Arquivo da Categoria: Fernando Venâncio

Um idioma fascinante, mas sem comentários

Neste atribulado mundo em que somos forçados a viver, parece que já não há tempo para nada. O escritor Ruben A., que conheci através de José Palla e Carmo (meu colega no Banco Português do Atlântico), tinha sobre este assunto no final dos anos 60 uma expressão muito curiosa: «Uma pressa para coisa nenhuma». Parece que foi o caso, desta vez.

Então um texto do Fernando Venâncio, uma prosa bem aparelhada sobre um livro recente de Ivo Castro e intitulada «Um idioma fascinante», passou aqui pelo blog sem um comentário, uma observação, um desdém sequer. Nada. No momento em que escrevo, acabo de confirmar o facto lendo de novo o texto datado de 25 de Fevereiro próximo passado. Não sendo eu filólogo nem especialista nesta matéria, não posso (mesmo assim) deixar de assinalar o caso. Trata-se de uma injustiça. E como acabei de ler o livro D. Duarte, de Luís Miguel Duarte (uma edição do Círculo de Leitores), acabam por conjugar-se as coisas.

Afinal o D. Duarte não foi só o primeiro rei que sofreu de uma depressão nervosa e que sobre o mesmo assunto escreveu. Ele foi também o introdutor na língua portuguesa de alguns latinismos que se tornaram, depois dele, vocábulos aceites por todos: fugitivo, evidente, sensível, abstinência, infinito, circunspecto e intelectual. Além do mais, este rei melancólico analisou os campos semânticos de diversas palavras, como previsto, percebido, avisado, saudade, desprazer, pesar, aborrecimento, nojo ou tristeza.

Já sei que me poderão dizer «Quem anda à chuva molha-se», significando que quem publica um texto num blog sujeita-se a não ter comentários. Mas se nós não nos interessarmos pela nossa língua, então corremos o risco de a perder. E depois começamos a falar inglês como nos computadores? Será esse o futuro? Bem eu gostaria que não fosse.

José do Carmo Francisco

Desportos juvenis

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No metro de Amsterdão, não há sequer meia hora. Quatro adolescentes portuguesas e um moço de catorze anos (cálculo meu), sul-americano esse, vão sentados uns bancos adiante.

Grande galhofa. As miúdas ensinam português ao rapaz. «Vai-te foder!» E o miúdo, bom aluno, dá sonoridade latina à frase, audível em toda a carruagem. Ele ainda pergunta: «Pero qué quiere decir?» Mas as companheiras são cruéis. E passam à Lição 2: «És paneleiro?» E o rapaz, com graciosa pronúncia, vai repetindo.

Ninguém na carruagem os entende. O português é aqui língua desconhecida – embora procurada por alguns escolhidos, ao fim e ao cabo o meu ganha-pão.

Que fazer? Isto é: há que fazer alguma coisa? Estorvar a inocência? Infundir vergonha a duas ou três gerações da minha? Eu teria feito sucesso, sim, passando por perto deles e dizendo ao moço – que não me entenderia – «Giras, as miúdas, hã?» Podia fazê-lo, tenho cara para isso. Mas não fiz. Chegava a minha estação – e eu abandonei aquela aula, selvagem, da mais bela língua do mundo.

Saí eu, sem sucesso. Seguiram elas, sem vergonha.

«A Terceira Atlântida», de Fernanda Durão Ferreira

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Em www.aterceiratlantida.com, a Editora Contraponto publica o mais recente trabalho de Fernanda Durão Ferreira, jornalista, investigadora e sócia da Sociedade Portuguesa de Geografia – secção de História.

A conexão da Ilha Terceira com a Antiguidade poderia parecer forçada, mas não é. Já Vitorino Nemésio tinha escrito: «A Geografia, para nós, vale tanto como a História.» A partir de textos de Platão que descrevem a Atlântida e de uma observação no terreno sobre algumas tradições terceirenses, a autora chega a uma conclusão: «as culturas tradicionais transformam-se; não desaparecem». As touradas à corda, a justiça da noite, o sangue cozido nas festas tradicionais terceirenses, o azul, o açor e o próprio nome da Ilha são aqui estudados à luz da relação entre os textos de Platão e a realidade real da Ilha Terceira.

O nome da Ilha pode ter uma relação directa com as ideias de Joaquim de Fiore para quem a idade do Pai compreendia o tempo desde a criação do Mundo até Moisés e a idade do Filho era o tempo desde Moisés até Jesus Cristo. A terceira idade, idade do Espírito Santo, era uma resposta à corrupção que grassava na hierarquia da Igreja do século XIII. Outra hipótese é o nome Terceira derivar na verdade de outro facto: depois das primeiras (Cabo Verde) e das segundas (Madeira e Porto Santo) as ilhas açorianas seriam as Ilhas Terceiras.

