Arquivo da Categoria: Fernando Venâncio

Esta pergunta, e não outra

Peço mil desculpas – e mais uma – ao Público, mas este texto de Rui Tavares, de hoje, tem de ser lido pelo maior número possível de pessoas. E eu já paguei para o ler. Aqui vai.

Uma pergunta directa para uma resposta honesta

A pergunta a que vamos responder no referendo do próximo dia 11 é compreensível para qualquer pessoa que saiba ler e isso é algo que nenhum contorcionismo político ou gramatical poderá mudar. “Concorda com a despenalização…” A despenalização é, evidentemente, a palavra-chave desta pergunta. É talvez surpreendente, mas o referendo do próximo dia 11 não é acerca de quem gosta mais de bebés, tal como não é acerca de quem mais respeita o sofrimento das mulheres. A pergunta do referendo também não é “dê, por obséquio, o seu palpite acerca de quando é que a alma entra no corpo dos seres humanos”, matéria que sempre intrigou os teólogos. Não é acerca de quem gosta de fazer abortos e quem gosta de dar crianças para orfanatos. Por isso e acima de tudo, devo confessar que sofro de cada vez que ouço na televisão jornalistas falarem dos dois campos em debate como o “sim ao aborto” e o “não ao aborto”.

Rui Tavares
«Público» de 3 de Fevereiro de 2007

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O sorriso de Maria José

Na carruagem azul do Metropolitano de Lisboa, na Linha Verde, num fim de manhã cinzento, descubro um inesperado e doce sorriso. É Maria José que vem de um café com a sua irmã Hermínia na Baixa-Chiado e regressa a Arroios com o almoço em perspectiva. As mulheres são as mães dos milagres. Outra coisa não posso eu chamar a este encontro feliz que transformou a soturna carruagem do Metropolitano numa verde e alegre camioneta a caminho de Arganil mas com destino final em São Romão. De súbito era como se estivéssemos no meio de uma camioneta com cabazes de verga no tejadilho. Com pão e queijos, com fruta e vinho, com bolos de mel e azeite, com chouriços e morcelas de arroz. Da voz e do sorriso de Maria José vinha uma alegria do campo no meio de um transporte da cidade. Uma alegria pura e genuína tão pura e tão genuína como os sabores dos cabazes de verga no tejadilho da camioneta que eu imagino só de olhar para o sorriso de Maria José. Continua a ser a mulher-menina sempre pronta a desfazer o tempo, a ignorar a cronologia, a rejeitar as emboscadas do bilhete de identidade. No sorriso de Maria José o tempo não passa e é sempre lugar de alegria. As mulheres são as mães dos milagres. Por isso Maria José transforma o tempo e o espaço de quem a encontra no fim da manhã. Ao lado ninguém percebia, mas eu não me vou esquecer. O sorriso de Maria José veio obliterar – inesperado verbo para um encontro – o fim da minha manhã cinzenta no Metropolitano de Lisboa. O meu bilhete foi obliterado e muito bem obliterado pelo inesperado e doce sorriso de Maria José, na carruagem que lembra o velho autocarro verde com cabazes de verga no tejadilho.

José do Carmo Francisco

Notas para a recordação do meu mestre Assis Pacheco

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Foi em Abril de 1980 que o conheci. Infiro isto da data que anotei no exemplar de Cuidar dos Vivos que ele me arranjou. Era a belíssima edição da Vértice, de 1963, que ele foi desencantar ainda algures. De alfarrabistas sabia ele. Ainda aí se lê: «Natal 1963 / Of. a prima / Maria Fernanda». Ignoro de todo em todo quem você seja, mas obrigado, prima ou primo desta Maria Fernanda, por ter-se desfeito do livrinho.

Encontrava-o sempre de fugida, trabalhando ele na redacção de O Jornal, ali à Avenida da Liberdade. Batia furiosamente as teclas (com um só dedo, efectivamente – não é lenda urbana), mas falando comigo, enquanto avançava no «Bookcionário». Não me lembro de tê-lo visto em outro sítio em Lisboa, de almoçarmos juntos, de sequer tomarmos um café. Digo em Lisboa, já que em 1985 teremos jantado em Roterdão, aquando da Poetry International, em que estiveram mais poetas lusos: Pedro Tamen, Melo e Castro, Armando Silva Carvalho, Casimiro de Brito, para só cuidar dos vivos.

