O Secretário de Estado do orçamento afirma que caso o Tribunal Constitucional chumbe as medidas do OE2013 o país pode não cumprir os objectivos do memorando. Qual seria então a diferença em relação ao que se passou em 2012?
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Argumentação às direitas
O Nuno Gouveia, em mais um post laboriosamente trabalhado no 31 da Armada, diz mais ou menos o seguinte:
A Isabel Moreira foi a uma exposição que eu não gosto e não entendo, feita por uma gente esquisita. Está aqui a foto que prova o delito. Logo, só posso concluir que o PS não está preparado para governar. Ah, tenho que dizer Artur Baptista da Silva, porque agora é moda. E Zorrinho, porque sim. E Sócrates. Porra, não podia faltar que a culpa é do Sócrates. Pronto, está o post feito.
Da minha parte, depois de tão cabal demonstração das capacidades intelectuais do autor, só posso mesmo acrescentar: Lindo casaco, Isabel. Acho que está a resposta dada.
A história a quem a trabalha
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Se tiverem tempo e disposição – e doses cavalares de auto-controlo, a bem do vosso ecrã – ouçam o discurso acima. Não precisa de ser todo, os primeiros 20 minutos bastam. Ao contrário do que possa parecer, este é um bom discurso de Passos Coelho. Um muito bom discurso. Não por ter mais ou menos disparates, falsidades e distorções, atenção, mas porque representa toda a narrativa da direita sobre a crise no seu estado quase puro. Aliás, não me recordo de outro discurso, mesmo no resto da direita, onde essa narrativa estivesse explicada tão exaustivamente e em tanto detalhe. Tudo o que ainda hoje justifica o assalto da direita ao poder lançando o país para o resgate, tudo o que justifica a atitude subserviente à Europa disfarçada de patriotismo de pin na lapela, tudo o que justifica as medidas perfeitamente disparatadas para a economia ditadas por um fanático da idade da pedra em termos económicos, tudo isso está lá. A culpabilização exclusiva do país está lá. O moralismo de pacotilha, está lá. O “não há alternativas” apoteótico está lá.
Agora repare-se numa coisa: Passos Coelho não tem absolutamente problemas nenhuns em falar do passado. Aliás, este passado que é construído neste discurso é o seu melhor amigo, porque lhe permite justificar, culpabilizando os outros, todo o presente. A direita, neste momento, é dona e senhora do passado. A história deste governo e das suas politicas é uma narrativa, coerente e convincente, de toda uma série de eventos que culminam na sua governação e nas medidas que “tem de tomar”. Quem controla o passado consegue definir o presente e apontar o futuro.
Pelo contrário, quem se recusa a falar do passado com a desculpa envergonhada de “olhar para o futuro” aceita que os adversários o definam nos seus próprios termos, e para sua vantagem.
Seria bom que os responsáveis do PS ouvissem com atenção este discurso. Está lá tudo o que precisam de combater, e não fazem. E dos fracos, não reza a história.
