Arquivo da Categoria: Fernando Venâncio

Língua movediça

Para os leitores do post abaixo, do Valupi, algumas informações mais,
de um artigo que publiquei na KAPA, em 1992.

Há tempos, O Independente ocupava-se de um tema amargo. Falava-se da estadia de gatos em ‘pensões’ durante as férias dos donos. Consolações só havia uma: a de o bicho, numa segunda estada, já ter noção do que lhe acontecia. A partir daí, escrevia o jornal, «o bichano já percebeu que só está ali de férias e que eventualmente o dono irá recolhê-lo». E nós, amigos de gatos, ficamos tristes outra vez. Porque afinal só eventualmente o dono o virá buscar. Depois, se o entristecimento não toldar de todo a razão, há-de haver quem recorde o seu inglês. E lá está: o dono há-de vir finalmente buscar o tareco. «Eventually», era bem de ver.

Este drama passou. Mas ainda há-de ver-se muito sofrimento inútil. Por impensável que, assim a frio, possa parecer, este decalque inglês vem tomando entre nós apreciável terreno. Não poupa ninguém. No Expresso pode escrever-se isto: «Os físicos do início deste século viviam um sentimento de crise e eventualmente de desespero». Leia-se em inglês e percebe-se. Mas mesmo um autor tão seguro como Jorge de Sena se refere a poemas «em que o poeta, eventualmente regressado à sua terra natal, se compraz nadando», etc. (em O Reino da Estupidez, II).

É grave? Não sei. Só sei que há mais e há pior. Por exemplo, já ninguém tem mão nesse tresloucado virtualmente. Pois, que pode supor-se signifique «O avião tornou-se virtualmente incontrolável?». Ou: «Possuindo uma aparência característica, é virtualmente impossível confundi-las»? Que aconteceu, para poder dizer-se «Todos os medicamentos são há anos virtualmente desviados para o Zaire»? Será verdade que «as visões da nossa poesia são virtualmente ilimitadas»? Tudo isto de fonte impoluta e exemplar, casos do Expresso ou do JL. Para quem não souber o que «virtually» quer dizer (e é esta coisa simples: ‘quase’, ‘praticamente’) aquilo são afirmações que soam no vazio.

A significação das palavras é, foi sempre, um dos segmentos mais movediços da linguagem. E nada como os advérbios para mostrarem elasticidade. Já a nossa bisavó gatinhava, e ainda o advérbio ultimamente significava ‘em último lugar’. Novamente equivalia, por essa altura, a ‘recentemente’. Assim continuará a ser. A semântica do advérbio é um encadear de desvirtuamentos. As acções de salvamento individuais não conservam, passados anos, senão o lado grotesco. Na melhor das hipóteses, consegue-se enternecer a posteridade.

Dito isso, avancemos. É que esta batalha pode não estar de todo perdida.

Não é só o inglês que nos perpassa as porosidades, o francês faz outro tanto. Todos temos um amigo português em França que nos escreve, rendido: «Finalmente tinhas razão». Ele quer, é evidente, dizer: «Afinal tinhas razão». Ou surge-nos de lá uma amiga, também portuguesa, a informar: «Normalmente chego hoje». Ela queria apenas dizer ‘em princípio’.

Mas como os amigos na França são muitos, há de que recear-se. Em particular quando as forças francesas e inglesas se aliam para a desestabilização. Veja-se o caso de aparentemente. Ele tem, coisa conhecida, o valor de ‘à primeira vista’, ‘na aparência’. Seja este exemplo: «O líder dos conservadores afirmou que a nova ideia, aparentemente benéfica, se transformara, quando posta em prática, numa monstruosidade perversa». É isso. Estava, não há muito, nesta revista.

Acontece porém que, dois em cada três casos, aparentemente se nos oferece com significado alienígena. Exemplos? Eles são diários, veja-os o leitor por si mesmo. E substitua-os por qualquer coisa como ‘ao que parece’, ‘segundo tudo indica’, ‘pelos vistos’, ‘ao que consta’. Isto é português e, para mais, bastante menos monótono.

É consigo. Mas, se fosse eu, agarrava esta língua antes que resvalasse mais. À bruta, se necessário.

O mais das vezes, nem tanto será preciso.

Revista KAPA, nº 11, 1992

«E Deus Pegou-me pela Cintura»

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Luís Carmelo

Este apontamento crítico saiu hoje no «Actual» do Expresso.