A segunda conversa com o Fernando seria muito proveitosa. Tinha-lhe eu dado a ler umas coisitas minhas. «Parece o Mário-Henrique Leiria», disse. Hoje sei que isso desmerecia grandemente do autor do Gin Tonic, mas o importante foi saber, ali, da sua existência. Eu já por então vivia fora, e longe. Escapara-me essa obra cimeira da nossa ficção, cujo autor, de resto, falecera havia pouco. [Contei esta história em 1995, no JL, já o Fernando tinha morrido. Está em Maquinações e Bons Sentimentos, onde reuni crónicas da altura]. Corri a comprar os dois volumes de Leiria, e passei uma tarde inesquecível à beira-rio, em Belém.

Aprendi com o Fernando alguma escrita. Como aprendi com Cardoso Pires. Falo dos cronistas. Quem os conhecer a ambos sabe a que me refiro. Eles escreveram algum do mais belo português que o século XX produziu. Um português impecável, clássico à prova de todas as gramáticas, mas descontraído, fluido, nervurento, cheio de relevos e malícia.

Nunca falámos disso, o Fernando e eu, como nunca falámos de outras coisas importantes. Mas estou em que ele o sabia. Que lê-lo me era um gozo e uma escola. Foi por mão dele que se publicou no JL, em Julho de 1981, o meu primeiro do que iam ser muitas dezenas de artigos. Era uma longa crítica, educada mas feroz, ao livro Língua Portuguesa de João de Araújo Correia. Ainda hoje não me envergonha, vá lá. Tempos depois, haveria de mandar-me ter com o Mega Ferreira, umas portas abaixo. Redigira eu um textozinho faceto sobre a festança pessoana de 85, que se divisava. O Mega, que eu via por primeira vez de perto, percorreu o texto em três segundos e meio (cálculo por alto), dizendo «Publica-se». É daquelas sortes. E eu ia bem recomendado.

Tinha o Fernando sempre plaquetes, artesanais mas cuidadosíssimas, que oferecia aos amigos. Assim tenho (cito sem ordem nenhuma) Variações em Sousa, A profissão dominante, Nausicaah! e A bela do bairro. Tudo isto está hoje reunido, editado primeiro na Hiena, depois na Asa, agora na Assírio. É uma poesia fundamental. Como foi a de O’Neill, como foi a de Sena.

O Fernando Assis Pacheco faria hoje 70 anos? É capaz de ser verdade.

Actualização

Como o meu referido artigo a pretexto de M.-H. Leiria é de 13 de Setembro de 1995, e o FAP faleceu em Novembro, ele tê-lo-á lido, confio.

A Olivetti de FAP – e mais outras coisas de ver e ler – está no blogue do Francisco José Viegas.

E deitam culpas ao Camões

Fernando Assis Pacheco escreveu (veja-se um soneto de 1981, «Por uma cona assim eu perco o tino», ou um poema às «segóvias» da guerra de África) algumas peças de mimosa pornografia. Um poeta assim inspira. Tal como ele próprio se inspirara em Bocage. Tal como, a este, o inspirara Camões.

O sagazmente camoniano José Luiz Tavares tinha coisas assim na aljava, pois tinha. Publicada uma ali abaixo, encheu-se ele de brios e fez-nos chegar as abas do tríptico. Aqui vão. O pretexto é o aniversário, amanhã, de Assis Pacheco? O difícil era arranjar-se algum melhor.

2.

Minha senhora quero enfiar minha maça
em sua nassa assim acavalitados té sana
iríamos com licença da senhora sua mana
hosanas cantaríamos alegria del’ e nossa

nosso feito seria invejado até na nasa
(poisar assim suave sem nenhuma mossa)
em televisão daria audiência grossa
mesmo se à luz desta pobre chama rasa

noite lassa não haveria que minha
maça é bom vigia té grota escura palmilha
ó cadelinha que em lume fazes este molosso

outros te dirão que no coração fosso
lhes fazes eu dou-te só o ardor que posso
como forçado condenado ao poço

3.

amor é foda? eu fui deste celeste
quimbo soba de porrete e cassetete
intendente deste escuro palacete
por isso não me chameis de cafajeste

esgaçar cricas é arte nobre
é fogo que arde e se vê
mesmo se em porno canal de tevê
ou nesta pobre rima pobre

eu não diria suave milagre
esse deslizar da piça até à cona
mas louvo seu acre odor vinagre
néctar para a língua sabichona

ó minha escarranchada puta bela dona
conta-me essa da ovelha e do padre

JOSÉ LUIZ TAVARES

70 grandes anos

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Fernando Assis Pacheco faria amanhã, 1 de Fevereiro, 70 anos. Para recordá-lo em adequada forma, José Luiz Tavares escreveu (e ofereceu-nos) este soneto muito assis-pachequiano.