Um aspecto igualmente curioso e fascinante neste texto é a semelhança claríssima entre o mapa da Ilha de S. Miguel e a parte inferior do chamado painel do Arcebispo pintado por Nuno Gonçalves. O Infante D. Pedro, filho de D. João I, era o donatário de S. Miguel e as cordas estão dobradas numa semelhança quase total com o recorte da Ilha de S. Miguel. Na Net ou em papel, um texto fascinante.

José do Carmo Francisco

O’Neill, Pacheco e os universos paralelos

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Lida a extraordinária Biografia Literária que Maria Antónia Pereira escreveu de Alexandre O’Neill, fica-me uma pergunta, que cada vez mais se avoluma: como é que, entre as dezenas de indivíduos com que o poeta contactou na Lisboa dos anos 40 a 80, entre o Chiado e o Príncipe Real, não aparece Luiz Pacheco?

No livro, o nome de Pacheco figura uma vez, e, convenhamos, nada tem aí a ver com O’Neill. Lê-se que Pacheco teria descoberto que, em certa capa de revista que O’Neill editara, aparecia não uma mulher mas um travesti. Isto constitui, em termos de relações pessoais, zero vírgula zero.

Ora, como compreender que, durante decénios de vida, num circuito cultural fechado, numa época e zona de Lisboa que, na nossa memória cultural, os evocam a ambos, com amigos íntimos comuns (como Cesariny), com círculos literários comuns (como o surrealismo), sendo os dois notórios espalha-brasas e enfants terribles, nunca O’Neill e Pacheco tivessem criado um mínimo de relacionamento, suficiente para, numa biografia de mais de 300 páginas, os encontrarmos algures juntos – nuns copos, num café, numa tasca?

Revezavam-se eles, porventura, em perfeita coreografia, no espalhar das brasas, sem nunca se encontrarem, mas divertindo o mesmo público? Terão eles alguma vez escrito um sobre o outro – ou também no próprio papel se ignoraram, se evitaram? Se existem universos paralelos, e nós neles, será este um exemplo, e logo espectacular?

Quem souber diga. Ardo de curiosidade. Talvez assim este Mundo se entenda um tudo-nada melhor.

Um scotch para Maria José

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O whisky que me ofereceste hoje como resgate de um Natal sem ponto de encontro possível na rigidez dos horários e na força opressiva das convenções quotidianas tem doze anos. Ostenta mesmo um insuspeito certificado emitido pela destilaria que o fabricou, afirmando que foi mesmo há doze anos que se juntou o malte à mais pura das águas das terras altas da Escócia.

Mas nós não temos doze anos. Temos muitos mais. Eu comecei a querer conhecer-te em 1976, o mesmo é dizer trinta anos, quando chegaste de um banco comercial mais pequeno que o nosso e ficaste admirada com a vivacidade dos nossos plenários. No teu pequeno banco no largo do Rossio, toda a gente se conhecia e não havia plenários com votações de braço no ar.

Junto dois cubos de gelo ao whisky no qual fizeste para mim uma festa de Natal em Abril e bebo de puro prazer à tua saúde. E também à nossa. Ter saúde é tu continuares a ser aquela mulher-menina que corava com as piadas mais desenvoltas e picantes de um grupo numeroso e habituado a trabalhar num grande espaço e em quantidades industriais.

Tu vinhas até nós, simples, paciente e discreta, mas na verdade chegavas de uma espécie de oficina de artesanato. Nós éramos muitos e, nessa escala, éramos uma grande fábrica. O teu banco era pequenino; o nosso era um colosso.

Ter saúde é eu poder continuar a ver nos teus olhos a frescura da água que desce da tua terra até ao leito do afluente mais bonito do Rio Mondego. Ter saúde é eu poder continuar a cantar em prosa e em verso o som da tua voz que multiplica os sons da terra. Ou do teu rosto onde há sementeiras de luz e de ternura. Hoje, como em 1976, continuas a ser uma mulher-menina a corar perante uma piada de escritório.

José do Carmo Francisco

O Fim das Bichas, de Alface

Do Expresso, 27 de Novembro de 1999

«Sonoridades reguilas»

NÃO se pode jurar que a autobiografia torne vivaz a literatura. A triste experiência é, mesmo, que a vidinha tende a inspirar a pieguice e o descomando. Mas daí, também, a surpresa que uma escrita autobiográfica com tino e medida sempre dá. Podemos ir mais longe. Nas melhores histórias a tomarem uma vida pessoal como tema, a historicidade perde importância, e funciona só já como estimulador ruído de fundo. É de certeza o caso do mais recente livro de Alface.