Uma jornalista portuguesa, em trabalho no Líbano, é raptada. Estamos no início de Outubro de 2006. O fim da guerra com os israelitas não tornou a região menos confusa. A diplomacia portuguesa prova pouca agilidade, e Rute Monteiro acabará assassinada, com realismo videográfico «on-line», embora sem confirmação. Sobre esta tragédia escreveu Luís Carmelo o romance E Deus Pegou-me pela Cintura. É um relato «de geração» (o episódio terrorista é apenas pretexto) e pretende-se retrato dum país inteiro.

O romancista, também professor universitário, ensaísta e conhecido «blogger», engendrou um pré-lançamento a que não faltava invenção: a blogosfera forneceria uma inaudita «cacha». Bloguistas amigos, ou cúmplices, emprestaram credibilidade ao drama, enquanto a paralela «apatia» dos «media» tradicionais funcionava como escândalo e prova de inaptidão. «E porquê este silêncio todo?», lia-se numa caixa de comentários. «Eu acho arrepiante.»

O golpe publicitário (bom, a «antecipação ficcional», como o autor lhe chamou em entrevista na rádio a Francisco José Viegas) não pôs lírica a blogosfera inteira. Nada de estranhar, considerou Eduardo Pitta: semelhante «enfado» perante a lúdica manobra só nos ilustrava a incapacidade de rir. O que não convenceria Rui Bebiano, que via no «artifício wellesiano» uma certa «banalização do mal».

Movimentam-se, no romance, três espaços de tempo. Há a história actual, a do sequestro – e tão estritamente contemporânea que desembocará no próximo futuro Verão. Há o longínquo panorama revolucionário de uma Rute em Évora e seu namoro com Guilherme, colega universitário. E há o reencontro dos dois, de Setembro de 2006, em Lisboa, ela já repórter conceituada, ele cartoonista diário. Com algum pormenor se preenchem, ainda, os 30 anos intercalares. Em todos estes cenários é alimentado o contacto com a História exterior (das ocupações de latifúndios, em 1975, à última guerra no Líbano e à mensagem de Natal de José Sócrates), numa fusão que, aqui e ali, ganharia com mais subtil tratamento.

Alguma subtileza se desejaria, também, às cultíssimas alusões que povoam os romances de Luís Carmelo, onde (são dois exemplos, neste, inofensivos e nacionais) uma vivenda será «estilo Raul Lino» e certo bebé nascerá «no dia da morte de Vitorino Nemésio». Mais precária, todavia, é a atmosfera premonitória (digamo-lo assim) que embebe estas ficções. Só no cenário de Évora abundam o «promissor», o «providencial», o «auspicioso», o «significativo», o «sintomático». Estamos num universo conspirativo, como o que Hélia Correia constrói, mas aqui com os cordéis todos à mostra. Por ironia? Seria difícil supô-lo. Na ritualizada literatura de Luís Carmelo, quando há riso, diz-se que há.

Um escândalo internacional como trama, aí está um achado. Mas ele pressupõe uma desenvoltura que este autor não explorou, embora o pudesse. A bem conduzida cena do interrogatório de Guilherme por uma PSP intrigada pelo rapto, único momento vibrante do volume, mostra um Luís Carmelo capaz de outras façanhas. Subaproveitado, portanto.

E Deus Pegou-me pela Cintura
Luís Carmelo
Guerra & Paz, 2007, 192 págs., €17

À atenção de (pelo menos) Jorge Candeias

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A coisa já não é recente. Passa-se no longínquo 1993. Recente é a recordação dela.

O bloguista Jorge Candeias lembrou, aqui abaixo, na nossa caixa de comentários, certo texto de Francisco José Viegas, na Ler, de que era director (foi-o durante dez anos), texto crítico que FJV intitulou «A bosta do trimestre» e tinha por pretexto uma Antologia de ficção científica, O Atlântico tem duas margens, de autores brasileiros e portugueses. Hoje, por sua vez, Jorge Candeias designa por «texto merdoso» o de Viegas.

Fica a gente pasmada. Vamos ao número 23 da Ler (suba ao sótão, ou peça a um amigo atento ao mundo… e aproveite para ler aí, também, a minha entrevista ao célebre escritor holandês Gerrit Komrij, que reside na nossa Beira Baixa), e vemos Viegas achar «defeituosos, sem graça, mal escritos» alguns dos contos antologiados. Faz, ainda assim, referência a «excepções (e assinaladas, do lado português)».