Otário é capaz de não ser a palavra certa
O Rodrigo Moita de Deus fez um daqueles posts aparentemente desmiolados que teve direito a uma resposta do Maradona, já que é um tema que gosta particularmente. Mas independentemente do prazer da leitura, não partilho do pressuposto do Maradona tanto no título como na conclusão. Acho que é ao lado. Vamos lá ver, ao Rodrigo Moita de Deus é perfeitamente indiferente se as inundações em Lisboa são provocadas por chuva torrencial, furacões, chuviscos de verão, deficiente rede de escoamento, mau planeamento, pela água ser molhada, por falta de limpeza de sarjetas, pelas bacias hidrográficas, placas tectónicas ou por a D. Maria do 3ºC se ter esquecido da água a correr no banho. Muito menos interessa se o mesmo acontece ou deixa de acontecer nas restantes cidades da Europa, aqui usadas apenas como exemplo de “isto só aqui e devíamos ter vergonha”. O que interessa para o caso é um facto muito simples: houve as inundações do costume, as inundações do costume chateiam as pessoas, e o que chateia as pessoas pode ser colado ao presidente da câmara, que é um adversário. Partir do pressuposto que o faz por ignorância sobre causas, planeamento e prevenção é errado. Não quer dizer que saiba, atenção, desconheço se sabe ou não. Quer dizer que lhe é indiferente saber, desde que os outros não saibam e o argumento passe. E o argumento é tudo o que interessa. A ignorância neste caso é o que faz o argumento funcionar, logo qualquer tentativa de preencher essa ignorância com um corpo estranho ao mesmo – ou seja, factos – destrói o argumento, pelo que factos não interessam. Partindo do princípio que terá alguma curiosidade intelectual, que admito, até pode achar a resposta do Maradona interessante para memória futura – ou seja, quando a câmara for PSD e acontecerem inundações – mas por agora só será um problema se os factos se espalharem e puserem em risco o argumento. De resto, é igual ao litro.
Não me parece por isso correcto – embora seja muito divertido – qualquer colagem do Rodrigo Moita de Deus à Buchholz. O Moita de Deus não é a Buchholz. Trata simplesmente os leitores como se fossem. Otários somos nós caso o levemos a sério.
Aqui que ninguém nos ouve
Niemeyer
Morreu um dos verdadeiramente grandes. Deixa para trás uma vasta obra sobre a qual livros inteiros foram escritos. com muitos mais certamente a caminho. Saliento apenas aquilo que sempre me tocou: um optimismo e fé no futuro, naquilo que podemos e vamos ser, visto pelos olhos da arquitectura. Uma celebração. Celebremos, pois.
XIX
O XIX governo já tem a sua imagem icónica. E que captura, na perfeição, a sua essência.
Foto de Daniel Rocha para o Público. (via Paulo Tavares)
Respiremos
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Antes de se começarem a preocupar com a absoluta hecatombe que os quadros e gráficos acima – referentes à execução orçamental até Outubro – representam, respirem fundo. Outra vez. Agora lembrem-se que estes são os resultados depois de um ano de austeridade selvagem em que Victor Gaspar, o Primeiro-Ministro de facto, resolveu que seria melhor retirar 9 Mil Milhões de Euros da Economia em vez dos 5 exigidos, cumprindo assim em pleno a profecia de “ir além da troika”. E que, após esse frontloading – expressão de economês que significa simplesmente tomar a caixa de comprimidos inteira de uma vez para ver se a doença passa mais depressa, porque se um faz bem, então dez devem fazer melhor – dizia, após essa opção do “inteligentíssimo” Gaspar – epíteto que cada vez mais serve não para descrever o ministro mas para avaliar da burrice de quem assim o chama – aí temos os resultados: a 2 meses do fim do ano, a única dúvida é ainda se o défice vai ficar pelos 7%, 8%, ou ainda passa um bocadinho. Para quem a austeridade servia para “pôr as contas em ordem”, ou seja controlar o défice, não está mal. Está péssimo. Pior que péssimo. Porque os sacrifícios não serviram para rigorosamente nada. Nada.
Mas vamos, não esquecer, respirar fundo. E relembrar que está em processo avançado de aprovação o Orçamento de 2013, que em vez de reconhecer o que é óbvio para quem tenha dois dedinhos de testa – excepto Gaspar, que tem apenas um, e Passos, que nem sabe o que isso seja – resolve que se em 2012 a estratégia falhou, o melhor é mesmo aplicá-la novamente em 2013, mas com redobrada ferocidade. Para falhar ainda mais espetacularmente. E que uma série de deputados que gostam de pensar que têm mais que dois dedinhos de testa o aprovou porque…porque não podiam fazer outra coisa, dizem. Custa-lhes muito. No caso do CDS, então, é dramático, sendo que o stock de lenços já foi reposto no parlamento 10 vezes. Só na semana passada.
