser redundante. Ora, o contexto indicava que, ao pedir «compreensibilidade», o actual presidente europeu desejava que as relações fossem amplas, multiformes, abrangentes. Aquele «compreensível» português está, ali, sugando tranquilamente semântica ao «comprehensive» inglês. Em Bruxelas, isto facilita a vida aos intérpretes. Mas, numa televisão portuguesa, semeia a perplexidade.

Esta deriva semântica vem atingindo, de há tempos, outras palavras portuguesas, sobretudo adjectivos e advérbios, sempre sob a pressão do inglês. É o caso de «específico», usado em vez de «concreto». «Houve várias ameaças específicas», lia-se há pouco no «Público». E é corrente lermos e ouvirmos «neste caso específico» por «neste caso concreto». Observe-se, também, o uso de «dramático» por «drástico», «radical». «O mundo mudou dramaticamente», dizia um locutor da TVI, no sábado passado, apresentando as 7 Maravilhas. Ele queria dizer «radicalmente», «drasticamente».

Assentemos nisto: o mal não é importarmos do alheio. No passado, chegaram-nos milhares de vocábulos, primeiro por via do castelhano, depois do francês, recentemente do inglês. O que transtorna o idioma é a pacóvia importação da semântica.

Assim, quando lemos que alguém chegou ao fim da vida «virtualmente cego», ou que certo político soube «virtualmente pela imprensa» da sua demissão (tudo de novo no «Público», o nosso diário de qualidade), que entendemos? Nada. Até vermos que há um decalque de «virtually», que significa «praticamente», «quase». A balbúrdia agrava-se com «eventualmente», usado no sentido inglês de «finalmente», «por fim». Diz-se-nos que um doente «eventualmente morreu», quando o pobre senhor «acabou por morrer». Já o novo sentido de «aparentemente» estabeleceu, esse, a confusão total. Detenhamo-nos aqui.

O inglês «apparently» (tal como o francês «apparemment») não corresponde ao nosso «aparentemente», que quer dizer «só na aparência, não na realidade». O termo inglês (e o francês) é bem mais positivo e significa «como tudo indica», «pelos vistos», «ao que se sabe», «segundo consta» e mais formosíssimos giros pátrios. A cópia apatetada da semântica alheia conduziu, hoje, à perfeita indefinição. Quando ouvimos que «o incêndio aparentemente está dominado», ficamos hesitantes entre o alívio e o desassossego. E quando se pergunta a alguém «O Zé é rico?» e nos respondem «Aparentemente», o Zé continua o mistério que era.

Que fazer, pois? Isto, que é decisivo: percebermos que este nosso idioma, sendo primoroso, é também frágil e requer vigilância. Que, deixado a si, não se safa.

Fernando Venâncio

As calças de ganga de Rui Veloso

RuiVeloso.jpg

Passei o serão a assistir ao espectáculo das “Novas 7 Maravilhas de Portugal e do Mundo”. Consegui chegar até ao início do fogo-de artifício – coisa sempre muito apreciada e que não pode faltar no encerramento das nossas ancestrais festividades. Depois, fui dormir, que muito aguentei eu.

É claro que assisti a ambas as votações. Mas não votei. Nem nas maravilhas de cá nem das de lá. Se todas elas são maravilhas, de que merecia a pena escolher 7 de lá e 7 de cá!? Foi essa a conclusão a que cheguei e não estou nada arrependida. Arrependida, estou, sim, das expectativas que, ingenuamente, criei.

Soledade Martinho Costa

Continuar a lerAs calças de ganga de Rui Veloso

«Carícias quentes», ou também há derrotas nas canções

156-2728-a-1151420935487618.jpg

Dulce Pontes abrirá com José Carreras, no próximo dia 7, o espectáculo das «7 Maravilhas do Mundo». É uma vitória. Mas, em 1996, quando Roberto Faenza veio a Lisboa rodar «Afirma Pereira», Dulce Pontes sofreu uma derrota amarga. Mastroianni visitou Amália Rodrigues e convidou-a a cantar o tema que Morricone tinha escrito para o genérico do filme. Amália estava doente e recusou. O convite foi parar a Dulce Pontes que aceitou, mas torceu o nariz ao poema de F. de Melis e E. Scoles. Percebe-se porquê:

