Arquivo da Categoria: Fernando Venâncio

Os Fogos e o Carbono

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Os danos causados por ignorância são mais propriamente chamados erros.

Aristóteles, Ética a Nicómaco

Em 1971, numa comunicação apresentada na Suécia, Lester Match afirmava que os cálculos, tendo em conta as trocas de dióxido de carbono (CO2) entre a biosfera e os oceanos, previam que a concentração de CO2 na atmosfera no ano 2000 atingisse as 380 ppm (partes por milhão). O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, no seu relatório apresentado em Fevereiro de 2007, refere que o CO2 é a componente antropogénica mais importante dos gases com efeito de estufa, e que a sua concentração atmosférica aumentou de um nível de cerca de 280 ppm, por volta de 1750, para um valor de 379 ppm em 2005.

Não foi portanto por falta de previsões atempadas que se não se contrariou o estado actual e o aquecimento global emergente, embora não seja despicienda a natureza conservadora dos testes (de hipóteses) estatísticos, tornando necessária uma enorme evidência para concluir, como hoje é adquirido, que é verosímil que as alterações climáticas ocorram por influência do homem.

Portugal, no Plano Nacional para as Alterações Climáticas (PNAC 2006), aprovado pelo Governo em Agosto de 2006, apresenta para 2010 (o ano médio do período 2008-2012) a expectativa de sequestrar o equivalente a cerca de 3,36 milhões de toneladas de CO2 por via das actividades de florestação, reflorestação e desflorestação, previstas no nº 3 do artº 3º do Protocolo de Quioto — de contabilização obrigatória — a que se juntam outras 3,69 milhões de toneladas de CO2, associadas ao nº4 do mesmo artigo, relativas a políticas e medidas adicionais de gestão florestal, agrícola e de pastagens. No total é o equivalente a mais de 7 milhões de toneladas de CO2 por ano, que se prevê possam ser retidas nos sumidoiros vegetais, por acção da fotossíntese, complementada por boas práticas de gestão e biotecnologia. Este número é apresentado como um resultado final, líquido, que permite descontar outro tanto nas emissões industriais.

Interrogo-me, no entanto, se as emissões directas dos fogos florestais terão sido devidamente contabilizadas nesse balanço. Tomando como referência o cenário de 100000 hectares (ha) ardidos por ano, e os valores médios de conteúdo de carbono para as diferentes componentes dos ecossistemas silvestres na Europa, infere-se uma estimativa grosseira: de que essa área ardida pode corresponder à emissão de cerca de 8 milhões de toneladas de CO2, ou até mais. Embora a economia dos fogos florestais ainda não internalize as perdas de biodiversidade ou a erosão dos solos, o mercado do carbono permite estimar o valor dessa emissão bruta: tomando como referência €12 por tonelada de CO2 (o valor utilizado no PNAC 2006), aquele volume de emissões dos arvoredos queimados perfaz quase 100 milhões de euros. Os mais de 400000 ha ardidos em 2003 teriam assim um valor estimável de cerca de 500 milhões de euros, só em carbono emitido!

De facto, não se vê porque é que a indústria do fogo, uma metáfora — alguns dirão: uma metonímia — para designar o conjunto de interesses e atitudes que relevam de uma cultura pirófila, não deve ser objecto do mesmo rigor de aferição que as indústrias propriamente ditas. Certo é que se pode admitir uma baseline própria dos ecossistemas mediterrânicos — em 1985, António Manuel de Azevedo Gomes, deputado socialista e catedrático do ISA, afirmava que 10000 ha seria o montante normal de área ardida no país, por ano, tendo em conta o clima, as espécies e a história. Hoje, com o aquecimento global, e a expressão crescente do eucaliptal, esse limiar será outro. Mas tem custos que não devem ser ignorados e, dir-se-ia mesmo, desde já acautelados, com investigação apurada e medidas de prevenção. Convém não esquecer que mesmo em Janeiro arderam 100 ha. Como será o Verão?