Respiremos, mais uma vez, fundo. E vamos às “boas” notícias. E as boas notícias são as seguintes: apesar do falhanço da politica económica ser completo, apesar do país estar mergulhado numa recessão à beira de se tornar numa espiral recessiva tipo Grécia, apesar dos números impressionantes de desemprego, de despedimentos, de falências, dos gráficos lá em cima, no fundo, apesar da realidade bater com muita força, temos avaliações positivas de uma troika em auto-avaliação e grandes elogios dos responsáveis alemães. Sobretudo de Wolfgang Schaueble, o todo-poderoso ministro das finanças. E um governo que mostra uma determinação impressionante em obter esses elogios e essas avaliações positivas, mesmo que isso produza resultados desastrosos e gráficos como…bom, vocês sabem quais.
E esse, se calhar mais do que os “planos neo-liberais” e de destruição do estado social que estão em curso, é capaz de ser o verdadeiro objectivo da governação. Não é salvar, melhorar, ou até “refundar” o país. É simplesmente salvar a pele de governantes alemães, cumprindo escrupulosamente toda e qualquer exigência de “sacrifícios” que estes se lembrem de fazer, de modo a preservar o “bom exemplo” de um programa que existe não como “assistência” a países endividados, mas para que os eleitores alemães não pensem que o dinheiro deles é entregue sem a devida punição. E nesse sentido, o governo tem boas razões para estar satisfeito. Apesar de todas as evidências de que está a destruir a economia e com ela o país, esses elogios e avaliações positivas têm chegado. O programa funciona.
Evitemos pois pensar naquela palavra que descreve, na perfeição, gente que entrega o país aos caprichos de estrangeiros em vez de o defender. Gente do PSD e CDS. E respiremos fundo.
Notas soltas de um debate
Estive ontem num debate local sobre a situação económica com dois jovens deputados do PS, Pedro Nuno Santos e Pedro Delgado Alves. Fui pela primeira vez a um evento destes movido por uma curiosidade que tinha já há algum tempo: o que é que se fala e como é que se discute esta crise e a situação do país dentro do próprio partido, num contexto mais afastado das luzes dos holofotes e do combate na arena politica. Ou seja, o que é que o PS pensa disto quando fala entre os seus, quais são os caminhos que aponta, que opções vê? E sobretudo, qual é a estratégia? Há sequer uma, para além das banalidades e soundbites debitadas regularmente por Seguro e Zorrinho? Do “temos que apostar no crescimento” sem explicar bem como é que lá se chega? Das medidas pontuais?
Note-se que apesar de ser militante (inscrevi-me já há uns anos, quando Durão Barroso ganhou) a minha actividade nesse campo tem sido praticamente nula, por isso esta é um aspecto da discussão do qual estou afastado. Sei o que qualquer um sabe lendo jornais, blogues ou redes sociais (e um ou outro contacto com gente de dentro), mas pouco mais. Não me desagradava essa posição até agora, sendo que na vida partidária activa deve estar gente com bastante mais talento do que eu, mas a completa ausência de respostas, estratégia e de orientação por parte do PS começa a desesperar. Não pode ser só aquilo, o PS não pode resumir-se a esta mediocridade insalubre, mesmo que iluminada pontualmente por algumas intervenções, que passa cá para fora. Por isso fui. Fui ver com os meus olhos e sobretudo, ouvir. E saí de lá com sentimentos contraditórios.
Sem entrar em grandes detalhes sobre o que se falou, para não aborrecer, deixo algumas notas (evidentemente com reservas. Foi um debate, com dois deputados):
A redação do Carlos
Bom dia dona Merkel,
O meu nome é Carlos e não falo alemão. Houve uns meninos que fizeram um filme para si. Eu não tenho um filme, mas também lhe queria dizer umas coisas. Espero que perceba, mesmo a senhora não falando português e eu não falando alemão.