Pormenor de suplementar interesse: o juvenil «eu» destes contos está longe de ser o herói deles, ou só o seria pela circunstância de poder ser ele a contar hoje a história. O indivíduo em quem o relato se centra, à volta de quem se descrevem evoluções, é o avô, a mágica figura que dominou aquela infância. De uma mãe nem sombra, de um pai só apontamentos esparsos, os de alguém vergado ao peso do prestígio paterno (o do pai dele, avô do miúdo), e do mais incómodo e humilhante dos prestígios alheios: o sexual. Isso, que para esse pai era a frustração duma vida, decanta-o o neto em exultantes páginas. Aquele avô foi prendado pela natureza em dois pontos dados como invejáveis: é um sedutor a quem nenhuma mulher se nega, e dispõe de uma «exorbitante anatomia», com larga fama e, supõe-se, mas nisto a informação é escassa, o correspondente proveito.

Esse avô-herói dera já um ar de graça em Cuidado com os Rapazes (Assírio & Alvim, 1995), anterior volume de contos de João Alfacinha da Silva, que assina Alface. Também já então o venerando idoso se mostrava senhor de uma «respeitosa lubricidade». A sua atenção pelas senhoras levava-o, dizia-se, a atar um lenço «a meio» para não as magoar sem necessidade. É uma anotação de passagem, e, no volume recente, refinam as discretas artes deste neto, as de deixar o leitor com o mesmo sussurro que, sobre as proezas do garanhão, perpassava a vila natal. Mesmo com o desditoso filho a população é misericordiosa, poupando-o «às histórias mais pesadas que corriam a propósito do velhote». Tudo somado, também nós sabemos pouco, e quase só que «o avô, coitado, passou toda uma vida vigiado por maridos ciumentos, namorados susceptíveis e pais hipertensos. Todos sabiam, mas disfarçavam». Sabendo tão pouco, fica-se ainda perplexo, sem poder decidir se essa vigilância de maridos, pais e namorados era adequada. Começamos a supor que afinal não era, já que, a terem-se coisas a disfarçar, é porque calhava haver distracções. E elas tinham que ser muitas, para alimentar, num meio tão pequeno, um renome de décadas. Mas certezas não as há definitivas. Ou será só a dessas perduráveis fixações fálicas, admirativa a do neto, traumatizante a do pai, autocomplacente a do ancião.

Esta avareza de meios é, em Alface, um dos maiores aliciantes, nesta temática ou em outras. Acresce que o vemos, por vezes, tomado de uma excessiva, e muito inesperada, retracção. Em momento nenhum se nos concede um vislumbre na matéria das «aulitas de iniciação sexual» que o velhinho ministrava à miudagem local, ao «encolhido grupo que éramos», aulas pagas em espécie, neste caso cigarros. Quando, no fim do livro, as aulas se tornam práticas, é uma cena estilizada, de um bem pouco erógeno «retardando», o que resta. As damas estiradas pelo chão e sofás da casa de passe, que os imberbíssimos putos percorrem com dedos de medo, têm uma lividez felliniana (o nome do senhor aparece até por ali), onde não mora o mais leve sopro de erotismo. Se os assustados infantes não apanharam uma boa misoginia para o resto da vida, é porque o destino teve com eles caridade.

O Fim das Bichas contém outras histórias. Nenhuma delas mais esclarecedora do título, aliás. Sublinhe-se, até, a discrepância entre o que figura na capa, esse mesmo, e o mencionado na página de rosto, «O fim das bichas é o princípio das filas». A picante ambivalência evola-se então, mas nem por isso ficamos mais informados. E tudo o que ainda restasse de chiste se esboroará, ao verificar-se que o título completo é tão-somente uma das anódinas falas, e há centenas delas, apanhadas num café, e que vieram a compor a narrativa «Mesas Muito Juntas». A fala é esta: «O fim das bichas é o princípio das filas ou não é». Entende-se que houve uma suspensão, uma última dúvida. A afirmação, essa, como tantas aí reportadas, é idiota. O título quis imprimir ao livro, já desde a capa, uma sonoridade reguila.