Lua que brilha branca
Na manhã a descobrir
Sobre o mercado
Dos melões de ouro
Curiosa espreita
As casas cor-de-rosa
À procura do nosso tesouro
O segredo a descobrir
Está fechado em nós
O tesouro brilha aqui
Encanta o coração
Mas está escondido
Nas palavras
E nas mãos ardentes
Na doçura de chorar
Nas carícias quentes

No brilho azul do ar uma gaivota
No mar branco
Da espuma sonoro
Curiosa espreita as velas
Cor-de-rosa
À procura do nosso tesouro

O segredo a descobrir
Está fechado em nós (…)

A brisa brinca
Como uma gazela
Sobre a torre branca
E a Rua do Ouro
Curiosa espreita a fenda da janela
À procura do nosso tesouro

Dulce pediu a uma amiga que comparecesse na editora Moviplay onde, na presença do seu «manager» e de Dick Van Dick, lhe entregou a cassete com a música executada por Morricone ao piano. Horas depois o poema estava feito. Assim:

É sobre o oiro das areias
É sobre este sal
Que tece a renda às ondas
Que à noite o canto das sereias
Traz junto de mim
Esta tristeza, tanta
Quanto mais amo
Sinto a voz da cidade
Flor da cor azul do mar
Mais recordo a luz
Que veste o teu olhar
Muito mais eu tenho
A certeza de ser
Por ti a prisioneira
Que se deixa à solta

E olho os pombos nos telhados
Invento no cais
Regressos de faluas
Desvendo feitos ancorados
De homens sem data
A darem nome às ruas

Quanto mais amo
Sinto a voz da cidade (…)

E os búzios
Cobrem-se de prata
Entoam comigo
O canto das sereias
Quando anoitece no meu peito
E a lua embala o sono das areias

Canção gravada num domingo à noite, logo na segunda-feira de manhã se providencia o envio para Itália. Mas de lá veio a decepção. Havia compromissos e os autores italianos eram amigos de António Tabucchi e de Roberto Faenza. Nada a fazer. Dulce Pontes não conseguiu impor a sua vontade.

Nota final: a autora do poema «vencido» é Soledade Martinho Costa que tem aparecido no Aspirina B. O Mundo é pequeno…

Litania para um domingo de Lisboa

bbpjhjh.jpg

Dizem que é domingo
a graça desce
em seus roucos paramentos
e as gentes passam rebocando o tédio
o coração afeito à fuligem
que se derrama pelos vãos das coronárias

cobre a ferrugem
promessas de vão futuro
gravemente a natureza
(que é sempre verdadeira)
faz-se espelho de ausências

talvez seja domingo
com seu branco morno tinto
e seus pretos e seus ritos
e algum brando desatino

e desarvora o deus
a infindável rebentação
que sacode praias e ilhas
souvenir que me levasse
pela mão da sorte
aos céus dos anos moços

talvez seja outra vez domingo
na solidão vigiada pelo olhar da filha
pela cinza que enluva silos e guindastes
pelo metal da mágoa
atravessando os poços da alma

quisera já as penas de segunda
o débito que vence de rasgão
pois há sempre quem traz a alma
enroscado ao aro da incerteza
confiado que a manhã estende
uma carta de rumos até onde
o domingo é um tropo esvanecendo-se
num débil rufar de cinzas

José Luiz Tavares

«Os pequenos pides do PS»

Na última página do «Público» de hoje, o cronista Vasco Pulido Valente expõe o que se passou recentemente no Centro de Saúde de Vieira do Minho, e rememora o caso Charrua. Suponho os detalhes conhecidos. Reproduzo a segunda parte da crónica do historiador.

A moral da história é simples: o PS, que os portugueses se habituaram a ver como o defensor da liberdade e da democracia, não passa hoje de um partido intolerante e persecutório, que age por denúncia (aqui como na DREN) e tem uma rede potencial de esbirros, pronta a punir e a liquidar qualquer português por puro delito de opinião. Pior ainda, personagens como Correia de Campos colaboram pessoalmente nesta lamentável empresa de intimidação. Não admira. Nem o eng. Sócrates nem o dr. Cavaco manifestamente compreendem que a repressão da dissidência e da crítica começa a corromper o regime e torna inevitável o futuro “saneamento” dos “saneadores”. O silêncio de cima encoraja o miserável trabalho de baixo. Em Portugal, a colaboração do Estado com os pequenos pides do PS já não é uma vergonha.

