Não há Democracia, não há República, não há Regime sem um sistema de Justiça capaz de garantir a defesa dos direitos dos cidadãos. É para salvaguardar a liberdade de cada um que nos regemos por uma Constituição, a qual é o fundamento do restante edifício legal. Então, se finalmente é unânime a consciência de que a Justiça está em crise de legitimidade e produção, daí decorre a evidência de não haver problema político maior, mais grave, mais complexo e mais urgente em Portugal do que esse.
Ironicamente, o fortuito, ou planeado, envolvimento do Primeiro-Ministro numa investigação criminal permite uma dessacralização da Justiça que é benéfica para a sua reforma ou correcção, assim saibamos aproveitar a ocasião. Por exemplo, aquilo que foi dito ser um espectáculo degradante ou caricato, o bate-boca entre o Presidente do Supremo Tribunal e o Procurador-Geral, pode também ser visto como uma inusitada sessão aberta à população do que é a normal actividade da Justiça ao seu mais alto nível. E que encontramos? Política. Ou seja, não bastam as leis para que a justiça seja feita, são precisos os agentes da mesma, os quais, porque em natureza humana iguais aos restantes cidadãos, se comportam também como subjectividades esconsas na interpretação e concretização das suas responsabilidades objectivas. Esta complexidade não deve ser vista como uma falha do sistema, a menos que se queira substituir o factor humano na elaboração e aplicação da Justiça. O domínio da Lei, no nosso interesse, terá de ser sempre, em última instância, aberto à liberdade – portanto, súbdito da ética. Só as leis se permitem ser cegas, aos juízes exigimos visão aquilina.
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