Os melhores contos de Alface vêm sem aviso. Já em Cuidado com os Rapazes assim sucedia. «Pombinhos» ou «Tubo de Ensaio», textos primorosos, não tinham qualquer destaque. Ou só o de serem, também, os mais absurdos. No volume presente, são pequenas obras-primas os contos «Carreira de Tiro», «Da Idade» e «Anjo Negro, Céu Azul». Divertidíssimos lhes chamaríamos, não fosse o pudor de dizê-lo do primeiro. «Carreira de Tiro» é a descrição metódica e arrepiante do crime, o abate a mira telescópica de drogados do Casal Ventoso, técnica possivelmente aprendida (a narrativa, entenda-se) com Rubem Fonseca, o ficcionista brasileiro que fornece a epígrafe ao livro, e que pudera, nisso e no resto, ser-nos um mais atendido mestre. Mas o estilo é, iniludível, o de Alface. Sorrateiro, incisivo, cortante. Como no passo em que a agente imobiliária se afasta com pezinhos de lã, reluzindo de um negócio em conta. É ele quem fala: «Comove, a desonestidade. A mim comove. O verme do embuste torna-se espectáculo dos mais doces. Outros apreciarão um crepúsculo arrancado a entardecer bovino. Eu não. Eu adoro passar por parvo.» É uma pilhéria de nível, com ecos do melhor que a nossa prosa andou fazendo nos últimos quinze anos, divertida com a sombra que fazia à sisudez ritualizante, bem-aventurada, dos nossos «best-sellers».

A melhor história do livro, «Anjo Negro, Céu Azul», é uma narrativa avassaladora. Sendo breve, não enche menos as medidas. Dura que é, rejeita efeitos piegas. No Cais do Sodré, num bar «cheio de fumo e solidão», Matilde encontra um negro, tão perdido ali como ela, e perdido o vê sair, desistente de tudo. Tempos se passam. Há-de reencontrá-lo, na EN125, no Algarve, olhando um carro espatifado, ele sangrando, a mulher e os filhos mortos. «As rodas ainda mexiam, sonâmbulas», aponta Alface. Mas um autor inventivo achará meios de deixar o mundo menos desfeito. Este achou.

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Redacção: «A minha escola»

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Um fulano ouve falar dos sombrios anos trinta. Mas os de cinquenta não foram menos soturnos, pelo menos na Escola número 7, a São Bento, Lisboa. Nas primeiras classes, ainda entrava o sol das traseiras, da Rua Poço dos Negros. Mas depois passava-se ao lado de frente, onde nunca batia um raiozinho. Isto quanto a sombridades físicas. Do resto, sabe-se.

Pois nessa escola aprendi eu o essencial: ler, escrever e contar. Acompanhou-me, desde o primeiro ao último momento, a professora Noémia Brito Moreira (de que se falou uns posts abaixo). Severa, incapaz de um sorriso, de uma graça, mas competentíssima. Honra lhe seja, Senhora. Viva em descanso.

Ali estamos nós. Mais ela. Dos meus colegas quase nada sei. Debandei logo para Braga, onde me mantive oito anos. Mas, à minha esquerda na foto, de blusão claro e gravata escura, está o Lino, que a estultíssima Guerra Colonial ceifaria, na idade de 20 anos. E em baixo, à direita, o Luís Filipe Pereira, que seria ministro da Saúde. De calças curtas, ri bem-disposto. Estava-se em Maio de 1954.

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Conhecerá você, visitante, alguém mais?

Um japonês que já faz parte da paisagem

Minoru Nagashima esteve em Portugal pela primeira vez em 1998 para ver a EXPO, mas não esteve muito tempo fora daquela a que ele chama «a cidade dos ventos». Desde 1999 que vive na Costa do Castelo e apanha todos os dias o eléctrico 28. Desce no Camões e sobe a Rua da Rosa com o material às costas.

Sim, porque Minoru Nagashima é pintor. Pinta na rua. O mesmo é dizer um repórter de imagens, um gravador de lugares, um caçador de luz. Sim, porque quando a luz perde a força, obscurecida por alguma tempestade ou por um simples aguaceiro, quando a neblina do Tejo empurra e derrota a força da luz, aí o nosso amigo Minoru Nagashima arruma as telas e os pincéis, fecha a caixa, despede-se do Senhor Oliveira (o filósofo que do Quiosque verde tudo observa) e volta para a sua casa na Costa do Castelo.

Mas não pára. Continua a observar com toda a atenção as suas paisagens. Rua D. Pedro V, Elevador da Bica, Senhora do Monte, Calçada de S. Francisco, Jardim de S. Pedro de Alcântara, São Tomé… Sem esquecer o Príncipe Real, o ponto central do seu trabalho.

Agora que está quase a terminar a sua exposição na Livraria Ler Devagar, na Rua da Rosa nº 145, em pleno coração do Bairro Alto, queria com esta pequena crónica fazer uma saudação a um artista discreto, simples e educado que um dia apareceu no Príncipe Real e nunca mais de cá saiu.