Compare-se este, talvez útil, e decerto simpático, apontamento de Viegas com a crítica que, do mesmo livro, faz o próprio Jorge Candeias (pode achá-la no seu blogue), onde damos com apreciações (cada uma referida a um texto diferente) como «um conto com algum interesse», «um conto muito esquecível», «um dos piores do livro», «bastante fraco», «não é dos melhores», «não está particularmente bem escrito», «longe da sua melhor forma», «pouco ou nada de relevante traz», «não é dos melhores». E, apreciando o conjunto, Candeias diz que «não chega a poder ser considerado bom».

Não conheço a Antologia. Mas algo me diz que tanto Jorge Candeias como FJ Viegas têm suma razão. Só não atino é com o que haja de «merdoso» na crítica de Viegas e de, por isso, tão intensamente inteligente na de Candeias.

Se estiver por aí…

Hoje, sexta-feira, às 20.40, em conversa com Bárbara Guimarães, no programa Páginas Soltas da SIC Notícias, poderá ver e ouvir Paulo Kellerman, um dos contistas mais interessantes do (nosso) momento.

Não consegue ver? Tem nova chance, na segunda-feira, dia 9, às 15.00.

Actualização

Você talvez estivesse por aí – o programa é que não estava. Passou uma hora antes. Não o vi. Mas espíritos exigentes dizem que não decepcionou.

Uma tia espectacular

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Para um comentador literário, poucas coisas são mais irritantes do que a doentia necessidade de alguns colegas de ‘dizer bem’. Não é só por aquela decisão, cobarde, de nunca escrever ou falar sobre livros de que não se goste. As coisas são, se possível, piores ainda: por princípio, acha-se bom tudo quanto aparecer em papel. É a maior das falsificações. É a forma acabada do contrabando.

Porque o fazem eles? Certezas não tenho. Mas pode supor-se que desejem assim assegurar uns tostões. Há publicações preguiçosas que tudo aceitam. E pode imaginar-se que o móbil seja algo difuso: um vago medo de se verem chamados à responsabilidade. Dizendo logo bem de tudo, ninguém depois os virá chatear.

Acontece que tenho um respeito de fundo pelos meus colegas, e não penso logo na solução, ainda assim a melhor, de armar-lhes uma espera para a sova definitiva. Por isso, tento ‘explicar’ a bons modos. Explicar dá muito trabalho, mesmo mais do que armar esperas. Mas com alguma coisa se terá de ganhar o céu.

Peguemos por uma ponta erótica. Não porque o erotismo assegure logo especial prazer (exactamente não assegura, e é disso que vai falar-se), mas porque permite situações claras. É o que se consegue lendo, seguidos, dois livros: A Casa dos Budas Ditosos, do romancista brasileiro João Ubaldo Ribeiro (nas Publicações Dom Quixote), e A Vida Sexual de Catherine M., da escritora francesa Catherine Millet (nas Edições Asa). Podem ler-se em formato de bolso, indo o primeiro às 230 páginas e o segundo às 160. Num livro e noutro livro, uma mulher relata detidamente uma existência sexual dissoluta, e fá-lo em termos directos, despudorados. As semelhanças acabam, também, aqui.

Há, logo à partida, uma circunstância que aparta os livros. O de Millet é uma autobiografia, mesmo podendo admitir-se que, aqui e ali, pensando no bem do leitor, se ficcione o seu tanto. Já o de Ubaldo é ficção pura e dura, por mais que possa imaginar-se (e não faz mal fazê-lo) que o autor alude a factos seus conhecidos.

Mas onde os livros se afastam, para nunca mais se encontrarem, é no modo como um e outro autor conceberam a história e como a redigem. O livro de Catherine Millet é um desconsolo. Repetitivo, confuso, nunca levanta voo, antes consegue o pior: não criar surpresas nem qualquer esperança delas. Bem diferente nos surge João Ubaldo, de quem, de resto, se conheciam já romances vigorosíssimos, como Viva o Povo Brasileiro, em todos os sentidos um sucesso. Ora, quem é a narradora de A Casa dos Budas Ditosos? É uma tia espectacular, absolutamente insuperável, senhora de artes espantosas, de deixarem ofegante o leitor.

