Arquivo da Categoria: Valupi

Dominguice

Deus gosta de futebol, porque Ele gosta de toda a criação (está escrito, não há como duvidar). Para este Mundial, Deus tinha um plano evidentemente divinal, com as meias-finais consistindo no Brasil-Argentina e no Portugal-França, a que se seguiria a final perfeita: Argentina-Portugal. A quantidade de narrativas histriónicas para esta sequência de jogos e seus protagonistas superaria o número de átomos no Universo. E ainda teria o supremo encanto da merenda, Ronaldo e Messi a trocarem galhardetes e bacalhaus no desafio que iria decidir qual dos dois seria consagrado como o rival de Deus em chuteiras. O Planeta ficaria unido na maior audiência alguma vez registada e Deus seria louvado por ter criado um Mundial celestial. Assim pensou e fez com que acontecesse até ao minuto 117 do Croácia-Brasil. Foi nessa altura, a 3 minutos de se cumprir o divinal plano, que uma bola chutada por Bruno Petkovik em direcção à baliza do Brasil encontra antes de lá chegar a perna de Marquinhos, ganhando assim um efeito que enganou o guarda-redes por poucos centímetros. Deus ficou tão atarantado com esse golo como os 214 milhões de habitantes de um país onde o futebol é a paixão suprema. E já não teve cabeça para ajudar os de camisola amarela a marcarem as grandes penalidades. Zangado com os deuses que realmente decidem estas coisas da bola, Ele abandonou pouco depois o Qatar em silêncio, invisível.

Moral da história: a omnipotência de Deus não dá para tudo.

Putin explica o que é o putinismo aos putinistas

«O risco de uma guerra nuclear, para o Presidente russo, está “em crescendo”, mas afasta o uso destas armas com objectivos ofensivos, mantendo-as como forma de dissuasão militar.

Putin aproveitou ainda a ocasião para celebrar novamente a anexação declarada pela Rússia das regiões ucranianas junto ao mar de Azov, que banha ainda a Crimeia (cuja anexação foi declarada em 2014) e a Rússia, proclamando assim este como um “mar interno”, que disse ser uma ambição do czar Pedro I, imperador russo nos séculos XVII e XVIII.»

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Os putinistas andam há perto de 10 meses a berrar que o coitado do Putin vai ter de arrasar à bomba (atómica) umas capitais europeias (de preferência todas, para não mostrar favoritismos) por causa dos malvados dos americanos, das ameaças da NATO e dos nazis na Ucrânia. Garantem que o senhor está cheio de razão, que não passa de uma pobre vítima da coisa maligna chamada “ocidente”. E mais afiançam que tudo se resolveria se o deixassem matar ucranianos até se fartar, sem a chatice de eles terem armas para se defenderem.

Ora, Putin já disse faz tempo que se está a marimbar para a NATO, daí nem ter prestado atenção ao crescimento dessa organização mesmo em cima da sua fronteira, com a Finlândia e a Suécia a juntarem-se à malta. Agora, contou o resto da história, a verdadeira história do que o anima nesta “operação especial”: realizar o sonho de um czar que ele curte bué.

Isto não faz dos putinistas seres falhos de inteligência. Não, nada disso. Os putinistas são seres inteligentíssimos e muitíssimo bem informados. Mostra é outra coisa, que os putinistas escolhem livremente pôr a sua brilhante inteligência ao serviço da propaganda do pavor de um assassino profissional que se fantasia viver algures entre os séculos XVII e XVIII.

Engenheiro do Penta genial

Fernando Santos espantou o cosmos, e mais além, ao meter Ronaldo no banco contra a Suíça. Ninguém lhe adivinhava tal força face à estrela CR7, especialmente após o responso público na conferência de imprensa. Parecia ter chegado para castigar a vedeta mas a crueldade maior vinha a caminho. Cristiano deixava de ser indispensável à Selecção apesar de estar apto para jogar. O seu rosto ao entrar no estádio radiava dor, não conseguia esconder a humilhação.

Avaliando pelo resultado, em números e na qualidade do espectáculo, tratou-se da melhor decisão profissional em toda a vida de Fernando Santos. Foi tão completamente perfeita que até deu para ver a incapacidade do fulano de 37 anos para estar ao nível dos seus colegas. Rafael Leão, que jogou apenas 5 minutos, conseguiu fazer um golo, ainda por cima com nota artística. O madeirense, que jogou 20, népias.