Queria dizer-lhe bem-vinda ao meu país. O meu país é muito bonito, tem muita história e cultura, e está cheio de pessoas boas e trabalhadoras que não falam alemão, por isso se calhar a senhora não os percebe. Essas pessoas têm uns ditados que gostava de lhe ensinar. Os ditados são importantes porque nos ensinam muita coisa, e a senhora precisa de aprender muita coisa sobre nós. Também servem para dizer “toma e embrulha”, que é uma expressão que o meu pai usa quando diz um ditado.
Um ditado que a minha prima me ensinou diz “quanto mais te baixas mais se vê as cuecas”, e nós somos muito pobres e já quase não temos cuecas. E se ficamos sem cuecas não podemos pagar o que devemos, e nós queremos ser honrados e pagar o que devemos, mas não podemos porque não temos cuecas e sem cuecas temos vergonha de sair de casa para trabalhar e ganhar dinheiro. E “sem dinheiro não há palhaços”, como diz o meu tio que tem um café.
Outro ditado que a minha avó diz é “quem come a carne deve roer os ossos”. A senhora come a carne toda e deixa os ossos para nós, e isso não é justo. O bife é para todos, não é só para quem fala alemão. Podia partilhar um bocadinho de carne com os outros, não quer dizer que fosse toda, mas só um bocadinho, só de vez em quando. Senão não podemos trabalhar, mesmo que tivéssemos cuecas.
Por causa da crise, a senhora agora manda nisto. Mas a minha mãe diz “quem tudo quer tudo perde”, e nós somos amigos, mas se continua assim a querer tudo para si qualquer dia nunca mais lhe falamos. A professora diz que quem não partilha é feio e fica sem amigos, e nós temos também coisas geoestratégicas que depois também não lhe emprestamos, mesmo que peça de joelhos. E se o Fitch disser que essas coisas não valem nada é muito mentiroso e só quer fazer-lhe a cabeça contra nós. Se calhar é porque fala alemão.
Por isso, quando se for encontrar com quem manda aqui e ele lhe disser que estamos todos bem e cá vamos andando não acredite porque ele também é muito mentiroso. Temos muita fome e miséria, mas muita vontade de trabalhar, como o fizeram os nossos pais e avós. Só precisamos de um bocadinho de bife, e de um barco para o ir pescar.Do seu amigo
Carlos Zorrinho
Professor universitário
Presidente do Grupo Parlamentar do PS
A minha crónica no Expresso, se tivesse crónica no Expresso
Breve nota prévia: caso notem alguma inconsistência nos factos apresentados, recordo que seria para o Expresso. Eles não se importam, nem censuram opiniões diferentes e polémicas que avancem o debate sobre a sociedade. É, afinal, um jornal de referência.
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Tal como acontece nos países libertários como a Somália, Haiti ou Sudão, onde o governo escolheu não interferir nos assuntos privados das pessoas, a prosperidade apenas acontece quando a sociedade, livre do peso de governos gordos e ineficientes ao estilo nórdico, tem liberdade para se desenvolver sem constrangimentos, impostos e regulações. É isso que significa verdadeiramente “libertar a economia”. É isso que não está feito, e é isso e apenas isso que justifica a falência onde os socialistas, que governaram a esmagadora maioria dos últimos 40 anos, nos enfiaram.
