As guerras de Py

Em 2003, o «nosso» Py escreveu isto no Público. Depois, diz ele, calou-se. Uma pena, tem que assentir-se. Mais nos diz ele que, passado um ano, foi despedido. Uma pena maior ainda.

Desconhecemos a identidade de Py. Mas conhecemos o Público como um excelente jornal. Qualquer coisa aqui não bateu certo. Achamos nós.

A sombra do abismo

Se há coisa que me parece que normalmente as pessoas esquecem é que vivemos todos alimentados pela energia do sol – que faz o clima e a fotossíntese e a vida – e é gratuita. Este postulado deveria fazer-nos desconfiar da legitimidade ética das formas de apropriação da energia. Porque é de apropriação de energia que se trata na guerra do Iraque.

Na interpretação do professor Said Barbosa Dib a guerra é antes do mais uma guerra do dólar contra o euro, a partir do momento em que em Novembro de 2000 o ditador Saddam tomou a decisão de indexar as exportações petrolíferas do Iraque ao euro, abandonando o padrão-dólar e assim criando um facto e abrindo um precedente. Se a OPEP adoptasse essa política a desvalorização (já nítida) do dólar criaria um buraco enorme na economia dos EUA a que se seguiria um período de caos e depressão. Esse é o pânico da administração e da Reserva Federal e o sr. Bush faz o que pode para alimentar um sistema viciado em adrenalina e serotoninas: promete um grandioso espectáculo de guerra onde os EUA serão os maiores. E além disso promete substituir Saddam por outro que revogue aquela decisão, restituindo a soberania do dólar nas transações petrolíferas e na economia do mundo.

Triste civilização esta que afinal não ultrapassou a barbárie. A tecno-barbárie, variando entre o cirúrgico e a mãe de todas as bombas, aí está. Quantos milhares de civis serão vítimas da guerra?

Já faz mais de 20 anos que li a trilogia da Fundação de Isaac Asimov. Relata o livro que, no auge do esplendor do Império, o psico-historiador Hari Seldom descobre que se está à beira do abismo; com as suas projecções matemáticas calcula nuvens de probabilidades que indiciem as sequências prováveis de acontecimentos. E assim conclui que é necessário construir duas fundações secretas que reunam o conhecimento da humanidade, para que pelo menos uma sobreviva ao longo período de trevas que adviria da guerra.

Na decada de sessenta, o professor René Thom lança as bases para um novo paradigma que veio a chamar-se a Teoria das Catástrofes. Nessa teoria, as catástrofes acontecem de súbito, quando ocorre uma dobra no campo potencial. Só na estrita vizinhança do abismo é que se pode vê-lo, para quem esteja dentro do campo. Fora dele, sim, sempre se poderá ver à distância a sombra do abismo.

E é assim que não desculpo a Durão Barroso a miopia política. A partir do momento que é anfitrião dos senhores da guerra tornou-se seu cúmplice e comprometeu-nos a nós, os portugueses que estamos contra a guerra, com a própria guerra.

16 thoughts on “As guerras de Py”

  1. “conhecemos o Público como um excelente jornal”?
    porra sôr professor!
    qualquer pessoa minimamente independente sabe que não pode dizer isso.
    Parece que não sabe, caro FV, que o ZéManel do jornal da Sonae é um dos principais cães-de-guarda na defesa dos posições do Império na guerra contra o Iraque.
    Efectiv/ se não fosse o Py a dar alguma alegria a isto este blog já era uma coisa completamente isotérica.
    “Alguma coisa não bateu certo?
    lá vamos ter de marcar uma consulta no doutor Karamba para tentar adivinhar o que foi,,,

  2. Xatoo,

    Não é só no «Público», e não é só em Portugal, que o grosso das tropas jornalísticas está à esquerda do director. Pode ser inocente questão de gerações, pode ser ponderada política dos donos.

    Facto é que muito do que lês no «Público» te faz reflectir (estou a falar comigo próprio), aprofundar pontos de vista, rever posições. A isto chamo eu um jornal «excelente». Num jornal, meu caro, o director ainda é, muitas vezes, o menos… Convém é que ele não note.