Genial, né? Pois, não, nada disso. Genial teria sido colocar Cristiano Ronaldo no banco e Gonçalo Ramos de início logo a partir do jogo com o Gana. Porque isso significaria que o seleccionador nacional tinha uma qualquer ideia para a equipa, uma ideia correlacionada com o talento percebido dos jogadores, a sua forma presente e as simbioses potenciais desses recursos. Contudo, foi preciso mais um episódio no annus horribilis de Ronaldo para que se decidisse por uma mudança dramática e avulsa na lógica da equipa. Os deuses aprovaram a sua ousadia, é desfrutar. Para a malta que não é fã do futebol feio do Engenheiro do Penta, não se corre o risco de ter de mudar de opinião.

Que vai acontecer a seguir? Tudo. Tudo pode acontecer, dado o futebol ser fruto do acaso, não das intencionalidades de treinadores e jogadores. Portugal acabar campeão do Mundo ou perder com Marrocos no sábado apesar do agora achincalhado continuar no banco, são desfechos com igual probabilidade. E não há cunhas em Fátima que alterem essa aleatoriedade.

Trump professor

Trump disse que a Constituição americana devia ser abolida e, passados poucos dias, disse que não disse. Qual a importância disto?

O primeiro impulso é o de rir, riso nervoso e dorido, pois o Joker está cada vez mais Bozo. Mas esse impulso é estupidificante e serve os interesses de Trump. Ele ganha quando a racionalidade democrática o despreza pois comunica para a solidão alucinada. Nesse mundo de medos irracionalizantes, Trump poderia ser rei até ao fim dos seus dias, acabando com os actos eleitorais, os tribunais e, lá está, a Constituição. Os americanos que discordassem do seu governo seriam sumariamente despedidos da liberdade ou do país, óbvio.

Trump vê a Constituição como um obstáculo à sua pulsão ditatorial. É aqui que devemos deixar de rir e agradecer o seu gesto. Ele está a dar uma fundamental lição de política que deve ser registada, contada e explicada a todos os estudantes logo a partir dos 16 anos. Ou mesmo 12.

Revolution through evolution

Minor facial scars do not have negative affects on first impressions
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Managers exhibiting bias based on race, gender, disability and sexual orientation
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Research shows crowds hold the cards in referees’ decisions
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Dominguice

Em que idade se deixa de aprender? Aprender é distinto de acumular conhecimento. Um especialista numa coisa qualquer pode assimilar novas informações todo o santo dia, a toda a hora, e não passar por nenhum processo de aprendizagem. Vai tão-só colecionando confirmações dos preconceitos e vieses que o moldam cognitivamente. Simetricamente, um bronco pode de repente dar por si sem nada para fazer, assustando-se perante o vazio existencial, e esse momento corresponder à mais importante lição para o seu futuro. Descobre que a realidade, no fundo como à superfície, é feita de um nada túmido.

Se aprender for apenas para crianças e jovens, aprender faz-nos ser jovens e crianças.

Cristianologia

O homem já tem mais dinheiro do que aquele que será capaz de gastar. Quando arrumar as chuteiras, continuará a acumular rendimentos multimilionários com negócios actuais e futuros. Se lhe der para ser treinador, e tiver algum talento nessa função, voltará a ganhar centenas de milhões com o futebol ao longo de décadas de renovada fama mundial. Provavelmente, os recordes que obteve não serão superados neste século. Recordes obtidos contra os melhores profissionais da sua geração, não em jogos de solteiros e casados nas praias da Caparica. Por que caralho fica piurso quando é substituído estando em final de carreira?

Acontece que ele sabe o que qualquer treinador estúpido o suficiente para o substituir sem ser por lesão nunca saberá. Sabe que vale por 4 jogadores, pelo que a equipa fica invariavelmente pior sem ele. Cristiano prende os defesas contrários, mete a bola no fundo das redes, cria situações de golo para os colegas e enche o campo com uma indomável vontade de vencer. Sempre? Não, bruto, apenas quando calha — mas isso chega e sobra para o que está em causa. Ele justifica que se veja o espectáculo porque ele é espectacular mesmo quando não o é. O futebol profissional não é um trabalho produtivo, não é uma actividade de descoberta científica, não é uma expressão artística, não é um serviço público. É uma liturgia onde reina o pensamento mágico e se cobiça o êxtase.