Posso mesmo dizer-te que gramei esta
foda? Repetir em linguado (ou filete)
os viris uivos que mais que ardor deleite
foram? Caberia em dicionário a lesta

batida em que jamais a seta erra a fresta?
Mas um torpor me vara a língua em que me
alonguei até ao fosso. Fora outra a fome,
serias só cândida fruta na nascente floresta

de espinhaços. Cem foles, porém, não são
metáfora digna pró árduo sugar do piço
descrever. Se acontecia faltar-lhe o viço

arengava-o num trejeito meretriz — lição
de bem foder me deu esta pura niña
pelos couvais onde a poterna se aninha.

JOSÉ LUIZ TAVARES

P.S. Recomendamos à niña em apreço uma proveitosa leitura de Respiração Assistida (edição de Assírio & Alvim).
fv

«Acalmem-se»

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Hoje, no Público, um excelente comentário de Rui Ramos, historiador. Transcreve-se o final.

Quanto a Salazar e Cunhal, que dizem de nós? Divididos por muitas coisas, estiveram unidos por uma grande coisa: a recusa de que Portugal alguma vez pudesse ter um regime igual aos da Europa ocidental. Os seus votos traduzem qualquer incompatibilidade da nação profunda com a actual democracia europeísta? Não é preciso ir tão longe. A votação de Cunhal é provavelmente um esforço do partido que todos os anos faz a Festa do Avante!. Obviamente, nem o PSD nem o PS julgaram urgente colocar Sá Carneiro ou Soares na corrida. O PS e o PSD esperam ganhar eleições. Os militantes e simpatizantes do PCP já só podem ganhar concursos. Deixá-los. E Salazar? O defunto regime terá certamente as suas viúvas e órfãos. Mas suspeito do carácter genuíno deste salazarismo de concurso. A RTP, num lapso de zelo antifascista, omitira Salazar. Foi o que bastou para muita gente votar nele. A democracia vive também deste espírito de contradição e pirraça. De resto, Portugal é um dos poucos países da Europa onde a extrema-direita não conta. Conta na Itália, na Áustria, e nesses faróis da civilização que são os países nórdicos. O vencedor dos Grandes Holandeses foi Pim Fortuyn. Nem assim a Holanda é ainda uma ditadura. Enfim, caso Salazar ou Cunhal ganhem, tentem poupar-se às epilepsias de antifascismo, ou aos alarmes anticomunistas. Nenhum regime acabou por causa de um concurso. Acalmem-se. Nem Salazar nem Cunhal voltam para a semana. Tal como D. Sebastião nunca voltou.

Passeio bloguítico

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Não é Luís Carmelo o único a interrogar os blogueiros sobre que os move e espevita. Também João Ferreira Dias o faz, no seu Contrastes, e vai lançado. Veja-se aí, por exemplo, e é um exemplo bom, a recente entrevista (a número 51) a Hélder Guégués, de que sou assíduo leitor.

*

A quem for, como eu, fã do ‘Gato’ Ricardo Araújo Pereira (conheço, e admiro-o, já há bem dez anos), aconselha-se o apontamento de 14 de Janeiro sito aqui. Estarão os quatro valentes, como aí, se afirma, a pôr tão alta a fasquia que o resto, mesmo próximo, passa a vida ganindo? Quem sabe…

A poesia, agora de comboio

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Dois poetas holandeses, Hagar Peeters e (o bem mais conhecido) Simon Vinkenoog, leram ontem live poesia em comboios. Num comboio ao calhas, num comboio à sorte – e digamos que a sorte era real.

Que tal se hoje, por alturas de Pombal, lhe surgissem, nos fones, os graves de Manuel Alegre, ou por alturas de Vendas Novas, a carícia de Maria do Rosário Pedreira, viajando ali com você, claro?

Boa viagem.