Py

Nota: o nosso amigo Py fez a gentileza de aceitar o convite para publicar aqui, no segredo dos deuses (nós), um texto originalmente escrito para o PÚBLICO. Tomei a liberdade de escolher uma imagem que foge ao assunto central, esperando não vir a arder no Inferno por causa da duvidosa opção.

Retrato breve de M. R. D. L.

Cansa os olhos nos vidros do écran
Cansa os dedos nas letras do teclado
A voz mantém a frescura da manhã
E o rosto é um mapa do seu passado

Quando não tinha as horas sozinhas
Quando passava as noites em vigília
Era a mãe das irmãs e das sobrinhas
Tal como foi dos rapazes da família

Abria a porta duma casa pequenina
Como se fosse milagre de hotelaria
E naquela sua pensão clandestina
Quanto mais se cansava mais sorria

O seu quarto não tem porta fechada
A sua voz continua firme e quente
Uma solidão todavia tão povoada
Que se multiplicou em tanta gente

José do Carmo Francisco

«Na cabeça de Sócrates»

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Saia de casa. Já. Compre o Público de hoje. Leia «Na cabeça de Sócrates», de Ricardo Dias Felner. Não perca um dos textos mais fascinantes – e perturbantes – do jornalismo português dos últimos tempos.

O primeiro-ministro português é, da cabeça aos pés, uma laboriosa e enervante mistura de «frontalidade» e «dissimulação»? Não me diga que não tinha reparado.

Eu, comovido a Oeste

Não, caros blogleitores. Não se trata de uma nova leitura do livro homónimo de Vitorino Nemésio. Eu comovido a Oeste sou eu mesmo. Eu, obscuro cronista numa manhã fria de Lisboa, pouco tempo depois de ter descoberto num alfarrabista o livro Litoral a Oeste de José Loureiro Botas. E fiquei comovido porque este livro agora por mim recuperado tem muito a ver com a minha educação sentimental. Alguns dos contos deste volume com capa de Manuel Ribeiro de Pavia estavam no livro de leitura do Ciclo Preparatório quando eu tinha dez anos. E fiquei comovido porque vi de novo aquelas figuras dos contos ao meu lado: a Tia Morganiça, o Pichelim, a Rita Rebocha, a Ana Fateixa, a Jacinta Caréoa, a Maria Rita, a Raposinha, a Leandra. Era gente que saltava das páginas dos livros e vinha para ao pé de nós, misturando as suas vidas e as suas lágrimas com as ondas do mar na Praia da Vieira. A própria história do autor do livro, filho de gente humilde, que começou a trabalhar com 12 anos e abriu uma pastelaria onde se juntavam escritores, me comoveu. Eu próprio sou filho de gente humilde, comecei a trabalhar com 15 anos e tirei o Curso Comercial como o José Loureiro Botas. Também a mim me disseram que não tenho nome para ser escritor como se a qualidade da escrita dependesse do bilhete de identidade de cada um. Também fiquei comovido pelo prefácio de Tomás Ribeiro Colaço, com palavras que deveriam estar à vista de todos em todas as redacções de todos os jornais e de todas as rádios: «Continue. Escreva mais, como sentir. Escrever é semear. É esperar, insistir. É amadurecer. É querer. É atirar pedaços de alma para uma folha de papel. É sofrer em silêncio e pensar em voz alta. É demandar perfeições que não se atingem, procurar ecos que não se ouvem, erguer castelos que ficarão desabitados, cantar ansiosas canções que ninguém escuta ou entende. Mas o espírito é terra abençoada à qual nunca se atira em vão uma semente viva; apenas sucede às vezes ser lento o germinar… E quando o escritor assim escreveu, sucede um dia que outros encontrem na sua obra todos os mundos que ele criou enquanto a servia». Fim de citação.

José do Carmo Francisco

Exageros familiares – 3 e 4

A Sininho ofereceu-nos um notável exagero, com versões feminina e masculina. Os nossos visitantes, que são maiores e baptizados (perdoe-se a cristandade da perspectiva), saberão qual uma e qual outra.

«Já nem se pode ver o futebol! É só novelas!»

«Sempre a mesma coisa – futebol! Já nem se pode ver a novela!»