«Todos nascemos benfiquistas, mas depois alguns crescem»

JoelNeto.jpg

O aparente absurdo do título do livro de Joel Neto (Editora A Esfera dos Livros) é mesmo aparente. Nascemos no país do delírio das «papoilas saltitantes» que envolve quase tudo e paralisa quase todos. Fundado em 1908, o Sport Lisboa e Benfica festejou o «centenário» em 2004 e quase toda a gente se calou…

Joel Neto pega no assunto pelo lado da ironia: «Era muito mais bonita a vida se todos pudéssemos viver juntos esse permanente sonho de crianças. Vamos vender o Simão por 20 milhões! Vamos ter 300 mil sócios! O Rui Costa ainda só tem 25 anos! Vamos fazer um dream team Os textos deste livro oscilam entre a memória e a crítica: «Quando hoje folheio velhos álbuns de fotografias e vejo as centenas de automóveis que nos anos 80 estacionavam na cabeceira do Municipal de Angra do Heroísmo para apitarem os golos de um Lusitânia-Angrense, não posso deixar de lamentar que essa emblemática instituição da minha cidade tenha desaparecido. O derby. Entretanto vieram os construtores civis e os empreiteiros – e nós acendemos o televisor. A seguir vieram os empresários das águas e dos pneus – e nós instalámos a televisão por cabo. Agora estão aí os investidores e os líderes dos fundos de investimento – e nós já comprámos descodificadores para os canais de acesso condicionado.» A paixão tem como alicerce os relatos: «A bola ainda mal passara o meio-campo e já o relator se punha aos gritos. Ninguém o levava a sério. O relato era diferente do jogo.»

Para o autor gostar de futebol é um contexto – uma história de vida: «abro o almanaque do centenário do Sporting e aquilo quase parece a minha biografia, contada domingo a domingo.» O futebol confunde-se com a vida: «recuperamos a infância. Uma vez por semana. É isto o futebol. Para mim. Às vezes dizem que o futebol é uma metáfora da vida. Metáfora é a pomba branca – futebol é vida.» Mas também a morte está na crónica sobre Fernando Valadão, o dirigente que levava os miúdos da Terra Chã num Volkswagen pão-de-forma encarnado, ilha fora, à chuva e ao vento: «morreu com leptospirose, doença propagada através da urina dos ratos (…) E sei que o Valentim Loureiro e o Pinto da Costa e o João Bartolomeu jamais morreriam de uma doença propagada por ratos. Eles sãos os ratos.»

José do Carmo Francisco

Primícias

Os viajantes chegaram à fronteira quando a noite caía. E só João interrompeu o mutismo geral para recolher os passaportes, saiu devagar da viatura e dirigiu-se à casa dos guardas. O silêncio tornou-se mais espesso e constrangido, e Gaspar não pôde evitar um sobressalto no peito, fruto só da pouca habituação a estes andamentos, um carabineiro veio espreitar os passageiros que vêm em turismo, dobrou-se para a minúscula janela, cotejou as caras com os retratos e mandou avançar.

Nada é mais contraditório do que os homens. Passámos a fronteira de França, e sendo isto motivo de particular alívio e geral distensão, a tristeza nos peitos é maior. Estes viajantes deixaram de ter razões de insegurança, ninguém aqui virá saber quem são e ao que vêm, indagar dos falsos passaportes, esmiuçar-lhes um dente irregular no selo branco. Há longos anos tem sido esta terra um local de refúgio de portugueses, dos clandestinos da fome, dos refractários duma comprida guerra, não vai deixar de sê-lo agora para os que doutra guerra escapam. E no entanto cresce a melancolia nestes olhos, passámos a vida a pensar que a liberdade é tudo e enganámo-nos, estamos finalmente soltos e preferíamos não estar, temos o mundo todo à mão e o nosso a ficar-nos cada vez mais longe.