As mulheres e os maridos

O presidente do Conselho de Administração da União de Leiria terá provocado um conjunto de sonoras gargalhadas nos jornalistas presentes na apresentação do novo treinador do seu clube ao referir-se à ausência de público nos jogos disputados pela sua equipa em Leiria com a seguinte frase: «Só falam de Leiria. Mas Leiria é como todas as outras cidades. Apenas os três grandes têm sócios fidelizados. Antigamente não havia centros comerciais, cinemas… Além disso as mulheres agora mandam nos maridos.»

Para além do aspecto anedótico desta conversa é preciso ver algo mais. O que o presidente da União de Leiria lamenta é que o tempo em que os homens iam para o futebol ao domingo à tarde e as mulheres ficavam a passar a ferro, a costurar ou a arrumar roupa nas gavetas tenha acabado. Como sou natural de uma aldeia da Estremadura que pertence ao distrito de Leiria, conheço perfeitamente o assunto. As coisas e as relações entre as pessoas levaram uma grande volta nos últimos anos e hoje as mulheres pura e simplesmente deixaram de cozinhar aos domingos. Basta ir ao Vimeiro, ao Acipreste, ao Peso, à Mata de Porto Mouro ou à Portela para ver as enormes filas de espera que se formam às portas dos respectivos restaurantes.

E não são só as mulheres mais novas, também as mais velhas. Claro que as refeições acabam tarde e depois a sugestão é para um passeio à praia da Foz do Arelho ou a São Martinho do Porto. Bebem a bica e passeiam à beira-mar. Por isso o futebol fica para trás. E vai ficando cada vez mais porque as mulheres já não aceitam uma situação de subalternas. Mas parece que o presidente da União de Leiria ainda não percebeu que tudo à sua volta mudou nos últimos anos.

José do Carmo Francisco

Pois é

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Pois é, há três anos que EDUARDO GUERRA CARNEIRO morreu. Hoje, como há três anos, o blogueiro Xatoo podia, num poemazinho meritório, chamar-lhe «o poeta / de que ninguém ouviu falar».

Pois é, as histórias da poesia portuguesa contemporânea citavam-no pouco. Ou nada. Ele não alinhava, o parvo. Era só um bom jornalista, só «um bom poeta», como Francisco José Viegas dele disse, lembrando aos desatentos que não são «bons» todos os poetas que desaparecem.

Aqui há mais a seu respeito. E vai um poema. Este, que é um espanto.

CLARA

Disse que se chamava Clara
e sentou-se na mesa, chamando
o criado para pedir um uísque irlandês.
Eles abriram mais espaços, cruzaram
as pernas, perguntaram se os charutos
a incomodavam. Clara disse: «Não!»
Pediu mesmo se lhe ofereciam um.
«Claro!», ofereceu o mais jovem,
emprestando-lhe a tesourinha
niquelada. Disseram banalidades,
Vieram mais bebidas. Clara traçava
o rumo da conversa, entre baforadas
azuladas. Quando ela saiu, descruzaram
as pernas e ficaram sem saber o que dizer.

Eduardo Guerra Carneiro

«O Rei do Cubango»

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No mais recente número, o 14, de Ficções, revista de contos dirigida pela Luísa Costa Gomes, vem um conto, «O Rei do Cubango», do escritor galego Xosé Martínez Oca. É um texto fenomenal. De partir o coco. Escolham entre o elogio sublime e o térreo, mas servem um e outro.

Está escrito na ortografia ‘normativa’ do galego, e com o vocabulário corrente na Galiza. Mas com uma ajudinha (no final do conto há um glossário mínimo) lê-se muito bem e diverte-se uma pessoa com uma história verdadeiramente delirante.

Vai aqui um trechozinho. As coisas passam-se na esplanada do Café Vianna. Quem conhecer Braga sabe de que falo.

O local estaba repleto de xente baixo a protección dos toldos. Con aspecto de turistas uns, os menos. Outros deixando adiviñar na solemnidade da súa roupa o labrego [lavrador, camponês] acomodado que baixara da aldea ós seus asuntos e, despois de resoltos estes, cumpría co ritual da sobremesa, cheo da seriedade do petrucio [mandão] campesiño. Sen faltar tampouco os emigrantes en vacacións, coa súa inxenua necesidade de aparentar por riba dos costumes ancestrais de que foran arrincados, tantas veces en contra da propia vontade.