Mais um:

«Antigamente, levavas uma eternidade a ter as fotografias na mão».

Um exagero monumental, sobretudo se as podias ter num 1 HOUR SERVICE. Mas compreende-se o seu tanto. Actualmente, o tempo entre o disparo e a obtenção do «print» é desprezável. Mas acabou-se, também, de vez, qualquer romantismo da espera. Ah, mundo prosaico!

«É VOCÊ O MEU PAI?»

Os autores do Aspirina têm acesso aos bastidores do blogue. Nada de transcendental, nem – habitualmente – de muito excitante. Mas ele há casos.

No post de 12 de Janeiro sobre as «lampreias», alguém – certa Sue – colocou, dias depois, um apelo. E, ontem ainda, informava que vem «todos os dias» ver se chegou resposta.

Como o Aspirina serve – também – para facilitar a vida, aqui se publicita, com este nosso discreto destaque, o apelo de Sue. Tal e qual. Com a sua grafia. E com a sua esperança.

janeiro 22, 2007 01:15 AM

Ola pessoal!
Feliz ano novo a todos aqui que sao adeptos!
Hora bem!
Estou a procura desde… nao sei quando do meu pai, Carlos Rodrigues Costa de Febres. Posso vos pedir este favor, querem me ajudar? Aqui encontrei muitas coencidencias com ele. O peixe, o mar, o estrangeiro…sao coisas que sei. Pai, se me leres, qual que sejas o que fizeste, sou tua filha Susana, nao te esqueceses de mim, porque vivo com sodades tuas.A Ultima vez que te vi, fui quando tua primeira neta Sydney Claudia (minha filha) nasceu. Eu vi tua imagem tua cara na Sexta feira 17 de dezembro 1999 e tu fizeste ano no dia seguinte. Tens um neto tambem Nils nascido uma sexta feira 22 de fevereiro de 2002 em Paris. Eles nao te conhencem mas falam de ti.Temos fotos, mas as imagems sao frias e sem sentimentos e carinhos. Eles tem esperança de te conhecer e eu de te fazer esta prenda, nos tres. Sou Susana Maria Santos Rodrigues Costa com meus meninos Sydney e Nils

fevereiro 17, 2007 03:49 PM

Boa tarde!
Venho aqui todos os dias, em vao, espero mesmo uma resposta.
Deixe meu email a vista : suebysue@msn.com assim se calhar e melhor, pois nao?!
Boa continuacao a todos!
Bye

Exageros familiares – 2

«Dantes não havia assim estes maus-tratos de crianças».

É mero efeito (e efeito benéfico) de uma sociedade mais aberta. Simplesmente, agora crescidinhos, vêm-nos o arrepio, e o susto, de termos estado, um dia, vulneráveis.

Conhece outros «exageros familiares»? Conte-nos.
Se minimamente nos reconhecermos, pomo-los em destaque.

Crónica para um menino que também perdi

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Escrevo-te, André, esta crónica triste descendo a Avenida Fontes Pereira de Melo, no mesmo lugar onde há vinte e quatro anos chorei as lágrimas mais quentes e mais grossas pela morte do teu irmão Paulo. É esta estranha e repetida geografia citadina que me leva hoje a recusar as lágrimas e pensar em ti não no passado mas no presente.

Tenho em casa, algures perdida numa gaveta, mas não perdida na minha memória, uma fotografia que tirámos na eira da casa da tua avó. É uma fotografia a preto e branco como, afinal, são todas as fotografias porque na verdade o nosso mundo não é a cores mas sim a preto e branco. Como aquela fotografia em que estamos todos felizes depois de um almoço de festa, cozinhado naquele fogão que é um monumento culinário e naquela cozinha que é um santuário da gastronomia. Mais do que felizes, estamos juntos, todos juntos à volta da festa de aniversário da tua avó que eu abusivamente resolvi, entretanto, tomar como minha.