    Agora que o Py (who the hell he could be) tenha de dizer que foi despedido «ilegalmente» do jornal, isso, sim, preocupa-me. E, se for verdade, acho uma safadeza.

    [Ah, e não me chames professor. Ando desabituado].

  3. Eh pessoal, e o que vale é que eu não fui javalar porque estou com arrepios, eu não fui despedido do Público, eu fui despedido do Estado. Era professor universitário e pymba!

    Mas para mais esclarecimentos só depois que agora vou dormitar que as burocracias dão-me dor de cabeça, além disso a minha história não interessa nada.

  4. Sôr Professor Fernando:

    Seja lá o nosso py quem for, eu continuo é a achar que os enfermeiros lhe podiam oferecer a chave de casa para ele começar a postar.

    Só não sei se ele se adaptava aos ares de ali de cima.

  5. Bem me lembrava o afixe noutro dia que este blog é pirético…

    Não quero postar D. João, a não ser assim sem sequer saber.

    Escrevi três textinhos sobre a guerra, em 2002 e 2003 e depois calei-me porque o meu objectivo era só contrariar o envolvimento de Portugal na III Guerra Mundial. É muito fácil ser profeta da desgraça.

    Agora uma coisa posso vir a oferecer ao Aspirina, sim, se quiserem: são animações matemáticas de que tenho umas poucas, fui eu que as programei e são bonitas, há mesmo quem as ache belas. Isso sim, vale a pena dar aos amigos.

    Mas sobre isso falamos amanhã que ainda não percebi se estou com 36º9 ou 39º e em qualquer caso vou mas é ronronar com o meu livro e etc.

    PS Fernando não fique xateado com o xatoo, eu e ele éramos companheiros de ataque no Expresso on-line há anos, ele é Leão e eu era leopardo e esgatanhávamos aquilo tudo no tempo do Burroso e depois do Flopes. Ficámos amigos, eu sou o único reformista que ele tolera, e mesmo assim com um rugido de mistura com um snif, mas Leão é assim. Eu então acho que ele é inocente e que se estivéssemos os dois em Cuba ainda nos encontrávamos na mesma cela (e para o fazer corar digo: O Beijo da Mulher-Aranha revisited)

  6. Quais cela, quais carapuça.
    descobri cá uma ilhota cuns bungalows ali prós lados de Pinar del Rio, ui, ui – chama-se Cayo Levisa – mas antes tem de se passar pela Plaza de Armas a comprar uns livritos marxistas a 1 dólar cada. É giro como estes estão sempre abertos e com bué fregueses; e o padre tem a Catedral, ou às moscas, ou sempre fechada,
    Disso de “prisões secretas” ali nunca vi nada. Talvez quem tem tantas certezas me possa indicar as moradas (sem ser via RSF)
    de presos, conheço são estes:
    http://www.granma.cubaweb.cu/miami5/enjuiciamiento/index.html

    é estranho que ninguém diga nada sobre isto, não?
    .

  7. Sim, ainda me lembro de comer meias-lagostas em Cayos vários…

    (xatoo é claro que ninguém vê as prisões secretas, por definição, mas ainda bem se forem menos do que se diz)

    Mas eu vou tentar é bazar para Mozambique como sabes.

  8. Este py e um espectaculo, ele e jornalista, matematico, professor universitario, pensador contemporaneo, possui uma memoria fotografica capaz de recitar de cor todos os vilarejos da america do Sul, e principalmente e o maior auto-massagista de ego alguma vez visto…

    Agora vou vestir o meu fato de amianto, e sim vou ter cuidado com os cotovelos.

    PS:O meu velhote sempre me disse, nao te enaltecas, deixa que os outros o facam.

  9. (olha lá rapaz, eu estou muito pacífico, agora não sei se a Serpente Emplumada – Quetzalcoatl para os Aztecas, Kukulzan para os Mayas – vai achar graça que lhe tenhas chamado povoado…)

  10. Ah, Sílvia, a braços com o vendaval (tufão, dizem os mais temerários, sondando os deuses) que, no exacto momento, percorre este Norte da Europa, é um gozo estranho ler Belo. Lá fora o mundo ruge. Medonho, também.

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