Dunhas noutras, entre a observación distraída dos clientes máis próximos, o ruído das súas conversas e a somnolencia da sobremesa, acabara por derivar nese estado de beatitude anfibia en que a pesar de ter os ollos abertos non se ve nada, non se oe [ouve] nada, non se pensa en nada. Somnolencia da que me quitou a irrupción no meu campo visual dun preto de proporcións descomunais, embutido nunha sahariana gris e uns pantalóns claros que parecían incapaces de coutar por moito tempo a avalancha de carne que teimaba por estoupar en cada costura do tecido.

– Desculpe o señor – dirixiuse a min con esa voz de cantante de blues, feita de lixa e melaza, que teñen os negros – pódome sentar un bocadiño?

Espetei os ollos nel cunha curiosidade indisimulada e inclinei a cabeza en sinal de asentimento.

Sobre Martínez Oca leia-se isto.

Um doce real para Eduardo Guerra Carneiro

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A vida é breve, o amor é incerto, a alegria é escassa. São os pequenos gestos quotidianos que nos salvam do desespero. Faz agora um ano que «partiu» o poeta Eduardo Guerra Carneiro. Tinha um lugar cativo na pastelaria «Doce Real» ali entre o fim do Príncipe Real e o princípio da Rua D. Pedro V. Tinha, tal como eu, uma paixão pelos pastéis de nata ali fabricados.

Escrevi o poema abaixo e a proprietária resolveu colocar uma moldura com as palavras do poema na parede por cima da mesa do poeta transmontano. Aqui fica para todos vós este poema de circunstância – como, afinal, são todos os poemas.

Louvor do pastel de nata «Doce Real»

Como no pódio em lugar cimeiro
Acima do queque e do croissant
O pastel de nata é o primeiro
Da mais bela fornada da manhã

O forno cozeu pão de madrugada
Não esgotou o calor e a doçura
O pão mata uma fome já esperada
A nata adoça o sal da amargura

Quem chega e se dirige ao balcão
Zangado com notícias e jornais
Recebe prazer da boca ao coração
E fica com vontade de pedir mais

No ritual da manhã de cada dia
Tem lugar ao balcão e à mesa
O pastel de nata dá a energia
Para combater a nossa tristeza

José do Carmo Francisco

Ele e o Lord

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A história começa assim:

tendo eu nascido numa pequena aldeia no centro de portugal, não imaginava que teria um dia a suprema honra de partilhar a minha namorada com um lorde inglês.

Não sei, leitora, leitor, se – tendo lido essa primeira frase – você é ainda capaz de parar. Prossiga, pois. O conto está em Nada Niente (também na lista aqui à direita), o blogue do contista (e muita coisa mais) João Camilo, que A Fenda edita.

What happened to… Rute Monteiro?

Leio com estupefacção as dúvidas do Zé Mário acerca do rapto da jornalista portuguesa Rute Monteiro no Líbano. Nelas insistia ele num «post» aqui abaixo.

Compreendo – e, até certo ponto, louvo – que o profissional no ZM se alvoroce com um ou outro pormenor menos rotundo num conjunto, ele mesmo, longe de nítido. Mas tenho de lembrar-lhe que essa sua – noutros assuntos, saudável – reticência apenas ajuda a criar pretextos para o silêncio dos nossos média acerca deste pequeno desastre português. Sem o querer, decididamente sem o procurar, o ZM veste a pele do provocador.

O facto é que, noutros países, a notícia já circulou, sem espalhafato, mas com naturalidade. No sábado passado, o vespertino holandês, Het Avond Nieuws («As Notícias da Noite»), publicado em Delft mas de expansão nacional, citava fontes árabes assim como o seu correspondente no Médio-Oriente, Oswald Poets.

A notícia confirmava o essencial do afirmado no blogue «Freelance» no dia anterior. E não é habitual jornais holandeses lerem, menos ainda reproduzirem, blogues portugueses… Em suma, tudo indica que o nosso compatriota blogueiro andou bem informado.

Aguardam-se desenvolvimentos. Uma onda de solidariedade nacional estaria – parece evidente – entre os mais desejáveis.

«Transumantes, nómadas»

Copia-se aqui a nossa resposta ao inquérito do Miniscente. Isto é, pode comentar-se também aqui.

O que lhe diz a palavra «blogosfera»?