Da leitura dos dois romances, pelo menos isto ficará claro: que há uma literatura que nos arrasta consigo e uma outra que nem gato é, julgando-se lebre.

Aos críticos literários que, depois disto, não virem a diferença, desejo sinceramente que dêem bons hortelões.

Um português em Alcácer-Quibir

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Se lhe disserem que o marujo aí acima esté em Alcácer-Quibir, você não acredita, pois não? Os mitos pátrios imaginam, à viva força, uma aldeola no deserto. Pois enganam-se, mais uma vez, os mitos. O leitor está a ver-me frente a um dos centros comerciais de… pois, de Alcácer-Quibir.

Agora, uma explicação. O lugar da batalha não é aí, mas 16 km a nordeste. Mais exactamente, aqui:

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Como vê, uma planície de cultivo. Era, de resto, o que Sebastião, o Tal, procurava. Marrocos era – e é – um celeiro. E Portugal, em 1578, tinha fome.

Este visitante escreveu no livrinho Quem inventou Marrocos o apontamento que segue:

Quarta, 14 de Março de 2001.

A cidade de El Ksar El Kebir, ‘o palácio grande’, ignora quanto é famosa. Provavelmente nenhum habitante sabe que o nome da terra, corrompido em Alcácer-Quibir, foi servir de pesadelo a um povo do outro lado do mar. É certo que a batalha não foi exactamente ali onde é a cidade. Os exércitos defrontaram-se 16 km mais a norte, em campo aberto. Estranha coisa: a persistente imaginação lusitana, e o filme de Oliveira, colocam-na no deserto, quando o deserto dista centos de quilómetros daqui. Toda a metade norte de Marrocos é verde, bem mais verde do que o nosso, esse sim desértico, Alentejo.

O sítio exacto da grande refrega é, já vou avisado, difícil de achar. Sei que há um monumento, que fica junto a um velho apeadeiro de comboio. Vou-me valendo das indicações de Amadeu Lopes Sabino, num artigo há anos no DN, mas, ainda em plena cidade, a posição do sol diz-me que vou mal. Um polícia sinaleiro apercebe-se e vem ter comigo. Estamos em Marrocos… Tivesse eu saído do carro, e ele acolhia-me com um braço pelos ombros. «Monsieur», digo, «je cherche la gare de El Makhazen.» «La guerre?» «Non, monsieur, la gare.» «Mais oui, la guerre, la bataille.» O parvo, afinal, sou eu. Solícito, ele indica-me o «feu-rouge» onde devo virar à esquerda.

Como é que uma estação de caminho de ferro o informou da minha exacta busca, havia eu de compreendê-lo quando chegasse ao sítio: ninguém procuraria, naquele lugarejo, senão exactamente isso. Mas já então eu dera voltas inúteis, já encontrara também, tal como Sabino relata que lhe sucedeu, quem gritasse «Sébastien, Sébastien!» apontando o infinito, e, mais que tudo, já eu me apercebera de que o depósito da gasolina estava, talvez, nas últimas gotas. Quem anda atrás da História não repara em ninharias.

E foi assim que, junto ao minúsculo monumento à Batalha dos Três Reis, a designação marroquina do recontro onde os três deixaram a vida (mas certezas só há dos dois monarcas locais), nesse lugar anódino onde as nossas esperanças de grandeza se finaram, foi assim que eu, em vez de curvar a extenuada cerviz e meditar no destino, só soube perguntar onde era a bomba de gasolina. Riram. Não havia tal. Fi medina, ‘na cidade’, gritaram-me alvoroçados. E eu pensei que, se em algum lugar do mundo tivesse de ser infeliz, antes aqui.

Um camponês de idade incerta disponibilizou-se a acompanhar-me. Aceitei logo. Por aqueles ermos, ninguém falava senão marroquino, e a suprema desgraça seria ver-me no descampado sem gasolina e sem idioma. Pelo caminho, pediu-me dinheiro para certo ferimento no tornozelo. Vi a coisa muito cicatrizada. Mas nós tínhamos por ali, lembrei-me, ainda alguma dívida.

Cheguei a Alcácer-Quibir já o carro soluçava.

Les beaux esprits se rencontrent

É um chavão, e logo gaulês. Mas é também – pelo menos no caso da «Sininho» e do «Py» – uma grande verdade. Quando escrevi o post aí abaixo (esse com a foto do deserto em Marrocos), estava longe de imaginar que não estava sozinho, por aqui, e que estava até muito bem acompanhado.