Era Abril, o mês de todas as esperanças, depois de tantos anos de notícias censuradas, de músicas proibidas, de filmes cortados, de ruas sossegadas e de prisões cheias. Circulo hoje de mãos nos bolsos, cheio de frio e atónito perante a notícia da tua morte em Paris e a Avenida Fontes Pereira de Melo, onde soube da morte do teu irmão Paulo em 1982, esta avenida, transformou-se, de repente, num quadro cor de cinza onde o teu nome está escrito e não se apaga.

Quero que saibas, André, que continuamos todos naquela fotografia a preto e branco tirada à volta da avó na eira numa tarde de sol em Abril. Vamos continuar todos nessa fotografia porque ao lado da avó somos felizes e não há preço a apagar nem pelos beijos nem pelas lágrimas.

José do Carmo Francisco

Para um retrato de Fernanda

Nos olhos de Fernanda existe e permanece uma melancolia serena, mas vigiada por intervalos de alegria. São intervalos de alegria as viagens e os encontros. Na Índia, na Etiópia, no Egipto, em São Tomé e Príncipe, no Dubai ou em Marrocos, as viagens são um apelo difícil de recusar. Por isso Fernanda viaja no tempo e faz crónicas modernas de lugares antigos, lá onde o som das caravelas sulcando o oceano ainda persiste nos búzios entre os recifes, as areias e as dunas das praias mais quentes.

Os encontros começam nos almoços ruidosos onde a ementa principal é a troca de testemunhos e de opiniões. Continuam entretanto, tarde fora, entre os licores mais doces do Inverno e os refrescos mais apetecidos do Verão. Nos olhos de Fernanda existe e permanece uma melancolia serena, mas vigiada por intervalos de alegria. Por isso, quando se despede e a sua sombra se perde no fim da rua perto do Teatro Nacional, apetece parar o tempo dos relógios e fixar um tempo interior onde seja possível não o desgaste mas a permanência. Para que Fernanda fique e seja o ponto de encontro entre a memória e a alegria.

Nos olhos de Fernanda há o apelo da água. A mesma água de onde saíram os sons que animam todas as orquestras do Mundo e todas as notas que povoam as pautas de todos os músicos. Os olhos de Fernanda são a estante onde se projecta e repousa uma música muito antiga mas sempre pronta a subir do lugar da escrita até à sua arte final, cumprindo assim a tarefa principal de todas as melodias. Ou seja: trazer ao coração dos homens um tempo feliz mesmo que essa felicidade seja veloz. Mesmo assim valerá a pena toda essa brevidade.

José do Carmo Francisco

Dies irae

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O Abrupto até em terramotos é bom. E não em último lugar pelos seus correspondentes. Veja-se o que escrevia, de Faro, Sérgio de Almeida Correia.

A natureza é insondável e não há maior sensação de pequenez, impotência e inutilidade do que aquela que nos atravessa durante um tremor de terra. Só espero que agora não venha aí uma dessas almas da campanha do “Não” dizer que este foi um primeiro sinal da ira divina por causa do resultado do referendo de ontem. Num país em [que] o clero ainda ameaça excomunhões automáticas por delito de opinião tudo é possível, até terramotos por encomenda.

Devo dizer que tive, de imediato, o mesmo pensamento. Não do castigo, mas do clero.

«Onde há amor, não há aborto»

A comentadora que assina Sininho escreveu isto, que importa ‘puxar’ para aqui.

Tenho a sensação que, neste momento, muitos homens sentem um “aperto” ao pensar que, numa situação futura, poderão ver a sua parceira a tomar essa decisão [de interromper a gravidez] de uma forma autónoma, perdendo eles o direito a participarem nessa decisão tão grave e, por fim, irreversível.

No entanto, como mulher e mãe, gostaria de dizer que a maioria das mulheres que aborta, fá-lo por se sentir só, abandonada pelo seu parceiro.

Fá-lo por medo de não conseguir suportar a imensa responsabilidade de colocar neste mundo um ser, sozinha. Fá-lo porque sente essa responsabilidade muito antes do homem, à medida que o seu corpo se transforma. Fá-lo por falta de amor, diálogo, compreensão, apoio… Onde há amor, não há aborto.

Sininho

Um «sim» doloroso mas decidido

Se havia um referendo em que eu queria votar, era este. Mas assim não quis o destino, com grande interferência minha, de resto. Não sou cidadão português, a minha opinião não conta aqui.

