Um doce real para Eduardo Guerra Carneiro

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A vida é breve, o amor é incerto, a alegria é escassa. São os pequenos gestos quotidianos que nos salvam do desespero. Faz agora um ano que «partiu» o poeta Eduardo Guerra Carneiro. Tinha um lugar cativo na pastelaria «Doce Real» ali entre o fim do Príncipe Real e o princípio da Rua D. Pedro V. Tinha, tal como eu, uma paixão pelos pastéis de nata ali fabricados.

Escrevi o poema abaixo e a proprietária resolveu colocar uma moldura com as palavras do poema na parede por cima da mesa do poeta transmontano. Aqui fica para todos vós este poema de circunstância – como, afinal, são todos os poemas.

Louvor do pastel de nata «Doce Real»

Como no pódio em lugar cimeiro
Acima do queque e do croissant
O pastel de nata é o primeiro
Da mais bela fornada da manhã

O forno cozeu pão de madrugada
Não esgotou o calor e a doçura
O pão mata uma fome já esperada
A nata adoça o sal da amargura

Quem chega e se dirige ao balcão
Zangado com notícias e jornais
Recebe prazer da boca ao coração
E fica com vontade de pedir mais

No ritual da manhã de cada dia
Tem lugar ao balcão e à mesa
O pastel de nata dá a energia
Para combater a nossa tristeza

José do Carmo Francisco

6 thoughts on “Um doce real para Eduardo Guerra Carneiro”

  1. O poema apresenta-se-me mais saudável que o famoso pastel de nata, mas concordo que dependerá dos gostos. E, já agora, por que não também um poemazito do Eduardo para os que como eu nunca tiveram o prazer de ler nada dele?

    TT

  2. AS CORRIDAS
    As motos roncam no circuito / de Vila Real e lÁ estou eu, pendurado / no muro das traseiras, a espreitar a Norton / que vem à cebeça, curvando, espectacular / na rampa de São Pedro. O cheiro a gasolina / embebeda a catraiada. É quase tão bom / como o incenso no mês de Maria. Baba-se / o tontinho da cidade e alguns padres / deitam foguetes e apanham as canas. / As motos cortaram já a meta quando chega / a notícia de um desastre na Timpeira. / Mas a festa prossegue com a feira / dos pucarinhos, e o barro negro de Bisalhães / racha-se na cabeça dos feirantes. EDUARDo GUERRA CARNEIRO in «O Desporto na Poesia Portuguesa» 1989

  3. Peço desculpa: houve uma falha na transcrição do poema. Não é «à cebeça» mas sim «à cabeça». Foi da emoção. Quando dizemos «Isto anda tudo ligado» estamos a utilizar um título de Eduardo Guerra Carneiro.

  4. ora lá se finou o poeta
    de que ninguém ouviu falar
    novidade seria a meta
    de comer o pastel sem o pagar

    fica à atenção da pastelaria
    a data do óbito celebrar
    fosse pra ler, nem um viria
    terá casa à pinha pra morfar

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