João é que não esconde o seu contentamento, quando chega a Baiona. Procura um restaurante aprimorado, esmera a selecção das vitualhas, pede para nós um beaujolais. O jantar é um consolo para o corpo, a gentileza de França faz o resto. Leva-nos ao comboio, falamos de João que fortemente nos envolve nos braços compridos, antes de dobrar ao fundo a esquina da calçada, uma chuva angustiada cai.

Na vida é como no cinema, conclui Gaspar, preso ainda no relance final do carro branco, insistentemente chove quando alguém se vai embora para sempre. Nos filmes entendemos porquê, na vida não.

Jorge Carvalheira

«A mulher que prendeu a chuva»

17.jpg.jpg

«Se o amor acabasse, todas as cidades se tornariam ilegíveis» – esta é, se não estou em erro, a ideia-chave deste livro de Teolinda Gersão, que junta 14 contos nos quais o amor e a morte são a paisagem e o povoamento das cidades.

As cidades deste livro são Nova Iorque, Lisboa e Berlim; mas podem ser também Roma ou Viena, e nestas histórias a morte de alguém é sentida como a da cidade onde esse alguém vive: «No Caneiro de Alcântara abriu-se uma cratera com dez metros de profundidade. Até que se abriu um buraco no chão e te engoliu. Pouco importa que o tenham tapado depois com terra e deitado flores.» A cidade é o lugar do ciúme: o viúvo procura sinais de infidelidade, mas só encontra bilhetes simples como Senhora Rosa lave por favor as janelas da marquise. Ou o lugar da vingança: a do homem que se vinga da ingratidão da mulher e da sogra, deixando a mulher cega no meio de uma rua onde um carro irá travar mas tarde demais.

Noutro conto é a angústia que surge quando a personagem perde os óculos e, com eles, perde o horizonte visual do neto na praia, acendendo de novo as memórias dolorosas duma morte na família: uma outra criança, muitos anos antes, a arder em febre no corredor sem fim dum hospital.

O conto que dá título ao conjunto acontece num hotel de luxo quando o viajante surpreende duas empregadas da limpeza a contarem uma história de África: numa terra onde uma mulher era acusada de ter «prendido a chuva», veio um homem novo que a visitou na cabana, dormiu e «fez amor com ela», mas, depois, matou-a. E só «então começou a chover». Entre o divórcio e a morte, entre a solidão e o ciúme, só o amor pode salvar as personagens destas histórias que habitam o outro lado das cidades.

Edições Sudoeste
Capa de Henrique Cayatte e Susana Cruz

José do Carmo Francisco

O QUINTAL DA FESTA

Pedro-e-Paulo.jpg

As festas populares em louvor de São Pedro obedecem às mesmas características das festas de Santo António e de São João: marchas, fogueiras, ruas enfeitadas, sardinha assada, etc. Festividades a servir de remate aos festejos em louvor dos santos populares, que se prolongam, em alguns lugares, por todo o mês de Junho.

Dos rituais que lhe são dedicados, refira-se a festiva e popular «Coroação de São Pedro», em Viana do Castelo, consumada na imagem de granito que ladeia a porta da fachada da Igreja de São Domingos. Consiste o antigo cerimonial em florir o arco do nicho onde se encontra a imagem com um outro de madeira revestido de hortênsias, colocar uma coroa das mesmas flores na cabeça do santo e um ramo na mão que segura a chave.

Soledade Martinho Costa

Continuar a lerO QUINTAL DA FESTA

A espantosa história do mancebo Darius King

Os utentes do Metro de Lisboa, para além de receberem diversos jornais gratuitos, podem também assistir àquilo a que o meu amigo Ruben Coelho chama o «telejornal dos pobres». Trata-se de uma mistura manhosa de vídeo clips, de notícias e de publicidade, pura e dura. Pois hoje a manchete desse telejornal do Metro era o facto de haver uma pessoa em Portugal, um chamado servidor do Estado, a receber uma pensão de apenas 26 euros. Custa a perceber como é possível nos dias de hoje alguém receber uma pensão de 26 euros mensais.

Lembrei-me logo da espantosa história do mancebo Darius King, um americano que nasceu em 1797. Em 1814, depois de ter participado na chamada «guerra de 1812», foi desmobilizado e saiu das fileiras. Passou à disponibilidade, como nós dizemos. Começou então a receber uma pensão. Tinha 17 anos. Em 1869, já com 72 anos, casou com uma jovem senhora que tinha nascido em 1849. Morreu 18 dias depois de ter casado. A viúva, a senhora King, recebeu do Exército americano uma pensão de viuvez até ao ano de 1938, ano em que morreu com 89 anos de idade.