Assim, o homem fica furibundo quando o tiram do relvado pela mais compassiva das razões: permitir que os coxos na bancada, e os toscos agarrados aos ecrãs, desfrutem de mais uns minutos em que se sonham outros.

Oposição da boa, isto sim

"Isto é um Governo trapalhão e é um Governo de trapalhadas, que não está a inspirar confiança", afirmou Luís Montenegro perante cerca de 600 militantes que participaram num jantar naquele concelho do distrito de Viana do Castelo.

Luís Montenegro lembrou que "havia um primeiro-ministro que, por acaso, é o que está hoje em funções, que há uns anos dizia, quando o acusavam de ter feito uma geringonça, que era uma geringonça, mas funcionava".

"Agora é maioria, mas reina a anarquia. É maioria, mas os ministros dizem, uns, uma coisa, outros, outra coisa. É maioria, mas o primeiro-ministro é desautorizado por membros do Governo. É maioria e são substituídos secretários de Estado que criticaram o ministro. O primeiro-ministro dizia o contrário do que dizia o ministro, o Governo decidiu, exatamente o que os secretários de Estado diziam e afinal de contas quem sai são os secretários de Estado e o ministro continua. Isto é uma confusão que ninguém percebe".


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Marcelo, é realmente muito simples

«Questionado pelos jornalistas sobre uma notícia do jornal Sol que refere que Portugal vai ser colocado na lista negra do Qatar, o chefe de Estado afirmou que "uma coisa é aquilo que é uma especulação, outra coisa é a realidade".

"A realidade é muito simples, há um relacionamento diplomático, económico, forte que veio do passado, que não impede que haja pontos de vista diversos, sobre matérias importantes".»

Fonte

Não falha, o que Marcelo acha “muito simples” está associado a uma manifestação da sua incapacidade para exercer as funções de Presidente da República. No caso, trata-se de mais um espantoso episódio de erros crassos na gestão política de uma situação que pedia sentido de Estado.

Atente-se na alucinante sequência: quis passear até ao Qatar por sua alta recreação, disse que a temática dos direitos humanos não era coisa que o impedisse de ir à bola e estar a conviver com a rapaziada, atribuiu a Sócrates e Cavaco a culpa da sua viagem, fez uma cegada no Qatar para meia dúzia de monos só para passar na TV que falou dos direitos humanos algures naquela terra, e conseguiu abrir uma crise diplomática com o Qatar que levou Santos Silva a ser o bombeiro de serviço.

Há sinais de se estar perante um problema psicológico, quiçá de saúde. O Expresso, que é um altifalante de Belém, pela primeira vez atacou Marcelo, no que parece ter sido uma encomenda de alguém na Casa Civil sem outro recurso para conter os danos. E uma novel vedeta do comentariado direitola coloca a hipótese de haver uma renúncia ao mandato. Este não é o usual ressentimento contra Marcelo da direita passista e pulha, isto são sirenes de alarme perante as evidências.

Ora, se o caso for clínico, azar. Acontece a todos. E deve-se fazer o melhor para o interesse nacional. A alternativa é o caso ser moral, o que acabaria por ser ainda mais danoso para o bem comum. A coisa, pois, é muito grave e muito simples.

Revolution through evolution

Low to moderate stress is good for you
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Gossypetin found in hibiscus may beat Alzheimer’s disease
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Witchcraft beliefs are associated with weak institutions, conformist cultures
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World Cup: It’s the winning, not the hosting, that delivers an economic boost
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Dominguice

Quem é que teria apostado numa vitória da Arábia Saudita, selecção que ocupa a 51ª posição na classificação da FIFA, contra a Argentina, 3ª selecção mundial e vinda de conquistar a Copa América no ano passado? Mas imaginemos que havia um maluco que apostava algo valioso nesse resultado impossível. E que vamos falar com ele ao intervalo, dizendo-lhe “Podes recuar na aposta. A Argentina está a ganhar, tem uma equipa cheia de vedetas que jogam nas melhores equipa internacionais, tem o Messi, e a Arábia Saudita só tem jogadores desconhecidos que jogam na Arábia Saudita, parece uma equipa de amadores. Aceitas desistir?”. Enquanto o maluco ficava pensativo, prestes a resignar-se à bondade oferecida, fazíamos nova proposta: “Que tal trocares essa aposta por outra onde a Alemanha está a ganhar ao intervalo, também por um golo marcado de grande penalidade, e no fim ganha o Japão?” Ao que o maluco, indignado, responderia “Mas vocês pensam que eu sou maluco?!”.