Pelo volume e pela importância do seu trabalho de pintor, Minoru Nagashima já faz parte da paisagem. Com a sua intuição chamou este bocado de Lisboa «a cidade dos ventos», mas a verdade é que os velhos daqui sempre chamaram a este espaço «o pai do vento». Ora aí está como um japonês recém-chegado ao Príncipe Real acertou logo com o espírito do lugar.

José do Carmo Francisco

Rua do Monte Olivete

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Arranjo gráfico de Luiz Duran para a contracapa
da Antologia Tomai lá do O’Neill feita por
António Tabucchi para o Círculo de Leitores.

Vou lendo a Biografia de Alexandre O’Neill, de Maria Antónia Oliveira. E vou aprendendo. Sobre Lisboa, sobre o País. Estive ali, e não estive. Conheço aquelas ruas, da meninice escolar, da adolescência estival.

Rua do Monte Olivete. Aí vivia Noémia Delgado, primeira mulher de Alexandre. Aí vivia, mas um pouco mais acima, outra Noémia, a minha professora primária, a boa e rígida Dona Noémia Brito Moreira, que – no rescaldo do meu exame da quarta classe, e prevendo o meu futuro de marçano, que o extracto social (ah, ah!) mais do que justificava – esclareceu os examinadores de que «este menino» é que merecia ir para o liceu. Não fui, Dona Noémia. Conseguimos, vá lá, um ministro, Luís Filipe Pereira, o da Saúde, sob Durão Barroso. Vejo-o sorrir, sentado no chão, calças curtas, descontraído, na fotografia final.

Mas a geração de O’Neill já era outra. Quando eu, às cavalitas do meu pai, assistia ao enterro do Marechal Carmona, no Largo do Conde Barão, vendo passar ao longe, na Avenida D. Carlos, coisas lentas e negras, já O’Neill era O’Neill. Chegamos sempre tarde. Somos sempre, irremediavelmente, jovens.

E um livro faz-se consolação para tanto atraso.

O ganda O’Neill

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Nunca o conheci. Nunca o vi sequer. Mas conheci-lhe um dos maiores amigos, Pinheiro Torres, Alexandre também, e falávamos muito dele.

Numa entrevista que me deu para o nr. 32 da Ler, do Outono de 1995, abordámos as relações de ambos. Que vinham de longe, de adolescentes Verões em Amarante. Mas desembocariam num afastamento. Foi, contava Pinheiro Torres,

«por causa de uma crítica severa que eu escrevi na Seara Nova a um prefácio dele à obra reunida de Nicolau Tolentino, publicada pelos Estúdios Cor. […] Ele então ficou doido, ficou furiosíssimo, e disse-me: «Tu agora não falas comigo durante cinco anos.» E eu: «Não, ó Alexandre, estás enganado, hão-de ser dez.» E ele: «Também está bem.» Pois, olhe, foram quinze. Já o encontrei na Rua da Escola Politécnica [dantes encontravam-se na Rua do Jasmim, ao Príncipe Real], estava ele muito mal já do coração.»

Não sei se esta informação vem, agora, em Alexandre O’Neill. Uma Biografia Literária, a magnífica obra de Maria Antónia Oliveira que a Dom Quixote acaba de publicar. Sei que a entrevista da Ler está na bibliografia. E eu vou lendo o livro devagar, com a nostalgia que todas as coisas boas dão, de virem a acabar.

Quando estou em Lisboa, acontece-me passar, a caminho do quiosque de jornais, pela Rua Alexandre O’Neill, à Junqueira. Na placa está: Alexandre O’Neill. Poéta. Ele haveria de gostar.

Para uma excelente colecção fotográfica do autor e um poema que ele mesmo diz, veja – e ouça – este post em Da Literatura.

Sobre vida e obra consulte o site do Instituto Camões.

Actualização
A passagem citada é reproduzida na Biografia, na pág. 202. Numa entrevista posterior, também aduzida, com Isabel Coutinho, confessa Pinheiro Torres que foi de apenas «dez anos» a zanga. A memória, às vezes, gosta de fazer drama.

Das fragilidades da nossa vida

Não sou pessoa para andar por aí com uma mala cheia de angústias. Já paguei a última prestação da minha casa no mês de Setembro de 2005. Não tenho, portanto, um problema de habitação. Em termos financeiros tenho feito os possíveis para equilibrar as contas sem grandes angústias e com o recurso sistemático à conta ordenado. Em termos de saúde vou aguentando o barco tentando queimar os açúcares em excesso com longas caminhadas pelas ruas de Lisboa. Os meus filhos não me dão problemas de nenhuma espécie. Todos empurram a sua própria vida com responsabilidade e com equilíbrio: a mais velha é arquitecta e trabalha em Londres, o do meio está a fazer um mestrado em história dos descobrimentos e a mais nova frequenta o quarto ano do curso de arquitecta paisagista.