Pois acontece isto: tanto a Sininho como o Py enviaram-nos fotos daquele país magnífico. E próximo. Segundo rezam os ditos, Rabat é a capital mais próxima de Lisboa. Não é, Madrid ganha-lhe por uns quilometrozecos. Mas quem repara nisso?… E faz muito bem.

Ora, o Py andou por Alcácer Quibir e foi ao local da batalha (que fica 16 km a nordeste da cidade de tão famoso e agoirento nome). Tirou lá esta foto, que comenta nos termos que seguem.

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Quando vi este post do Fernando, lembrei-me de uma coisa. O ano passado voltei a Alcácer-Quibir, lá fui a cheirar, até que voltei ao sítio da batalha. Fui fazer uma mijinha e fotografar. Fiquei de descobrir mais tarde o que estava na placa com as três coroas. Já que na batalha morreram os três reis, na versão mais corrente, e estão lá três coroas, pensei que podiam ser os três reis, mas os dois de baixo têm a estrela do Islão e o de cima tem um tracinho vertical e não iam pôr D. Sebastião por cima dos deles, logo será Allah? Não faço ideia do que está escrito na placa e infelizmente não fotografei de mais perto.

Os meus meios técnicos permitem chegar a isto. Já haverá quem possa ler?

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Entretanto a Sininho andou fotografando material culinário. Isto, por exemplo.

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E informa que as suas melhores fotos – «as do deserto» – não estão digitalizadas. Esta está, e tanto que, no jornal de cima, em letras vermelhas, pode ler-se, bem grande, «Les pays arabes e[xigent?] paix et réformes».

A reprodução, aqui, é… degueulasse.

Chama-se a isto saudade?

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Marrocos. Entre Merzouga e Zagora

Dou a volta costumeira pelo Abrupto. E, de repente, na excelente série fotográfica «Espaços onde se pode respirar», esta foto, feita por MARTA PINHO. No blog de JPP, pode ampliá-la.

Marrocos é em grande parte – já o escrevi alhures – bem mais verde do que o nosso (o meu) Alentejo. E Alcácer-Quibir, amigos compatriotas, fica no meio duma planície verdejante, onde crescem frutos e legumes. Qual deserto, senhor cineasta Oliveira! Mas, é verdade: lá muito longe, para Sul, a coisa põe-se realmente assim.

Há-de haver, por ali, pegadas minhas. E eu partiria, esta tarde ainda, para lá. Mas – aí está – as prioridades…

Serei eu um sádico?

Porque é que li, leio e vou continuar a ler em jornais coisas sobre o CDS? Porque é que destino a isso uma parte, pequena é certo, mas mesmo assim preciosa (julgo eu) do meu tempo?

Será porque a política portuguesa me interessa até esse ponto? Será porque intuo que, um dia, ainda o CDS vai ser decisivo no trem de vida nacional?

Poderá haver, ainda assim, outras motivações, menos nobres (ah!…), para isso, como o fascínio pelo lado ficcional dos eventos, ou por essa pessoa soturna, matreira, mas levianamente suicidal que é Paulo Portas, ou mais rasteiramente por uma bela bulha pública, aqui, por casualidade, política. Ou, muito mas muito mais chãmente, porque vem excitar-me o lado sádico, que anda pouco desenvolvido.

Não sei. Repito a confissão: não sei. Mas qualquer coisa me diz que, se eu (e você) não olhasse, eles resolviam a coisa como damas e cavalheiros. Assim, dão espectáculo. E nós, por mil e um motivos, temos um grande fraco por coisas que mexem.

O teu retrato

Ele próprio, o autor, diz que é uma convenção, isso do Dia da Poesia.
É, pois claro. Todos os dias são-no da poesia também.

Mas sejamos, por uma vez, placidamente, chãmente convencionais.
E assinalemos a coisa. A Poesia, digo.

O TEU RETRATO

O cabelo é uma onda feita em espuma
Na areia da praia da Vieira de Leiria
A fronte é uma eira dentro da bruma
Entre a Senhora do Monte e a Abadia

Os olhos são candeias sempre acesas
Nas casas onde a nossa vida recomeça
São poemas colocados sobre as mesas
Um teatro que em cada dia é uma peça

A tua boca tem o calor de uma lareira
Com brasas que não morrem noite fora
Um fogo a arder sem queimar madeira
Uma luz que se prolonga e se demora

A tua voz é alta, pode ir até ao infinito
Com palavras que não ficam sozinhas
O meu poema é um espaço tão restrito
Abrevia o teu retrato em poucas linhas

José do Carmo Francisco

Vai uma anedOTA?