Eu iria, pois, votar. Por disciplina de cidadão, por ter feitos as contas de ser humano. E iria votar SIM. Com dez, com cem dúvidas pessoais. Mas nenhuma como votante. Eu explico.

Se uma mulher e eu tivéssemos engravidado, eu quereria loucamente ter aquele filho. Sucedeu-me duas vezes (minto, sucedeu uma vez, e vieram logo dois…), portanto sei o que se sente. Contudo, a mulher que comigo tivesse engravidado, mas sem ela o querer, teria a plena liberdade para decidir. Eu poderia beber ranho e lágrimas – mas ela decidiria. Acima de tudo, eu poria, pois, a liberdade dela.

Era esse «sim» pela liberdade da mulher – um «sim» doloroso, mas decidido – que eu daria amanhã.

Poderá alguém dá-lo por mim?

Fernando Venâncio

Duas questões

No Expresso de hoje, em artigo de opinião, e a propósito do referendo de domingo, Miguel Sousa Tavares aponta duas questões que, informa, não viu discutidas. Julgo que importa encará-las.

A primeira é que com tanta veemência no “direito à vida” de um feto que se transformará num filho não desejado, não ocorra pensar no direito oposto: o direito de uma criança não vir ao mundo quando aquilo que a espera é uma vida indigna e miserável. 2006 foi, entre nós, um elucidativo exemplo de casos desses: filhos abusados sexualmente pelos pais ou padrastos à vista das mães, assassinados e escondidos em parte incerta ou mortos à pancada, sem que as instituições do Estado, a sociedade civil e os piedosos militantes do ‘não’ absoluto tenham demonstrado ter a solução que nos convença que não teria sido melhor nem sequer terem chegado a nascer. Não tenho dúvidas de que existem anualmente uns milhares de abortos que não deveriam ter sido feitos. Mas existem também, infelizmente, muito mais pais que nunca o deveriam ter sido.

A outra questão conexa que eu gostaria de ter visto explicada pelos defensores do ‘não’ é a da sua atitude perante o suposto crime, que a mim me parece totalmente hipócrita. Se eles acreditam verdadeiramente que um feto até às dez semanas é um ser humano que, pelo aborto, estará a ser morto, por que é que, em lugar de proporem penas suavíssimas ou até a isenção de pena para este ‘crime’, não propõem antes, e com toda a lógica, o seu agravamento? Como se chama o crime que consiste em tirar voluntariamente a vida a um ser humano? Homicídio, não é?

Miguel Sousa Tavares

A paranóia das Ligas já chegou ao Boavista

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Apareceu há pouco tempo nos jornais desportivos uma curiosa notícia sobre os 2000 golos do Boavista na I Divisão. Nada mais falso. De facto entre 1935 e 1938 realizou-se em Portugal uma prova experimental, um torneio particular intitulado Liga no qual as equipas entravam por convite. Assim aconteceu por exemplo com a Académica que em 1934/35 ficou em último com 3 pontos e voltou a jogar em 1935/36 ficando de novo em último. Voltou a jogar em 1936/37 e em 1937/38.

O campeonato nacional da I Divisão só começou a ser disputado em 1938/39. Até essa época existiu sempre o Campeonato de Portugal. Nos anos das Ligas os vencedores do Campeonato de Portugal foram o Benfica (1934/35), o Sporting (1935/36), o Porto (1936/37) e o Sporting (1937/38). Ora acontece que, como o Benfica ganhou 3 Ligas e o Porto 1 delas, alguns jornalistas tentaram apagar o Campeonato de Portugal desses anos. Ou seja fingem que não existiu Campeonato de Portugal entre 1934 e 1938. Depois escrevem burrices como esta: «O Boavista em 1936 desce de Divisão». Nada mais falso, pois a II Divisão só surgiu em 1938/39 tendo o vencedor desse ano sido o Carcavelinhos.