Não sabemos se o maluco realmente desistiu da sua aposta ao intervalo, vendo a Argentina a 45 minutos de despachar um grupo de coxos. Sabemos é que o futebol pode iluminar a essência de existir. Isso de o destino ser uma questão de sorte.

Viva Ronaldo!

Deixei de ligar ao jogador Cristiano Ronaldo em 2003, quando saiu do Sporting. Nos 18 anos seguintes apenas registei das suas façanhas o que calhava aparecer-me à frente. 18 anos em que também cortei relações afectivas com o próprio Sporting, um clube com uma maioria de sócios que considerou Bruno de Carvalho merecedor de inscrever o seu nome junto dos de João Rocha, Amado de Freitas e José Roquette, para dar exemplos da minha predilecção. Sim, a lista também regista os pícaros Jorge Gonçalves e Sousa Sintra, e uma inanidade de apelido Bettencourt, entre outras figuras de duvidoso calibre cívico e/ou profissional, mal tal só reforça o argumento relativo à repulsa pelo populista patarata.

Tudo mudou no Verão de 2021, captando o meu interesse as peripécias de Ronaldo ao sair da Juventus para assinar contrato com o Manchester City. Ao se decidir à última hora pelo regresso ao Manchester United, supostamente em resultado do apelo de Alex Ferguson que lhe disse ser uma facada no seu coração vê-lo no City, fiquei agarrado ao romantismo da situação. Pela primeira vez quis ver um jogo do MU em directo, o primeiro de todos os outros a que assisti devotamente até ao último de Ronaldo, há umas semanas, no clube onde se tornou uma estrela internacional. E esse primeiro jogo da era Ronaldo II, em vários sentidos, corresponde ao momento mais feliz do ciclo terminado há dias. A equipa viria a revelar-se uma valente merda, não tendo ganhado nenhum troféu na época passado nem conseguido entrar na Champions. Dois treinadores foram para o galheiro pelo caminho, e o terceiro conseguiu correr com Ronaldo do MU. Do êxtase ao pesadelo, uma velha história.

Para lá da contagiante paixão dos adeptos no estádio, o que mais me impressionou no seu jogo inaugural da época passada foram os relatos dos jornalistas ingleses a darem conta de que a cidade estava transfigurada pela antecipação do regresso de Ronaldo ao MU. Diziam que há muitos anos não se sentia tamanha agitação e energia nas ruas e nas gentes de Manchester a propósito de um evento desportivo, parecia uma véspera de Natal. Esse relato foi para mim a descoberta da dimensão planetária da marca Cristiano Ronaldo, fenómeno de que estava alheado pelo desprezo na minha atenção a que votava a sua carreira e o futebol em geral. Sim, o futebol profissional é completamente irrelevante quando comparado com qualquer questão de relevância social e política, todavia o futebol profissional tem evidente relevância social e política. Porque milhares de milhões de pessoas dedicam parte relevante dos seus recursos temporais e pecuniários a desfrutar dessa indústria de entretenimento e desse mecanismo identitário. É simples, é lógico.

Ronaldo tem sido uma das celebridades mais conhecidas, adoradas, invejadas e detestadas entre 8 mil milhões de seres humanos. É algo absolutamente extraordinário na sua relação com o país onde calhou nascer, culturalmente avesso aos seus traços de personalidade. Parte do romantismo do seu regresso ao Manchester United vinha do sentimento de filiação, o sonho de recomeçar donde se partiu há muito. Outra parte está ligada com a inevitabilidade do seu declínio físico, quiçá também mental. Os seus detractores apressam-se a declarar o seu funeral a cada jogo em que não marca ou em que não marque o suficiente – no fundo, ironicamente, atribuindo-lhe o superpoder de conseguir vencer sozinho quaisquer 11 adversários à sua volta. E um dia acabarão por ter toda a razão, fatalmente. Resta saber se os deuses concordam com a sua azia ou se, como eu, são agora adeptos do Ronaldo Futebol Clube. E estão dispostos a dar-lhe(-nos) mais uma ou duas épocas de sorte&glória.

A descobrir num Campeonato do Mundo das arábias.