Vejo a blogosfera como uma multidão informe, aloucada, saudavelmente contentinha de si, passeando descontraída pelos rebordos dum abismo que dá para o mundo físico. Ela é, assim, um universo paralelo, em que tudo é real, também. Reais são os seus prazeres, dores e desvarios, reais os seus sonhos, triunfos, frustrações. Só que a realidade é doutro tipo: impalpável, fugidia, insatisfeita. Os habitantes dela são, por sina assumida, transumantes, desenraizados, nómadas. Nesse sentido, esse habitáculo galáctico em que se entra teclando, e donde teclando se sai, pode revelar-se mais inóspito do que o suporíamos, e portanto, a prazo, rejeitável. Mas podem seguir-se-lhe universos menos habitáveis ainda. Só uma coisa parece certa: a intranquilidade veio para ficar.

Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu através dos blogues?

Foi o observar da descoberta, alheia e própria, da inaudita versatilidade deste brinquedo, o «blogue», que consegue produzir coisas tão humanas como a admiração e o enamoramento, mas também a irritação, a suspeita e o enxovalho. Tudo público, claro.

Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?

Criar-me mais um gastadoiro de tempo, onde ele já era tão escasso. Mas a queda compulsiva para intervir vinha já de longe. Ninguém foge ao fado.

Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?

É, decerto. E o controle social, em que a blogosfera é exemplar, evitará que o mundo exterior, repressivo, ponha tão cedo as botifarras aqui dentro.

«Estou sempre a bordo de uma deriva»

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Não sei se costumam ler o Luís Carmelo, bem conhecido do Miniscente (está na lista aqui à direita), mas actualmente também cronista no Expresso digital. Pois comecem por aqui. E fiquem atentos.

Bom. Agora, com o risco de se me achar oportunista, informo que, na série de entrevistas a blogueiros que desde há meses o Miniscente publica, aproxima-se a de um colaborador do Aspirina. Estamos mortinhos de curiosidade.

Dissertação sobre um nome

O teu primeiro nome tem, dentro de si, a força da Terra e a graça de Deus. Ele é, sem dúvida, o nome feminino mais divulgado em todo o Ocidente. Tem a sua origem nas profundezas da língua hebraica, mas não se ficou pela Bíblia e pelos Quatro Evangelhos. Está presente na Eneida de Virgílio, no teatro de Luigi Pirandello, nos romances de Tolstoi, nos contos de Pushkin e nas óperas de Mozart. Está junto à Terra e o seu som pronunciado resolve as hesitações nas encruzilhadas sombrias dos caminhos quotidianos. Digo o teu nome e tenho, no momento de o dizer, uma direcção e um sentido. Porque sinto, dentro do seu som, a força da Terra e a graça de Deus.

O teu segundo nome tem, dentro de si, a força da Água e da Natureza. Vem de uma origem duvidosa, envolta na neblina da lenda. Terá sido a primeira mulher, a que saiu do mar e deixou os homens da praia, entre atónitos e cheios de júbilo, aquela a quem chamaram mar yam – gota do mar. Como se essa mulher quisesse mostrar que só há vida na água, porque vivemos com a água e morremos quando estamos dezassete dias longe da água. O mistério da vida e os milagres da existência têm uma raiz nessa mulher que saiu do mar e a quem os homens chamaram mar yam – gota do mar.

O teu nome, feito de dois nomes, é uma bandeira feliz, um estandarte de alegria, uma luz que não se apaga. O teu nome, feito de dois nomes, é o lugar ideal para ouvir o som da voz da terra e o murmúrio do mar, o apelo a ficar e o convite a todas as viagens.

O teu nome, feito de dois nomes, tem a dimensão sem medida dos sonhos e a música sem fim de todas as orquestras. O teu nome, feito de dois nomes, Ana Maria.

José do Carmo Francisco

Ou muito nos enganamos ou um babado avô se desfaz aqui em lirismo.
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As guerras de Py

Em 2003, o «nosso» Py escreveu isto no Público. Depois, diz ele, calou-se. Uma pena, tem que assentir-se. Mais nos diz ele que, passado um ano, foi despedido. Uma pena maior ainda.

Desconhecemos a identidade de Py. Mas conhecemos o Público como um excelente jornal. Qualquer coisa aqui não bateu certo. Achamos nós.