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O método é do mais arbitrário, do mais tendencioso, enfim, do mais revoltantemente foleiro. Mas pode ajudar a encher logo o serão.

Acaba, de resto, inspirado num gracioso artigo (mas brincando, brincando…) ontem no «Público», que se intitulava «Uma ‘brincalh’OTA’», e que ensinava onde se constroem bons aeroportos.

E, depois, a estes achados costumam estar associadas umas elevadas somas publicitárias – ou estou a dizer alguma inconveniência?

Pois bem: aqui se lança este inocente jogo de sociedade. Eu entraria modestamente com:

PalhOTA
CambalhOTA
PorcalhOTA

O decano

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Ele mora – ao que me dizem – na mesma cidade que eu. Não sendo o burgo nenhuma metrópole, é ainda assim grande o bastante para que não nos cruzemos. Até hoje. Aqui. Na blogosfera.

José Rentes de Carvalho escrevia já no blogue de Rui Ângelo Araújo, o antigo director da Periférica, de nunca suficientemente chorada memória – a revista, entendem.

Pois foi no passeio (quase diário) a A Origem das Espécies que fiquei informado: Rentes tem um blogue dele mesmo, Tempo Contado, título já dum diário seu, aparecido há anos. Mas mais: sabe-se agora quem poderá ser o decano de todos nós, blogueiros. Mais importante ainda: ele é um dos nossos grandes prosadores vivos.

Sirva de engodo este curtíssimo post:

AMAR MENOS
Ela diz:
– Sinto que o amo menos agora do que há três anos,
quando voltámos para a Holanda.
Aceno compreensivo, mas no íntimo pergunto-me:
entre amar menos e já não amar, qual é a diferença?

Álvaro Cunhal não fugiu de Caxias

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A revista tem Denzel Washington na capa e chama-se Certa – mas, pelos vistos, às vezes não acerta. É distribuída nos supermercados Continente, publicada pela Edimpresa e tem como director José Fortunato. Os seus temas-base são: TV, Beleza, Culinária, Moda, Saúde e Actualidade.

Dentro da actualidade, surge uma coluna com sugestões para a quinzena. São três os livros referidos em breves notas de leitura: Salva-me, A criança que não queria falar e Máscaras de Salazar. Pois aqui é que bate o ponto. Sobre este terceiro livro, de Fernando Dacosta, há um texto que termina deste modo: «O ex-Presidente do Conselho não caiu de nenhuma cadeira, conservou, escondidas, duas cápsulas de cianeto fornecidas por Hitler, a PIDE matou Delgado sem o seu conhecimento, foi ele que sugeriu a fuga de Cunhal da prisão de Caxias.» Aqui está um erro crasso. Álvaro Cunhal fugiu sim, mas de Peniche.

No dia 3 de Janeiro de 1960, lembro-me muito bem, estava o meu pai no Montijo a descansar, e veio um guarda dos Serviços Prisionais chamá-lo a casa (na Rua Sacadura Cabral) para ir com um grupo de homens montar guarda ao cruzamento de Pegões. O meu pai não era polícia, mas sim motorista assalariado do Ministério da Justiça. Lá teve que ir, mas a resmungar, pois não fazia nenhum sentido Álvaro Cunhal e os outros fugitivos do forte de Peniche irem aparecer no cruzamento de Pegões, onde se juntavam as estradas do Porto Alto, da Marateca, de Vendas Novas e do Montijo.

Salvou-se disso tudo um bom vinho branco que eles trouxeram de Santo Isidro de Pegões. Ainda hoje quando sou entrevistado, digo que o meu vinho preferido é o branco de Pegões. Mas não confundo Caxias e Peniche.

José do Carmo Francisco

Fórmulas do paraíso

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‘Música das esferas’, ‘melodias celestiais’: terá a música a ver com a eternidade – ou, mais, terá a eternidade a ver com a música? Um dia, lá em cima, é um dizer, teremos nós um iPod de memória eterna?