Um destes dias a minha casa sofreu uma inundação. Durante muitos anos pensei que as inundações eram só nas caves dos prédios. Esta semana descobri que se pode morar num quarto andar e sentir um calafrio terrível ao ver que os livros, as revistas e as fotografias de uma vida aparecem a boiar no meio da água. Os meus chinelos de quarto ficaram ensopados. A explicação é simples: foram os pombos que sujaram o algeroz e a água chegava das telhas e, como não tinha saída para baixo, entrava pela parede e só parava na cozinha e no meu escritório.

Tudo isto tem a ver com um sinal dos tempos: há muitas velhas solitárias nos prédios vizinhos que todos os dias atiram pão aos pombos. Estranha maneira de viver a solidão, ligando mais aos animais do que às pessoas. Os animais já têm o hábito de estar por ali à espera de quem lhes atire o pão. É por isso que sujaram tanto o algeroz do meu prédio e eu acabei por sofrer uma inesperada inundação num quarto andar.

José do Carmo Francisco

Proibido andar sobre a relva

Fiquei chocado, surpreendido e mesmo revoltado quando, há uns tempos, ouvi na televisão a notícia da morte do escritor Ferro Rodrigues anunciada como sendo a de «um colaborador dos Parodiantes de Lisboa». Para mim não está em causa que o escritor Ferro Rodrigues, tal como por exemplo o escritor Santos Fernando, fosse amigo dos Parodiantes de Lisboa e tivesse colaborado com os seus programas «Graça com todos» e «Parada da paródia». E nem me interessa se esta notícia foi feita por ignorância ou por má-fé. Para mim, Ferro Rodrigues é o autor de três livros: Noite sem estrelas, Lusitânia Expresso e Proibido andar sobre a relva. E nem está em causa se ele era o pai do outro Ferro Rodrigues que exerceu funções governativas e foi secretário-geral de um partido. Isso não está em causa. Para mim, o problema está em que a notícia refere a sua ligação aos Parodiantes de Lisboa e circunscreve as suas actividades a essa colaboração. Isso é que está mal, isso é que é incorrecto, pois quem elaborou a notícia não pode ser refém de preconceitos.

Parece-me que a notícia deveria ter sido assim: «Faleceu Ferro Rodrigues, autor dos livros Proibido andar sobre a relva, Lusitânia Expresso e Noite sem estrelas. Foi amigo do escritor Santos Fernando, com quem manteve parcerias no teatro de revista do Parque Mayer, e colaborou nos programas dos Parodiantes de Lisboa.»

Para dar uma ideia, vou transcrever duas linhas do livro Proibido andar sobre a relva. Numa casa de fados alguém dirige-se a uma fadista e pergunta: «Rapariga queres uma letra para um fado novo?» E esclarece: «É um fado humorístico. O gozo dum fidalgo sem vintém que se vendeu à filha dum lavrador alentejano a troco duns cornos de cortiça.»

É humor, um humor povoado pela tristeza, porque Ferro Rodrigues sabia que «o humor é uma lágrima entre parêntesis».

José do Carmo Francisco

De que falamos quando falamos de cultura

Bastou um rápido olhar às páginas de um jornal de Lisboa para me aperceber do estranho uso da palavra «cultura» e do adjectivo «culto» em diversos anúncios do mais diverso teor.

Na região de Setúbal procuram um casal de caseiros para uma quinta, mas exigem bons conhecimentos de língua inglesa. Alguém com uma menina deficiente para cuidar exige uma pessoa culta, jovem e livre de compromissos familiares para tomar conta da dita menina. Mais à frente é um cavalheiro (são sempre cavalheiros, não sei se já repararam…) que se proclama culto e deseja conhecer uma senhora culta com idade entre 40 e 50 anos para assunto sério. Para não haver empate há uma senhora (são sempre senhoras, não ficam atrás…) que se proclama também culta e procura um senhor entre 60 e 65 anos, igualmente culto e com vida estável para assunto sério.

Será tudo isto porque as pessoas se arrepiam com as respostas dos concursos televisivos onde a cultura é bem escassa e os resultados não mentem? Será porque a cultura, como a água potável, é um bem cada vez mais escasso na nossa sociedade? Todas as explicações terão a sua lógica. A relação das pessoas com a cultura é, em geral, complicada.