O que aconteceu de facto ao Boavista em 1936 foi que não foi convidado. No seu lugar apareceu o Académico do Porto. Essa é que é a verdade e como dizia o «outro» a verdade é só uma. Não pode haver duas verdades. Na época de 1935/36 o campeão de Portugal foi o Sporting Clube de Portugal, que venceu o Belenenses por 3-1 na final em 5-7-36, depois de ter vencido o Salgueiros, o Carcavelinhos e o Marítimo.

O Boavista não desceu de divisão em 1936 porque não havia descidas de divisão. Isso só começou a acontecer em 1938/39. Pese embora a boa vontade dos jornalistas sem memória que tentam apagar os Campeonatos de Portugal de 1934 a 1938 como se eles não tivessem existido.

José do Carmo Francisco

Saudação breve a Ana Carolina

Eu te saúdo oh! Ana Carolina, menina pequenina envolta em cor-de-rosa numa alcofa de ternura entre o olhar doce da tua mãe e a força do teu avô, entre o frio da tarde a anunciar hipóteses de chuva e a minha pressa em te conhecer.

Tu não sabes, mas, minutos depois de te ter conhecido, eu comprei uma embalagem de beijinhos e fiz-me à estrada a caminho de Lisboa. Tu não sabes, mas nessa tarde choveu muito. As terras finalmente encharcadas fizeram deslizar essa água fértil para as valetas. Passei pelas Gaeiras, pela Ponte Seca, pela Sancheira Grande, pela Palhoça, pelos Carreiros e pelo Cercal sempre debaixo de uma chuva que nos anunciava e nos trazia de facto a fertilidade.

E tu dormias descansada nos braços do teu avô, dando à tua mãe um pouco de descanso nas rotinas e nas tarefas diárias perante um recém-nascido. Tua não sabes ainda, mas a fertilidade começa pela água e eu já não via chover assim desde 2003. Aquilo a que chamamos «vida» começa com um momento que se define como «o rebentar das águas».

Pequena e indefesa tu, oh! Ana Carolina, não sabes como gostei de te conhecer e de fazer esta viagem entre as Caldas da Rainha, onde ficaste, e Lisboa, onde te escrevo esta saudação breve e emocionada.

Vejo naquela chuva que caiu poucos minutos depois de te conhecer um anúncio de vida e de alegria contra a aridez hostil da seca do ano que passou. As valetas da estrada velha entre as Caldas e Lisboa ficaram cheias de água nessa tarde em que te vi pela primeira vez. E os meus olhos cansados ficaram com uma neblina de alegria. Graças a ti oh! Ana Carolina e à tua alegria cor-de-rosa dentro de uma alcofa de ternura.

Porque o teu rosto envolto em rosa foi uma presença efectiva no espelho do meu velho Citroen, cinzento e cansado. E cheirava a maçãs no pequeno habitáculo entre a pressão da chuva e o negro do asfalto da estrada velha das Caldas até ao Cercal.

José do Carmo Francisco

Aborto, uma polémica de sempre

De Ana Cristina Leonardo recebemos este informado ensaio que, com prazer, pomos à vossa disposição.

Portugal reinicia uma discussão onde parece continuar a haver demasiado «ruído». Ou como alguns temas nos recordam os limites da razão humana.

«Um bebé não é um problema metafísico» foi uma frase que encheu as ruas de Paris, há cerca de 20 anos, durante uma campanha em prol da maternidade. Em Portugal, hoje, a discussão diz respeito ao aborto. Paula Teixeira da Cruz, do Movimento Voto Sim, afirmou que «não estamos a discutir nem a vida nem a morte. Recuso-me a discutir o problema nesses termos» (DN, 20-01-2007). A verdade é que muitos insistem em fazê-lo.

Não sendo os bebés, definitivamente, um problema metafísico, há questões levantadas pelos opositores do Sim que nos deixam na dúvida sobre se não o serão o zigoto, o embrião e o feto. Um dos argumentos mais publicitados pelo Não assenta no seguinte raciocínio: (premissa a) o feto é, em potência, um ser humano; (premissa b) todos os seres humanos, mesmo os seres humanos em potência, têm direito à vida; (conclusão): o feto tem direito à vida.


Ana Cristina Leonardo

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