A grande curiosidade desta história espantosa está em que o mancebo Darius King esteve alistado no Exército americano apenas 54 dias mas a pensão que lhe foi paga a ele (primeiro) e à viúva (depois) prolongou-se por 124 anos ou seja desde 1814 até 1938. Aqui fica a espantosa história do mancebo Darius King que serviu o Exército americano durante apenas 54 dias.

José do Carmo Francisco

Sorte dum ladrão!

Não é preciso recuar à Lenda Negra, para encontrar o vezo predador dos espanhóis. Basta ver a lufa-lufa das traineiras chuponas. Ou pensar nas sequelas duma agricultura suicida, que abastece meia Europa e nos encurta o caminho para o deserto.
Começaram há quinze anos na raia do Côa, a comprar aos aldeãos os muros rústicos desenhados na paisagem. Alguns eram do tempo de Alcanices. Atiravam-nos ao chão, escolhiam as lascas mais afeiçoadas, e levavam-nas em camiões para forrar as casas deles. À sorrelfa e apalpando o terreno, salariando adelantados, foram alastrando à Lapa, ao Leomil, hoje ninguém sabe onde já vão. E aconselhados pela pequena pobreza, pela muita ignorância ou a desmesurada insensatez, os aldeãos foram trocando a alma por dez reis de mel coado.
Ultimamente tocou a sorte aos zimbros do planalto de Miranda, lá onde forem parte da flora natural. Têm a desgraça, os zimbros, de produzir um óleo usado na cosmética e na farmacologia. Já destroçados em Espanha, são agora uma espécie protegida. De forma que os predadores atravessam a fronteira e vêm dizimar os portugueses. Levam raízes, troncos e ramagens, que é serviço mais completo. E guiados pela pequena pobreza, pela muita ignorância ou a desmesurada insensatez, os aldeãos vendem por cinco euros um produto que em Espanha vale à vontade cem.
E não há nisto um autarca, um magistrado, um polícia, um deputado, um ministro, um regedor, a pôr ordem no desmando! Bem sei que chamam a isto a lei do livre mercado. Mas se não for a miséria a indultá-los a todos, não sou eu quem o fará.

Jorge Carvalheira

Solstício

Edenpics-com_003-005-Sunset-on-a-pond-with-reflection-of-the-trees-in-the-water-Switzerland-St.jpg

do site espacos.blogs.sapo.pt

A estrada serpenteia pela encosta e a aldeia é surpreendente, assim arejada e branca, no cimo da subida. Tem casitas das antigas, onde só dobrado entrava um homem. E vivendas do minério, feitas no tempo da guerra, de cantaria rude. E as casas da emigração, airosas como caixotes de marçano, e tão omnipresentes como os deuses.
A gente é pouca, mas ainda assim compõe a procissão que já vai a sair para o arrabalde, a caminho do monte. Vê-se um pombal em ruínas, hortas com almendras desgarradas, campos que já deram pão. E fraguedos e matos.
Há milhares de anos que é assim. Coloca-se a vestal num côncavo da pedra, a olhar por cima do rochedo. Ao longe o sol mergulha sobre um monte. E a multidão assiste, com ramos de oliveira na cabeça, e capelas de flores na mão. O celebrante veio da cidade, a cumprir o ritual. É ele o mais pagão de todos, e tem cabelos compridos, como os cristos. Entoa poemas da Bretanha, escuta as gaitas de foles que vieram de Miranda, os bombos de pele de cabra, e pede compostura à multidão. Há uns noviços que vêm de moto-quatro, e tratam o sol por tu, e não ligam patavina.
Alinhado com a vestal e o rochedo, no monte para lá do vale, o sol morre lentamente, no solstício do verão.
– Agora só para o ano! – alvitra um homem careca, ali ao lado.
– E daí, quem sabe lá! – arrisco, numa descrença.
E olhando as vinhas do vale, não sei o que me é mais comovente. Se o sol que foi dormir atrás do monte, e amanhã se vai embora, se os homens debaixo dele.

Jorge Carvalheira