Há anos, recebendo eu convites para as diversas exposições da Biblioteca Nacional de Lisboa, questionei as pessoas do secretariado para não me tratarem por doutor, mas a resposta deixou-me sem resposta: para eles a lógica era outra. Sendo eu amigo do director da Biblioteca Nacional, não fazia sentido que não fosse também doutor. Os envelopes continuaram a conter esse título. De nada valeram os meus argumentos em sentido contrário. A lógica venceu a verdade.

Não sou doutor, mas sou tratado como tal. Afinal uma questão de cultura.

José do Carmo Francisco

O grande vizinho a Norte

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Na Galeria de Arte SARGADELOS, no Porto (galeria, e também loja de porcelana, sim, vá até lá, e veja o seu serviço de jantar, na sua mesa, quando você for rico…), está visitável, até 28 de Fevereiro, a exposição PORTUGAL E GALIZA: um passado comum. Fica na Rua Mouzinho da Silveira, 294.

Não é por nada, mas você podia ir lá, ir lá por mim – que vivo tão longe das coisas boas – e depois contar aqui. Tá?

O homem que levava os raciocínios até ao fim

Dos jornais que lhe passam hoje pela mão, que sobrará, que sobreviverá, daqui a uns tempos? Muito pouco. Mas a maior probabilidade, nisso, têm-na as crónicas, aquelas que você, leviano, desprezou ao passar das folhas. Sim, bastantes cronistas reúnem, depois, a sua produção. Está a ver: você vai ter segunda chance.

Não faço ideia se Paulo Moura, repórter do Público e estreante de romancista, algum dia reunirá as suas crónicas. Mas aqui lhe fica o pedido de que, venha ele a fazê-lo, não exclua «O homem lógico», a sua crónica daquele domingo de Fevereiro do ano – ah, tão longínquo – de 2007.

Quanto a você, visitante do Aspirina, não espere essa segunda oportunidade, que pode, sim, vir ainda longe. Volte a folhear o jornal. O impagável texto está (se a versão online confere) na página 46. Vá, divirta-se. Você tem esse direito.

Actualização 1

Afinal, o Público de hoje está grátis online. Aqui.

Actualização 2

… e portanto também aqui. Aqui. Em casa. Ora abra.

«Um idioma fascinante»

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Do Expresso de 24-II-2007

Introdução à História do Português
Ivo Castro
Colibri, 2006, 242 págs., €14,70

Durante vinte anos, a história do nosso idioma teve em Paul Teyssier, merecidamente, o autor de referência. Mas, em 2006, Ivo Castro publicou uma «muito ampliada» edição da sua Introdução à História do Português, e não custa prever para este livro um lugar cimeiro.

Os tempos estavam maduros para uma nova história da língua. Os trabalhos levados a cabo pelas investigadoras Clarinda de Azevedo Maia, Rita Marquilhas, Ana Maria Martins, Esperança Cardeira e pelo próprio Ivo Castro pediam, pela sua qualidade, uma obra de síntese. Ela aqui está. Uma das suas virtudes é a de, por sua vez, pedir por mais.

Seguimos os passos do idioma desde a sua longínqua e fascinante confecção no Noroeste peninsular até meados do século XVI. É este um momento fulcral, que encerra o período decisivo, e movimentado, do Português Médio, já descrito com garbo por Esperança Cardeira, num livro (Entre o Português Antigo e o Português Clássico, 2005) que desenvolve teses avançadas por Castro: as da transição dum português de criação e moldes galaicos para uma norma nova, elaborada e difundida por Coimbra e Lisboa (aonde o idioma chegara como língua estrangeira), e isso com o estímulo dos cultos Infantes de Avis. Esta ancoragem de fenómenos linguísticos na geografia e na história social produz efeitos, entre nós, inauditos.

Vantajosa é, também ela, a ponte lançada à história literária, que acompanhamos com detenção até à «língua» de Gil Vicente, aqui com recurso às pesquisas de Teyssier. Surpreendente, e quase enternecedora, é a resistência do Infante D. Pedro, na década de 1430, a uma renovação cultista do léxico, que acabaria por dar-se. São estes nichos de tensão que tornam emocionante o que poderia ser simples relação de factos.