A escolha de Passos Coelho para Portugal só peca então por tardia e tímida, embora não esquecer que este está preso a uma constituição datada, escrita nos tempos do PREC para agradar a Cunhal, ao PCP e à União Soviética, e que não é revista desde 1976. É um facto inegável que caso esta não existisse, as reformas estariam feitas e o país estaria, já em 2013, na senda do crescimento, tal como o Primeiro-Ministro prometeu. Mais factos inegáveis: para o ano, está prevista uma recessão de 1%, que provavelmente – vou dar razão aos críticos – será de 3% ou mais, quando devíamos estar a crescer pelo menos 4%. Daqui facilmente se conclui que a constituição e o estado social nela consagrado nos custam, só em crescimento perdido, 7% do PIB, ou mais de 20 mil milhões de euros, ou 2000 euros por cada português, incluindo crianças. Por isso, caro cidadão, caso seja casado com 2 filhos, a constituição de Cunhal custa-lhe 8000 euros, 700 euros por mês. Ou o mesmo que lhe custaria um bom seguro de saúde e colégio privado. Pense nisso quando os socialistas – que faliram o país gastando à tripa-forra – a vierem defender.
Que não defendam o modo de vida dos pretinhos nos países que citei anteriormente, apenas demonstra que a esquerda, apesar do discurso politicamente correcto, é profundamente racista.
Um ano e sete meses depois, descobrir o conceito de “consequências”
Quem recusa este caminho económico e financeiro, quem considera que ele piorará a nossa situação, pondo o País na mesma situação em que a Grécia e a Irlanda se encontram, só poderia votar contra este PEC (IV).
(…)
Não houve uma coligação negativa. Houve três partidos que se têm oposto aos PEC’s e coerentemente se recusaram a colocar a sua assinatura num pacote de medidas que consideram inaceitável. E houve um partido que aceita, na prática, estas medidas, mas quer ser ele a aplicá-las. E que para isso abriu uma crise política.
Daniel Oliveira, 24 de Março de 2011
Os deputados representam os cidadãos, não representam partidos políticos ou governos. Cada um é deles é responsável pelo seu voto, que não é delegável em nenhum líder parlamentar. Nenhum deles se pode esconder atrás da disciplina partidária ou de declarações de voto inconsequentes. Cada um deles, nominalmente, será responsável por todas as consequências que este orçamento venha a ter para o País. Não vale a pena, daqui a um ou dois anos, criticarem as decisões que tomaram, como se elas lhes fossem estranhas.
(…)
Se aprovarem um orçamento em que, como já todos perceberam, não acreditam, os deputados que suportam a maioria terão de ser, cada um deles, responsabilizados por todas as consequências económicas, sociais e políticas que dele advenham. E se elas forem a que toda a gente com o mínimo de bom senso prevê, os portugueses não se devem esquecer dos seus nomes. Quem falha num momento destes não deve continuar na vida política. Nem como deputado, nem como ministro, nem como presidente de uma junta de freguesia. Em próximas eleições, a forma como cada um destes representantes dos cidadãos tiver votado deve ser exibida como o mais importante elemento do seu currículo político. Se soubessem que assim seria talvez pensassem duas vezes antes de votar.
Daniel Oliveira, 31 de Outubro de 2012
Bolds meus
Pergunta para Gaspar
Sem antídoto conhecido
Agora escrevo também aqui. Passem por lá, estou muito bem acompanhado.
Pensar o inconcebível
Se há uma certeza que podemos ter nos tempos que correm, é esta: o OE2013 vai falhar, e falhar de uma maneira que fará o de 2012 parecer obra de génios. E bem sabemos o que aconteceu em 2012.
Quando falhar, o que se tornará evidente no primeiro trimestre do próximo ano, há uma possibilidade real do governo cair. Há quem tenha a certeza que “tem” de cair, tal como muitos tinham a certeza que o ministro Relvas “tinha” que sair. Não saiu, nem sairá. Por isso, como a falta de vergonha na cara, a sede de poder e a irresponsabilidade são uma das poucas constantes que este governo tem, a que se junta a cobardia de um presidente preso no seu próprio labirinto, prefiro pensar que haverá uma forte possibilidade, mas não a certeza, que estaremos sem governo algures para Abril. Com a economia em estado avançado de destruição, um défice descontrolado e uma dívida muito para além do sustentável.
O que leva à pergunta: e depois, fazemos o quê?