Enquanto as perguntas ficam, fatalmente, no ar, vai-se fazendo o que se pode. E daunlôuda-se a doce engenhoca dos sonhos sonoros com uma eternidade aos pedaços. O meu aparelhinho, um Zen da Creative, permite repetir um número até um fulano cair de podre. Não se diga que não é, então, um reflexo da eternidade.

Esta tarde saí (o tempo começa a imitar a Primavera) e eternizei-me em All by myself. Não o de Celine Dion (mas podia ser, e daí a capa do CD), sim a versão instrumental de James Last com o piano de Richard Clayderman. O autor da peça, fiquei a saber aqui, é Eric Carmen. O que eu já conhecia era a paternidade de Rachmaninoff para o primeiro tema, o da ‘estrofe’. Ele é autor de algumas das mais – bom, digamos – celestiais melodias cá em baixo, e talvez só superado por Tchaikovsky e Mozart.

Absolutamente genial na versão Last-Clayderman é o coro feminino que irrompe quando menos se espera, e que ressoa como numa imensa catedral.

A música das esferas, portanto? Talvez. Celestial é.

Nós que não somos de vaidades

Ainda a noite é uma menina – e noutros lugares do Planeta ainda vai alto o Sol. Assim, é de supor que esta mesma madrugada o Aspirina receba o seu passante número 1.000.000. Diz-se «passante», e não «visitante». Há quem venha aqui ter porque busca a página, você por exemplo, mas também quem ande aí ó tio ó tio pela blogosfera, e caia aqui por engano. Tudo isso está nesse número respeitável.

Mas mesmo as visitas se aproximam dos 500.000. Isto, em um ano, três meses e quinze dias, tem a sua graça.

Passa pouco da meia-noite, o marcador indica exactamente 999,864 passagens.

Traduzindo em letras: Durma bem.

Actualização

Pois é, assim não dá gozo. Esta profecia era das fáceis.

Gabriel Alves já não vai pedir desculpa

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Leio no Diário de Notícias deste sábado (10-3-2007) uma notícia: «Gabriel Alves deixa a RTP em litígio». Esta situação interessa-me, não pelo assunto pessoal em si, mas porque agora, fora de RTP, Gabriel Alves já não vai pedir desculpa. E tinha desculpas a pedir. Trata-se do seguinte.

Aqui há meses, a RTP transmitiu um documentário feito por ingleses e por brasileiros no qual Gabriel Alves papagueou umas palavras mentirosas sobre o que se passou em Julho de 1966 em Inglaterra. Dizer que um defesa português «arrumou» Pelé é mentira – e uma mentira, mesmo repetida muitas vezes, não deixa de o ser. Na verdade em 19-7-66 Morais não «arrumou» Pelé porque ele já estava arrumado desde 12-7-66. Nesse dia, o búlgaro Voutsov teve uma entrada violenta sobre o avançado brasileiro. Por isso, em 15-7-66, contra a Hungria, ele não jogou e foi substituído por Tostão.

Contra Portugal, em 19-7-66 o treinador brasileiro arriscou muito, pois, além de ter colocado Pelé (ainda lesionado) em campo, fez jogar vários estreantes: Manga, Fidelis, Brito, Orlando, Rildo, Denilson, Lima, Silva e Paraná. Quase uma equipa inteira num «tudo por tudo» que, como é natural, não resultou. Daí a provocação miserável de atirarem as culpas do insucesso para as costas dum jogador português chamado Morais.

Gabriel Alves papagueou sem hesitações esta mentira e agora pelos vistos já não vai a tempo de pedir desculpa. Não só a Morais, mas a todos nós que ainda temos memória e sabemos como as coisas se passaram. É que, segundo a notícia do Diário de Notícias, Gabriel Alves tem 60 anos. O mesmo é dizer,idade para ter algum juízo e saber a diferença entre a verdade e a mentira. Se eu tenho 56 e me lembro, ele tem a obrigação de saber o mesmo que eu.

José do Carmo Francisco

Pensamentos para o serão

Escrito a meio de ler «Como se morre, Adolfo?», poema de Jorge de Sena, de 1972, à memória de Casais Monteiro:

Um dia acordarás
dizendo esta coisa
«olha, estás vivo».
Será uma coisa nova
que nunca ninguém te havia dito.
E assim todas as manhãs.
Chuva ou sol.

Até ao dia em que
estupidamente
ninguém houver para
dizer-to.

8 de Março de 2007