A sombra do abismo

Se há coisa que me parece que normalmente as pessoas esquecem é que vivemos todos alimentados pela energia do sol – que faz o clima e a fotossíntese e a vida – e é gratuita. Este postulado deveria fazer-nos desconfiar da legitimidade ética das formas de apropriação da energia. Porque é de apropriação de energia que se trata na guerra do Iraque.

Na interpretação do professor Said Barbosa Dib a guerra é antes do mais uma guerra do dólar contra o euro, a partir do momento em que em Novembro de 2000 o ditador Saddam tomou a decisão de indexar as exportações petrolíferas do Iraque ao euro, abandonando o padrão-dólar e assim criando um facto e abrindo um precedente. Se a OPEP adoptasse essa política a desvalorização (já nítida) do dólar criaria um buraco enorme na economia dos EUA a que se seguiria um período de caos e depressão. Esse é o pânico da administração e da Reserva Federal e o sr. Bush faz o que pode para alimentar um sistema viciado em adrenalina e serotoninas: promete um grandioso espectáculo de guerra onde os EUA serão os maiores. E além disso promete substituir Saddam por outro que revogue aquela decisão, restituindo a soberania do dólar nas transações petrolíferas e na economia do mundo.

Triste civilização esta que afinal não ultrapassou a barbárie. A tecno-barbárie, variando entre o cirúrgico e a mãe de todas as bombas, aí está. Quantos milhares de civis serão vítimas da guerra?

Já faz mais de 20 anos que li a trilogia da Fundação de Isaac Asimov. Relata o livro que, no auge do esplendor do Império, o psico-historiador Hari Seldom descobre que se está à beira do abismo; com as suas projecções matemáticas calcula nuvens de probabilidades que indiciem as sequências prováveis de acontecimentos. E assim conclui que é necessário construir duas fundações secretas que reunam o conhecimento da humanidade, para que pelo menos uma sobreviva ao longo período de trevas que adviria da guerra.

Na decada de sessenta, o professor René Thom lança as bases para um novo paradigma que veio a chamar-se a Teoria das Catástrofes. Nessa teoria, as catástrofes acontecem de súbito, quando ocorre uma dobra no campo potencial. Só na estrita vizinhança do abismo é que se pode vê-lo, para quem esteja dentro do campo. Fora dele, sim, sempre se poderá ver à distância a sombra do abismo.

E é assim que não desculpo a Durão Barroso a miopia política. A partir do momento que é anfitrião dos senhores da guerra tornou-se seu cúmplice e comprometeu-nos a nós, os portugueses que estamos contra a guerra, com a própria guerra.

Fernanda e a árvore dos livros

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Numa segunda-feira à tarde, de modo totalmente inesperado e insólito, descubro os olhos luminosos de Fernanda entre uma árvore gigante do Jardim do Príncipe Real e um tabuleiro de madeira com dezenas e dezenas de livros. Entre a Natureza e a Cultura, entre o mundo vegetal e o mundo das palavras, entre a Terra e o Firmamento, este sorriso aberto de Fernanda é uma ponte a ligar duas realidades diferentes e opostas. Ela trouxe, da sua livraria simpática e acolhedora, uma amostra dos seus diferentes livros. Uns raros, outros antigos, outros apenas usados e em segunda mão. Atrás do olhar luminoso de Fernanda e do seu sorriso aberto, esta árvore surge como algo mais que uma árvore. A sua sombra dá, nesta segunda-feira à tarde no Jardim do Príncipe Real, a ilusão de que estamos numa casa. Mesmo sem paredes nem janelas, há uma casa nesta sombra projectada contra o sol inclemente de Junho. Fernanda sorri de novo neste breve e inesperado encontro. Compro-lhe então um livro, como não podia deixar de ser. Levo nele a memória deste lugar que já se chamou em tempos sítio da Patriarcal Queimada. Porque um incêndio criminoso fez arder uma Sé Patriarcal toda construída em madeira no tempo do rei D. João V. Levo nele a voz de Fernanda, um ponto de encontro entre o olhar e o sorriso, entre a serenidade e o alvoroço. Uma voz onde se misturam todo o frio das manhãs e todo o calor das tardes, a força das grandes pedras da serra e a carícia das ondas da praia mais ocidental. A mesma praia de onde partiram todas as caravelas e aonde regressaram, muitos séculos depois, os destroços de todos os sonhos. E tudo isso está guardado nas páginas dos livros que Fernanda arruma nos caixotes de papelão.

José do Carmo Francisco