Essa cara de poker é perfeita, Aníbal
E as tuas jogadas no Facebook foram bastante barulhentas e impressionantes. Excepto, como viste ontem, para o teu adversário, que acha que não tens nada na mão, que isso é apenas bluff e acabou de pagar para ver. Por isso, está na altura de mostrar se tens realmente jogo. Ou, em alternativa, metes o rabinho entre as pernas e deixas de fazer figuras tristes.
Jogas bem, Paulo
E as tuas jogadas nos jornais foram bastante barulhentas e impressionantes. Excepto, como viste ontem, para o teu adversário, que acha que não tens nada na mão, que isso é apenas bluff e acabou de pagar para ver. Por isso, está na altura de mostrar se tens realmente jogo. Ou, em alternativa, metes o rabinho entre as pernas e deixas de fazer figuras tristes.
Karma is a bitch, Pedro
Arménio Carlos, the leader of the CGTP union, compared Mr. Passos Coelho to Pinocchio, accusing him of constantly changing his austerity message.
O teu partido baixa o nível do discurso político. E uns tempos mais tarde, o mesmo insulto que usaste para atacar o primeiro-ministro anterior é usado contra ti, só que desta vez, em vez de seres insultado no palco nacional, és insultado perante o mundo inteiro nas páginas do New York Times, que acha o termo suficientemente relevante para descrever a situação portuguesa e a tua imagem perante os parceiros.
Estas coisas têm tendência a voltar sempre para nos morder no rabo, não é? Quem diria.
Vamos lá falar então de deputados
Na perfeitamente disparatada (para dizer o menos) proposta para “reduzir o número de deputados” há duas coisas a discutir. Em primeiro lugar, Seguro e o PS podem agora dizer o que quiserem, dar pinos e cambalhotas, mas o que é certo é que a “redução” foi apresentada como um fim em si mesmo, logo como algo de bom. O que significa, para o cidadão comum, que Seguro acha que menos deputados é positivo, ou seja, pintou os deputados – e por extensão todos os políticos – como algo de negativo, na melhor senda da escola de ciência política da ANTRAL. Se acham que é uma leitura exagerada, é só pensar porque razão nunca ouviram um político propor publicamente menos polícias, sendo que alguma redução por contenção de custos é tratada discretamente fora dos olhares públicos. Ora, como eu acho que os deputados, como os polícias, fazem um trabalho meritório a favor do país, gostava de os ver tratados pelo menos com o mesmo respeito.
E depois, apresenta a medida para quê? A leitura populista seria a de “reduzir custos”, mesmo que não tenha sido expressa. Sujeitar o parlamento à mesma “dieta” do país. Oficialmente, a razão seria “responsabilizar os deputados perante os eleitores”. Aqui a confusão é enorme, o que só ajuda a tresleituras da proposta. Vamos pela mais benigna, vá, a assumir que Seguro quer simplesmente e de boa-fé avançar para os círculos uninominais. Ora, à partida isto é positivo, mas é muito, muito mais do que simples matemática eleitoral e diversos sistemas de eleição que vejo tratados aqui e ali. Isto muda toda a governação, tudo o que estamos habituados. Vamos por partes:
1) A principal preocupação seriam os pequenos partidos e a sua representatividade. Ora a verdade é que um sistema de círculos uninominais e a sua dinâmica de “winner takes it all” oblitera os pequenos partidos. Aí não há volta a dar, é uma das consequências do sistema. Para compensar, tenho visto propostas de “círculos nacionais” desenhados expressamente para estes. Para mim, é um perfeito disparate, porque estaríamos nesse caso a criar duas categorias de deputados – aqueles que seriam directamente responsáveis perante os eleitores do seu círculo, e aqueles que continuariam, como aqui, responsáveis apenas à sua estrutura partidária, sendo que neste caso estes últimos estariam desproporcionalmente ligados aos pequenos partidos. Ou seja, criam-se também duas categorias de partidos: os grandes, que veriam toda o seu modo de actuar completamente modificado, e os pequenos para os quais não haveria essa “responsabilização” a que os outros estão obrigados. Filhos e enteados no mesmo parlamento. Não me parece grande ideia. Continuar a lerVamos lá falar então de deputados