Ainda assim, a modéstia do título (uma «Introdução») justifica-se. A segura e detalhada marcha estaca por 1600. Os últimos quatrocentos anos da história do idioma ocuparão escassas páginas. É como se a dinâmica da língua tivesse, então, travado a fundo, e Garrett ou Vieira ou Fernão Mendes Pinto fossem, numa ditosa acronia, nossos contemporâneos. Mas há outros problemas. Visto que o livro vive (e vive bem) dos «processos» que o idioma atravessa, falecem-lhe as visões de conjunto, os patamares, os «estados de língua» atingidos. Depois, tão pormenorizado é o tratamento da variação fonológica quanto é sumário o do léxico. Isso sucede em histórias de outras línguas. Mas um exame aturado e objectivo do português médio mostraria (é um exemplo de surpresas) quanto suposto latinismo foi mera absorção de elaborações castelhanas. Da língua da Meseta importámos, ainda, e em boa consciência, largas dezenas de locuções e uma inumerável fraseologia. Para o panorama lexical de épocas mais chegadas, dispomos (e uma grande história da língua será sempre empreendimento colectivo) dos elucidativos estudos de Mário Vilela e de Telmo Verdelho. Como dispomos, para fenómenos sintácticos recentíssimos, das investigações de João Andrade Peres.

A maior perplexidade surge, todavia, da persistência de um tabu: o que envolve a ruptura, entre todas decisiva, que teria fundado o português como língua diferente do galego. A questão é séria. Enquanto essa ruptura não for identificada e descrita (e ninguém até hoje o ousou), galego e português continuarão a ser, para efeitos científicos, a mesma língua. E a própria existência do português como língua independente será da ordem do apriorismo político, dos aconchegos pátrios – mas decerto não da ciência.

Simplesmente, e tanto é certo, esta história do nosso idioma sob o olhar de Ivo Castro (no Expresso de 7/1/2006, comentando versão anterior, Joaquim Manuel Magalhães falava em «afectuosidade e encantamento») é um reinício auspicioso. Aguardamos uma prossecução, curiosos por descobrir aí, um dia, o espelho do nosso tempo.

Fernando Venâncio

Dores bem gemidas

De Mínimo Ossário, série de sonetos de JOSÉ LUIZ TAVARES, e mais exactamente de «sonetos para o meu pé esquerdo» – meu, dele – seleccionámos este.

Flictena, eritema, eczema — pra soneto
não serão baixo tema? Vertical, porém,
no comum silêncio que do deus é desdém,
na manhã espigada soa o médico decreto.

Minha dor bem gemida (envergonhado
embora do sorriso da enfermeira castelhana)
não seria bem maviosa ária siciliana,
mas alento do que o osso traz quilhado

por mor de mal medido salto. Mas amanhece
num solo de Turina, à química do sonho
entrego os prenúncios da dor, pois socorro

são as mãos da jovem castelhana. Inda fosse
só o calor fingido de um dezembro tristonho,
ante tão sinestésica aparição, todo eu coro.

JOSÉ LUIZ TAVARES

Uma trompete no coração da noite

Na noite em que festejo discretamente os meus 56 anos, um acaso leva-me a colocar no leitor de CDs um disco de promoção da música portuguesa apresentado no Festival do MIDEM em Cannes. Trata-se de uma edição da Sociedade Portuguesa de Autores e inclui músicas tão diversas como «Venham mais cinco» de Zeca Afonso, «Vila Faia» de Thilo Krasmann, «Amélia dos olhos doces» de Carlos Mendes e Joaquim Pessoa ou «Queda do Império» de Vitorino. Os músicos são quatro, mas os outros que me perdoem. Há um não sei quê de especial na trompete de Tomás Pimentel. É algo de muito familiar para quem nasceu numa casa de músicos filarmónicos e desde muito cedo aprendeu a ver o avô a lavar a trompete com água morna e bolinhas de chumbo. O tom puríssimo e alto de um som que guardei na minha memória afectiva regressa de súbito ao meu ouvido. Tomás Pimentel pega na trompete e espalha os mesmos sons quentes e tensos que o meu avô tocava só para nós depois de lavar a trompete com água morna e bolinhas de chumbo. Zezinho, queres ouvir o «Teodoro leva-me ao sonoro»? – perguntava o meu avô. E eu dizia logo que sim. Outras vezes era a moda da Rita: «Esta é que era a moda / que a Rita cantava / lá na Praia Nova olaré / Ninguém lhe ganhava». Tomás Pimentel lembra-me o meu avô por causa do modo firme e delicado, impetuoso e suave, alto e sussurrante como faz sair da trompete os sons das mais velhas canções portuguesas. Também o meu avô usava a surdina apenas quando a pauta musical o determinava. O som da trompete deve ser sempre amplo e cheio, forte e intenso, timbrado e solene para que a música possa ser um intervalo de festa na monotonia cinzenta da nossa vida.

José do Carmo Francisco