Pequeno interludio Seguro
As coisas estavam calmas na governação, e o país avançava sem grandes sobressaltos ou preocupações. Uns ajuntamentos aqui e ali, uma converseta de impostos acolá, o costume nesta modorra insuportável que caracterizava o país nos últimos tempos. E depois o tédio. Tédio esse que incomodava de sobremaneira António, o irrequieto líder da oposição. Nada para dizer, nada para criticar, e um país cujos eleitores, felizes e prósperos, falavam de tudo e coisa nenhuma, excepto governo, situação politica e economia. O normal quando tudo vai bem. E foi ao ver a edição desse dia do Público, constituída exclusivamente por páginas em branco num original protesto por não se passar nada que valesse a pena escrever, que lhe rebentou a tampa. Alguma coisa tinha que ser feita. Este país tinha que despertar, havia que agitar o charco, fazer-se notado, liderar a conversa nacional. Pensou no casamento gay, essa malta era sempre polémica. Azar, estava tratado. Depois pensou em mais um TGV, rapidamente abandonando a ideia quando passou o primeiro lá ao longe, e depois o segundo. Demasiado banal. Desempregados, caramba! Tem de se falar dos desempregados. Abriu o relatório sobre desemprego ali à mão. 2.7%, dizia. Negativos, que as empresas não conseguiam preencher porque estava toda a gente ocupada. Nem pagando uma pequena fortuna. Não seria por aí. Sacana da prosperidade.
Ligou para o Zorrinho, ele saberia o que fazer, o homem na lua tinha sido proposta dele. Revirou os olhos quando quem respondeu foi o voicemail. Tem um homem um líder parlamentar para isto. Olhou pela janela. No Tejo, um sem-fim de cargueiros executavam um intrincado ballet aquático em conjunto com as frenéticas gruas. Tantos, tantos contentores a sair. Sentou-se ao computador, alguma coisa tinha de ser feita, este não-se-passa-nada-no-país era insuportável. Levantou-se da cadeira, não conseguia estar quieto. Escreveria de pé. E enviou um email para os deputados, com o assunto “Precisamos de propostas, já, qualquer coisa”. Marcou como “importante”. Enviou para todos. Depois esperou. Foi passear o cão, demorando mais do que o costume. Apercebeu-se do burburinho da animada zona de restauração ao longe, na próspera zona empresarial. Havia tantas agora, era impressionante. Ao longe, o fumo das inúmeras indústrias tentava transformar o céu num código de barras. Recordou-se da grande polémica quando propôs limitar a quantidade de fábricas por não haver espaço para mais. Tinha brilhado, tempos felizes. E agora isto, este vazio. Limpando os pensamentos negativos da mente, voltou para casa. Verificou o email com expectativa. Nenhuma resposta, excepto de um que o questionava se apresentar propostas agora, quando estava tudo bem, não seria demasiado arriscado. E era isto, caramba, era assim que estávamos. 74 deputados ociosos e nenhuma ideia. Nem uma. Se era para isto para que raio queria ele tantos, o Zorrinho bastava, sempre contava umas anedotas. E foi então que teve uma ideia. Uma grande ideia, que entusiasmaria o povo e lhe daria algo que discutir. Seria algo polémico, já que os deputados gozavam de enorme prestígio e popularidade graças à prosperidade, mas que diabo, demonstraria coragem e determinação e sempre se assegurava a elevação no debate. Feliz com o seu génio, foi deitar-se para a sesta habitual. Dormiria bem, as próximas eleições estavam no papo.






